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Foto: Acervo MaDame Lumière. Première do filme em São Paulo. Filme marca o retorno de Hector Babenco à direção para contar sua ex...



Foto: Acervo MaDame Lumière. Première do filme em São Paulo.


Filme marca o retorno de Hector Babenco à direção para contar sua experiência durante tratamento de câncer



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Reconhecido como um experiente cineasta e diretor de teatro, com destaque para filmes importantes no país como "Pixote: a lei do mais fraco" , " O beijo da mulher aranha" e "Carandiru", é inegável que Hector Babenco tem credenciais  para entregar bons trabalhos. Em seu mais recente filme, "Meu amigo Hindu", em cartaz nos cinemas, ele assina o roteiro e entra em uma seara mais intimista de sua biografia: a descoberta de um câncer linfático em 1990 e a posterior ida aos Estados Unidos para a realização de um transplante de medula. 


Na história, Diego (Willem Dafoe) é o cineasta que é casado com Livia (Maria Fernando Cândido), uma mulher que claramente o ama e está para o que der e vier. A doença é revelada e a necessidade emergencial de um transplante faz com que ele saia do país acompanhado por sua esposa. Durante o tratamento quimioterápico, Diego conhece uma criança hindu e tornam-se amigos. Nesta luta pela vida, ele levou oito anos para a recuperação e o longa mostra alguns recortes biográficos de altos e baixos desta jornada como a amizade entre ele e o menino, o casamento e a separação, os problemas familiares e a relação com a morte.






Com  Selton Mello (a morte), Reynaldo Gianechinni( o médico), Guilherme Webber (o irmão), Barbara Paz ( a amante) entre outros, logo nos primeiros planos, o filme apresenta ao público vários atores brasileiros, a maioria figurante, sem muita função dramatúrgica e que apenas representam os amigos de Diego. Todos falam em inglês, aliás, uma decisão obrigatória porque somente assim Willem Dafoe poderia participar como personagem principal. 

Com este cenário, o início do longa é sofrível e um tanto cômico pois já mostra a classe média alta endinheirada totalmente figurante e  insignificante a dar risadas que não têm a menor graça, bebendo e comendo na festa de um amigo que está com câncer e sem agregar nenhum valor ao longa. Em nenhum momento, há uma honesta conexão afetuosa entre eles, desta forma, por alguns minutos é impossível não se perguntar: o que todos estes atores estão fazendo no filme? Será que era realmente necessário? Além disso, por mais que os atores brasileiros se esforçaram para falar inglês, o idioma não soou natural para perpetuar-se em toda a projeção, então a interpretação realista em si é ligeiramente afetada por causa da língua. Salvo Selton Mello, que tem a melhor participação do longa ao lado de Dafoe e também o melhor inglês nos diálogos, todas as outras falas soam artificiais e tendem a sobrecarregar a experiência linguística com o filme.




                               Foto: Acervo MaDame Lumière. Première do filme em São Paulo.



Sem dúvidas, o longa tem várias irregularidades e somente atrai atenção após a ida de Diego aos Estados Unidos. A partir daí, a narrativa começa a apresentar a excelente atuação de Willem Dafoe, que demonstra à flor da pele o sofrimento imposto pelo câncer. Ele é bem apoiado por sua aparência física magra e frágil e sua experiência com histórias mais dolorosas. Ainda que isolado em seu papel, é exatamente o ator que salva  o pouco de positivo que o filme tem. Então, o longa é ruim? Não exatamente. 



O que acontece em "Meu amigo Hindu" é uma miscelânea de momentos bons e outros não tão bons em termos narrativos, como por exemplo, um dos pontos positivos é a tentativa de Babenco ser o mais espontâneo possível ao relatar sua experiência sem se importar muito com a impecabilidade de um drama acima da média ou "fazer média" para falar o que pensa e sente; desde deixar evidente seus problemas com a família, a decadência com o casamento, os efeitos colaterais da doença, a solidão, a falta de sexo,  os delírios com a morte e o medo, à sua maneira, ele leva tudo isso ao público. 






