domingo, 30 de outubro de 2011

Mostra 2011: O Trovador Kerib (Ashugi Qaribi) - 1988


A Retrospectiva da Mostra de SP é uma adorável caixinha de surpresas que após ser aberta provoca diferentes emoções. Existem aqueles sentimentos de contentamento e gratidão ao descobrir ou se aprofundar na obra de um cineasta que pouco se viu ou pouco se tinha acesso. Para casos como estes, a Mostra se torna uma amiga e uma aliada para que as pessoas conheçam mais sobre Cinema e desenvolvam mais repertório de distintas cinematografias. Há também os sentimentos de insatisfação quando um filme não correspondeu às expectativas. Por outro lado e, geralmente, a Retrospectiva é uma programação essencial para o tom festivo de um evento deste porte porque ela tem em sua inerente beleza o poder de despertar aqueles sentimentos de celebração e nostalgia ao assistir novamente a obra de um grande cineasta. Para a alegria de cinéfilos e potenciais novos cinéfilos, a 35ª edição da Mostra realiza as retrospectivas de Sergei Paradjanov, diretor Georgiano com origem Armênia, conhecido por obras como A lenda da fortaleza Suram, A cor da Romã e O Trovador Kerib, e também Elia Kazan, o mestre de clássicos como Vidas Amargas, Clamor do Sexo, Uma Rua chamada Pecado e Sindicato dos Ladrões.




Em O Trovador Kerib, um dos seus últimos trabalhos antes de sua morte em 1990, vítima de câncer, Paradjanov tem um trabalho de temática simples: O Amor; porém bem peculiar em sua beleza plástica, com forte característica folclórica oriental ao filmar as imagens do legado lendário e popular de origem secular Turca. Na história de temática amorosa, Achik-Kerib (Youri Mgoyan) é um jovem e pobre músico que canta em casamentos e toca a saaza (balalaica Turca). Ele se apaixona pela filha de um rico comerciante que proíbe a união do casal. Com profunda tristeza e disposto a ganhar dinheiro, Kerib parte para exílio e é dado como morto. A jornada do trovador dura 7 anos e é mágica, com altos e baixos e uma atmosfera de fábula na qual a música, a dança, o amor e a morte são matérias-prima essenciais para criar esse fantástico mundo Paradjanoviano. A sua jornada de solidão e sofrimento é encerrada com o néctar da possibilidade de ser feliz ao lado de sua amada, quando ele retorna à sua casa.


Paradjanov apresenta um filme que é um exílio do amor, um canto de sofrimento e morte, uma evocação da sublime beleza imagética Oriental. A temática vida-amor-morte faz todo o sentido para o drama de um amor jovem proibido, muito bem interpretado por Youri, que tem uma empatia com a câmera ao mostrar seu rosto entristecido mas, ao mesmo tempo, disposto a ganhar o mundo, a transitar nas fronteiras da dor e do amor. Como toda fábula amorosa que ganha os terrenos das vivências do ser humano, o amor e a morte estão mais próximos do que se possa imaginar, basta lembrar o quanto amar e não ter a chance de vivenciar um amor é doloroso. Quem foi rejeitado no amor e quis desaparecer no mundo ou voltar melhor do que antes? Quem foi impedido de viver um amor e desejou morrer nem que fosse por alguns minutos? Certamente, várias pessoas cantaram um exílio amoroso como Kerib.




Esteticamente, ainda que o filme tenha uma cópia rara e antiga, ele conquista pelo poder da exótica imagem. A direção de arte é tão peculiar, imensamente oriental como a tecer uma pintura em película, que a sensação durante a experiência cinematográfica é a de que o filme não foi produzido na década de 80, mas em tempos bem longíquos e antigos antes mesmo da existência do Cinema. Do uso de artes visuais de forte impacto cultural a músicas folclóricas sobre o amor e a morte, o longa conta com uma boa e expressiva dramatização, que exagera na atuação para tornar o plástico mais aflorado, como exemplo: a mãe desesperada que chora a morte do filho, o autoritário pai rico que não deseja um genro pobre, a jovem garota entristecida pela partida do amado. A expressividade dos atores, mesmo quando aborrecidos com seus rostos que mal expressam um sorriso, é de suma importância porque o longa é trabalhado com menos diálogos e mais imagens, além do som deixar a desejar, uma característica que poderia ser melhor aperfeiçoada, sem muitos ruídos.




No geral, O Trovador Kerib é um belo filme legado da obra de Paradjanov, um dos mais célebres cineastas Soviéticos após seus antecessores como Eisenstein e Tarkovsky e digno de receber uma Retrospectiva não somente pela sua artística cinematografia mas também por ter sido um cineasta perseguido e preso injustamente pelas autoridades Soviéticas e que sofreu preconceito por ser homossexual. Paradjanov deve ser apreciado com bons olhos pois desenvolveu uma linguagem cinematográfica muito própria, enraizada em uma narrativa de sublime expressão criativa, de inspiração mítica e poética.


Avaliação MaDame na Mostra

4 estrelas

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière