sexta-feira, 22 de abril de 2016

Truman (2015), de Cesc Gay





Por Cristiane Costa, Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Sempre digo que o Cinema tem vários dons especiais, mas há um que é imbatível: contar histórias que mostram o que temos de melhor: a nossa humanidade; aquela capacidade de ser fortes e também tão vulneráveis e falhos, de ser amados por familiares, amigos e animais de estimação e ter o coração aberto e sincero  para amá-los, cultivar essas relações e até mesmo brigar com eles, de tomar decisões espontâneas por surpreendentes escolhas e assumi-las diante dos outros, ainda que muitos pensem que estamos loucos. Ao final de um filme que nos aproxima de nossa humanidade, o sentimento que permanece é o da gratidão. É o que acontece em Truman, a mais recente coprodução Argentino-espanhola dirigida por Cesc Gay e estrelado por  dois atores bem conhecidos na filmografia desses países, Ricardo Darín e Javier Cámara, mais um galã cativante: o cão Troilo, que arranca suspiros com seu olhar de leal amigo.




Vencedor de 5 prêmios no Goya: Melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro original,  Truman conta a história de Julian (Ricardo Darín) , um ator que está vivendo um momento crítico ao enfrentar uma grave doença. Separado, irmão de Paula (Dolores Fonzi) e com um filho que estuda na Holanda, Julian vive sozinho com seu cão Truman. Ele recebe a visita de seu amigo Tomás (Javier Cámara) que vive no Canadá com a família e ambos iniciam uma jornada cômico-dramática de compartilhar os momentos juntos ao lado de Truman. Se o cachorro é o melhor amigo do homem, Tomás também demonstra que, ainda que tenha um jeito de ser bem diferente de Julian, a amizade resistiu ao tempo e à distância. O resultado é um filme singelo, leve e com a agradável simpatia dos dois atores.





Em suas linhas mais amplas de entendimento, Truman é basicamente um filme sobre a amizade. Amizade que dura anos, que não se entristece pela ausência e nem pelas verdades ditas na cara. É por isso que a química dos personagens de Darín e Cámara funciona muito bem. São diferentes e cada um reage à delicada situação da história de uma forma distinta. Ainda assim, o respeito mútuo é uma constante e as discussões cômicas fazem parte da sinceridade. Na execução da narrativa, essa amizade é belíssima porque há cenas com gancho para a tristeza, a culpa, o companheirismo, o humor, a briga (com alguns palavrões no bom e velho espanhol) e, no final da contas, ninguém é julgado ao extremo. As escolhas são respeitadas, os desabafos e o silêncio, também. O afeto está presente e, com graça, domina o filme.




                                

“’Truman é um olhar sobre a forma como reagimos ao inesperado, à dor e ao desconhecido. E é também um filme sobre a amizade.” (Cesc Gay)


Com igual peso, essa é uma comédia dramática de fácil gosto popular e tem uma grande sacada: consegue ter uma pegada de cinema independente e contar uma história universal que, em algum momento, alguém deve ter vivenciado com algum amigo, familiar ou animal de estimação. Além do mais, apresenta um elemento que muitos amam: a amizade canina, esse amor profundo que muitos de nós temos por cães e que chega a doer no peito por ser maior do que o próprio coração. Com esse roteiro, simples e original,  a narrativa coloca o afeto, a lealdade e o amor acima de desafios como a doença e a morte e, de uma maneira gentil e bem humorada, guarda em si uma forte autenticidade do personagem de Ricardo Darín. Mais uma vez, o ator paixão nacional (e mundial) do Cinema Argentino leva o papel com muita segurança, carisma, bom humor e tranquilidade. Preenche toda a tela com sua simpatia e , muito naturalmente, faz a gente tirar o lencinho do bolso para enxugar as lágrimas. Darín tem um perfil muito diferenciado como ator porque ele consegue ser um homem acessível e normal às  plateias. Ele consegue ser aquele amigo que estamos encontrando na tela grande ou que gostaríamos de ter.





Truman é um daqueles filmes comoventes que permanecem na memória por dias não apenas pelo valor da amizade, mas pelo valor das nossas escolhas que não precisam ir na mesma via do que a sociedade acha como mais natural e esperado.  Muitas vezes, os nossos valores não estão em bens materiais, terrenos e na urgência de seguir a previsibilidade imposta pelo ambiente, eles estão nas relações que encaramos como saudáveis e leais, estão no nosso bem querer em todos à nossa volta, ainda que estejamos em situações desesperadoras. Assim, aqueles amigos que sabem entender nossas escolhas, ainda que não concorde com elas, esses são nossos verdadeiros amigos.






Ficha do filme no Imdb Truman
Distribuição: Pandora filmes









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