Por  Cristiane Costa , Editora e crítica de Cinema  MaDame Lumière  e Especialista em Comunicação Empresarial  Sempre digo que o ...





Por Cristiane Costa, Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Sempre digo que o Cinema tem vários dons especiais, mas há um que é imbatível: contar histórias que mostram o que temos de melhor: a nossa humanidade; aquela capacidade de ser fortes e também tão vulneráveis e falhos, de ser amados por familiares, amigos e animais de estimação e ter o coração aberto e sincero  para amá-los, cultivar essas relações e até mesmo brigar com eles, de tomar decisões espontâneas por surpreendentes escolhas e assumi-las diante dos outros, ainda que muitos pensem que estamos loucos. Ao final de um filme que nos aproxima de nossa humanidade, o sentimento que permanece é o da gratidão. É o que acontece em Truman, a mais recente coprodução Argentino-espanhola dirigida por Cesc Gay e estrelado por  dois atores bem conhecidos na filmografia desses países, Ricardo Darín e Javier Cámara, mais um galã cativante: o cão Troilo, que arranca suspiros com seu olhar de leal amigo.




Vencedor de 5 prêmios no Goya: Melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro original,  Truman conta a história de Julian (Ricardo Darín) , um ator que está vivendo um momento crítico ao enfrentar uma grave doença. Separado, irmão de Paula (Dolores Fonzi) e com um filho que estuda na Holanda, Julian vive sozinho com seu cão Truman. Ele recebe a visita de seu amigo Tomás (Javier Cámara) que vive no Canadá com a família e ambos iniciam uma jornada cômico-dramática de compartilhar os momentos juntos ao lado de Truman. Se o cachorro é o melhor amigo do homem, Tomás também demonstra que, ainda que tenha um jeito de ser bem diferente de Julian, a amizade resistiu ao tempo e à distância. O resultado é um filme singelo, leve e com a agradável simpatia dos dois atores.





Em suas linhas mais amplas de entendimento, Truman é basicamente um filme sobre a amizade. Amizade que dura anos, que não se entristece pela ausência e nem pelas verdades ditas na cara. É por isso que a química dos personagens de Darín e Cámara funciona muito bem. São diferentes e cada um reage à delicada situação da história de uma forma distinta. Ainda assim, o respeito mútuo é uma constante e as discussões cômicas fazem parte da sinceridade. Na execução da narrativa, essa amizade é belíssima porque há cenas com gancho para a tristeza, a culpa, o companheirismo, o humor, a briga (com alguns palavrões no bom e velho espanhol) e, no final da contas, ninguém é julgado ao extremo. As escolhas são respeitadas, os desabafos e o silêncio, também. O afeto está presente e, com graça, domina o filme.




                                

“’Truman é um olhar sobre a forma como reagimos ao inesperado, à dor e ao desconhecido. E é também um filme sobre a amizade.” (Cesc Gay)


Com igual peso, essa é uma comédia dramática de fácil gosto popular e tem uma grande sacada: consegue ter uma pegada de cinema independente e contar uma história universal que, em algum momento, alguém deve ter vivenciado com algum amigo, familiar ou animal de estimação. Além do mais, apresenta um elemento que muitos amam: a amizade canina, esse amor profundo que muitos de nós temos por cães e que chega a doer no peito por ser maior do que o próprio coração. Com esse roteiro, simples e original,  a narrativa coloca o afeto, a lealdade e o amor acima de desafios como a doença e a morte e, de uma maneira gentil e bem humorada, guarda em si uma forte autenticidade do personagem de Ricardo Darín. Mais uma vez, o ator paixão nacional (e mundial) do Cinema Argentino leva o papel com muita segurança, carisma, bom humor e tranquilidade. Preenche toda a tela com sua simpatia e , muito naturalmente, faz a gente tirar o lencinho do bolso para enxugar as lágrimas. Darín tem um perfil muito diferenciado como ator porque ele consegue ser um homem acessível e normal às  plateias. Ele consegue ser aquele amigo que estamos encontrando na tela grande ou que gostaríamos de ter.





