Com roteiro e direção do coreano Hong Sang-soo , O dia em que ele chegar é o retorno do diretor aos hábitos do Cinema-Metalinguagem d...




Com roteiro e direção do coreano Hong Sang-soo, O dia em que ele chegar é o retorno do diretor aos hábitos do Cinema-Metalinguagem de filmes como Oki e Woman on the beach, no qual suas histórias falam de diretores que ora filmam, ora deixam de filmar. O que poderia soar aborrecedor, repetitivo e subjetivo demais na sua filmografia, neste seu último trabalho, apresentado no Festival de Cannes de 2011, não é. O longa é uma leve proposta, melancólica e bem humorada de um protagonista diretor totalmente ocioso. Relata sobre o ex-cineasta, Yoo Seong-jun (Yu Jun-sang) que viaja à Seul para encontrar um amigo crítico de Cinema. Sua estadia na cidade é de caminhadas pelo bairro de Bukchon, bebedeiras e muita conversa jogada fora. Ele encontra estudantes de Cinema, sua ex-namorada, novos flertes e toma clássicas biritas como o makgeolli (vinho de arroz) em um bar de Insadong. Tendo se aposentado, o ex-cineasta vive o anonimato de não ter nada para fazer e de não ter chegado à lugar algum, além de evidenciar na narrativa que não resolveu nada na vida, tanto de ordem afetiva como o relacionamento mal resolvido com sua ex, Kyungjin (Kim Bok-yung) como também de ordem profissional como os poucos filmes os quais ele nem comenta a respeito.




É um filme bom e peculiar, baseado em conversas descontraídas, simples, engraçadas e tristes, e também em enquadramentos recorrentes. Por não exigir uma profundidade de atenção à narrativa e na reflexão sobre a mesma, ele se torna mais leve, envolvente e, por incrível que pareça, desperta a curiosidade para descobrir qual é o propósito de Hong, principalmente com o dejà vu que é orquestrado pelo diretor com o seu montador Hahm Sung-won, no qual há repetições de planos semelhantes como o encontro de Yoo na rua com a mesma jovem atriz e com os mesmos estudantes de cinema, a conversa na mesma mesa do bar entre amigos, o mesmo local para o qual Yoo se dirige a fim de tomar um fôlego pós-bebida e fumar um cigarro, o beijo e a noite de sexo com Yejeon (Kim Bok-jung), a dona do bar, que se parece com sua ex Kyungjin e é interpretada mesma atriz, as mensagens SMS no celular de Yoo enviadas pela ex-amada, as falas de amor de Yejeon e Kyungjin que assemelham e se repetem e que não provocam efeito algum no cineasta, que aparenta aversão a compromissos amorosos.





O expectador é conduzido a acompanhar as andanças de Yoo e, de forma bem circular, voltar às cenas semelhantes com o bate papo regado à bebida, as paqueras com as bonitas garotas, a sensação de que ele não tem nada para contar sobre sua carreira cinematográfica na provinciana Daegu. Definitivamente, parece ter parado no tempo! E a pergunta que fica é: Quem era o diretor Yoo Seong-yun? Não se sabe, as conversas tem pessoas do meio cinematográfico: um crítico, uma professora, um ator, porém se fala de qualquer coisa que não seja profundamente falar sobre cinema. Esta escolha do diretor roteirista também demonstra que esta é a vida de Yoo, de total inércia perante sua carreira. O Cinema, a grande Arte de contar histórias, já não faz parte do dia a dia dele, ele já não sabe mais contar nada sobre ele e nem sobre os outros, o que pode ser potencialmente comum quando um diretor pendura a câmera. No geral, o recurso narrativo da repetição é uma das melhores virtudes da fita, pois estiliza e formaliza em cena o quanto emocionalmente este diretor tem um bloqueio existencial e é patetico até mesmo para lidar com as mulheres, levando-as para a cama, fazendo com que se apaixonem e verbalizem declarações de um amor que não é vivenciado, que mais parece uma promessa surreal, romântica ou de pós-coito. Yoo é incapaz de dar um rumo diferenciado à sua vida. Suas andanças materializam o completo ócio, em dias presentes que se repetem como reminiscências dos dias anteriores.





