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Mostra SP 2020 - 22 de Outubro a 04 de Novembro


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Viva à permanência da Mostra SP em 2020!


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Primeiro longa-metragem nunca é um projeto fácil. Muito mais do que a experiência e estilo que virão apenas com o tempo e prática, normalmente, escolhas narrativas de um novo realizador se localizam entre o ávido desejo de contar uma boa história e a experimentação na adoção de linguagens audiovisuais que, na forma que foram realizadas, nem sempre conseguem emular o desejado. É o que acontece em Entre meus sonhos (In my Dream, 2020), uma boa ideia que não conseguiu aproveitar a potente conexão dramatúrgica entre os temas infância, memória e perdas.





O diretor Turco Murat Çeri narra a história de Tarik, um menino de 8 anos que vive em uma pequena vila no interior da Turquia. Após sofrer um acidente com sua família, perde o pai  e sua mãe fica em coma. A criança também perde a memória e fica sob os cuidados dos avôs. O argumento dá margem a uma história potencialmente sensível, mas no efeito dramatúrgico, a execução não traz essa emoção e muito menos densidade às personagens e situações. É claro que emoções variam de indivíduo para indivíduo e estão no campo da recepção, ainda assim, Em meus sonhos traz uma intenção poética à execução que nem sempre se concretiza de maneira natural. Desse modo, o filme perde em autenticidade.










Levando em conta alguns aspectos narrativos, a princípio, tudo parecia propício a um filme marcante, começando pela questão cultural. Na maior parte do tempo, Tarik convive com os homens do vilarejo, em conversas, brincadeiras e rituais. É um traço interessante sob uma perspectiva de gênero na Turquia e se materializa no elenco, de maioria masculina. O país ainda é muito conservador, principalmente nas regiões interioranas que têm hábitos diferentes de Istambul. Com a ausência dos pais, a criança recebe os conselhos e companhia dos avôs, em específico, da figura paterna (avô) representada muito bem pelo ator Nevzat Yilmaz. As melhores cenas giram em torno das conversas entre eles, e a nobreza que existe nesse cuidado entre gerações.





Perseguindo o mesmo objetivo de cenas melodramáticas, o cineasta também aproveita a convivência de Tarik com os amigos, entre brincadeiras e brigas  pueris, e outros momentos solitários e introspectivos. Alguns momentos dos meninos são voltados à diversão e prometem expandir essa força narrativa da infância, do pertencimento, da amizade masculina, porém, de tanto forçar algo, há um anti-naturalismo em cena. Isso é visível como uma aparente cobrança pessoal do cineasta em emocionar a qualquer custo, decisões que resultam em irregularidades. As boas oportunidades de evocar,  espontaneamente, a infância  e o convívio de Tarik com essa comunidade vão se perdendo.








A presença do personagem interpretado por Recep Çavdar, um tipo peculiar, meio maluquinho, vem a trazer uma ideia de presença sincera, pura, ingênua próxima a Tarik. Entretanto, é um personagem igualmente forçado e desperdiçado pois sua caracterização traz clichês como o sem teto, o andarilho sujo, o maluco do vilarejo que, na narrativa, não se estabelece com profundidade e verossimilhança.









Por fim, realizar um filme com crianças abre muitas oportunidades para mobilizar essa potência, aqui, perdida na execução, principalmente, considerando a orfandade como uma realidade possível na vida de Tarik. A ideia era muito boa, e os aprendizados devem servir para próximos filmes, afinal, a história e cultura Turcas são um amplo, belo e complexo território narrativo para ser apresentado ao mundo.








Fotos: uma cortesia Reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

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Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Nas primeiras cenas de Cracolândia (Crackland, 2020), documentário Brasileiro dirigido pelo cineasta Edu Felistoque, com roteiro do cientista político, professor e deputado estadual de SP, Heni Ozo Cukier, a questão básica que se coloca é bem honesta: O problema da Cracolândia, uma das áreas de intenso fluxo de consumo e tráfico de drogas na Capital Paulistana, é um assunto que as pessoas não gostam de conversar a respeito. Quase ninguém quer tocar no assunto, principalmente o cidadão comum, que não sabe como lidar com essa complexa problemática após tantos governos Paulistanos verbalizarem que a Cracolândia havia acabado e/ou estava sob controle.





Em 20 anos, o problema social na Cracolândia nunca foi efetivamente resolvido. Entre altos e baixos de iniciativas de saúde, segurança pública, serviço social, entre outros, os contextos, o papel e atuação do Estado e as vidas que ali estão destruídas são um todo complexo e desesperançoso. Exige um trabalho transversal e multidisciplinar do Estado e da sociedade civil. As soluções não virão rapidamente, e precisam ser resultado de políticas públicas integradas. Nesse aspecto, o documentário é bastante honesto e não foge da complexidade da questão.





Com essa abordagem inicial, Heni Ozo Cukier se mostra racional, aberto e bem articulado a discorrer sobre o tema, mostrando várias opiniões e realidades, com depoimentos de usuários, médicos, especialistas em saúde, serviços sociais e segurança pública, desembargadores, ONGS e outros profissionais envolvidos na rede de combate a essa pandemia.Independente de ideologia x ou y, partido w ou z, e a experiência do deputado na segurança Urbana de São Paulo e no Legislativo, não se pode negar que ele realizou uma boa pesquisa  e atua como um estudioso das relações sócio-políticas, assim, não é um homem superficial como muitos que estão no governo atual. 










As imagens documentais apresentam um bom equilíbrio na variedade de registros, entre depoimentos e fotografia, principalmente considerando que nem sempre é possível chegar próximo aos usuários de crack. Engloba imagens da região central de São Paulo como também algumas colaborações no exterior, em cidades como Los Angeles, Zurique e Oslo, assim, trazem uma visão local mas também global, em cidades que vivenciam o drama do consumo de drogas a céu aberto. As cenas no estrangeiro ajudam a perceber práticas e experiências com redução de danos e internação, tratamentos necessários como política pública integrada, sendo que, sua implantação depende de outros fatores  ambientais e sociais que agravam a questão no Brasil.





Apesar de países mais desenvolvidos como Noruega, terem um número menor de usuários, trazer uma visão multicultural para o tema faz refletir sobre as distintas práticas utilizadas no enfrentamento do consumo de drogas pesadas como a heroína, além de apresentarem uma visão por que lidar com o crack é um mundo à parte, dada a sua severidade em dependência e efeitos colaterais. Realmente, a Cracolândia é um microcosmo complexo, muito em função dos problemas sócio-econômicos  e políticos no Brasil, e também por ser uma droga muito perigosa e degradante, subproduto mais barato da cocaína.




A boa direção de Edu Felistoque possibilita um documentário dinâmico, com ótimo ritmo e amplitude de distintos pontos de vista. Todas as opiniões trouxeram diferentes complexidades ao debate como o tráfico de drogas, a redução de anos, a internação, a ação policial, a atuação da mídia e outros mais, chamando o espectador para uma reflexão sob múltiplos olhares que envolve a intersetorialidade para a tratativa da questão.




O documentário faz um bom serviço ao Cinema e ao público, sob a perspectiva de trazer um tema controverso e polarizante para uma reflexão dialógica, pelo menos possibilitando às famílias, autoridades e instituições que analisem o complexo espectro de problemas que envolvem a CracolândiaAinda que o entrevistador  seja político de partido liberal, que deixa evidente que não é possível afrouxar 100% das regras, ele não visa trazer respostas prontas, mas faz pensar. Em algumas cenas, ele deixa escapar uma ou outra preferência ou posicionamento mais forte, porém, isso não afeta o seu profissionalismo e seriedade na condução do tema.










