sábado, 3 de dezembro de 2011

Um Dia (One Day) - 2011



Histórias de amor no Cinema comovem de diversas maneiras e por variadas razões. São como um espelho da alma romântica, como a catarse de uma intensa emoção nutrida por afeto, esperança, desejo e sofrimento, como o reflexo de anos vivenciados com um romance que deu ou não certo, que nunca será esquecido ainda que décadas cheguem e digam adeus. Cada pessoa tem uma história de amor, dramática, ou até mesmo trágica, vivida ou sonhada. Cada pessoa tem uma história de amor que é a realidade de um romance sentido em um coração que espera 'um dia' esta realização amorosa, de uma alma que simplesmente ama.





Após Educação, a diretora Lone Scherfig retorna ao Cinema com a adaptação de uma bela história de amor, do best-seller internacional One Day, de David Nicholls, que assina este roteiro. A história é contada por vinte anos, em várias etapas da vida de dois amigos, Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess), que se conheceram na faculdade e desenvolveram uma relação sincera, afetuosa e de incalculável valor, um misto de amizade diferenciada com romance não assumido, feita de momentos de proximidade e de distanciamento, de declarações carinhosas, diálogos bem humorados, espontâneas discussões e silêncios que dizem tudo e que ocultam a vontade de verbalizar sentimentos profundos. O espectador é convidado a se emocionar ao ver as imagens de cada capítulo da história de Emma e Dexter: ela, uma professora de origem modesta, garota inteligente, reservada e madura. Ele, um apresentador de TV de família abastada, garoto charmoso, imaturo e mulherengo. Assim, os opostos se atraem e levam o público a uma linda jornada de 20 anos de encontros e desencontros, com tristezas e alegrias, perdas e ganhos.







Como Cinema, Um Dia não é excepcional e deixa um pouco a desejar em relação ao livro. Isso ocorre muito em função do roteiro que prioriza o relato fragmentado de pequenos momentos em anos distintos, sem ter uma evolução narrativa que intensifica o drama de amor, de uma forma mais fluída, harmoniosa e criativa. Isso demonstra que David Nicholls é melhor como escritor do que como roteirista, porém é importante considerar que adaptações das Letras para o Cinema costumam perder um pouco deste vigor narrativo, a não ser que o casamento perfeito ocorra entre estes diferentes suportes, além do mais a história em si é distribuída em mais de uma década, o que exige mais habilidade do roteirista e, também, do olhar do diretor. Aqui, Lone Scherfig não tinha o excelente roteiro de Educação, o que deve ter substancialmente influenciado o resultado final da película, mas ainda há um toque muito pessoal na direção porque ela é boa ao dirigir estes dramas românticos vivenciados por atrizes como Carey Mulligan e Anne Hathaway, além de ter habilidade para filmar protagonistas que passam por ritos de passagens, da juventude para a vida adulta. A cineasta também tem um bom gosto na direção de arte, no figurino e em criar um universo fotográfico charmoso que conta romances em inspiradoras locações europeias como Londres e Paris. Sua Emma de Um Dia é bem diferente de sua Jenny de Educação, mas ambas tem estilo, dos modelitos ao penteados, e se transformam durante suas jornadas tanto fisicamente como emocionalmente. Ambas são mulheres apaixonadas e, sob o aspecto da direção de atores, Lone trabalha muito bem com seu elenco. Basta observar que Anne e Jim tem uma ótima química, transmitem seus dramas pessoais também como ser traído, relacionar-se com quem não se ama, ter sucesso ou fracasso na carreira etc e estão bem na atuação ainda que o sotaque de Anne não tenha se ajustado às necessidades do longa e recebido críticas. No mais, destaque especial também para os bons coadjuvantes Patricia Clarkson (Alison, mãe de Dex), Rafe Spall (Ian, namorado de Emma) e Ken Stott (Steven, pai de Dex). Para completar, Lone usa bastante o recurso da trilha sonora para marcar distintas épocas, assim como abusa do apelo emotivo do score de Rachel Portman com a belíssima canção tema We had today. Rachel sabe criar composições melodicamente dramáticas como as de Não me abandone jamais (Never let me go) e, com este score, arranca lágrimas como os livros de Nicholas Sparks.






Com relação à experiência cinematográfica, ela é muito mais como testemunhar a tocante história de Emma e Dexter, cheia de negação de amor e de postergar momentos a dois. É como folhear as páginas das memórias desta amizade e romance, como criar um processo de identificação com este drama. Quem já amou alguém e permaneceu em silêncio ao lado dele(a), esperou-o(a) por um longo período, vendo-o(a) casar e ter filhos, ou se afastar por anos, certamente se identificará com Um Dia. Sem dúvidas, este é um filme para os românticos sofredores, que já amaram ou amam uma pessoa próxima e muito especial , tardaram a tê-la ou nunca a tiveram em seus braços. Além do mais, o humor peculiar das boas falas de Emma e a química do casal protagonista que, está longe e próximo ao mesmo tempo, criam uma empatia com o filme e garante a sessão. Muito do valor desta narrativa está em emocionar pela espera e pela (im)possibilidade de concretização de uma relação afetiva durante anos, assim, ao evocar a história de amigos que se gostam mas que demoram a se envolver amorosamente, Um Dia cria uma conexão de um amor que não é só físico, mas está presente nesta conexão espiritual de um sentimento amoroso e esperançoso que tudo suporta. Para que essa conexão seja verossímil, a construção das personagens é bem pertinente porque Emma é a que tem muito mais noção do seu amor por Dexter. Ela é o porto seguro dele e tem que ser forte ao lidar com este sentimento intenso, de altos e baixos, de fugas contraditórias, por isso a emblemática frase "Eu te amo, mas não gosto mais de você". Enquanto ele é o mais vulnerável psicologicamente, com uma mãe que está doente e um pai com o qual tem uma relação conflituosa, além de ser o homem que tem uma fase regada a mulheres, bebidas, drogas, fracasso na carreira e no casamento.







O filme é muito bonito ao mostrar ao público que o amor aflora de momentos muito simples, únicos e memoráveis. Ele acontece de forma inesperada e se aperfeiçoa no afeto incondicional, de amar sem necessariamente esperar do outro um amor carnal, imediatista. Ele evoca esta história de amor atemporal e perfeita por ser imperfeita; uma história de longos silêncios e esperas, de afirmações e negações, de múltiplas reticências até a chance de vivê-lo intensamente ao menos um dia, ou outros mais, assim como perdê-lo repentinamente. É uma película na qual o amor leva tempo para amadurecer, para ser confessado, para ser vivenciado. Ele vive no coração dos amantes na esperança de Um Dia ser plenamente encontrado e celebrado.


Avaliação MaDame Lumière






9 comentários:

  1. Em uma primeira impressão, criei altas expectativas com "Um Dia". Ao assistir o trailer no cinema, perdi toda minha fé. Resgato-a através de críticas como a sua, que revelam que pode ser um filme singelo e romântico. Pretendo conferir o mais breve possível. Se puder, leia a crítica de Gabriela Brahim no Lumi7: http://www.lumi7.com.br/2011/12/um-dia.html

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  2. Todo mundo vem ciriticando o roteiro e sua narrativa. Uma pena já que eu acreditava que o filme até poderia ser aquele típico filme que poderia arrebatar algo em alguns festivais. No mais, eu ainda estou curioso para conferir =D

    Bjs!

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  3. Madame...Saudades!
    Confesso que este não era um dos meus mais esperados, mas pretendo conferi-lo no cinema! Virei fã de Hathaway ao assistir Amor e Outras Drogas, por mais que o filme seja clichê ela estava muito sedutora!! rsrs
    Nem Educação não assisti ainda, que pecado, mas nas férias tirarei um tempo pra conferir!
    Bejoooooos

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  4. A crítica recebeu este filme de uma forma péssima, mas eu confio mais na sua opinião! Temos gostos parecidos em relação à cinema e espero gostar e me emocionar tanto com este filme quanto você.

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  5. Oi Júlio, obrigada pela visita!
    O filme é mediano como Cinema, mas é um filme romântico, impregnado de negações e espera, não há como uma alma romântica não se identificar com ele. abs

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  6. Alan,
    Eu pensei que o filme teria um romance mais estilo Submarino ou 500 dias com ela, ou até mesmo aquela atmosfera mais Britânica de filmes como Quatro casamentos e um funeral, porém está longe de tê-lo.

    Ainda assim, é um filme triste, que comove e acho que essa foi a intenção, pois usa-se muito a trilha sonora, como para fazer chorar.

    bj

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  7. Eri, meu querido, muitas saudades de você! Gosto muito de você!

    Vá de Educação pois em Um dia a Lone Scherfig nem tinha como consertar esta narrativa. O roteiro não ajudou!

    De alguma forma, você se emocionará com os dois, de diferentes formas. Educação fala do rito de passagem, do amor e sua desilusão, da decepção como forma de amadurecer afetivamente.

    Já Um Dia, é um filme que trabalha mais a questão da espera e, quando ela termina, nem sempre tudo é vivido como tanto se esperou. Uma pena! Amar é um ato doloroso!

    Bjs e bjs,

    MaDAme

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  8. Kamila,
    Obrigada por confiar na minha opinião. É uma honra vindo de você!

    Eu acho que você vai se emocionar, afinal, o filme fala de amor e, quando o cinema emociona de verdade, aspectos técnicos se tornam menores diante da grandiosidade de uma emoção.

    bj

    MaDame

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  9. Não li a obra, mas achei o filme tecnicamente lindo e com boas atuações.

    Mas infelizmente o filme percorre um trajeto previsível demais, com um desfecho clássico de filmes de romance. Esperava mais.

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