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Filho biológico ou filho adotivo? Um nevrálgico dilema em Pais e Filhos
O cineasta insere na narrativa famílias bem diferentes, tanto do ponto de vista comportamental como o econômico - social e constrói o filme com locações e características cenográficas que marcam o mundo particular de cada família, o que mais adiante demonstra que dinheiro e educação não é tudo quando o assunto é Amor. De um lado, Ryota Nonomiya (Masaharu Fukuyama), casado com Midori (Machiko Ono) e pai de Keita (Keita Ninomiya), é um bem sucedido executivo, um homem mais racional. Ele teve uma relação distante com o pai e não é capaz de fazer grandes demonstrações de afeto. Ambos vivem em um apartamento mais impessoal que parece um quarto de hotel. Do outro lado, Yudai Saiki (Rirî Furankî) tem como esposa Yukari (Yôko Maki), é um homem mais rústico e engraçado. Eles vivem na periferia em uma minúscula e bagunçada casa na qual ele mantém sua própria oficina e tem como filho Ryusei (Shôgen Hwang) e mais duas crianças. É uma família mais informal, alegre. A partir desse antagonismo, o expectador já nota que há um conflito de adaptação, porém com a sensibilidade e habilidades técnica e narrativa de Hirokazu para contar histórias sobre relações humanas, o filme é fascinante. Pais e Filhos é singular pois o diretor toca nas emoções sem dilacerar as feridas e aumentar os sangramentos.
É um filme muito bonito, profundo e, o melhor, singelo. Tecnicamente, é também interessante no roteiro e na direção de atores e comprova que o cineasta é um expert e estudioso do universo familiar e infantil. O elenco tem performances de excepcional realismo e entregam na medida certa o respeito, compaixão e fraternidade necessárias. Ainda que o dilema seja polêmico, o expectador não é bombardeado com um drama agressivo, com discussões e brigas danosas entre as famílias. Fazer isso seria o lugar comum em um roteiro mais ocidental, porém, felizmente, o espírito da cultura japonesa tem uma profundidade mais emotiva. Mesmo quando as emoções parecem tão contidas, elas estão lá. Existe a dor da descoberta e da adaptação, mas ela é compartilhada com o público de uma forma fraterna, portanto, é natural o dilema ser delicado porque ambas as famílias se respeitam e conquistam a empatia do público. Um traço da qualidade da direção de Hirokazu nesse longa é a sua impressionante capacidade de entender de relações humanas, conduzir o expectador para o cotidiano dessas famílias e colocar um elemento primoroso e intangível que é a solidariedade entre elas. Há situações bem humoradas e mais introspectivas que tornam o drama mais espontâneo e, mesmo nas cenas de maior embate, é recorrente o clima de empatia entre as famílias, afinal, a dor não é só de uma delas, a dor é de ambas.
Desde que eles sabem da notícia de que Keita é filho biológico dos Saiki e Ryusei dos Nonomiyas, há uma troca temporária de filhos para que possam tomar uma decisão do futuro das crianças. Embora desenvolva o filme com o dia a dia das famílias, o diretor foca mais em uma camada: como Ryota lida com o conflito, o que representa uma excelente escolha narrativa. Era necessário desenvolver mais esse personagem para que o filme contasse a melhor parte história: a da relação entre pais e filhos e o que é relevante independente das circunstâncias. Ryota é o típico executivo que não teve uma boa relação com o pai e se esforçou muito para provar a si mesmo ser capaz de ser um bom pai e provedor financeiro para a sua família. Receber a notícia de que Keita não é seu filho biológico desestrutura o seu mundo formal e estruturado, além de ir contra o seu perfil mais normativo e individualista; com isso, ele terá uma jornada de transformação como pai, que garante momentos tocantes e inesquecíveis para o público. Exemplos como este evidenciam que o cineasta fez um belo trabalho de drama familiar. Como um mágico que vai sacando uma surpresa da cartola, Hirokazu mostra que a magia do Cinema está no cotidiano de tantas pessoas e histórias.
Ficha técnica no Imdb
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Mostra 2013 : El Crítico (2013)
A narrativa é muito bem construída em um contexto metalinguístico, tanto sob a perspectiva da história e construção dos planos como do desenvolvimento do personagem e da transformação do protagonista: Téllez (Rafael Spregelburd) é um renomado crítico de Cinema, que odeia as comédias românticas. O bem humorado roteiro enfatiza em variadas cenas que, além de Téllez ter aversão à esse gênero, ele é um homem de personalidade austera, um racional crítico da vida que opina negativamente além do Cinema, ou seja, faz o papel natural de "dono da verdade", com uma leve e natural arrogância na argumentação que, infelizmente, é um comportamento de muitos críticos. Com esse jeito de ser, ele não se abre o suficiente para as relações afetivas e para a sensibilidade. Ao ter problemas financeiros, é obrigada a fazer coisas que não gosta como se arriscar a escrever um roteiro comercial, depender de familiares e da espera pelo aluguel de um apartamento. O interesse por um novo imóvel será o ponto de convergência entre ele e um romance, de acaso romântico que mudará sua forma de ver o amor, assim como ocorre nas comédias românticas.
Mesmo com esses atributos, Téllez é um sujeito divertido e muito bem interpretado pelo ótimo Rafael, que consegue dar verossimilhança aos clichês de um crítico, inclusive ao carregar a clássica mochila nas costas, ter uma aparência nada vaidosa, ser desajeitado com as mulheres e dar cotação mínima a filmes que não lhe agradam. Tudo isso contribui para as risadas, mas a grande sacada do roteiro é que o crítico se apaixona pela bela Sofia (Dolores Fonzi), uma cleptomaníaca , o oposto dele. Ao se apaixonar, ele vive uma comédia romântica na pele e, como um gênero em busca de vingança, ele provará de emoções e dilemas que criticava antes. Essa ideia é muito original para uma ficção e, na cinematografia Argentina, ficou com um saboroso gosto de bom Cinema que é capaz de se comunicar com o público. Traz à memória da plateia cenas nostálgicas de filmes românticos e cria uma história de paixão entre duas pessoas bem diferentes, mas também quebra a austeridade de uma crítica que precisa ser sensível até aos gêneros considerados menores por boa parte deles. É um filme imperdível na forma como Hernán conseguiu usar os padrões da comédia romântica e brincar com eles de uma forma leve e que leva à reflexão de que, não importa ter o conhecimento de n teorias de Cinema e cinematografias, no final das contas, Cinema é apaixonar-se por Cinema.
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