É bem provável que sua presença possa, inicialmente, afugentar quem se posiciona na esfera progressista, mais de esquerda e seja muito polarizante. Entretanto, nenhum cidadão deveria deixar de assistir ao filme por causa de diferenças políticas. Ele apresenta bom senso ao expor que a solução é uma combinação de regras com prevenção, tratamento e preparo dessa população. Com isso, o grande acerto do filme é não se apegar a egos, melindres e rixas partidárias e ideológicas, e sim, buscar abrir a visão do público. Cabe a cada cidadão extrair o melhor desses relatos, mesmo sabendo que o Estado ainda tem sérias dificuldades para melhorar a saúde, segurança e bem estar desses dependentes químicos e da população em geral.





Realmente, não é fácil assistir ao documentário porque é um contexto de violência, miséria e desumanização da vida. São tantos problemas em cena que, quem tem um amigo, familiar ou conhecido que é dependente de algum tipo de droga, mais uma vez, sentirá na pele como é doloroso confrontar a problemática da dependência química. Nesse ponto, o documentário não enfoca nas famílias e sim muito mais nos profissionais e usuários, porém testemunhar alguns close ups em alguns  dependentes químicos, faz pensar nas dimensões privada e coletiva: qual é a identidade daquela pessoa, o que aconteceu com ela, quem são seus familiares e amigos, são pais e mães, tem filhos(as), qual sua profissão, qual será seu futuro, o que gosta de fazer, quais seus sonhos.





Embora o roteiro traga um viés analítico e multidisciplinar para o debate, quando se olha um usuário de crack totalmente dependente, sem rumo, sem estrutura física, material, educacional, emocional e psicológica, para o qual a Cracolândia é o único lar e porto seguro, não há como não se sensibilizar com as cenas. É como ficar de mãos atadas como ser humano e cidadão! Ademais, há bons depoimentos que evidenciam (e reforçam) que a Cracolândia é um microcosmo de todos os problemas Brasileiros. De fato, é uma triste realidade onde toda a sociedade perde. Seu nome é uma das melhores acepções, formado por Crack e Land (Terra do Crack). Ali os usuários têm suas dores aliviadas com drogas e seus vícios alimentados por traficantes, com isso, a Cracolândia é também um problema nacional ligado à saúde mental e ao narcotráfico.










Fica visível a necessidade do diálogo entre quem pensa igual ou diferente do entrevistador e de outros convidados. Enquanto não há um diálogo sob diferentes opiniões e colaboração entre setores, buscando uma solução e esforços coletivos, dificilmente esse grave problema social será resolvido. Após ver o documentário, fica mais compreensível por que as pessoas têm resistência a esse assunto. Cada um pensa de um jeito diante do horror, vendo seu próprio semelhante, o ser humano, em processo autodestrutivo. Nenhum cidadão como ético e humanizado, em sã consciência, gosta de testemunhar a degradação humana e o descaso social. Nenhum. Porém, fugir do tema não é o correto. Nesse sentido, o documentário vem a somar.





(3,5)


Foto: uma cortesia Reprodução Mostra SP para imprensa credenciada.

  Curta-metragem, parte integrante da Apresentação Special  com 5 curtas de diretores consagrados, entre eles Jia Zhangke, Jafar Panahi,  Gu...

 






Curta-metragem, parte integrante da Apresentação Special 
com 5 curtas de diretores consagrados, entre eles Jia Zhangke, Jafar Panahi, 
Guy Maddin, Evan Johnson e Galen Johson e Sergei Loznitsa



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A música, como uma das expressões das linguagens e sociedade, é a potência de dizer o indizível, de mostrar o imostrável, de superar o insuperável.  Escondida (Hidden, 2020), curta do consagrado cineasta Iraniano Jafar Panahi, mostra  a liberdade de uma talentosa cantora cerceada pela realidade autoritária da tradição familiar do Irã. É uma narrativa muito triste e, ao mesmo tempo, iluminada por uma sensibilidade ímpar, profundamente comovente em seu desfecho.




Como parte de projeto da 3e Scénes , da Ópera de Paris, e integrante do longa-metragem Celles qui Chantent (Mulheres que cantam), Escondida tem um excepcional recorte documental, no qual o cineasta, acompanhado por sua filha e uma amiga produtora teatral, viaja ao encontro de uma jovem cantora em uma aldeia do Curdistão. Apesar da voz fascinante, a mulher está proibida de cantar ao público pelas autoridades Iranianas.