O belo tom imagético invernal, com a queda da neve, o beijo roubado no entardecer, o dia que logo se fará noite, ou se restringirá a uma mesa de bar em um ambiente fechado, sempre em preto em branco, contribui bastante para a sensível atmosfera do filme e, conjuntamente com a repetição, causam a impressão de um longa sem um tempo cronológico, que poderia ser inserido em qualquer momento, e se perpetuar como se não houvesse nem dia e nem noite, como se a relação tempo-espaço fosse ilimitada mesmo com a limitação narrativa em cenários tão recorrentes. No mais, fotografia e elenco mantêm o interesse do espectador pela fita: a incrível fotografia P&B de Kim Hyung-koo, elaborada com a beleza singular de uma nitidez capaz de extrair cores em branco e preto agrega um diferencial à sua qualidade e é inicialmente bem perceptível e impactante. Os atores representam bem, são agradáveis e estranhamente engraçados, como o crítico de Cinema Young-ho (Kim Sang-joong) e a professora de Cinema Boram (Song Sun-mi), charmosos e atrativos o suficiente para serem bons companheiros de alcool e de bate papo. Em cada novo gole e prosa, o expectador é impelido a gostar deles, concordar com frases cheias de verdade que falam de solidão, amor, sonho e qualquer coisa que combine com um pouco de embriaguez.


Avaliação MaDame na Mostra

4 estrelas

Quando a perda faz encontrar a si mesma Se há um gênero que funciona muito bem com o Cinema Independente Americano, este é o drama. É uma bo...



Quando a perda faz encontrar a si mesma



Se há um gênero que funciona muito bem com o Cinema Independente Americano, este é o drama. É uma boa oportunidade para que o expectador mergulhe em uma atmosfera fílmica de um cotidiano mais real, verossímil, catártico, desta forma, voltando o seu olhar para a contramão dos grandes blockbusters da fábrica de ilusões Hollywoodianas, e se conectando com os desafios emocionais tão inerentes ao ser humano. Maria my love é um destes filmes independentes que, na simplicidade de evocar um drama pessoal e familiar, aproxima-se do público através da história de Ana (Judy Marte), uma jovem garota que vive na Califórnia e tenta refazer sua vida após a morte da mãe. Tendo uma relação distante, mal-resolvida e de profunda mágoa com o pai, a princípio, resta-lhe somente a convivência com o novo namorado Ben (Brian Reiger) e com sua meia-irmã Grace (Lauren Fales), no entanto, mais tarde, ela decide embarcar em uma missão de ajudar à alguém, e conhece Maria (Karen Black), uma solitária senhora com problemas psicológicos que acaba por desafiar emocionalmente Ana.




Selecionado para o Tribeca Film Festival e vencedor do HBO's New York International Latino Film Festival, ambos de 2011, o longa dirigido por Jasmine McGlade Chazelle tem características de um independente com influências cenográficas e narrativas latinas em um cenário Americano: a atriz Judy Marte tem origem Dominicana e, portanto, cria esta relação da personagem com o meio em questão; o enredo se desenvolve em um bairro da periferia da Califórnia; alguns enquadramentos fotográficos são realizados com imagens revigorantes e coloridas, de efeito solar natural e com closes em flores da região que remetem à publicidade do cartaz; alguns detalhes que compõem o roteiro incluem música hip hop e referências à street dance, comuns nos subúrbios da comunidade Latina, e coexistem no drama importantes questões familiares como os conflitos e perdas que acometem os jovens. Maria my love é um filme mais intimista e pode ser a história de qualquer pessoa comum, logo, imageticamente, o filme reflete o cotidiano dramático de uma garota latina e uma maneira mais caseira e independente de fazer Cinema nos USA, tendo como um dos pontos desfavoráveis a qualidade da fotografia, cuja textura deixa um pouco a desejar.




O ponto mais favorável é a atuação conjunta de Judy Marte, mais centrada no drama da sua personagem com a ótima participação coadjuvante de Karen Black, que vem a agregar à narrativa o início da catarse necessária à Ana. O filme se apóia mais na atuação de Judy, filmada em diferentes closes e em pequenas situações de confronto, seja consigo mesma, seja com o namorado, a meia-irmã e Maria. Claramente, a responsabilidade maior é de Judy pela atuação de protagonista, que a realiza bem e sem muitos sentimentalismos, o que é positivo e coerente, considerando que o longa tem um estilo mais Indie, e Ana está em uma fase emotiva, porém tem uma personalidade racionalmente mais orgulhosa. Por outro lado, pela maior maturidade e experiência interpretativas e in(sano) papel, Karen Black dá ao longa o sabor dramático e cômico e, em menos tempo de fita, é a melhor atuação. Seu papel é interessante pois, por trás de sua intempestuosa loucura, é a pessoa que desafia e ajuda Ana a olhar para dentro de si e buscar um recomeço.




O longa somente se torna interessante, em termos mais reflexivos para a experiência cinematográfica, quando se compreende que uma complementa a outra em determinado avance da película. Ambas são solitárias mulheres que, de diferentes maneiras e com idades distintas, não se enquadram ao mundo. Ana está passando por uma fase de introspecção, de perda familiar e de si mesma, de tentativas de entender seus sentimentos, colocar os pés no chão e conviver melhor com as pessoas à sua volta. Maria é uma mulher de personalidade e convívio mais difíceis por conta do alterado psíquico que exige compreensão, tolerância e cuidados alheios. Nesta ensolarada Primavera que contrasta com as cinzentas emoções de Ana, sua jornada pode terminar em um florescer para a vida, assim como a flor símbolo do filme, porém para que isso ocorra, há um caminho de autoconhecimento para compreender suas limitações e a dos demais, ser tolerante com os erros e saber recomeçar mesmo com as ausências afetivas.


Avaliação MaDame na Mostra

3 estrelas

Confira os vencedores da 35ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, nas principais categorias participantes: Troféu Bandeira Paulista Me...




Confira os vencedores da 35ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, nas principais categorias participantes:


Troféu Bandeira Paulista

Melhor Filme: Respirar, de Karl Markovics

Melhor Documentário: Marathon Boy, de Gemma Atwal




Prêmio da Crítica

Melhor Filme: Era uma vez na Anatólia, de Nure Blige Ceylan

Prêmio Especial: Sábado Inocente, de Alexander Mindadze

Melhor Aquisição de Curta Metragem (Canal Brasil):
A casa da Vó Neide, de Caio Cavechini




Prêmio do Público

Melhor Ficção - Brasil:
Teus olhos meus, de Caio Soh

Melhor Ficção - Internacional:
Desapego, de Tony Kaye
Frango com ameixas, de Marjane Satrapi e Vicent Paronnaud

Melhor Documentário - Brasil
Raul - O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho
Vai, vai, 80 anos nas ruas, de Fernando Capuano

Melhor Documentário - Internacional
Batidas, rimas e vidas - As viagens de a Trible called Quest, de Michael Rapaport






Prêmio Itamaraty
(em reconhecimento às produções nacionais baixo orçamento)

Melhor Ficção:
Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios,
de Beto Brant e Renato Ciasca
R$ 45 mil




Melhor Documentário:
Raul - O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho
R$ 39 mil

Melhor curta-metragem:
Cine Camelô, de Clarissa Knoll

Prêmio da juventude
Uma incrível Aventura, de Debs Gardner-Paterson





Atom Egoyan


Homenagens especiais:

Prêmio Humanidade Leon Cakoff
Atom Egoyan
Mohsen Makmalbaf


Prêmio Itamaraty (pelo conjunto da obra)
Hector Babenco


MaDame Lumière parabeniza todos os vencedores por MostraR
um cinema de qualidade e vencedor!

Após ganhar o prêmio de melhor Diretor no Festival de Cannes em 2010 por Tournée, Mathieu Amalric retorna à direção com o seu segundo longa...



Após ganhar o prêmio de melhor Diretor no Festival de Cannes em 2010 por Tournée, Mathieu Amalric retorna à direção com o seu segundo longa, A Ilusão Cômica, baseada na homônima obra clássica (1635) de Pierre Corneille, que conta a história de um pai, (Prindamante, o ator Alain Lenglet) que procura seu filho desaparecido (Clindor) com o qual tem uma relação distante. Para encontrá-lo, contrata um mágico (Alcandro), que com sua bola de cristal acompanha a tragicômica vida do jovem. A aventura metalinguística de Amalric em unir o teatro e o Cinema cria um resultado bem interessante, que causa um inevitável estranhamento do espectador com a narrativa milimetricamente rimada em Alexandrinos em pleno cenário de uma Paris contemporêa, assim como provoca substancialmente o ilusionismo cinematográfico, levando o público a pensar se aquilo que se vê está realmente acontecendo. Para lançar luz à magia narrativa feita por Amalric, o mago Alcandro, intepretado por Hervé Pierre, um porteiro metido à detetive que usa as câmeras de uma sala de segurança como bola de cristal, lança a seguinte frase: "Acredite somente no que você vê".





Financiado pela Comédie Française em uma iniciativa que adapta peças da comédia do repertório teatral Francês para o audiovisual, primeiramente, a obra foi feita para a TV, por isso mantém uma identidade com esta plataforma como uma série televisiva. Visualmente, seja pela agilidade do registro, seja pelo suporte da TV, é fácil imaginar a película na TV5 Monde, contudo, o que se sobressaí nesta produção é que ela ainda é um bom e surpreendente filme dadas as condições rígidas de se manter a fidelidade ao texto de Corneille e o estranhamento de se acompanhar um filme cujo texto é teatral, com atores pronunciando rimas em clima solene como se estivessem no período Renascentista.




Ainda que a narrativa pareça confusa, de difícil assimilação como um jogo de espelhos movido por tramas de paixão, ciúmes, traição e assassinato, Amalric demonstra que tem controle sob a direção e muito talento por conseguir rodá-lo em 12 dias, prazo imposto pelo programa. Realizou um filme dinâmico, com ritmo que mantém a curiosidade do público como uma brincadeira de um ilusionista com a plateia, como um convite ao voyeurismo realizado pelas câmeras de segurança. Por outro lado, o filme ainda se prende muito ao texto de Corneille como se fosse um teatro em 35 mm, o que limitou explorar melhor outros recursos narrativos e linguísticos na adaptação e até mesmo o trabalho com os atores que tinham que decorar um texto original e proclamá-lo independente de suas demais reações intepretativas ao fazer Cinema. Felizmente, o elenco que faz parte do triângulo amoroso principal é jovem, bonito e tem intimidade com o texto teatral, o que desperta interesse em apreciá-los não só pelo romance e sedução da obra como pela disciplinada atuação pautada em uma experiência prévia com o teatro. Uma parte são atores provenientes da Sociedade de Comédia Francesa, e os protagonistas deste trio convencem: Loïc Corbery é Clindor, o filho procurado pelo pai, Suliane Brahim é Isabelle, sua amada rica, Lyse (Julie Sicard), a amante rejeitada.




Muito mais do que uma obra na qual o pai tenta se aproximar do filho e saber o que se passa com ele com a ajuda de um mágico, A Ilusão Cômica é um filme que faz refletir sobre como o Cinema cria uma ilusão que facilmente o expectador aceita, compra a ideia, mesmo que o que se vê lhe seja claramente uma ilusão, um espetáculo mágico, uma estranha imitação. A todo o momento de projeção, o que se vê é mais um teatro cinematográfico, do que um Cinema que usa o teatro como inspiração e o espectador tem como desafio unir estas duas Artes, entre o registro imagético contemporâneo de Amalric e um texto de séculos atrás. Verdadeiramente, a sensação é a de que aquilo é um anacrônico faz de conta Cornelliano pelos corredores do Hotel do Louvre que está ali para um entretenimento voyeurista ou, no mínimo, que os atores enlouqueceram e decidiram recitar religiosamente Corneille. Isto não torna a obra de Amalric menor, pelo contrário, o filme tem uma dose cômica pelo próprio estranhamento do texto com o registro, tem frescor com uma pegada moderna e elegante e um final surpreendente que só reforça a ilusão criada na mente do público. O longa confirma que Amalric é um inventivo diretor, aberto a novas ideias que aproximam as fronteiras entre as distintas linguagens.

Avaliação MaDame na Mostra

4 estrelas

A Retrospectiva da Mostra de SP é uma adorável caixinha de surpresas que após ser aberta provoca diferentes emoções. Existem aqueles sentim...


A Retrospectiva da Mostra de SP é uma adorável caixinha de surpresas que após ser aberta provoca diferentes emoções. Existem aqueles sentimentos de contentamento e gratidão ao descobrir ou se aprofundar na obra de um cineasta que pouco se viu ou pouco se tinha acesso. Para casos como estes, a Mostra se torna uma amiga e uma aliada para que as pessoas conheçam mais sobre Cinema e desenvolvam mais repertório de distintas cinematografias. Há também os sentimentos de insatisfação quando um filme não correspondeu às expectativas. Por outro lado e, geralmente, a Retrospectiva é uma programação essencial para o tom festivo de um evento deste porte porque ela tem em sua inerente beleza o poder de despertar aqueles sentimentos de celebração e nostalgia ao assistir novamente a obra de um grande cineasta. Para a alegria de cinéfilos e potenciais novos cinéfilos, a 35ª edição da Mostra realiza as retrospectivas de Sergei Paradjanov, diretor Georgiano com origem Armênia, conhecido por obras como A lenda da fortaleza Suram, A cor da Romã e O Trovador Kerib, e também Elia Kazan, o mestre de clássicos como Vidas Amargas, Clamor do Sexo, Uma Rua chamada Pecado e Sindicato dos Ladrões.




Em O Trovador Kerib, um dos seus últimos trabalhos antes de sua morte em 1990, vítima de câncer, Paradjanov tem um trabalho de temática simples: O Amor; porém bem peculiar em sua beleza plástica, com forte característica folclórica oriental ao filmar as imagens do legado lendário e popular de origem secular Turca. Na história de temática amorosa, Achik-Kerib (Youri Mgoyan) é um jovem e pobre músico que canta em casamentos e toca a saaza (balalaica Turca). Ele se apaixona pela filha de um rico comerciante que proíbe a união do casal. Com profunda tristeza e disposto a ganhar dinheiro, Kerib parte para exílio e é dado como morto. A jornada do trovador dura 7 anos e é mágica, com altos e baixos e uma atmosfera de fábula na qual a música, a dança, o amor e a morte são matérias-prima essenciais para criar esse fantástico mundo Paradjanoviano. A sua jornada de solidão e sofrimento é encerrada com o néctar da possibilidade de ser feliz ao lado de sua amada, quando ele retorna à sua casa.


Paradjanov apresenta um filme que é um exílio do amor, um canto de sofrimento e morte, uma evocação da sublime beleza imagética Oriental. A temática vida-amor-morte faz todo o sentido para o drama de um amor jovem proibido, muito bem interpretado por Youri, que tem uma empatia com a câmera ao mostrar seu rosto entristecido mas, ao mesmo tempo, disposto a ganhar o mundo, a transitar nas fronteiras da dor e do amor. Como toda fábula amorosa que ganha os terrenos das vivências do ser humano, o amor e a morte estão mais próximos do que se possa imaginar, basta lembrar o quanto amar e não ter a chance de vivenciar um amor é doloroso. Quem foi rejeitado no amor e quis desaparecer no mundo ou voltar melhor do que antes? Quem foi impedido de viver um amor e desejou morrer nem que fosse por alguns minutos? Certamente, várias pessoas cantaram um exílio amoroso como Kerib.




Esteticamente, ainda que o filme tenha uma cópia rara e antiga, ele conquista pelo poder da exótica imagem. A direção de arte é tão peculiar, imensamente oriental como a tecer uma pintura em película, que a sensação durante a experiência cinematográfica é a de que o filme não foi produzido na década de 80, mas em tempos bem longíquos e antigos antes mesmo da existência do Cinema. Do uso de artes visuais de forte impacto cultural a músicas folclóricas sobre o amor e a morte, o longa conta com uma boa e expressiva dramatização, que exagera na atuação para tornar o plástico mais aflorado, como exemplo: a mãe desesperada que chora a morte do filho, o autoritário pai rico que não deseja um genro pobre, a jovem garota entristecida pela partida do amado. A expressividade dos atores, mesmo quando aborrecidos com seus rostos que mal expressam um sorriso, é de suma importância porque o longa é trabalhado com menos diálogos e mais imagens, além do som deixar a desejar, uma característica que poderia ser melhor aperfeiçoada, sem muitos ruídos.




No geral, O Trovador Kerib é um belo filme legado da obra de Paradjanov, um dos mais célebres cineastas Soviéticos após seus antecessores como Eisenstein e Tarkovsky e digno de receber uma Retrospectiva não somente pela sua artística cinematografia mas também por ter sido um cineasta perseguido e preso injustamente pelas autoridades Soviéticas e que sofreu preconceito por ser homossexual. Paradjanov deve ser apreciado com bons olhos pois desenvolveu uma linguagem cinematográfica muito própria, enraizada em uma narrativa de sublime expressão criativa, de inspiração mítica e poética.


Avaliação MaDame na Mostra

4 estrelas

Truffaut deve estar se revirando no túmulo. O Cinema Francês apresentado na Mostra 2011 não tem apresentado filmes tão bons como o do últi...




Truffaut deve estar se revirando no túmulo. O Cinema Francês apresentado na Mostra 2011 não tem apresentado filmes tão bons como o do último Festival Varilux de Cinema Francês, no qual era possível conferir boas opções com estrelas como Catherine Deneuve e Gerard Depardieu (Potiche), Audrey Tautou (Uma Doce Mentira), Sandrine Bonnaire (Xeque Mate) e Isabelle Huppert (Copacabana). Ainda que o Cinema evolua com a contemporaneidade de novas formas de contar uma história, novas mentes criativas, novas propostas estéticas e narrativas, faltam histórias que conquistem pela emoção que cativa ou pela razão que faz pensar e transformar, afinal, o Cinema possibilita este exercício de catarse e reflexão. A sorte é que ainda dá para encontrar alguns filmes com boas intenções, mesmo que eles não sejam espetaculares, como é o caso de Ninguém além de você.


Dirigido por Gerald Hustache-Mathieu, o filme não é de todo ruim e consegue apreender a atenção e curiosidade do espectador por ter um desdobramento investigativo em sua narrativa, porém está longe de se tornar inesquecível. A intenção foi boa e a ideia original tem um traço de peculiaridade, o que já possibilita dar um crédito à obra. Trata-se de um suspense que recria o mito de Marilyn Monroe e pode ser encarado como uma homenagem Francesa à diva Americana que faleceu em circunstâncias misteriosas, ou como um filme para deixar o público inquietado sobre como foi a morte de Marilyn e buscar saber mais sobre a estrela. A história ocorre em uma cidadezinha fria da França, Rosseau (Jean-Paul Rouve) é um escritor de suspenses que está com bloqueio criativo e decide investigar a morte de uma famosa modelo, Candice Lecoeur (a bela Sophie Quinton), que supostamente se suicidou com a ingestão de pílulas. Candice nasceu no mesmo dia de Monroe e levou uma vida de várias similiaridades: de origem humilde, pseudo-loira, bonita, desejada, solitária, amante, aparente uma suicida. Para dar mais verossimilhança ao viés narrativo adotado, o roteiro inclui alguns detalhes biográficos: o romance de Candice com o político local, um Kennedy a la Francesa, e o diário, que se refere ao hábito que Monroe tinha de escrever seus fragmentos existenciais.





A inclusão do diário é interessante pois um objeto relacionado à leitura e à escrita cria uma ponte comunicativa entre Rousseau e Candice, ambos escrevem, ambos lêem um ao outro. Quando viva, ela já o tinha como fã, embora não se conhecessem pessoalmente. Agora, ela está morta, ele está vivo e obcecado pela beleza e sentimentos da falecida e suas anotações íntimas e reveladoras. Além do mais, o diário assume uma função de personagem coadjuvante, uma testemunha, um registro cujas informações ajudam Rosseau a investigar o crime e ter alguns insights sobre a possibilidade de assassinato. Ele realmente acredita que Candice não se suicidou. O filme se desenvolve com bastante flashback e narração em off com a trajetória de Candice: da descoberta de sua encantadora beleza e o trabalho como modelo e garota propaganda para o queijo "Belle de Jura" até a sua morte. O roteiro é mediano e tem a deficiência de ter uma "viagem narrativa" do roteirista que foi misteriosamente colocar Rousseau na trilha de Candice, como um chamado sobrenatural, um amor platônico que surgiria nas fronteiras da vida e da morte, o que é bem forçado, diga-se de passagem, mas compreensível para ocupar o tempo e o coração de Rosseau. É perceptível que a recriação do mito Marilyn Monroe por Sophie Quinton não é extraordinário embora a atriz tenha o seu charme blondie e tem uma atuação regular, não comprometedora, deixando a Jean-Paul Rouve boa parte da responsabilidade por levar o filme.


A escolha de colocar uma Marilyn comum, uma garota do cotidiano que teve a chance de ser modelo é boa, pois recriar o mito aproxima o mítico do que é o real, o diário. Faz imaginar que há várias Marilyns que morrem em circunstâncias misteriosas, belas e abandonadas na solidão após serem tão admiradas, basta ver duas cenas tocantes do filme, um no início no qual ela está morta e a final que revela como foi a sua morte. Neste sentido, é de partir o coração lembrar que Marilyn brilhou na sua carreira e curta vida, mas foi uma mulher usada pelos homens, atraídos somente pela sua beleza e vulnerabilidade. O filme se encarrega de mostrar cenas com a voz de Candice narrando o próprio diário e se vê, como nas biografias de Marilyn Monroe, que ela não tinha somente um corpo e rosto bonitos, ela era uma mulher inteligente e sensível que dá vontade de simplesmente dizer: Marilyn, não havia ninguém além de você!

Avaliação MaDame na Mostra

3 estrelas


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