domingo, 19 de fevereiro de 2012

Vidas Amargas (East of Eden) - 1955






Vidas amargas, clássico do talentoso cineasta Elia Kazan, um dos mestres inspiradores de Martin Scorsese, é um belo e atemporal filme que reconstrói a história bíblica de Caim e Abel, o filho rejeitado e o filho amado. Adaptado do livro East of Eden, do aclamado escritor Nobel de Literatura John Steinbeck, o roteiro carrega no seu âmgo a amargura e a inadptabilidade do filho rebelde, a ovelha negra familiar, que é ignorada pelo pai e cujos esforços para se adequar ao desejo paterno parecem em vão e nada reconhecidos. O fascinante e eterno jovem transviado, o ator James Dean, no ápice de sua meteórica carreira e prematura morte, vítima de acidente automobilístico, é o filho protagonista feito sob medida para esse catártico e maduro drama familiar, facilmente aplicável a qualquer tempo e a qualquer filho que sofre em busca de aceitação dos pais. No entanto, o filme é muito mais do que somente o drama de um filho, ele é o confronto entre a rebeldia e o tradicionalismo, entre gerações de filhos e pais, entre a negação de olhar a verdade e a revelação de obscuros segredos familiares e, por fim, a jornada de amadurecimento, redenção e perdão de um jovem que se enquadra bem mais como o filho heroi autêntico, sem máscaras e convenções, do que aquele que é brilhante em (quase) tudo.







Ambientada em Salinas, Vale na região da Califórnia, no período da 1º Guerra Mundial, Vidas Amargas conta a história do rebelde Cal Trask (James Dean) que vive com seu irmão perfeito Aaron (Richard Davalos) e seu pai Adam (Raymond Massey) em um rancho. Não tiveram a convivência com a mãe que morreu quando deu à luz aos irmãos, porém logo no inicio é sabido por Cal que Kate (Jo Van Fleet) é a mãe que está viva e os abandonou por ter uma atitude menos convencional para a época e se recusar a viver em um rancho sob as redeas de um homem tradicional e sem ambição. Adam é o homem religioso e de negócios que se empenha em produzir alface e prover uma educação rígida aos filhos. Enquanto Carl é o filho problema, a narrativa reforça o contraponto dele em Aaron, que tem o temperamento brando, diplomático, de futuro e que pretende formar família ao lado da noiva Abra (Julie Harris). Logo no início da esplêndida fita, na sequência de Overture (Abertura), o expectador vivencia o clima de suspense ao apreciar a imagem do mar, das ondas batendo nas rochas, como se aquele local fosse significativo para entender as fronteiras que separam essas vidas amargas. Mais adiante, a dramática história dos Trask não está somente na tensa relação entre Cal e Adam, mas também na verdade que está oculta com relação à Kate, a mãe rebelde, fria e imponente, cujos genes Cal herdou.











Esse é um clássico essencial na filmografia de Kazan, denso e complexo em sua verve psicológica para a época, porque afloram nele o drama na sua mais genuína veia passional, além de colocar sob o elenco a responsabilidade da verossimilhança com o cotidiano e com as emoções autodestrutivas que, enfim, também surgem como dolorosas e, depois, construtivas para evocar a valiosa humanidade intríseca aos individuos. Existem vários planos arrebatadores na película que ressaltam essa forma Elia Kazan de dirigir, ou seja, de provocar o embate ao máximo para que a catarse humana seja liberada sob fúria, violência, lágrimas, dor, sem soar como piegas e forçado. Esse olhar sob a humanidade, naturalmente dual, é tão sublime em outros filmes como Uma rua chamada pecado, Sindicato dos ladrões, clamor do sexo etc, que Vidas Amargas só vem a agregar mais valor à experiência de vida que é vivenciada com os dramas do diretor. Eles revelam as emoções que não são desejáveis revelar ou permitir sentí-las. Elas refletem como um espelho na vida do espectador, um espelho cujo reflexo é difícil de encarar porque pode ser monstruoso. É possível odiar o irmão, a mãe, o pai? É possível amá-los e odiá-los ao mesmo tempo? É possível perdoar pelo abandono? É possível liberar perdão por algo que não se aceita? Sentimentos diversos, violentos e amargos, vêm à tona e o roteiro e elenco são responsáveis por uma parte significativa da magnitude e beleza desse longa como puro Cinema, no qual também é incorporado um ingrediente de guerra que é fundamental para entender porquê Cal se esforça para ajudar o seu pai e amadurecer como homem.







O elenco é muito bem desenvolvido e muito interessante no seu espectro de personalidades que, a qualquer momento, revelam quem realmente são ou não, como um mistério que pode ser o bem e o mal, ou ambos. Tudo é ao mesmo tempo nítido e passível de ser desdobrado em camadas para entender a alma humana. Jo Van Fleet, excelente atriz nesse papel, incorpora uma mulher fisicamente apavorante com o rosto marcado por uma certa malignidade, uma solidão bem resolvida, uma maternidade que nunca existiu, uma independência sem arrependimentos. Personagens como o dela provocam sentimentos dúbios e enriquecedores para reflexão pois ela abandonou os próprios filhos e o marido em troca de uma liberdade que gritava dentro de si. Também, Raymond Massey interpreta a si mesmo em cena, um homem autoritário, tradicional, religioso que, em certas cenas, demonstra sua doçura paterna assim como sua vulnerabilidade de homem abandonado. Com Massey e Dean está uma das mais dramáticas cenas de pai e filho na história do Cinema, que só confirma o quanto ele não suportava o jovem Dean na vida real. Julie Harris, em ótima atuação, exibe uma garota sonhadora, madura e nada inocente, embora a 'casca' seja de namorada amada, de nora de boa índole, de mulher para casar, há algo suspeito na jovem que parece menina mulher, ora manipuladora, ora carinhosa amiga. Ela tem uma impetuosidade dentro de si, que é liberada a medida que flerta e se envolve com o cunhado Cal. Richard Davalos também está bem como Aaron porque é pateticamente perfeito, chegando a ser o garoto que não tem voz para nada e, portanto, passaria desapercebido na película. De todos, além de Jo Van Fleet, como uma essencial coadjuvante, o protagonista de brilho é James Dean, em atuação marcante que foi indicada ao Oscar postumamente.









Dean é a expressão da 'imperfeição perfeita' pois erra e acerta em vários níveis, como o jovem que transgride qualquer regra paterna, e ainda guarda o carisma excepcional que atrai todos à sua frágil rebeldia: chora e grita pela mãe que o expulsa como a um ladrão, rouba uma calha de trem com boa intenção, beija a namorada do irmão por estar apaixonado, negocia com a mãe para ajudar o pai, enfrenta raivosamente o irmão com a verdade. As fronteiras que separam essas vidas são fragéis, mas as emoções são fortes, intensas, principalmente as que são como um pedido de socorro de Cal. Ciúme, raiva, rejeição se misturam com a esperança da aceitação e, eis que o filme é puro fascínio, expondo que o ser humano é muito mais complexo e imperfeito do que imagina ser, que o grotesco e o macabro em cada personalidade existe, mas que há a possibilidade de encontrar esse paraíso ao leste, terra de Cains regenerados, ainda que o coração tenha turbulentas emoções e amargas cicatrizes.





Avaliação MaDameLumière







Título original: East of Eden





Origem: USA
Gênero: Drama
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Paul Osborn
Elenco: James Dean, Raymond Massey, Jo Van Fleet, Julie Harris, Richard Davalos.

Um comentário:

  1. Engraçado que comentamos de James Dean e Elia Kazan recentemente, né?! Enfim, Vidas Amargas é um filme que sou louco pra ver. Como sabe, não acho o James Dean um ator fenomenal, apenas uma promessa que não teve tempo pra ser cumprida. Já o Elia, independente da sua vida política, é um mestre que merece toda atenção. Seu texto apaixonado não só me instigou a ver, como esclareceu a história, que, até agora, eu não sabia qual era!

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