Truman é um daqueles filmes comoventes que permanecem na memória por dias não apenas pelo valor da amizade, mas pelo valor das nossas escolhas que não precisam ir na mesma via do que a sociedade acha como mais natural e esperado.  Muitas vezes, os nossos valores não estão em bens materiais, terrenos e na urgência de seguir a previsibilidade imposta pelo ambiente, eles estão nas relações que encaramos como saudáveis e leais, estão no nosso bem querer em todos à nossa volta, ainda que estejamos em situações desesperadoras. Assim, aqueles amigos que sabem entender nossas escolhas, ainda que não concorde com elas, esses são nossos verdadeiros amigos.






Ficha do filme no Imdb Truman
Distribuição: Pandora filmes









Por  Cristiane Costa , Editora e crítica de Cinema  MaDame Lumière  e Especialista em Comunicação Empresarial  Um caminho natural...




Por Cristiane Costa, Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



Um caminho natural a medida que envelhecemos é pensar no que fizemos na vida. Pensar nas relações familiares, nas paixões, no trabalho, no que foi realizado e no que poderia ter sido vivenciado é uma carga que pode ser pesada ou  leve, dependerá de como encaramos a passagem dos anos e o passado. Em "A Juventude", de Paolo Sorrentino, a ação transcorre com estas lembranças e  recupera os elementos da memória e do envelhecimento a partir de dois amigos  com mais de 80 anos que passam férias em um luxuoso hotel spa. 




Acompanhado de sua filha e assistente Lena (Rachel Weisz), Fred Ballinger (Michael Caine) é um compositor e maestro aposentado que não tem a mesma inspiração  e nem vontade de dedicar-se à música. Em suas conversas com seu amigo Mick Boyle (Harvey Keitel), um cineasta que continua dedicado à carreira, ambos relembram a juventude e a infância. Unidos pela amizade e por suas afinidades artísticas, enquanto Mick está em um processo de criação cinematográfica, Fred está com um humor melancólico, deprimido, intensificado por profundas recordações.






Nessa dinâmica de velhos amigos é apresentada uma reflexão sobre a própria vida e a intimista relação que temos com os tempos que passam mas não nos abandonam. As memórias estão ali afetando o presente de Fred e Mick, memórias que são belas, dolorosas, nostálgicas e que, mesmo que possam ferir ou acalmar o coração, ainda são parte integrante de uma história de vida que não pode ser esquecida na velhice. Entre tantas virtudes do filme, principalmente as sólidas atuações, a deslumbrante fotografia de Luca Bigazzi  e  magnífica canção original Simple song #3 (nominada ao Oscar 2016 e composta por David Lang),  " A juventude" se destaca como uma jornada de memórias  que injeta uma força maior para que nenhum homem desista de viver, ainda que tenha deixado de apostar em certos projetos ou se arrependido de ter tomado outros rumos. 





A riqueza narrativa dessa obra é exatamente essa sensível capacidade de expor aspectos que naturalmente incomodam nossos pensamentos quando envelhecemos. Poderia ter feito meu trabalho melhor? Poderia ter amado mais? Poderia ter sido um melhor marido, um melhor pai, um melhor amigo? Poderia ter escolhido outro projeto?  São perguntas comuns que guardam em si uma neurose que muitas vezes é inevitável e é parte da nossa natureza humana. O diferencial é como Paolo Sorrentino executa esses comportamentos e situações, como por exemplo, como perdemos a vitalidade física e o status e, ainda assim, não podemos perder a capacidade de valorizar os nossos dons, amigos, amores. Não podemos deixar de valorizar a nossa biografia. Em um dos mais belos planos do longa, é possível ver que a juventude está na alma, no que podemos construir de positivo enquanto indivíduos que têm a capacidade de amar os outros e de superar a nós mesmos.




