sábado, 29 de outubro de 2011

Mostra 2011: Ninguém além de você (Poupoupidou) - 2011




Truffaut deve estar se revirando no túmulo. O Cinema Francês apresentado na Mostra 2011 não tem apresentado filmes tão bons como o do último Festival Varilux de Cinema Francês, no qual era possível conferir boas opções com estrelas como Catherine Deneuve e Gerard Depardieu (Potiche), Audrey Tautou (Uma Doce Mentira), Sandrine Bonnaire (Xeque Mate) e Isabelle Huppert (Copacabana). Ainda que o Cinema evolua com a contemporaneidade de novas formas de contar uma história, novas mentes criativas, novas propostas estéticas e narrativas, faltam histórias que conquistem pela emoção que cativa ou pela razão que faz pensar e transformar, afinal, o Cinema possibilita este exercício de catarse e reflexão. A sorte é que ainda dá para encontrar alguns filmes com boas intenções, mesmo que eles não sejam espetaculares, como é o caso de Ninguém além de você.


Dirigido por Gerald Hustache-Mathieu, o filme não é de todo ruim e consegue apreender a atenção e curiosidade do espectador por ter um desdobramento investigativo em sua narrativa, porém está longe de se tornar inesquecível. A intenção foi boa e a ideia original tem um traço de peculiaridade, o que já possibilita dar um crédito à obra. Trata-se de um suspense que recria o mito de Marilyn Monroe e pode ser encarado como uma homenagem Francesa à diva Americana que faleceu em circunstâncias misteriosas, ou como um filme para deixar o público inquietado sobre como foi a morte de Marilyn e buscar saber mais sobre a estrela. A história ocorre em uma cidadezinha fria da França, Rosseau (Jean-Paul Rouve) é um escritor de suspenses que está com bloqueio criativo e decide investigar a morte de uma famosa modelo, Candice Lecoeur (a bela Sophie Quinton), que supostamente se suicidou com a ingestão de pílulas. Candice nasceu no mesmo dia de Monroe e levou uma vida de várias similiaridades: de origem humilde, pseudo-loira, bonita, desejada, solitária, amante, aparente uma suicida. Para dar mais verossimilhança ao viés narrativo adotado, o roteiro inclui alguns detalhes biográficos: o romance de Candice com o político local, um Kennedy a la Francesa, e o diário, que se refere ao hábito que Monroe tinha de escrever seus fragmentos existenciais.





A inclusão do diário é interessante pois um objeto relacionado à leitura e à escrita cria uma ponte comunicativa entre Rousseau e Candice, ambos escrevem, ambos lêem um ao outro. Quando viva, ela já o tinha como fã, embora não se conhecessem pessoalmente. Agora, ela está morta, ele está vivo e obcecado pela beleza e sentimentos da falecida e suas anotações íntimas e reveladoras. Além do mais, o diário assume uma função de personagem coadjuvante, uma testemunha, um registro cujas informações ajudam Rosseau a investigar o crime e ter alguns insights sobre a possibilidade de assassinato. Ele realmente acredita que Candice não se suicidou. O filme se desenvolve com bastante flashback e narração em off com a trajetória de Candice: da descoberta de sua encantadora beleza e o trabalho como modelo e garota propaganda para o queijo "Belle de Jura" até a sua morte. O roteiro é mediano e tem a deficiência de ter uma "viagem narrativa" do roteirista que foi misteriosamente colocar Rousseau na trilha de Candice, como um chamado sobrenatural, um amor platônico que surgiria nas fronteiras da vida e da morte, o que é bem forçado, diga-se de passagem, mas compreensível para ocupar o tempo e o coração de Rosseau. É perceptível que a recriação do mito Marilyn Monroe por Sophie Quinton não é extraordinário embora a atriz tenha o seu charme blondie e tem uma atuação regular, não comprometedora, deixando a Jean-Paul Rouve boa parte da responsabilidade por levar o filme.


A escolha de colocar uma Marilyn comum, uma garota do cotidiano que teve a chance de ser modelo é boa, pois recriar o mito aproxima o mítico do que é o real, o diário. Faz imaginar que há várias Marilyns que morrem em circunstâncias misteriosas, belas e abandonadas na solidão após serem tão admiradas, basta ver duas cenas tocantes do filme, um no início no qual ela está morta e a final que revela como foi a sua morte. Neste sentido, é de partir o coração lembrar que Marilyn brilhou na sua carreira e curta vida, mas foi uma mulher usada pelos homens, atraídos somente pela sua beleza e vulnerabilidade. O filme se encarrega de mostrar cenas com a voz de Candice narrando o próprio diário e se vê, como nas biografias de Marilyn Monroe, que ela não tinha somente um corpo e rosto bonitos, ela era uma mulher inteligente e sensível que dá vontade de simplesmente dizer: Marilyn, não havia ninguém além de você!

Avaliação MaDame na Mostra

3 estrelas


Um comentário:

  1. tenho visto poucos filmes este ano, mas achei interessante a temática deste filme... recriar o mito marlyn de outra forma? gostei da ideia. uma pena que não seja tão bom assim.

    []s

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