Por outro lado, o ponto negativo mais evidente é que a execução acompanhou a fragilidade do roteiro. Ele não aprofunda a relação de amizade que dá título ao filme e existia espaço para isso, assim, a espontaneidade de falar com o público não se converte na mimetização de emoções genuínas em grande parte do filme. No mais, o texto não é bom, não estabelece conexão emocional e nem desperta interesse pelo que virá nas próximas cenas, logo, a história deve ser encarada como fragmentos biográficos. Diante disso , é como se tivesse havido um desperdício da história a ser contada , principalmente na relação de amizade  do adulto com a criança e o quanto isso poderia ter sido cativante, acolhedor, lúdico e libertador. Deve ser lembrado que, por mais que falar sobre  câncer é sensível, intimista, delicado e previsivelmente emotivo, a execução do filme pode impactar negativa ou positivamente nesta conexão  entre o contador de história e o público com relação ao tema. É possível ter empatia pela história, mas não necessariamente pela forma como o filme foi roteirizado e executado.

Com isso, "Meu amigo Hindu" tem suas faltas, mas também tem seus momentos sublimes como o desfecho de inspiração metalinguística e que é bem intepretado por Barbara Paz, bastante talentosa pelo seu background no teatro e na dança.  Assim, no geral, ele tem que ser disfrutado como uma experiência de fronteira  entre a vida e  a morte, uma linha tênue entre a realidade e os devaneios, e como também é desafiador voltar a viver após um tratamento invasivo como uma quimioterapia, como é difícil recomeçar. Apenas desta forma, o filme pode ser melhor compreendido no que ele tem de melhor e de pior. 



Ficha técnica do filme IMDB Meu Amigo Hindu





Por Cristiane Costa , Owner, Editora e Crítica de Cinema  MaDame Lumière  e Especialista em Comunicação Empresarial  Na caótica...




Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 





Na caótica vida contemporânea de tempos líquidos nas frágeis relações interpessoais, "Sabor da Vida" (AN) é um filme que recupera e valoriza coisas muito importantes na existência humana: a amizade que nasce da solidão e da aceitação, o convívio que amadurece após uma segunda chance, a esperança, a resiliência e o resgate da alegria,  a empatia com o outro, com o que ele é  e como vive. 





Kirin Kiki : uma atriz espetacular. 
Simpatia, cordialidade e experiência à flor da pele. Única em cena!



Assim, o novo longa-metragem da cineasta Naomi Kawase (de "O segredo das águas") é uma sublime ode sobre o ciclo da vida. Do nascimento, da maturidade e do perecimento que mudam como a estação das cerejeiras, que são tão representativas na cultura japonesa e lembram a morte, mas também a capacidade de renovação, de recomeçar novas jornadas. Através da amizade que floresce de três almas solitárias, especialmente entre a delicada senhora Tokue (Kirin Kiki) e o desesperançado padeiro Sentaro (Masatoshi Nagase), o público é apresentado a um dos filmes mais belos lançados em 2015.





A diretora Naomi Kawase: Super sensível em todos os aspectos da cinematografia. 

"Cinema é a forma em que construímos a realidade com o que é visível, mas, ao mesmo tempo, eu acredito que o cinema possa igualmente criar a presença do que é invisível na vida e apresentá-lo para nós, como platéia."



A história apresenta Sentaro como gerente de uma pequena padaria que vende Dorayakis, uma popular panqueca japonesa que é servida com recheio de pasta de feijão vermelho doce (AN). Com um passado misterioso que o leva a trabalhar incansavelmente, e contaminado por um comportamento de contínuo desânimo com os negócios, Sentaro não consegue fazer bons Dorayakis. Certo dia, conhece uma simpática e dócil senhora, Tokue, que se oferece para trabalhar com ele e lhe apresenta os prazeres de cozinhar um verdadeiro AN. Muito além da magia da culinária, a amizade toma rumos de uma incrível compreensão do outro e de que como, a todo o instante, serão desafiados pelos fantasmas do passado e a complexa natureza, intolerância e pressão da sociedade atual. 





Dorayakis: delícia no sabor, delicadeza no preparo.
 Filme sensorial em variados sentidos




Vencedor da Mostra internacional de Cinema de São Paulo (2015) como o mais votado pelo público, "Sabor da Vida" tem a beleza da natureza humana em toda a sua perfeição e sua imperfeição. Resulta em uma narrativa na qual a cineasta explora os aspectos sensoriais das diferentes estações do ano das cerejeiras, do cuidadoso preparo do Dorayaki como um ritual cultural da gastronomia Japonesa, das emoções genuínas que são expressas através da vontade de viver, do talento e da experiência de Tokue e como ela energiza bem os que a conhecem, do clima amistoso e da confiança que, pouco a pouco, são fortalecidos na amizade entre ela, Sentaro e a jovem garota Wakana (Kyara Uchida, neta de Kirin na vida real), da exemplar capacidade de diferentes gerações conviverem unidas e capazes de trocar experiências e confidências. 




Masatoshi Nagase: excelente ator como Sentaro, o personagem com o maior arco dramático e que reflete o poder de transformação individual.

"Às vezes um silêncio impenetrável nos engole. E, no entanto, a alegria resultante do compromisso e conexão com o mundo nos permite apreciar melhor suas mudanças e evolução" [Naomi Kawase]



Mas, apesar dos preciosos momentos de coração aberto ao outro existentes fortemente aqui, a narrativa carrega a dor de que a vida também rouba o tempo de cada um, de que as injustiças, preconceitos e pesares estão aí em uma sociedade cada vez mais mecânica e negligente com as boas relações e sentimentos. Dessa forma,  o longa é feito de sutilezas que guardam em si um poderoso desafio: como lidar com os obstáculos da vida? Como manter esta energia positiva de doar-se com amor e dedicação ao outro ou a uma atividade como fazer uma deliciosa comida? Tokue é a heroína da história e da vida. Ela é uma inspiração para qualquer um que deseja desistir, que está cansado de ser rejeitado, que está vulnerável e sofre com a solidão e o desespero.  


Nesse ponto, o roteiro, baseado na obra "An" (2013) de Durian Sukegawa, tem um aspecto maravilhoso para a sensibilidade da história e a importância da personagem Tokue: Os dorayakis são feitos com muito afeto e caem no gosto das pessoas. Os negócios crescem. Tokue é o sabor da vida em pessoa e ela é responsável por esse boom comercial.  Ironicamente, eles são feitos por uma senhora que tem uma doença que causa repulsa na sociedade japonesa, a lepra, que lhe trouxe perdas de dedos.  Conciliar a culinária com uma pessoa que, aos olhos da sociedade, não deveria cozinhar e vender Dorayakis para o público é um belíssimo acerto da história e conecta a plateia a uma realidade social: existe o National Tama Zenshoen na periferia de Tóquio, voltado para pacientes e ex-pacientes de Lepra e são pacientes que foram isolados da sociedade. Sim, a vida também é vilã e tem seus sabores amargos, inclusive os que afastam pessoas que precisam de apoio.






"neste filme, podemos ver o personagem principal, Tokue, sendo "roubada" da maior parte de sua vida, mas, ao mesmo tempo, ela também tinha aprendido um monte de coisas em função da situação vivida por ela"
(Naomi Kawase, sobre Tokue) 




Em diferentes momentos, o público verá que existe muita tristeza na vida de Tokue. Ela é uma velha senhora, sem família e com uma doença incurável, além de ser vista pela sociedade como uma prisioneira da lepra e, portanto, tem que permanecer oculta e distante do convívio social. Entretanto, a sua liberdade é a sua força de vontade, o seu dom para a superação. Essa maravilhosa virtude de Tokue é o que faz com que ela seja inesquecível e transforme a vida de Sentaro e Wakana. Seu jeito dócil e suas atitudes sábias são aquelas que energizam Sentaro a uma nova postura e, certamente, este é  um dos pontos mais fantásticos do roteiro. Criar esse elo de amizade que se converte em transformação individual e que sirva de inspiração para a mudança coletiva . O que é  a vida, afinal? Qual é a nossa missão aqui? Qual é o sabor que damos ao nosso cotidiano? Como as pessoas experimentam esses sabores que lhe servimos? É um sabor amargo? É doce? É picante? É agridoce? É feito e encorpado com um toque de doçura e de afeto? De boas experiências e de entrega afetiva incondicional?  


Apenas uma senhora tão bela como Tokue poderia nos deixar um delicioso "Sabor da Vida". É uma mulher para permanecer na memória do Cinema, na memória dos nossos corações. Gratidão a ela.






Ficha técnica do filme ImdB Sabor da Vida
Distribuição : Califórnia Filmes
Lançamento nacional : 03 de Dezembro de 2015
Fotos e trechos da entrevista: uma cortesia Califórnia Filmes.








Por Cristiane Costa  Mistress America é uma das grandes estreias do ano nos Cinemas Brasileiros e é resultado de uma coprodução...





Por Cristiane Costa 



Mistress America é uma das grandes estreias do ano nos Cinemas Brasileiros e é resultado de uma coprodução Americana e Brasileira realizada entre Noah Baumbach e Greta Gerwig (de "Frances Ha") e a RT Features dirigida por Rodrigo Teixeira. Exibido durante a Mostra internacional de Cinema de São Paulo e lançado em 19 de Novembro em 14 cidades do país, o longa é um projeto cinematográfico bastante Brasileiro. Novamente a RT Features, que trabalhou em Love 3 D de Gaspar Nóe, revigora as parcerias internacionais, o que é bem positivo para a visibilidade dos negócios audiovisuais do país no cenário mundial. Com première em Sundance, Meca do Cinema Indie, a recepção positiva ao longa não poderia ser diferente: da aflorada e verborrágica atuação de Gerwig ao estilo de Noah baumbach de trazer personagens que, em algum ponto de colisão entre seu ego e a realidade contemporânea,  são espelhos de nossa humanidade, Mistress America tem brilho próprio e é imperdível.






Com roteiro de Noah Baumbach e Greta Gerwig, também parceiros na vida afetiva, o longa conta o começo da amizade entre Brooke (Gerwig) e Tracy  (Lola Kirke), duas jovens que estão às vésperas de ser irmãs. O pai de Brooke e a mãe de Tracy estão juntos e pretendem unir as alianças em breve. Com perfis e idades bem diferentes, ambas encontram companhia e confiança uma na outra. Tracy é uma introvertida e solitária garota e não está adaptada a uma cidade cosmopolita como Nova York. Vê na futura irmã uma amiga com mente visionária e  criativa e estilo de vida sedutor, além de uma inspiração feminina para sua escrita. Brooke mora sozinha e, entre inovadoras ideias e um senso de viver intensa e vigorosamente, ela compartilha parte de seus projetos e criatividade com Tracy. Como nem tudo é perfeito nas relações interpessoais,  há momentos de crise que, em uma comédia dramática, tornam-se catárticos e reconfortantes. Ninguém está sozinho nas neuras, equívocos e fracassos e isso é realmente um alívio quando se trata do Cinema de Baumbach.







Mistress America tem uma energia que irradia na telona. É cool, despojado, espontâneo. Estas virtudes fazem a diferença na experiência com uma narrativa bem simples mas que possibilita desdobramentos reflexivos profundos. E de onde vem tanto vigor? Do talento de Gerwig, que se destaca como um excelente atriz com habilidades de comédia screwball. Pensamentos criativos e borbulhantes, fala rápida, ágil e precisa presença física em cena e variados gestos articulados com a ação e as emoções marcam sua personagem. Gerwig é a alma da história e dificilmente outra atriz conseguiria fazer este papel com tanta naturalidade.  






Mas, Gerwig não brilha sozinha. A relação entre Tracy e Brooke é marcada por uma busca de identidade. Lola Kirke complementa com luz própria e coesão narrativa o que vem a ser o ótimo clímax da história e onde tudo faz sentido. É agradável ver como elas se aproximam em um misto de descoberta familiar, companheirismo, confiança e bom humor.  A delícia da história é exatamente essa descoberta contínua onde as fichas vão caindo, onde uma é necessária a outra para que a história transmita a mensagem que importa.  Tracy é jovem, inexperiente e insegura, porém tem um grande potencial como escritora. Brooke é aquela mulher com espírito jovem que está na fase de maturidade dos 30, 35 anos e que, segundo as cobranças sociais, já deveria estar com a vida bem resolvida. Neste aspecto, o mais incrível no roteiro é perceber que, não importa a idade, sempre estamos formando nossa identidade, construindo os nossos projetos e reelaborando novas estratégias. Às vezes enganamos a nós mesmos, outras vezes chegamos a um ponto de revelação de nossa essência e do que efetivamente queremos ou não na vida. Este é o barato de viver!






Muitas mulheres se identificarão com Brooke. É uma personagem incrível e uma mulher totalmente contemporânea.  Também, ela é uma personagem bem universal, assim o público em geral potencialmente  criará um elo emocional com ela. É o tipo de heroína imperfeita, agitada, confusa, com várias ideias e que falhou em várias tentativas, entretanto, não perdeu a ternura, a força de vontade e nem o desejo de que as coisas sejam bem concretizadas. Encarna graciosamente o efeito sabotagem que é intrínseco ao ser humano e que surge de uma hora para outra. Por trás de sua vida cool em Nova York, há aparências, solidão e incompletude.  As grandes cidades costumam ser assim. Abrigam diversas pessoas estilosas, inteligentes e donas de si que, na essência, guardam sentimentos de fracasso e insatisfação. Entretanto, pouco demonstram. Preferem jogar as frustrações para um canto escuro do coração, trancá-las e jogar a chave fora. Vivem crises de negação e são tão versáteis que conseguem sorrir com facilidade.  Brooke é dócil e vivaz mas ela se encaixa perfeitamente bem no caos moderno. Pessoas que não sabem bem o que são e nunca é tarde para descobrir.


Assim, este lançamento é moderníssimo e supera o último filme de Baumbach, "Enquanto somos jovens" cujo roteiro teve altos e baixos. Mistress America é uma comédia refrescante, leve, que embala um sentimento bom quando o sorriso de Gerwig ilumina a tela. Ela é bonita, tem carisma, bom humor e estilo próprio. Eleva o astral do ambiente às alturas.  Isso é um diferencial de alto nível quando há sinergia entre o argumento, a direção e a protagonista. Brooke é aquela heroína moderna em um mundo caótico, principalmente na América, na qual as pessoas já nascem para ser competitivas, bem sucedidas e endinheiradas, mas que, após anos de tentativas frustradas, elas descobrem que precisam desacelerar e olhar para dentro de si, mesmo que sejam imperfeitas demais, existe uma perfeição em ser imperfeito.




Distribuição: Vitrine Filmes


MaDame te mostra a  Mostra internacional de Cinema  Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo Acompanhe! ...

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Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
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Por Cristiane Costa


Camino a la paz foi um dos filmes mais agradáveis da 89ª Mostra internacional de Cinema de São Paulo por reunir três atrativos: tem um roteiro de road movie combinado com comédia dramática, tem a beleza e a qualidade audiovisual das histórias transformadoras e bem humoradas do Cinema Argentino e tem Rodrigo de la Serna e Ernesto Suarez como uma dupla que faz uma viagem incrível juntos, uma bela jornada de aceitação, tolerância e paz. O longa foi tão bem recebido que ficou entre os 14 mais bem votados pelo público na categoria de filmes de novos diretores e está concorrendo às premiações do Troféu Bandeira Paulista.


Ambientada em Buenos Aires como ponto de partida, o longa conta a  história de Sebastián (La Serna), um homem de 35 anos, fã da banda Vox Drei e louco pelo seu carro Peugeot 505. Desempregado e recém casado, ele é aquele tipo de pessoa que está na encruzilhada da vida madura. Não tem grandes posses, não tem estabilidade e dinheiro para aumentar a família e nem maiores projetos. Por causa da falta de grana, Sebastián começa a trabalhar como motorista particular. Certo dia, ele conhece o cliente Jalil (Suarez), um senhor muçulmano que tem vários problemas de saúde.  Jalil faz uma proposta ao motorista: levá-lo de Buenos Aires a La Paz na Bolívia. Como o valor monetário é significativo e ajudará nas despesas, Sebastián aceita fazer a viagem.





Parte dos recortes da história é inspirada em fatos reais em uma época na qual a Argentina estava em grave crise financeira e um dos amigos do diretor Francisco Varone começou a trabalhar como motorista pois precisava muito de dinheiro. Varone, que também assina o roteiro, usou esse recorte e reuniu a ele uma experiência pessoal na qual conheceu a cultura e religião muçulmanas, não como praticante, mas como participante de determinada situação de socialização com pessoas que seguem a religião. Essas experiências colaboram para unir o útil ao agradável pois, independente dos rituais religiosos que foram filmados, o roteiro foi escrito como uma jornada de aproximação de duas pessoas de gerações e valores diferentes e, principalmente, de mudança pessoal, assim, o título "Camino a la Paz" tem duplo sentido, o geográfico e o metafórico: La paz na Bolívia, e Paz no sentido de encontrar a si mesmo e estar em paz.





Tecnicamente, o longa é uma joia recém revelada do Cinema Argentino. O jovem diretor coloca em prática seu gosto e estilo e usa cores mais frias na fotografia, com uma palheta terrosa que combina com as paisagens e o sentido físico de uma viagem, o de cair na estrada e percorrer terras  conhecidas e desconhecidas, além do mais Varone seleciona muito bem as locações e capricha na bela fotografia das estradas e paradas, incluindo personagens coadjuvantes variados e até lindos cachorros, o que dá uma sensação de viagem real, genuinamente bem vivenciada, na qual as relações interpessoais importam mais do que o dinheiro.



É um filme bonito e alto astral, em especial porque La Serna é um ótimo ator cômico e o seu texto carrega a ironia e a autenticidade dos porteños. Seu personagem faz caras engraçadas e a língua é afiada, entretanto, o mais cativante é a maneira como Sebastián e Jalil vão cedendo as diferenças e a amizade desenvolve um valor acima do contrato monetário de uma viagem. Com uma viagem inspiracional como essa, qualquer um se sentirá energizado a ter uma experiência pessoal restauradora.  





Ficha técnica do filme ImdB Camino a la paz






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Por Cristiane Costa


Desde Allá (From far) é o primeiro longa-metragem do diretor  Lorenzo Vigas  em uma bem sucedida coprodução México e Venezuela que envolve produtores e cineastas influentes nas produções cinematográficas deste eixo, entre eles Guillermo Arriaga ("Amores Brutos", "21 gramas"), Rodolfo Cova, Michel Franco ("Depois de Lucía" e "Chronic"). À frente da produção executiva estão Édgar Ramirez ("Carlos") e  Gabriel Ripstein. Esse último realizou seu debut com "600 milles"  que venceu o "Best first Feature awards" no Festival de Berlim 2015 além de ser o representante do México para concorrer a uma das vagas da categoria de melhor filme estrangeiro - Oscar 2016. Para completar a competente equipe, reuniram-se ao projeto um dos diretores de fotografia mais solicitados no Cinema Latino Americano: Sergio Armstrong, que realizou excelentes trabalhos com o diretor chileno Pablo Larraín, entre os quais "No" e o mais recente "El Club", um ator incrível como Alfredo Castro ("El Club") e o jovem revelação Luis Silva.




Alfredo Castro, Lorenzo Vigas e Luis Silva : 
parceria que deu certo e um Leão de Ouro



A estreia de Vigas começou em grande estilo. O filme ganhou o  Leão de Ouro no Festival de Veneza com méritos. Trata-se de um projeto cinematográfico que mostra uma história contundente , uma direção segura e dois protagonistas que criam uma forte tensão sexual e dramática. Armando (Castro) é um micro empresário que trabalha com próteses dentárias. Tem cerca de 50 anos, nunca se casou e nem tem filhos, logo, tem grana suficiente para arcar com um desejo específico: abordar garotos da periferia da Venezuela, pertencentes a gangues e bem pobres, e pedir-lhes para ficar nus mediante oferta  de uma boa quantia de dinheiro. De forma muito facilitada, os jovens acabam aceitando o convite por mero interesse financeiro. Armando não os toca. Gosta de observar e se masturbar. Até que um dia ele encontra Elder (Luis Silva), jovem agressivo e difícil de ser influenciado. Ao invés de se distanciar de vez, Armando fica mais obsessivo pelo rapaz. A relação entre eles se desenvolve entre a atração e a repulsa, entre interesses e afeto. Cada um, a seu modo, exerce um intenso poder sobre o outro.