Mais uma vez, seguindo seu estilo em "A grande beleza" e apoiado pelo mesmo diretor de fotografia,  Bigazzi, Sorrentino  recorre à construção de uma narrativa que mescla o realismo e a poesia visual, mergulhando o público em uma  experiência cinematográfica pós Fellini, com cortes para pensamentos, sonhos, memórias em uma execução evocativamente poética. Ao contar com dois protagonistas de peso, Caine e Keitel em momentos comoventes, o elenco coadjuvante com Jane Fonda, Paul Dano e Rachel Weisz  apoia bem a história e possibilita criar elos dos velhos amigos com outras experiências familiares e profissionais. 


É um filme belíssimo ao transferir para a tela  uma combinação de humor e drama que é inerente ao próprio ato de viver e de envelhecer. Assim é a vida, um caminhar constante entre risos e lágrimas, entre acertos e erros, entre a nostalgia do vivido e a hesitação do que ainda podemos viver no tempo que nos resta. Se há duas certezas em uma longa existência, uma é a morte e a outra é o envelhecimento, então que a vitalidade não seja uma incerteza em nossas experiências.





Ficha técnica no Imdb A Juventude
Distribuição: Fênix Filmes



Por  Cristiane Costa , Owner, Editora e crítica de Cinema  MaDame Lumière  e Especialista em Comunicação Empresarial  Cinema é um...




Por Cristiane Costa, Owner, Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Cinema é uma Arte do imaginário e a liberdade de se relacionar com uma história da forma que bem nos pareça é um dos grandes prazeres de assistir a um bom filme. Diante dele, podemos ser desafiados a enxergar além do que está no plano, podemos ver e sentir como o relacionamento humano é, ao mesmo tempo, tão palpável e tão distante, e como dúvidas, silêncios e palavras abandonadas no esquecimento podem soar bem mais barulhentas. 


Nesse aspecto, Mais forte que bombas (Louder than bombs) de Joachim Trier nos possibilita essa liberdade de observar uma família emocionalmente frágil. Recém lançado no Brasil, é um drama minimalista e intimista que não perde o viés vigoroso de narrar a história de uma família que está em processo de recuperação  após um luto e os impactos dessa perda. Com um recorte que também prioriza seus problemas disfuncionais, especialmente os de comunicação entre um pai e seus filhos, o longa foi um dos destaques no Festival de Cannes de 2015.







Isabelle Freed (Isabelle Huppert) é uma renomada fotográfa que, pela natureza de sua profissão, passou boa parte do tempo longe do marido Gene (Gabriel Byrne) e de seus filhos  Jonah (Jesse Eisenberg) e Conrad (Devin Druid). Após a morte dela em um acidente de carro, essa família vivencia as dificuldades de sua ausência. Jonah é pai de primeira viagem e mora em outra cidade. Conrad é um jovem tímido no despertar da adolescência e mergulhado em seu mundo de video games, isolamento social e primeiro amor. Gene tenta seguir a vida  afetiva, entretanto, seu maior desafio é como se relacionar com os filhos.







Com roteiro assinado por Joachim Trier e Eskil Vogt, já é possível compreender por que o filme tem uma construção narrativa que não tem uma linearidade padronizada e que abre um maior caminho de interpretação ao espectador, estabelecendo um vínculo mais próximo ao convívio desta família e as dificuldades que eles têm de lidar com esta morte. Trier e Vogt têm origem no excelente Cinema Escandinavo e, especialmente Vogt, elaborou o roteiro e dirigiu "Blind", que tem uma história  baseada em fluxo de pensamentos aleatórios que se fundem na edição e intensificam o conflito . Aqui,  o mesmo ocorre.  O filme retoma momentos com Laura, como flashes de sua presença, deixando sempre ao público o benefício de imaginar quem era esta mulher, como era a relação dela com o marido e com os filhos, como ela morreu, ela estava cansada da profissão, sofria de algum transtorno mental etc. 






