domingo, 22 de maio de 2011

Disque M para Matar (Dial M for Murder) - 1954




François Truffaut foi um dos grandes admiradores de Alfred Hitchcock. Em entrevistas de 1962 com o mestre do suspense, lançadas no recomendado livro Hitchcock/Truffaut, o cineasta Francês lançou a seguinte afirmação: Estamos em 1953, com Disque M para Matar... A resposta de Hitchcock foi direta, simples e sincera - Sobre o qual podemos passar rapidamente pois não temos muito a dizer. Disque M para Matar é conhecido como um filme que não entusiasmou muito Alfred Hitchcock, ele não tinha tanto orgulho de tê-lo dirigido e não o achava uma de suas melhores obras, contudo, Disque M para Matar é mais um suspense perfeito, muito bem elaborado com o requinte, a maestria e a técnica do cineasta e está muito em linha com os principais códigos de linguagem que fazem parte do estilo único Hitchcockiano. A fita continua sendo um primor atemporal que ressalta o completo controle do processo cinematográfico do diretor, com destaque especial para a concentração de lugar, a extensão do tempo, os planos fechados, a composição do roteiro, a escolha e direção de elenco, a fotografia e trilha sonora.



Baseado na peça teatral, Dial M for Murder, de Frederick Knott, a gênese da realização do filme começou porque a Warner Bros havia comprado os direitos da peça. Hitchcock já tinha uma experiência significativa e uma relação íntima com o teatro desde o início da carreira no Cinema Mudo e resolveu dirigí-la. A película gira em torno de um triângulo amoroso formado por Margot Mary Wendice (Grace Kelly, esplêndida), seu marido Tony Wendice (Ray Milland, em magnifíca e sofisticada vilania) e o amante, o escritor Mark Halliday (Robert Cummings). Tony é ex-tenista e o vilão da história que vive muito mais às custas da mulher abastada. Ele elabora um plano maquiávelico para assassiná-la. Para isso, não sujará as próprias mãos de sangue e chantageia o ex colega de estudos, Capitão Lesgate (Anthony Dawson, excelente coadjuvante) para dar o golpe mortal em Margot Wendice. Nem tudo saí como o planejado e entra em ação o policial chefe Hubbard (John Williams) para investigar a trama. O espectador é convidado a adentrar o voyeurista mundo do suspense Hitchcockiano para acompanhar os desdobramentos de uma tensa narrativa, recheada de excelentes diálogos e uma direção impecável com excelente domínio cinematográfico.



O roteiro é construído com um toque argumentista bem característico do diretor: A descoberta do vilão. Hitchcock não engana o público e convida-o a observar a psicologia dos personagens, na maioria das vezes, lançada a partir de closes de câmera. No início da trama já sabemos de todas as más intenções de Tony, já sabemos que Mary é uma adultéra discreta e com ares de boa esposa, já sabemos que Lesgate é um mentiroso oportunista que topa qualquer má conduta por dinheiro, já sabemos que Mark é genuinamente apaixonado pela amante. O adultério é claramente mostrado e Mary age como se não estivesse traindo o marido, convivendo bem com ambos a ponto de conversarem e rirem juntos. Tony e Mark também interagem dissimuladamente e chegam a sair para um evento. Em uma cena Mary está beijando o amante trajada de figurino vermelho passional. Em outra, está à mesa com o marido trajada de figurino branco matrimonial, desfrutando de um momento conjugal no cotidiano casamento. Essa alternância de figurino, do vivo ao casto e, depois, ao sombrio é como um termômetro emocional e foi propositalmente planejada por Hitchcock.




Mais uma vez e, de forma magnífica em condução de direção, Hitchcock realiza um filme com raríssimas externas e com fascinantes posicionamentos de câmera meticulosamente colocados. Em grande parte da fita, a ação é realizada na sala do apartamento dos Wendice. É impressionante como Hitchcock consegue extrair o máximo de um lugar aproveitando de todos os recursos cenográficos: abajures,cortina, mesa, maçaneta da porta, chave, tesoura, meia, tapete, etc. Nada passa desapercebido e nada está gratuitamente colocado, assim, exercem uma função em cena. Mesmo com a concentração local e os característicos planos fechados, Hitchcock tem excepcional expertise em desenvolvimento e frescor narrativo. Suas sequências são arejadas com diálogos perspicazes e personagens muito críveis, bem selecionados e bem interpretados por esse fantástico elenco. O envolvimento com a trama é tão intensa que não há espaço para claustrofobia, somente para discar H, para mais um emblemático suspense de Hitchcock.


Avaliação MaDame Lumière










Título original: Dial M for Murder
Origem: EUA
Gênero: Suspense, Thriller, mistério, Crime
Duração: 105min
Diretor(a): Alfred Hitchcock
Roteirista(s): Frederick Knott, baseado na peça teatral Dial M for Murder
Elenco: Grace Kelly, Ray Millard, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson

4 comentários:

  1. "Disque M Para Matar" é um filme irretocável! Em roteiro, atuações e direção. Acho uma obra contundente e lógica do início ao fim. Não existe crime perfeito!

    ResponderExcluir
  2. Ainda não li o tão famoso livro de entrevistas de Truffaut com Hitchcock, e também não sabia desse desprezo dele por esse filme. DISQUE M PARA MATAR é um dos meus favoritos do diretor, vale dizer. Só tenho a reafirmar o uso metódico do espaço de cena, a trama interessante e o ótimo elenco. Hitchcock perscruta o ambiente sob todas as possibilidades. Genial, nunca menos que isso.

    ResponderExcluir
  3. Kamila, exatamente, um filme perfeito para dizer que não existe filme perfeito.

    ResponderExcluir
  4. Mateus,
    Esse filme era considerado menor, de momento, porém ainda sim é uma obra prima e esteticamente impecável. Acho que verdadeiramente Hitchcock sabia muito bem que o filme foi feito com o seu melhor e por isso é tão especial. O espaço é muito bem utilizado e, com isso, o mestre só demonstra que sabe usá-lo muito bem, extendendo criativamente o tempo cinematográfico com muita pouca movimentação. É definitivamente um gênio!

    ResponderExcluir

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière