segunda-feira, 25 de abril de 2016

Desajustados (Fúsi / Virgin Mountain, 2015), de Dagur Kári





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Contar uma história simples e divertida sobre a solidão com compaixão e graça é coisa para poucos roteiristas. Na verdade, a condição de ser solitário é uma realidade constante no mundo contemporâneo, entretanto nunca é tão fácil falar sobre ela. Por mais que as pessoas estejam cercadas de amigos e possibilidades de amor, variadas permanecem sozinhas à espera de uma boa e leal companhia e, quem sabe, um grande amor para construir uma família, um relacionamento estável. A solidão é um processo natural e necessário de amadurecimento, mas ela é extremamente dolorosa quando ela dificulta a socialização e quando, a depender do indivíduo, ele sofre de timidez, depressão, rejeição e bullying.






Com essa sensível e universal temática, a co-produção entre Dinamarca  e Islândia "Desajustados" (Fúsi/ Virgin Mountain), vencedora de melhor roteiro, melhor narrativa e melhor ator para Gunnar Jónsson no 14º Festival de Cinema de Tribeca (2015), apresenta um homem de meia idade, Fúsi (Jónsson) que vive com a mãe e brinca de soldadinhos na 2ª Guerra Mundial. Muito tímido, com uma introspecção bastante peculiar e de baixa socialização, ele é vítima de bullying no trabalho e tem dificuldades para relacionamentos amorosos e amizades. 






Mas a magia acontece no Cinema, certo? Esse é o diferencial do roteiro, que é enxuto e com situações claras das vulnerabilidades dos ditos "desajustados" e ainda possibilita encontrar uma bela história sobre o amor. Fúsi funciona muito bem como um personagem disfuncional e há uma graciosidade na forma como ele é, mesmo que não seja fisicamente e nem intelectualmente atrativo, ele tem a capacidade de surpreender com belos gestos, principalmente quando conhece Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir) em uma aula de dança. Ela, uma depressiva bem instável, teria de tudo para afastar qualquer homem, entretanto esses dois desajustados aos olhos da sociedade que prega um ideal midiático de perfeição, de beleza e de sucesso são mais perfeitos do que os padrões.



E qual é a magia? Eles são solitários e cada cena é um pedaço especial dessa poética vulnerabilidade que há na solidão e nos encontros e desencontros que a vida lhes reserva. A atuação de Gunnar Jónsson é positiva para  a proposta narrativa porque ele transita bem entre a comédia e o drama, despertando o riso e a compaixão. Esse efeito cômico dramático é muito eficiente para criar uma empatia com o personagem.







Mesmo que Fúsi pareça um personagem bobo demais, sem grandes reações emocionais e que facilmente seria diagnosticado como uma pessoa com algum transtorno mental e presa fácil para constantes rejeições, "Desajustados" é muito mais do que só a superfície de seu protagonista. É um filme sobre o amor e o afeto.  É um filme sobre o primeiro amor ainda que tardio. É um filme sobre a aceitação do outro, sobre cultivar a doação incondicional independente de fragilidades e frustrações afetivas. O significado do amor está aqui.


Fúsi tem a capacidade de amar que muitos homens mais bonitos e desejáveis não têm. Isso já basta para o público encontrar uma história que cativa por mostrar que amar é muito mais do que explodir de paixão como fogos de artifícios  e deixar-se apaixonar por uma aparência física ou vigor intelectual, amar é cuidar do outro, estar presente e compreender a sua solidão.





Ficha técnica do filme Imdb  "Desajustados"
Distribuição: Imovision

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