No contraponto, o universo masculino com esses 3 personagens mostra o sexo viril como também frágil. A história mostra sua intimidade: os amores , a desconfiança,  a insegurança, os segredos, etc. Nesses momentos, é inevitável pensar como a ausência de uma mãe é dolorosa, principalmente quando Conrad demonstra ser um garoto criativo e amável que está passando uma fase de transformações que não pode compartilhar com uma mãe. Por outro lado, o roteiro desenvolve as nuances dessa mulher que, mesmo morta, está tão presente na história.  Assim,  essa figura materna, feminina e tão globalmente desbravadora, capaz de extrair muita sensibilidade com uma fotografia em campos de guerra, também era uma mulher destruída por suas vivências ou, no mínimo, cansada, deprimida.


Mais forte que bombas é um imperdível e maduro drama familiar. É atrativo à medida que nos deixa estas lacunas para reflexão, a cada plano, podemos pensar nos vivos e nos mortos, nas relações que cultivamos e nas que abandonamos, em como acertamos e falhamos e,  como algumas dores  emocionais permanecem como um luto intransponível que somente o companheirismo , a empatia e o amor podem suavizá-las. 





Ficha técnica do filme Imdb Mais forte que bombas
Estreia no Brasil: 07 de Abril - em cartaz
Distribuição : Vitrine filmes


Por  Cristiane Costa , Owner, Editora e Crítica de Cinema  MaDame Lumière  e Especialista em Comunicação Empresarial  Poucos diretor...



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Poucos diretores conseguem contar bem e com gentilezas histórias sobre a família, adicionando à direção e ao roteiro elementos que façam o público reconhecer que há ali espaço para a  convivência, o perdão e o amor. Nessa seara, Hirokazu Koreeda é um mestre. Sua competência como narrador de belas histórias ressalta outras habilidades chave como ser um excelente diretor de atores e um realizador capaz de compreender o seio familiar, suas relações e conflitos e mimetizá-los na tela de uma maneira delicada e empática. Seus últimos  filmes "Pais e Filhos", vencedor do prêmio do Jurí no Festival de Cannes 2013, e o mais recente "Nossa irmã mais nova", indicado à Palma de Ouro de 2015, colocam  Koreeda como um dos melhores cineastas de dramas familiares.








O filme conta a história de três irmãs que, após a morte de seu pai, começam a viver juntas com uma meia-irmã mais jovem e dividir suas experiências e emoções. Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa) e Chika (Kako) conhecem  Suzu (Suzu Asano) no enterro do pai . Inicialmente, o que deveria ser um choque maior entre irmãs, considerando que Suzu é filha da amante do falecido, torna-se uma oportunidade de aceitação e união. Nas mãos do sensível Koreeda, a  história apresenta a influência de um aspecto autobiográfico dele: seu pai faleceu quando o diretor era criança, sendo assim, Suzu é uma adolescente que está sozinha e encontrar as irmãs é uma possibilidade de pertencimento à família, de ter outras referências femininas, de sentir-se aceita, amada e apoiada por elas.







Diferente de Pais e Filhos, mais dramático e que centraliza um conflito entre uma troca de filhos biológicos e suas consequências,  Nossa irmã mais nova é contemplativo, suave e intimista. É o tipo de filme que demonstra como a família está longe de ser uma instituição perfeita, mas ela ainda é um importante alicerce. Com poucos diálogos, planos fotográficos de beleza ímpar e atuações delicadas e graciosas, as irmãs conquistam a empatia porque , cada uma tem um estilo, um micromundo, um ligeiro e despretensioso desenvolvimento do personagem.  Dessa forma, ainda que o roteiro não seja desfocado do propósito de ressaltar a entrada de Suzu na convivência das irmãs, Koreeda opta por adicionar cenas simples do cotidiano para tornar a história o mais natural possível. Além do dia a dia das irmãs, esse belo longa-metragem tem uma natureza bastante conciliatória, de continuidade da família e superação após o luto. Também, com pequenas sutilezas em cena, o filme mostra que perdas e magoas permanecem, mas é possível superá-los ou não se importar muito com eles e que, enfim, os relacionamentos precisam ser cultivados.