Como natural em seu estilo cinematográfico,  Janar Panahi filma a partir do seu carro. Com a ajuda de sua filha Solmaz Panahi, que porta um dos smartphones, o desenvolvimento do curta tem a notável versatilidade do Cinema Digital, filmado por dispositivos móveis, e utilizando mais de uma câmera em diferentes posicionamentos. Esse frescor cinematográfico coopera com o registro contemporâneo documental,  espontâneo, em movimento e expositivo das realidades cotidianas. 




Antes da chegada ao local, o cineasta entrevista a produtora Shabnam Yousefi, que revela o talento da cantora e as dificuldades de gênero diante das tradições do Irã. Entre o real e o metafórico, em apenas 18 minutos, o diretor consegue deixar algumas marcas históricas, culturais, religiosas e comportamentais do Irã, para fazer o público refletir sobre uma situação na qual há o cerceamento da liberdade, da música, da Arte. Isso colabora para o encantamento com o desfecho. Sem esse final tão poderosamente simbólico, o curta não atingiria tão bem o seu propósito dramatúrgico, e também social.




Escondida é um registro comovente quando uma mulher é impedida de ter a visibilidade de sua voz, de seu corpo, de sua competência artística. Sua imagem é escondida, como desdobramento de uma cultura rígida, porém, sua voz pode ser agora ouvida. O desfecho é profundamente dramático, unindo as pontas do poético e do trágico. Um curta para ser visto e revisto, cuja voz precisa ser amplificada.



(3,5)




Fotos: uma cortesia Reprodução Mostra SP

  Curta-metragem, parte integrante da Apresentação Special  com 5 curtas de diretores consagrados, entre eles Jia Zhangke, Jafar Panahi,  Gu...

 


Curta-metragem, parte integrante da Apresentação Special 
com 5 curtas de diretores consagrados, entre eles Jia Zhangke, Jafar Panahi, 
Guy Maddin, Evan Johnson e Galen Johson e Sergei Loznitsa



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Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Curta metragem de Jia Zhangke aborda o coronavírus e o distanciamento social com humor e delicadeza. Através de procedimentos diários que todos realizamos: medir a temperatura, usar máscara e higienizar as mãos com álcool em gel, o cineasta, ao lado de um parceiro de trabalho, transforma o rígido protocolo sanitário em um ligeiro e cômico curta.




O projeto é inspirado pelo livro "Species of Spaces", do Francês Georges Perec. Chama-se Spaces #2 e convidou cineastas para filmar em casa as realidades que estão vivendo. O cineasta Chinês optou por dirigir um curta sobre um vírus que começou na China. Irônico? Também. O bem da verdade é que, nas mãos de um veterano diretor como ele, o curta arranca o riso usando problemas tristes como confinamento, solidão e rigidez no cotidiano. E é essa a magia! Extrair a comédia usando os absurdos e as batalhas humanas.








A poesia também se realiza através das dores humanas, muitas vezes, é no aprisionamento que há de ter um pouco de riso sarcástico, tão necessário para aliviar os incômodos, principalmente em situações nas quais as idiossincrasias se revelam a um patamar universal, em realidades das quais não dá pra escapar tão rapidamente. A crise sanitária global, os dias de quarentena e todas as incertezas estão aí; assim, com senso de humor e criativo domínio da linguagem cinematográfica, Jia Zhangke , revela poesia em 5 minutos.



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Fotos: cortesia para Reprodução Mostra SP

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Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Pensar que a estrutura patriarcal oprime apenas as mulheres é somente uma parte da complexa reflexão social e histórica a respeito das questões de gênero que moldam o Brasil. Ela oprime também os homens em círculos familiares e sociais mais tradicionais. Desde a infância, em muitas famílias, meninos são educados para desenvolver sua masculinidade com diferentes níveis de toxicidade, reforçando os considerados padrões de "ser homem". Em culturas como a Nordestina, palavras como "ser cabra da peste", "ser cabra macho" trazem o sentido de homem cis-hetero admirado por sua valentia.








Em Filho de Boi (Son of Ox, 2019), uma triangulação temática traz três questões nevrálgicas para a experiência com o filme: a relação pai e filho e a masculinidade, o desejo pelo circo e a escolha pela fuga ou pelo enfrentamento do eu e das realidades. Com simplicidade e espontaneidade, o longa, realizado pelo coletivo Plano 3 filmes, formado por Paula Gomes,  Haroldo Borges,  Marcos Bautista e Ernesto Molinero, resulta na história do menino João que está dividido entre permanecer em casa com seu pai ou fugir com o circo. Dessa vez, é Haroldo Borges quem orquestra essa direção.








Jõao (João Pedro Dias) é um menino trabalhador, simples e acanhado. Enquanto os outros meninos da região gostam de ofendê-lo por ele ser o Filho de Boi, ele se mantem discreto, solitário. Seu pai (Luiz Carlos Vasconcelos) é figura autoritária, daqueles que dizem algo como "não criei meu filho para ser frouxo" e "o circo não é para você, não é para homem". Após o divórcio, vive apenas com o filho, que o ajuda nas atividades com o gado. Com o aparecimento de Salsicha (Vinicius Bustani), filho de palhaço que comanda o circo Papa-léguas, João tem um novo amigo e uma outra figura paterna, afetuosa e incentivadora.




No campo dos afetos,  colocar esses três personagens contribui bastante com a perspectiva realista da narrativa, tanto nas emoções como nas relações sociais construídas no país. Mais uma vez, o circo, como representação da Arte e dos afetos, da liberdade, do riso, da alegria, do propósito, da paixão, surge em contraposição à uma cidade na qual João nem parece conterrâneo. 




O menino tímido é tratado mal pela cidade. Ele é motivo de chacota, começando pelos meninos de sua idade. Seu pai, sua família, sua casa, seu trabalho, absolutamente não há afetos no tecido da sua terra árida. Essa crueldade (e crueza) disfarçadas de piadinhas reforçam que, naquela cidade, João tem um ambiente tóxico, autoritário e machista no qual ele não é respeitado em suas subjetividades, em seus sonhos. Assim, o sertão Baiano não é apenas terra seca na geografia, mas na história mimetiza essa dureza nas relações de masculinidade.




O filme não é uma crítica dura ao Nordeste, pelo contrário, a terra é amor, é cultura, é alegria, é Brasil, entretanto, as relações de masculinidade são tecidas entre os afetos e desafetos nesse contexto.  Nesse sentido, é mais honesto dizer o que deve ser dito: há uma masculinidade tóxica construída estruturalmente no Brasil, uma masculinidade que adoece muitos garotos e, como consequência, poderá vir a adoecer muito mais mulheres, homens, crianças, famílias em geral. Sendo assim, é mais construtivo fugir ou  enfrentar a realidade? O filme coloca essa reflexão em jogo.





O trabalho desse coletivo é bem interessante, fruto de esforços que retratam a realidade dos locais muitas vezes esquecidos pela população. Apreciam circo e artes e a força do coletivo. Exemplo disso foi o filme-documentário Jonas e o Circo sem lona (2015) , dirigido por Paula Gomes, no qual é retratada a infância, os desejos, a paixão pelo circo. Filho de Boi, agora enfocando um menino na puberdade, fala sobre raízes, entrecruzando as dimensões pessoais e coletivas, como aponta seu diretor: 



Filho de Boi é um filme sobre raízes, que lança luz sobre as relações no sertão, esse território que normalmente é reconhecido como um lugar de fuga. Mas ficar, às vezes, exige mais coragem do que partir".










O filme tem a beleza da espontaneidade nas atuações, no uso de atores naturais, de locações rústicas, de animais no pastoreio. Ainda que o elenco tenha vivenciado laboratório de experimentação, sob a coordenação de Fátima Toledo, experiente preparadora de elenco, existe bastante naturalidade na relação entre os personagens, com destaque para Vinicius Bustani, excelente ator, carismático, afetivo e leve.





Como protagonista, João Pedro Dias enfrenta bem o desafio. Inicialmente, com a cara mais amarrada, bastante tímido, logo depois, consegue criar boas nuances nas cenas de conflitos. Advindo de escola pública e não ator profissional, João participou de uma seleção com 1500 meninos, e dá vida a um personagem difícil, bem fechado em si e com um desejo aflorante de ser livre e encontrar seu destino. A escolha de João foi uma boa materialização de oportunidades de inclusão social no país, através da cultura. Muitos meninos sonham com o Cinema porém não são dados a todos  lugares de fala e socialização.




É um filme que carrega mais choro do que risos. Em algumas cenas, o choro é segurado, deixando João mais acanhado. É compreensível... ele vive em um ambiente complicado, sem amigos, dividido entre as lágrimas e o riso, entre as broncas e rudeza do pai e os incentivos e generosidade de Salsicha. Ademais, o menino de 13 anos está em processo de amadurecimento, aprendendo a lidar com o presente e a potência do futuro, a decidir entre as raízes e ser passarinho.




Assim,  Filho de Boi é também sobre escolhas difíceis e resistência. É um filme regional no Sertão Baiano que traz essa universalidade tão bonita e necessária ao Cinema e ao cotidiano.





(3,5)


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Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Um documentário é capaz de dar conta da filmografia de um diretor como Stanley Kubrick, reconhecido por ser um cineasta genial e completo em todo o processo cinematográfico ? Com um bom recorte e uma grande admiração por ele, certamente, sim. É o que ocorre em Kubrick por Kubrick (2020), de Gregory Monro, que percorre a obra do diretor de uma forma objetiva e consistente, mas também igualmente apaixonante e cinéfila. O documentarista não entrega diversos detalhes biográficos, o que representa um ótimo acerto ao despertar o interesse por saber mais sobre o visionário diretor.





Gregory Monro 




Partindo de uma entrevista rara concedida pelo diretor ao Francês Michel Ciment,  crítico de cinema com ampla experiência e autor do livro Conversas com Kubrick (Cosac Naify, 2013),  o documentário se desdobra em uma organizada entrevista no qual, entre depoimentos de Kubrick,  Gregory Monro intercala a filmografia  com imagens de grandes clássicos como Barry Lindon, Laranja Mecânica, 2001: Uma odisséia no espaço, O iluminado, entre outros. Há um percurso bem esquematizado na apresentação das obras e experiências do cineasta, assim como fragmentos de arquivos com entrevistas de atores e atrizes como Malcolm McDowell, Jack Nicholson, Shelley Duvall.





Na sua estrutura organizada, o documentário tem uma clara síntese na qual, qualitativamente, também oferece um bom panorama da cinematografia, entretanto, o agradável sabor da descoberta e da contemplação de Kubrick por Kubrick, está na sua objetividade, honestidade e naturalidade. Como o título menciona, é a visão de Kubrick transbordada na tela. É ele falando de si. Nesse sentido, o longa reserva esse espaço de intimidade ao espectador por exatos 73 minutos, nos quais, o diretor não esconde sua forma de pensar e fazer Cinema, e muito menos os conflitos  nos sets dada sua exigência técnica e exaustivas tomadas. Em momentos reveladores, ele reconhece que o processo de pensamentos dele é difícil de definir.





Kubrick, americano e filho de judeus. 

Crescido no Bronx, ganhou de seu pai a sua primeira câmera 




Conhecido por ser um cineasta privado, não adepto a dar entrevistas, ele tinha confiança em Michel Cimment, desse modo, as conversas fluem com muita consistência, iluminando o porquê o diretor prezava pela qualidade, perfeccionismo, experimentação e adaptação de obras sob uma perspectiva pessoal que lhe são bem próprias. "Sempre me senti atraído por algo que proporciona possibilidades visuais importantes, mas esse não é único motivo. Parte do problema de qualquer história é fazer você acreditar no que está vendo, obter uma atmosfera realista", comenta.






Michel Ciment lançou Conversas em Kubrick: proximidade com o diretor
Livro do acervo pessoal MaDame Lumière




No prefácio de Conversas com Kubrick, o grande mestre Martin Scorsese, confesso admirador do cineasta, diz algo que traduz muito o que representa o legado Kubrickiano: "Assistir a um filme de Kubrick é como ver o cume de uma montanha a partir do vale. Nós nos perguntamos como alguém pôde subir tão alto. Há em seus filmes trechos, imagens e espaços carregados de emoção que têm uma potência inexplicável, uma força magnética que nos aspira lenta e misteriosamente:  o itinerário de menino percorrendo os intermináveis corredores do hotel em seus velocípede em O Iluminado; o silêncio monumental do vazio sideral em 2001: Uma Odisséia no Espaço; o ritmo inumano da primeira metade de Nascido para Matar, que vai num crescendo até sua resolução lógica e sangrenta..." (p.20)




Com o mesmo espírito, o documentário abre algumas fronteiras para a compreensão do gênio. Mesmo com sua objetividade, o longa abre esse discurso de exploração da filmografia do diretor, sua relação com o fotojornalismo e a importância da iluminação, as aproximações de suas obras com outras linguagens artísticas, a competência de ser um autodidata e um investigador de obras ficcionais, a habilidade de controlar e dominar todas as fases de suas produções, os desafios de orquestrar tantos recursos e relacionar-se com  as pessoas.







"Dirigir um filme não é sempre divertido porque você está num conflito com as pessoas. Há bastante tensão em todos" 

(Stanley Kubrick)




Nesse sentido, o documentário permite espaços para reflexão pessoal do espectador sobre a realização de verdadeiras obras primas. A medida  que Kubrick reconhece  que nem tudo é explicável, e outros profissionais desabafam que não era fácil trabalhar com o cineasta, o público pode ter algumas impressões e insights e se interessar pela pesquisa de sua filmografia.  Em um dos momentos mais sinceros (e de certa forma, tragicômico), o ator Sterling Hayden, que trabalhou com Kubrick em Dr. Fantástico, revela que teve que realizar 38 tomadas. Leonard Rosenman, compositor de Barry Lindon, se submeteu a 105 tomadas.  Essa intimidade levemente crua, contrastando com a seriedade Kubrickiana, possibilita compreender que, por trás de grandiosos filmes e de toda a genialidade que os  cerca há muitos conflitos registrados na História do Cinema. "38 tomadas. Doloroso e constrangedor", confessa Hayden. 






Set de Laranja Mecânica




De fato, Stanley Kubrick nunca foi fácil de compreender e, pela biografia, nem de lidar com. Ele detinha bastante controle sob recursos cinematográficos como equipamentos, orçamentos e cronogramas, assim como era obstinado em  buscar expressar o realismo na ficção. É um mestre moderno e único, capaz de trazer novas configurações e sentidos ao seu Cinema, explorando  de forma múltipla diferentes temas, contextos, associações e simbolismos. Inquestionavelmente, é um diretor, cuja obra cinematográfica, exige variadas leituras e releituras, dada que sua riqueza narrativa possibilita extrapolar os limites dos dramas humanos, do fantástico, do horror, da sociedade, da modernidade.




Kubrick por Kubrick é mais um bel-prazer na seara de documentários especiais sobre diretores. É um filme mais objetivo e convencional que não trará todas as respostas e encantamentos sobre o diretor (e, sinceramente, nem é preciso). Espera-se que o espectador possa enxergar que, nessa objetividade, reside um reflexo do estilo Kubrickiano de ser. Ele simplesmente concedeu uma entrevista a Michel Ciment, e sua filmografia falará por si mesma quando explorada. É um mestre que permite que o espectador construa seus próprios sentidos a partir das vastas experimentações de como ver e sentir Cinema.





(3,5)



Fotos: Uma cortesia Reprodução Mostra SP, via assessoria do evento.

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