domingo, 11 de dezembro de 2011

Cine Família: Meu País (2010)


A estreia de André Ristum na direção de seu longa metragem Meu País é marcada por variados pontos positivos: drama afetuoso de sensibilidade ímpar, um elenco bem selecionado e em sintonia, direção bem orquestrada com o roteiro, realista fotografia de bela textura e granulação, que inspira como imagens de um álbum de família e é assinada pelo "Alemão" (Hélcio Nagamine) e produção assinada pelos experientes e influentes Irmãos Gullane. A história é um lindo, poético e emocionante drama familiar baseado no reencontro de três irmãos separados pelas circunstâncias e escolhas da vida.




Após a morte do pai Armando (Paulo José), vitimado por um derrame fatal, Marcos (Rodrigo Santoro) retorna ao Brasil com a esposa (Anita Capriol) após morar há anos na Europa. Executivo com um comportamento distante das ideias de formação de uma nova família, Marcos é o típico modelo de homem bem sucedido na contemporaneidade: bonito, endinheirado, maduro, sofisticado, focado no trabalho e nos negócios e de cultura e experiência europeias. Seu irmão Tiago (Cauã Reymond) é o seu antagonismo, a 'ovelha negra da família', o ' garoto problema'. Permaneceu morando com o pai, que sustentou seus gastos. Adepto de baladas, drogas, álcool, mulheres, jogo, malhação, Tiago é o jovem mimado, imaturo, irresponsável e endividado que não está interessado em gerenciar nem o próprio patrimônio, somente a gastá-lo com seus excessos. Com a morte de Armando, uma revelação vem à tona: a existência de uma irmã, Manuela (Débora Falabella), que tem idade mental menor que a idade genética de 24 anos, e está internada em uma casa de repouso psiquiátrica. O desafio dos irmãos será formar e manter esta nova configuração familiar, aceitando uns aos outros e, com amor, trazer Manuela à convivência com eles.





Meu país é um filme tocante sobre a volta às origens do seio familiar, ao reencontro físico e afetivo de irmãos; logo a volta de Marcos não é somente ao Brasil, mas o retorno ao que é essencial e necessário para a continuidade deste lar: a família que eles tem que representar após a morte do pai, uma família que precisa simplesmente ser uma família, transformar a dor em afeto. Muito da beleza do filme está em seu realismo dramático, das discussões aos desabafos, passando pelos silêncios e olhares e também pelas diferenças. O antagonismo de personalidades e estilos de vida dos dois irmãos reforça isso, mas não é somente ele que dá o tom do drama pois cada personagem tem o sua problemática pessoal. Marcos é pressionado a voltar à Itália, primeiro pela empresa, depois pela esposa, além de viver o dilema de ter que cuidar da irmã que é rejeitada por Tiago e não tem mais ninguém que a ajude. Se ela ficar na clínica psiquiátrica, ela regredirá em sua condição mental. A esposa de Marcos tem um casamento amoroso, com um bom marido. É prestativa e dedicada, mas como nem tudo é perfeito, não há espaço para diálogos sobre a possibilidade de ter um filho, um projeto que é um sonho dela, mas não o dele. Tiago é um azarado jogador, cujo vício coloca sua própria vida em risco, interpretado de forma muito crível por Cauã. Manuela vem a unir esta família, a desconstruir para reconstruir suas vidas e, conta com a excelente interpretação de Débora Falabella.






O elenco tem sua força motriz em Rodrigo Santoro, que está excelente como o protagonista, o irmão mais velho, o irmão líder. Seu papel exige controle emocional com as novas situações que surgem após a morte de Armando, além de ser um dos que tem mais que abrir mão da própria vida, tendo que lidar com a pressão para voltar aos negócios, ver seu casamento em risco, gerenciar as dívidas familiares e ser a coluna de seus irmãos para que eles não se afundem de vez. Marcos é um personagem muito interessante e bem construído do ponto de vista de drama familiar porque ele é como um sucessor paterno, é o que mais tem maturidade e responsabilidade para assumir o controle dos negócios e da família e é o filho que estava mais distante da convivência com Armando, de alguma forma, ele alcança a sua redenção como filho que retorna ao lar. Ele saí de uma esfera mais individualista, em sintonia com o que o mundo moderno exige das pessoas, para uma esfera de olhar os outros irmãos, abdicando de si próprio em algumas situações; por isso, Meu país é um filme belíssimo para uma reflexão do individuo no ambiente familiar. É um longa que mostra uma encruzilhada dramática na vida dos irmãos que podem prosseguir sozinhos ou unidos e tem que lidar com as profundas e dolorosas emoções após a perda de um pai, tendo que recuperar este amor da infância ou recém descoberto pois são como estranhos com o mesmo sangue.




É impossível não se emocionar com esta comovente história, principalmente com tantos problemas de relacionamento, de falta de aceitação, amor e união que surgem nas desestruturadas famílias atuais. Meu país é um filme sobre afeto que faz valer sua divulgação: É uma emocionante jornada de reencontro, e com ela, um novo encontro com nós mesmos.



Avaliação MaDame Lumière








Título: Meu País
País/Ano: Brasil (2010)
Direção: André Ristum
Roteiro: Andre Ristum, Octavio Scopellitti, Marco Dutra
Elenco: Rodrigo Santoro, Cauã Raymond, Débora Falabella, Anita Capriol, Paulo José, Eduardo Semerjian, Nicola Siri, Luciano Chirolli, Stephanie de Jongh.

4 comentários:

  1. Esse filme irá passar no Festival de Cinema de Natal, mas eu irei perder, infelizmente. Tô sem qualquer tempo de ir ao cinema neste final de ano... :(

    ResponderExcluir
  2. Antes de tecer qualquer comentário sobre o filme, tenho que tirar o chapéu para o visual do Blog, é simplesmente lindo, a harmonia entre as cores é fantástica, o que lhe dá uma ar ao mesmo tempo sofisticado e retrô...

    Quanto ao filme, esta é a segunda resenha que leio dele, estou muito curioso para assistir principalmente pela temática que ele explora, é realmente bom comprovar mais uma vez que o cinema nacional não se restringe às fórmulas gastas, que já estão mais que saturadas... A pena é que a distribuição continua sendo o grande problema do nosso cinema, com isso sei que não será tão conseguir assisti-lo...
    .
    http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2011/12/minha-historia-de-leitura-qual-sua.html

    ResponderExcluir
  3. Kamila,
    Sei que a correria não é facil, mas quando puder, assista a este filme. Tenho certeza que se emocionará.
    abs

    ResponderExcluir
  4. Olá J. Bruno,

    Obrigada pelo elogio. Para mim é um prazer oferecer um espaço blogueiro de cinema que agrade aos meus colegas leitores e cinéfilos, afinal somos uma grande família cinéfila. Amo muito o meu blog, é um cantinho super especial, que faço o que for possível para deixá-lo agradável e com a cara da MaDame, rs... adoro este efeito retrô, rs!

    Sobre meu país, você está certíssimo! É um filme que vale a pena ser visto. Somente lamento que a distribuição foi pouca, como acontece no Brasil, realmente a distribuição tem que melhorar bastante para contribuir com o crescimento do nosso cinema e a visibilidade de trabalhos como este para outros públicos.

    Abs,

    MaDame

    ResponderExcluir

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière