Ganhador do prêmio de direção do Festival de Veneza para Andreï Konchalovsky , As noites brancas do carteiro é filmado com um...








Ganhador do prêmio de direção do Festival de Veneza para Andreï Konchalovsky, As noites brancas do carteiro é filmado com uma mistura de ficção com documentário e tem um carater muito peculiar e naturalista na sua produção. Relata o dia a dia do carteiro de um vilarejo no Norte da Rússia e da interação com a comunidade. O carteiro é solteiro e vive sozinho, praticamente é um ser solitário no mundo mas que, por outro lado, é a conexão do mundo com a comunidade, estabelecendo uma cordial relação com os habitantes locais.



O longa é realizado com habitantes locais e não tem um roteiro estruturado, o que lhe dá uma característica mais documental  do que ficcional. É um belo trabalho cinematográfico ao mostrar a vida de uma maneira não planejada, apenas como ela deveria ser: leve. Aqui interessa muito mais como o diretor quis enquadrar o cotidiano dos simples moradores: a mãe solteira e sua criança, o manguaça, os vizinhos, os trabalhadores do comércio. Com o carteiro, temos acesso a eles e suas rotinas. O protagonista também faz a diferença porque é um homem comum. Ele foi uma boa escolha do elenco porque é um homem simples, que parece guardar em si o ato de ajudar os outros e ser confiável. Ele chega a ser engraçado e triste e poderia ser qualquer ser humano que tem que lidar com o tédio diário, portanto o protagonista sustenta bem o filme e, sem ele, a proposta não teria o mesmo efeito. Em um dos planos mais recorrentes, ele acorda e olha para os seus chinelos. Percebe-se que esse é um ato que fazemos muitas vezes como se perguntássemos: mais um dia, o que farei  hoje?


Os planos têm a beleza da natureza bucólica, intocada e silenciosa. A qualidade da direção tem um ótimo trabalho de fotografia da natureza, principalmente quando o carteiro faz cenas em contato com o rio, nas quais é possível ver a fascinante graduação das cores e de seu efeito no audiovisual. Essa natureza testemunha esse cotidiano de solidão e ofício do carteiro mas também é a sua companheira. Tanto que, em uma das tentativas de sair do vilarejo, o carteiro retorna sem grandes motivos e sua amiga de infância Irina não se identifica mais com o local. Como uma das interpretações possíveis, o filme retrata o hábito de permanecer em uma tranquila vida em um mundo que é cada vez mais caótico e ambicioso. Estar em contato com a singela natureza do hábito, da vida em sua essência mais bruta regada a conversas descontraídas com habitantes do local  e sem os efeitos nocivos do mundo cosmopolita é um dos presentes dessa bela obra do Cinema Russo.






Ficha técnica filme ImDB As noites brancas do carteiro

O Cinema Iraniano tem sido um excelente laboratório da dramaturgia audiovisual para analisar como fazer cinema de qualidade...









O Cinema Iraniano tem sido um excelente laboratório da dramaturgia audiovisual para analisar como fazer cinema de qualidade apesar da repressão à liberdade de pensamento imposta pelo regime do país.   Depois do aclamado, Uma Separação, de Asghar Farhadi, novos diretores têm se empenhado em lançar seus filmes, criando metáforas e analogias para levar o público à uma reflexão e testemunhar realidades do Irã que se refletem na vida das pessoas.


Na nova leva de diretores está Safi Yazdanian, que lança seu primeiro longa metragem Que horas são no seu mundo? e traz dois conhecidos atores do Cinema do país e que já trabalharam com Asghar Farhadi: Leila Hatami, a consagrada atriz de A Separação, e Ali  Mosaffa que atuou em O passado. Na história, ela é Goli que retorna ao Irã após viver 20 anos na França. Ele é Fahrad, um velho amigo que tem uma loja de molduras. Ela não o reconhece mas ele parece conhecê-la bem. Todo o filme trabalha com as memórias de uma mulher que deixou o Irã e retorna como se fosse uma estranha. Ela tem que lidar com a questão da identidade e, para tornar o roteiro mais interessante, Fahrad é esse homem que nunca se esqueceu dela, fato que garante belos momentos mais ao final.  Com a experiente atuação de Leila e Ali, o filme é mais uma opção para conferir como esses atores  transmitem  credibilidade e segurança ao atuar no Cinema de um país tradicional e como estão ficando mais próximos do público a cada novo longa.






Como a maioria dos filmes Iranianos que abordam o indivíduo versus sua cultura, tradição e costumes, esse é um longa que não é fácil de identificar as motivações do seu diretor principalmente na escolha de certos planos que não são lineares e parecem metáforas mais profundas sobre um tipo de Cinema que não pode dizer tudo abertamente; se por um lado, isso parece difícil para um público ocidental, por outro lado, acompanhar a trajetória de Goli é como se colocar na situação dela e analisar até que ponto o Irã simbolizaria a sua identidade atual. O desafio não é só reavivar a memória mas constituí-la com a reformulação da própria identidade com o local. Nesse aspecto, há planos que são realizados para recordar a mãe falecida, o amigo da infância, os amigos. Em alguns momentos, ela entra em choque com o que os conhecidos falam; em outros momentos, ela mesma se incomoda com lembranças das perdas ou de simplesmente ter certa obrigação de lembrar de coisas há muito tempo esquecidas.


Diferente de outros filmes de produção Iraniana com narrativa mais dramática e diálogos mais claros e de embate, esse é um filme mais contemplativo e que exige um expectador mais observador por duas razões: a primeira é a função dramatúrgica de Goli, que não deixa de ser uma mulher misteriosa para o público. Quem é essa mulher? Como foi o seu passado? O que ela pensa sobre seu país agora? São perguntas comuns a se fazer durante a projeção. Fahrad nos ajuda a compreendê-la um pouco mais e, mesmo assim, ele é um homem estranho, contido, acanhado e tem sentimentos de afeto por ela, o que também dificulta a análise. A segunda razão é a fotografia magnífica do Cinema Iraniano e como ela é composta na elaboração dos planos . Há planos que a imagem é construída de uma forma muito original e primorosa, com um trabalho de luz muito bem aplicado e uso sofisticado de duas ou mais câmeras, como por exemplo: uma cena em que está chovendo e Goli está dentro do carro conversando com outra pessoa.  




Exemplos como o mencionado  afirmam que uma das belezas desse Cinema é a utilização de locações e fotografia bem originais que levam o público ao tempo e ao espaço da narrativa com uma experiência completamente diferente. Assim como Abbas Kiarostami em Gosto de Cereja, Safi Yazdanian utilizou como diretor de fotografia Homayoun Payvar, que fez um fascinante trabalho. Quando diretores do Cinema Iraniano não podem falar tudo o que pensam, eles usam a imagem de uma forma muito mais expressiva e poderosa.





Ficha técnica do filme ImDB Que horas são no seu mundo?








Paixão Mórbida é um imperdível  clássico melodrama do Cinema Japonês, dirigido pelo elegante estilo de direção do Noboru Nakamu...






Paixão Mórbida é um imperdível  clássico melodrama do Cinema Japonês, dirigido pelo elegante estilo de direção do Noboru Nakamura. Em uma abertura magnífica que enquadra o rosto da dramática e bela personagem feminina, Yoshie, interpretada pela fascinante Miyuki Kuwano, o diretor dá o norte de sua sofisticada e estilizada direção, realizando combinações de jogo de cores, iluminação noir e belos enquadramento, com destaque para  certa disciplina em uso de  primeiro plano, close e plano detalhe que revelam ao leitor mais sobre Yoshie e seu pequeno e aprisionante mundo em meio à um bairro dominado por uma facção da máfia japonesa. 



A história de Yoshie é narrada desde os seus 19 anos quando era empregada de uma fábrica local durante o dia e trabalhava em um night bar durante a noite. Ao conhecer, o bonito e sedutor Eiji Kitami (Mikijirô Hira), um dos homens da máfia local, ela se apaixona perdidamente por ele. É iniciado o drama de Yoshie que, incentivada pelo próprio amante e cafetão, ingressa na prostituição e se torna uma das mulheres mais trágicas do Cinema japonês. Além de ser prisioneira da situação, inclusive refém da facção, seu drama é ainda maior ao conhecer um cliente engenheiro, bem sucedido e íntegro, que se apaixona por ela e quer tirá-la da vida de prostituta. Também, ela tem que lidar com sua complexa relação com Eiji, que é um homem totalmente devotado a ela, do qual ela não consegue se separar. Eiji é um homem inútil e financeiramente dependente dela, o que cria um arco dramático à personagem ao estar ligada a um homem do tipo perdedor.


Paixão mórbida é um exemplar e sofisticadíssimo trabalho de direção cinematográfica. É o tipo de longa filmado com a marca de seu diretor.  Noburu Nakamura tem seu estilo pessoal de direção como uma voz que se transforma em poderosa imagem. O diretor sabe conduzir muito bem sua câmera de forma a valorizar Yoshie, chegando a planos de esplêndida beleza plástica e dramática e uso de trilha de suspense e jogo de luzes elevando o filme a algumas reminiscências noir. É possível perceber que ele tem preferências em como filmar certos planos que, quando combinados, deixam transparecer até mesmo a atmosfera de seu Cinema, que valoriza muito personagens femininas, entregues à tragédia particular.


Yoshie é a vida do filme, ainda que com trágico destino. A atuação de  Miyuki Kuwano é muito coerente e sólida, dividida entre a paixão, a adaptação à prostituição, a vulnerável condição. É um personagem de complexidade dramática mas também muito próxima ao expectador pois é possível sentir que foi guiada por uma ingenuidade inicial e um encantamento avassalador que, logo mais,  se transformou em seu próprio martírio. 








Na moderna produção Alemã, sempre coerente em revelar que na Europa há os problemas sociais que encontramos por aqui, surge Jac...








Na moderna produção Alemã, sempre coerente em revelar que na Europa há os problemas sociais que encontramos por aqui, surge Jack, um ótimo drama sobre uma infância não vivida dirigido por Edward Berger e indicado ao Berlinade. Jack (Ivo Pietzcker) vive com a sua jovem e ausente mãe Sanna (Luise Heyer) e seu irmão Manuel (Georg  Arms) em um pequeno apartamento. Ele cuida do irmão enquanto a mãe trabalha. Um dia, após um acidente doméstico, ele é enviado para um abrigo infantil e começará a dolorosa saga de Jack.


Nos primeiros planos é possível notar que o filme aborda uma infância impactada pela ausência de pais. Embora Jack tenha mãe, ela representa aquela que é irresponsável e age como uma menina. Sanna teve filhos muito jovem, ainda curte baladas, troca de parceiros e sumiços sem avisar. Mesmo sorrindo quando ela está por perto e defensor dela, ele tem um semblante triste e projeta a ideia de uma criança que teve que crescer antes do tempo.A narrativa discorre como Jack é uma criança que tem responsabilidades de adulto e teve que ser o "pai" da casa, dando afeto e cuidados ao irmão menor. Ele assume responsabilidades sem a supervisão da mãe e daí surge o problema inicial que dará dinâmica à história.


Esse é um bom filme com elenco infantil. Praticamente todo o filme gira em torno de Jack e sua jornada em busca de sua mãe. O ator Ivo Pietzcker apresenta uma atuação madura que não leva o expectador à comoção banal, pelo contrário, por mais que haja uma sensibilidade na questão, ele é um personagem forte e trágico e sua seriedade em levar o papel dá credibilidade ao filme. Ele faz um bom trabalho em planos que são praticamente de uma silenciosa e solitária caminhada pelas ruas. Para um ator-mirim, esse é um trabalho difícil por isso o destaque do filme foi a direção desses atores. 


Jack é a história de uma dramática realidade da infância no mundo,  a de mães jovens e irresponsáveis,  pais ausentes e  falta de estrutura familiar. A diferença aqui é que Jack não é tanto um garoto problema como tantos outros, o que pode soar um pouco fora do comum para a audiência Brasileira . O público não verá drogas e manifestações de violência porque há um senso de responsabilidade e maturidade em Jack, que é a forma como ele reage ao problema. Essas escolhas do diretor podem soar um pouco surreal para a realidade das ruas pois não são ressaltadas muitas situações que provavelmente crianças sozinhas enfrentariam, por outro, percebe-se que destacar essa violência mais visceral não era o objetivo do cineasta.  Jack é um bom filme para analisar a violência psicológica contra a criança, ou seja, essa desestruturação de lares sem a presença dos pais. A solidão da criança é clara, o abandono mais ainda. Mais adiante, no desfecho do filme, fica claro que a criança deveria ter uma escolha. Nem sempre o que parece mais adequado para a sociedade é saudável para a criança.




 Ficha técnica do filme ImDB Jack 




Com produção da Grécia,   O Retorno de Antígona é o segundo longa do diretor Yorgos Servetas , que neste filme possibilita um olha...





Com produção da Grécia, O Retorno de Antígona é o segundo longa do diretor Yorgos Servetas, que neste filme possibilita um olhar contemporâneo de como a violência aumentou  dos anos 80 para os dias atuais no país. Na história, Antígona (Marina Symeou) é uma mulher de meia idade que retorna à sua pacata cidade grega após ficar um longo tempo fora. Ao chegar ao local, encontra os amigos, arranja um emprego de professora de inglês e inicia um namoro com o jovem Nikos (Giorgos Kafetzopoulos). A triste realidade começa a surgir: ela se confronta com a onda de violência na região, principalmente a submissão e  humilhação  sofridas por sua amiga Eleni (Marianthi Pantelopoulou), amante do tirano local Nodas (Nikos Georgakis), um homem excessivamente violento, misógino e controlador das vidas locais, inclusive a de Nikos, um dos seus empregados.


O longa é um filme frio e deprimente. Ele demonstra uma perspectiva muito pessimista sobre a violência, que é a que submete a pessoa à uma prisão social, a uma aceitação das regras de um homem violento e que catalisa outros comportamentos destrutivos como cúmplices dessa violência, tanto que outros personagens praticam delitos ou agem de forma violenta. Isso fica muito evidente em Nodas, que é dono de um negócio local e o 'animal' da cidade. Ele gosta de bater em mulher e essas cenas serão recorrentes. Também costuma verbalizar que todas as mulheres são putas e há uma forte característica machista no personagem a ponto de que, se ele morrer, não fará falta. Ele também não permite que nem Eleni e nem Nikos tenham vida própria e personifica aquele que sufoca vidas.  Ele impõe suas  regras nem que para isso use de força física ou de manipulação. Jamais aceita um não como resposta, o que sedimenta mais ainda aquele entorno violento. Ele é a personificação da violência no filme . Por outro lado, Antígona é a personificação do mito grego ao retornar à sua cidade, demonstrar sabedoria, afeto, lealdade e coragem e se impor contra essa violência. Consequentemente, ela começa a incomodar Nodas, que começará a atrapalhar sua permanência na cidade.


Na narrativa, a protagonista é o que tem de melhor, apesar de que poderia ter sido melhor desenvolvida em sua complexidade. Marina Symeou se destaca porque ela representa a geração nascida nos anos 80 e que reconhece que a Grécia mudou e se tornou mais violenta. A atriz demonstra bem como Antígona é forte e corajosa mas também amiga. Mais interessante é notar que, mesmo sendo contra a violência local, Antígona também precisa agir com agressividade para enfrentar esse meio, logo ela também tem que agir como uma heroína.  Esse contraponto de ser afetuosa e violenta é positivo porque será ela a que enfrentará o status quo da violência, mesmo que corra riscos e tenha perdas. Outro aspecto interessante é como as individualidades são impactadas pela violência ao  analisar os comportamentos de quem sofre a violência, principalmente Eleni e Nikos. Eles se tornam pessoas moralmente fracas ou fragilizadas e parecem não ter personalidade alguma para qualquer enfrentamento. Há situações em que o público pensará: como é possível se submeter à essa violência? Como é possível ceder ao perpetrador? Sim, é possível e esse é um problema muito mais que individual, é um problema social. 





Ficha técnica do filme . ImDB O Retorno de Antígona




É renovador quando um diretor Brasileiro une as pontas de um cinema com códigos da coletiva realidade social e política do ...











É renovador quando um diretor Brasileiro une as pontas de um cinema com códigos da coletiva realidade social e política do país com um drama pessoal de uma heroína em busca de si mesma e ainda inclui sua marca, que recupera referências do Cinema dos anos 70, cultura POP e muito sarcasmo . Isso traduz um dos grandes acertos do novo longa de ficção de Daniel Aragão, cineasta Pernambucano, conhecido por Boa Sorte, meu amor e que, agora, está de volta com um filme que é uma insana jornada da vida de Joli (Bianca Joy Porte), a filha de Antônio (Zé Carlos Machado), deputado e pertencente à uma endinheirada família do Recife. Ela apresenta problemas psiquiátricos e, após sair de uma clínica de recuperação e considerar-se curada, ela quer retomar sua vida e recomeça-la de forma independente. Uma das primeiras cenas, com o psiquiatra, interpretado por Luiz Carlos Miele  dá a dica de sua incapacidade de recuperar a sanidade, um tom que permeará o drama da bela e jovem Joli.


Todo o filme é construído com boas referências, inclusive as que ressaltam o trabalho da heroína, como por exemplo, a de Tarantino. Ao ver Joli dirigindo o seu carro e tendo acessos de fúria, não há como não lembrar de Kill Bill. Nos primeiros planos, é evidente o humor do filme, instável e como uma viagem psicotrópica: a trilha sonora é perturbadora e a atmosfera é envolta em certo aprisionamento e pessimismo. Por outro lado, com uma escolha pertinente, o cineasta varia a  palheta de cores, a saturação da fotografia e uma boa montagem que coloca a protagonista em momentos de sonho e liberdade, o que pode ser uma esperança, um caminho. Esse equilíbrio de sensações e percepções que o filme provoca entre a insanidade, a realidade sócio-política do Recife, o contexto familiar ligam o expectador à essa atmosfera de forma a suavizar um pouco mais o longa e não deixá-lo pesado ao extremo. O filme se torna um belo exercício de como a narrativa é desenvolvida através de uma boa decupagem. Assim, houve um bom senso no tratamento das imagens já que, sendo mais cult e sarcástico, o filme ainda está inserido em uma comercial realidade cinematográfica no Brasil que  não está acostumada a esse tipo de provocação. Com isso, o diretor demonstra ter coragem de fazer o que deseja e equilibrar certas escolhas, o que só ressalta a excelente qualidade do Cinema Pernambucano que tem se destacado nos últimos anos.





O longa tem uma forma muito corajosa e não convencional de como fazer o Cinema Nacional. Nesse aspecto, ele tem um approach cult  que trabalha com uma protagonista disfuncional e que não se encaixa na sociedade.
Esse aspecto de trazer uma heroína que tenta se libertar das amarras sociais e familiares e ser ela mesma gera uma reflexão libertadora para o público, principalmente para os que não concordam em como os, digamos, autênticos são mal compreendidos. Por mais que ela seja "doida", a gente torce para que ela entre em seu carro antigo, dirija pela estrada até se libertar do namorado puxa saco (Sérgio Marrone)  e o pai sufocante e cheio de culpas que ela tem. Ele também tem traz uma dicotomia interessante e bastante controversa: Joli tem histórico de uso ilícito de drogas (o que é proibido) mas ela toma estabilizadores de humor (o que é liberado). Mais ao final, com os imperdíveis créditos, o diretor brinca com essa situação e realiza uma excelente colagem, com bom humor.  No geral, há situações que são tão sarcásticas que fazem com que se analise melhor o que o diretor quis dizer e procurar nossas próprias respostas. Há momentos dramáticos que dão muita vontade de rir. Certamente, esse é um filme que fica na mente por uns dias como uma droga injetada. 



Prometo um dia deixar essa cidade vale a pena ser visto. Essa fusão do social e político do Recife com uma protagonista que é forte, mesmo em sua fragilidade,  exige um papel mais ativo e degustativo por parte do expectador. O longa tem várias qualidades, ainda que possa não agradar o público que prefere Cinema de Hollywood, ele terá seus apreciadores. Muita da qualidade do filme está em 3 aspectos principais: a direção de fotografia de Pedro Sotero, o mesmo do premiado Som ao Redor. A fotografia tem vida própria, sempre muito ligada à personagem e  sua trajetória. O trabalho de Sotero fica mais assertivo à medida que se percebe como o cineasta realizou a decupagem, desta forma, fotografia e direção formaram uma boa dupla. O segundo aspecto é a atuação magnífica de Bianca Joy Porte que evoca o drama entre a tentativa de voltar à saúde mental, se inserir em uma sociedade de aparências e apoiar o pai em uma campanha política de inverdades. Ela é uma atriz interessante e com personalidade em cena: tem uma presença de imagem forte com aquele belo cabelo ruivo e discreto sotaque nordestino. Ao mesmo tempo, ela é acessível, insana e divertida. É possível criar um rápido processo de identificação com ela e Bianca torna as coisas mais fáceis pois tem carisma. Ela também teve coragem de aceitar esse papel, que não é fácil e só ressaltou o seu claro talento entre as novas atrizes do Cinema Nacional. Para finalizar, o último aspecto é como o roteiro trabalhou elementos pessoais e sociais. Ao assistir ao filme, é bom chegar à conclusão de que o roteiro não se esqueceu do Recife e de impor esse aspecto regional tão importante ao Cinema Pernambucano e que o faz ser um dos melhores do país. 





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