A riqueza do roteiro está no arco dramático dos personagens por conta da transformação do relacionamento. De estranhos passam a um nível de intimidade inesperada, porém, a todo o momento é uma amizade que tem uma tensão explícita e uma potencial abertura para uma desestruturação de suas vidas. Ao mesmo tempo que cedem à uma afeição, podem estar enganando um ao outro. Tudo é possível e as possibilidades de reflexão são variadas! Armando apenas deseja Elder? Elder quer apenas o dinheiro de Armando? Até que ponto Elder é confiável? Armando vai querer se livrar de Elder? Eles se apaixonarão um pelo outro? Elder vê em Armando uma figura paterna já que tem um pai ausente? Armando suportará ter Elder em seu encalço? As perguntas não terminam. Este efeito provocativo e uma história que não entrega o conflito totalmente digerido  faz de "Desde Allá" um filme notável entre as últimas produções da América Latina.


É interessante notar que a direção aproveita habilidades e estilo da equipe que o produziu para ter uma força dramatúrgica e um visual bem marcante. A história é inspirada por Arriaga e Vigas. Neste caso, Arriaga gosta de temas fortes ao lado do produtor Michel Franco, característica que joga o espectador em uma narrativa que não o deixa passivo, inerte ao conflito.  O DOP Sergio Armstrong entrega mais um trabalho excepcional de fotografia, principalmente  na maneira que contribui para dar um tom bem realista na evolução desta intimidade que, pouco a pouco, vai entrando em cena na casa de Armando e, depois ganha espaço no ambiente externo como os bem executados enquadramentos em cenas nas quais estão próximos ao mar e em uma festa.






Mas o destaque maior é a dupla de atores e a fusão da experiência de um com a revelação do outro.  Há uma sinergia boa entre Alfredo Castro e Luis Silva porque seus personagens conseguem atrair-se mas também provocam distanciamento.  Assim, a relação é uma mistura de emoções que muitas vezes são contraditórias. Ambos interpretam pessoas de níveis sociais, idades e educação bem diferentes, como consequência, a história torna-se mais atrativa com a aproximação desses dois mundos e seus choques. Alfredo Castro faz uma atuação crível e, como em "El Club" de Larraín, mais uma vez ele encarna um personagem homossexual notadamente misterioso, dúbio, instigante.  Por outro lado, por trás da violência de Elder, há também sedução, ousadia, ternura e carência. Luis Silva evolui muito bem para nuances interpretativas como o desabrochar da sexualidade, a carência de afeto e o jogo de interesses movido por dinheiro e , desta forma, destaca-se como um dos emergentes talentos para novos filmes. 




Ficha técnica do filme ImdB Desde allá




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Lançamento nos cinemas Brasileiros:
29 de outubro em São Paulo e Rio de Janeiro
05 de Novembro em outras praças. Filmaço!




Por Cristiane Costa


Para quem aprecia o Cinema de Jacques Audiard, Deephan - o refúgio é imperdível e um dos grandes lançamentos do ano. Dedicado a tratar temas complexos que envolvem estrangeiros na França, Audiard ganhou a Palma de Ouro  com a melhor direção no Festival de Cannes 2015 e trata de um tema bastante contemporâneo - a imigração de refugiados de guerra. Na busca por uma autenticidade na abordagem desse nevrálgico argumento, o cineasta trabalha com um elenco central formado por estrangeiros com nenhuma ou pouquíssima experiência como atores.


Antonythasan Jesuthasan (Dheepan), Kalieaswari Srinivasan (Yalini), Claudine Vinasithamby (Illayaal) interpretam refugiados do Sri Lanka que vão morar na França como ilegais. Ex-soldado, Deephan perdeu amigos e aqueles que amava, forma um falso casamento com Yalini e adota como filha a órfã Illayall. Todo essa engenhosa dissimulação para conseguir sair do país em guerra tem uma urgente necessidade: sobrevivência. Estão dispostos a encenar uma família de mentira, escolha que também é feita por diversos estrangeiros, mesmo os que não estavam em países em guerra, para conseguir viver em outro país.







Com mais uma parceria com o seu fiel roteirista Thomas Bidegain, que colaborou com O Profeta e Ferrugem e Osso, e com Noé Debré, Audiard estrutura uma narrativa bem interessante quando forma um casamento de conveniência entre pessoas que não se conhecem direito e não se amam, e principalmente, coloca o casal em um outro tipo de zona de guerra: a da vizinhança tomada pelas gangues, o tráfico de drogas e toda a violência de uma terra estrangeira em contínuo ou iminente estado de caos. O casal mora em um conjunto habitacional na periferia em um clima de insegurança e perigo. Deephan vai trabalhar como zelador e Yalini como empregada doméstica. Illayall tem dificuldades de se relacionar na escola e sofre o desprezo das colegas.  


Como a maioria dos longas sobre o tema, eles têm dificuldades de adaptação, de dominar o idioma e se firmar no país. Também começam os conflitos entre Deephan e Yalini, assim como entre Yalini e Illayall. A tensão é constante e, uma das escolhas inteligentes do roteiro e direção foi priorizar os conflitos dentro dessa vizinhança e não pulverizar as cenas em muitas outras localidades, desta forma, o público pode analisar como são as relações nesse novo contexto de guerra.






O roteiro é bom, porém não é o ponto forte. É a direção experiente e segura e as atuações convincentes dos personagens refugiados que tornam o longa uma experiência sensível, bem dramática. Jesuthasan é o que apresenta mais virtudes como ator, também porque é escritor, o que o ajuda a trabalhar com textos densos, mas  Srinivasan e Vinasithamby  apresentam as faces da mulher e da criança em uma cruel realidade. Elas são a representação da força, sensibilidade e tolerância da mulher em uma vizinhança tomada por homens violentos. Percebe-se isso na forma como Yalini trabalha na casa de Brahim (Vincent Rottiers, de "Renoir"),  um líder de gangue em condicional, e cuida do tio dele. Ela não tem muita saída e precisa do dinheiro, mas também ela age com generosidade e educação.



No geral e, de forma muito positiva, a inexperiência ou pouco background desses atores  facilita o seu processo de deslocamento social como refugiados. A todo instante é possível observar que seus personagens são frágeis e inseguros ou agem com picos de irritabilidade, impulsividade e fuga, comportamento que é bem natural considerando o choque social e cultural e as dificuldades para mudar de vida.








Na verdade, não há como não ter uma empatia com relação à essa família de aparências, por isso a ideia de formar um núcleo familiar que precisa ser tolerante uns com os outros enriquece o drama e foi essencial na construção da história. Imagine eles terem que conviver com estranhos em um país estranho para se firmar na vida em um país que sempre os considerará estrangeiros. Ser estrangeiro não está apenas na vivência em um país no qual são ilegais, mas eles também são estranhos dentro da própria casa. No contraponto do clima pesado, há cenas mais sensíveis e luminosas que tentam resgatar a identidade e a convivência em família como em uma tentativa de sobrevivência de suas essências pessoais. São nessas tomadas que Audiard deixa a história mais suave, esperançosa, afetiva; entretanto, desvencilhar-se do passado e olhar para o futuro tem inevitáveis  estranhamento e dor. 



Mas encontrar uma luz no final do túnel é preciso, assim, apesar de ser um filme denso, violento, Audiard foi otimista. No desenvolvimento final, ele impulsiona a narrativa com uma virada surpreendente e incendiária como um ato de coragem, heroísmo e apropriação de um novo caminho. A mensagem que fica é que a guerra não acabou. Lutar é necessário! Vencer é uma possibilidade. O melhor refúgio ainda está em cada um de nós. 






Ficha técnica do filme ImDB Deephan - o refúgio

Distribuição : Califórnia filmes

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