Em sua execução, ele tem um ritmo mais lento, evidência que não chega a impactar muito negativamente a qualidade, entretanto, sua principal lacuna está em termos de roteirização. Poderia ser mais assertiva, menos prolongada, mais direcionada ao conflito. Com as diversas tomadas que cobrem diferentes situações com cada irmã, Koreeda estende a narrativa sem necessariamente colocar um relevante arco dramático ou acontecimentos nela que mudem os rumos das irmãs ou criem cenas de forte impacto  de conflitos interpessoais. Por isso, ele é realmente um filme contemplativo, genuinamente focado nesta relação das irmãs que não vão ter grandes desafetos. Na contramão de Pais e Filhos, aqui, Koreeda não se arrisca a criar nenhum tipo de desconforto entre os personagens ante um conflito. 


Mesmo com uma boa harmonia cênica entre as quatro irmãs, são as atrizes Haruka Ayase e Suzu Asano que representam características e pequenos conflitos mais relevantes e, também, são as melhores desenvolvidas em cena e com boas atuações. A primeira por ser a irmã mais velha, que atua como uma mãe para as irmãs e que abriu mão de outros projetos para conviver com a  família. A outra, por ser a caçula e a concebida em uma relação de adultério. Existe um interesssante aspecto nelas e que faz a diferença: a culpa manifestada por suas experiências de vida. Uma irmã mais velha, que age como uma mãe, se sentirá culpada se deixar as irmãs e partir para cuidar da própria vida? Uma meia-irmã, filha de uma amante, deve sentir-se culpada por ser fruto de uma relação de traição?  Nesse cenário, é natural colocar-se no lugar delas e sentir suas dúvidas, tristezas, hesitações. É também muito especial a forma como as quatro irmãs também despertam um sentimento de irmandade e como é um privilégio ter a chance de ter bons e amigos irmãos. É exatamente este tipo de proximidade das personagens com emoções que são sentidas no convívio com a família que fazem de "Nossa irmã mais nova" mais uma joia de Koreeda.







Ficha técnica do filme Imdb Nossa irmã mais nova
Distribuição no Brasil: Imovision

Por  Renato Alves Jornalista , historiador e escritor de quatro contos independentes.     David Fincher sacudiu o gênero suspe...





Por Renato Alves
Jornalista, historiador e escritor de quatro contos independentes.
 
 
David Fincher sacudiu o gênero suspense com serial killer ao apresentar “Seven – Os Sete Pecados Capitais”. O público ficou chocado nos cinemas e os críticos aplaudindo a ousadia e inteligência de um roteiro tão bem construído, onde herói e vilão se dão bem e mal ao mesmo tempo. A dificuldade da sétima arte é que não se cai uma “bomba nuclear cinematográfica” dessa por ano nas salas de cinema. Raramente essas explosões acontecem.

Quando Afonso Poyart apresentou “2 Coelhos” o cinema Brasileiro sentiu uma colisão, parcialmente semelhante, ao trabalho de Fincher. Como o sucesso foi bem recebido era óbvio que o diretor fosse convidado para realizar um trabalho internacional e “Presságios de um Crime” é o suspense de estreia de Poyart no mercado americano.
 
 

 
 

O filme pode ser analisado por duas perspectivas: a de quem esperava um novo “2 Coelhos” ou de quem sabia que o cineasta brasileiro teria que se adaptar às restrições, ou seja, nada de trabalho tão revolucionário.

“Presságios de um Crime” não é “Seven - Os Sete Pecados Capitais”, ou seja, não será uma produção aplaudida de pé pela maioria dos críticos ou um choque cinematográfico para o público em geral. Isso, no entanto não quer dizer que o filme não mereça elogios e algumas pontuadas críticas negativas.

Os aplausos e louvores vão para:

  •      Direção de Afonso Poyart, que funciona de forma digna; no diálogo entre o herói e o vilão numa mesa de bar se percebe o trabalho do cineasta brasileiro e sua enorme qualidade em direção de atores;

 
  •         Fotografia, em alguns momentos, na qual se mescla padrão e ousadia, natureza e pressão da selva de pedra;

 
  •         Anthony Hopkins faz um trabalho correto, mesmo não sendo espetacular;

 
  •         Trilha sonora tem bons momentos.

 
  •         Colin Farrell – ele entra e rouba o filme. No momento em que seu personagem surge na trama, a narrativa ganha alma, vida, um rosto do anjo. Seja a face angelical do bem ou do mal.


As decepções ficam com Jeffrey Dean Morgan (‘Possessão’) e  Abbie Cornish (‘Sucker Punch’).  Eles estão totalmente no automático e sem brilho, apesar do talento. Outro ponto que poderia ter sido construído de forma mais eficiente é a edição. Falta ritmo ao filme, porém esses deslizes não impedem que o suspense mereça uma visita.



 

“Presságios de um Crime” possui roteiro de Peter Morgan que não entra na lista de aplausos e gracejos por alguns clichês que deveriam ser evitados: policial em busca de parceiro experiente que fugiu da vida social por trauma pessoal, por exemplo. O filme possui dois ou três bons momentos de humor, leveza. O final em si também poderia ter tido mais coragem, ousadia. Se Fincher em seus pecados capitais derrubou heróis e vilões a história de Morgan poderia ter tido uma pitada desse atrevimento para nos apresentar. Ao não fazer atrevimentos a obra não merece vaias, apenas perde a chance de ter feito mais impacto e um barulho ensurdecedor.
 
 


Ficha técnica do filme no ImdB Presságios de um crime
Distribuição no Brasil por Diamond Filmes

Foto: Acervo MaDame Lumière. Première do filme em São Paulo. Filme marca o retorno de Hector Babenco à direção para contar sua ex...



Foto: Acervo MaDame Lumière. Première do filme em São Paulo.


Filme marca o retorno de Hector Babenco à direção para contar sua experiência durante tratamento de câncer



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Reconhecido como um experiente cineasta e diretor de teatro, com destaque para filmes importantes no país como "Pixote: a lei do mais fraco" , " O beijo da mulher aranha" e "Carandiru", é inegável que Hector Babenco tem credenciais  para entregar bons trabalhos. Em seu mais recente filme, "Meu amigo Hindu", em cartaz nos cinemas, ele assina o roteiro e entra em uma seara mais intimista de sua biografia: a descoberta de um câncer linfático em 1990 e a posterior ida aos Estados Unidos para a realização de um transplante de medula. 


Na história, Diego (Willem Dafoe) é o cineasta que é casado com Livia (Maria Fernando Cândido), uma mulher que claramente o ama e está para o que der e vier. A doença é revelada e a necessidade emergencial de um transplante faz com que ele saia do país acompanhado por sua esposa. Durante o tratamento quimioterápico, Diego conhece uma criança hindu e tornam-se amigos. Nesta luta pela vida, ele levou oito anos para a recuperação e o longa mostra alguns recortes biográficos de altos e baixos desta jornada como a amizade entre ele e o menino, o casamento e a separação, os problemas familiares e a relação com a morte.






Com  Selton Mello (a morte), Reynaldo Gianechinni( o médico), Guilherme Webber (o irmão), Barbara Paz ( a amante) entre outros, logo nos primeiros planos, o filme apresenta ao público vários atores brasileiros, a maioria figurante, sem muita função dramatúrgica e que apenas representam os amigos de Diego. Todos falam em inglês, aliás, uma decisão obrigatória porque somente assim Willem Dafoe poderia participar como personagem principal. 

Com este cenário, o início do longa é sofrível e um tanto cômico pois já mostra a classe média alta endinheirada totalmente figurante e  insignificante a dar risadas que não têm a menor graça, bebendo e comendo na festa de um amigo que está com câncer e sem agregar nenhum valor ao longa. Em nenhum momento, há uma honesta conexão afetuosa entre eles, desta forma, por alguns minutos é impossível não se perguntar: o que todos estes atores estão fazendo no filme? Será que era realmente necessário? Além disso, por mais que os atores brasileiros se esforçaram para falar inglês, o idioma não soou natural para perpetuar-se em toda a projeção, então a interpretação realista em si é ligeiramente afetada por causa da língua. Salvo Selton Mello, que tem a melhor participação do longa ao lado de Dafoe e também o melhor inglês nos diálogos, todas as outras falas soam artificiais e tendem a sobrecarregar a experiência linguística com o filme.




                               Foto: Acervo MaDame Lumière. Première do filme em São Paulo.



Sem dúvidas, o longa tem várias irregularidades e somente atrai atenção após a ida de Diego aos Estados Unidos. A partir daí, a narrativa começa a apresentar a excelente atuação de Willem Dafoe, que demonstra à flor da pele o sofrimento imposto pelo câncer. Ele é bem apoiado por sua aparência física magra e frágil e sua experiência com histórias mais dolorosas. Ainda que isolado em seu papel, é exatamente o ator que salva  o pouco de positivo que o filme tem. Então, o longa é ruim? Não exatamente. 



O que acontece em "Meu amigo Hindu" é uma miscelânea de momentos bons e outros não tão bons em termos narrativos, como por exemplo, um dos pontos positivos é a tentativa de Babenco ser o mais espontâneo possível ao relatar sua experiência sem se importar muito com a impecabilidade de um drama acima da média ou "fazer média" para falar o que pensa e sente; desde deixar evidente seus problemas com a família, a decadência com o casamento, os efeitos colaterais da doença, a solidão, a falta de sexo,  os delírios com a morte e o medo, à sua maneira, ele leva tudo isso ao público. 






Por outro lado, o ponto negativo mais evidente é que a execução acompanhou a fragilidade do roteiro. Ele não aprofunda a relação de amizade que dá título ao filme e existia espaço para isso, assim, a espontaneidade de falar com o público não se converte na mimetização de emoções genuínas em grande parte do filme. No mais, o texto não é bom, não estabelece conexão emocional e nem desperta interesse pelo que virá nas próximas cenas, logo, a história deve ser encarada como fragmentos biográficos. Diante disso , é como se tivesse havido um desperdício da história a ser contada , principalmente na relação de amizade  do adulto com a criança e o quanto isso poderia ter sido cativante, acolhedor, lúdico e libertador. Deve ser lembrado que, por mais que falar sobre  câncer é sensível, intimista, delicado e previsivelmente emotivo, a execução do filme pode impactar negativa ou positivamente nesta conexão  entre o contador de história e o público com relação ao tema. É possível ter empatia pela história, mas não necessariamente pela forma como o filme foi roteirizado e executado.

Com isso, "Meu amigo Hindu" tem suas faltas, mas também tem seus momentos sublimes como o desfecho de inspiração metalinguística e que é bem intepretado por Barbara Paz, bastante talentosa pelo seu background no teatro e na dança.  Assim, no geral, ele tem que ser disfrutado como uma experiência de fronteira  entre a vida e  a morte, uma linha tênue entre a realidade e os devaneios, e como também é desafiador voltar a viver após um tratamento invasivo como uma quimioterapia, como é difícil recomeçar. Apenas desta forma, o filme pode ser melhor compreendido no que ele tem de melhor e de pior. 



Ficha técnica do filme IMDB Meu Amigo Hindu





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