segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Deboche, sexo desenfreado e vazio existencial em Ninfomaníaca - parte I







Filmes sobre viciados em sexo são um instigante laboratório antropológico para analisar como funciona essas pessoas e demonstram como transas desenfreadas são um hábito masoquista sem necessariamente ter sexo sadomasoquista. É interessante notar que o sexo tem esse poder de dar prazer e dor ao mesmo tempo, dependendo de como funciona a mente de quem o faz. Boa parte da cinematografia sobre erotismo tem no sexo um analgésico contra a dor existencial e, principalmente, para celebrar o amor e  o prazer, mas  quando se fala em Ninfomaníaca - parte 1, de Lars von Trier, não estamos falando de erotismo e sim de um drama no qual o sexo é debochado, seco, sem limites. Embora seja tão importante como "personagem", o sexo não tem uma função tão nobre nesses filmes pois ele só ressalta que o vazio existencial ainda continuará lá, mesmo após participar de um bacanal e destruir um casamento. Não há sentimento mútuo e o que importa é o "vamos transar. Você não precisa me dizer mais nada".

Dentre filmes que abordam viciados em sexo, um dos melhores é Shame, de Steve Mcqueen, no qual Michael Fassbender interpreta um homem viciado em sexo.  Ainda que ele seja bem mais dramático e realista do que Ninfomaníaca - parte 1 e eles tenham estruturas narrativas bem distintas, ambos tratam do dramas dos viciados em sexo. A trágica realidade dos filmes é que abordam muita luxúria e sexo livre e mecânico para não chegar a lugar algum, a diferença é que Lars von Trier se divertiu bem mais ao dirigir seu polêmico filme. Ele debocha e faz um humor ácido em meio à tragédia de Joe (Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin) que conta sua trajetória sexual à Seligman (Stellan Skargard) desde que ela começou as primeiras brincadeiras como criança e perdeu a virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), seu primeiro amor. Com uma narrativa dividida em capítulos e típicas "viagens" do diretor que usa um roteiro com elementos como música e pescaria, Lars faz um filme razoável com cenas de sexo bem montadas e excelentes atuações de Uma Thurman, Shia LaBeouf e Stacy Martin , mas não tão polêmico como os ruídos antes de sua estreia. Além de apresentar alguns problemas de fluidez na montagem e pouco desenvolvimento na personagem principal, provavelmente a melhor parte está por vir na sua sequência. Pelo menos, o desfecho do primeiro fragmento foi tão tragicômico que a curiosidade é recorrente.

O sexo pelo sexo não é uma novidade. É um transtorno psiquiátrico como tantos outros que existem e talvez muitas mulheres tenha fases temporárias de ninfomania trocando somente o objeto de sua compulsão, outras devem ser viciadas em sexo e não tenham se dado conta pois não se reconhecem como tal, por desconhecimento, vergonha ou questões morais. Em algum momento, o mote "Esqueça o amor" tenha feito parte da vida de alguém e é muito fácil se tornar uma pessoa vazia após muitas transas livres e visando somente a sustentação do vício. Talvez a decepção , como a que Joe teve com Jerôme, seja o catalisador de tanto sexo desenfreado já que muitas mulheres buscam uma satisfação sexual em vários parceiros e que nem sempre é atendida. Quem nunca teve vontade de transar livremente após levar um fôra ou após o rompimento de uma relacionamento e quando se deu conta, já tinha vários parceiros sexuais? Quem nunca teve vontade de não ter compromisso com o amor e ter sexo com várias pessoas diferentes? Quem nunca quis esquecer o amor? Quem nunca se decepcionou após ser tratado em uma transa como um pedaço de carne? Essas perguntas são naturais ao assistir Ninfomaníaca, principalmente para mulheres que possam vir a criar um processo de identificação com Joe na busca compulsiva por prazer. É provável que vivamos em um mundo no qual ser viciado em sexo não é mais tão polêmico assim, então por que não ver o riso e a tragédia no filme? No final, muitos continuam  sozinhos em uma cama em troca de orgasmos que nem sempre acontecem.

O que vale no longa é analisar que a ninfomaníaca não tem controle sobre si mesma e pensa que é uma pecadora por causa do seu vício, o que a leva a desabafar ou procurar ajuda, portanto, não é uma pessoa má, é uma pessoa doente. Mulheres podem ficar psicologicamente enfermas de uma hora  para outra quando o sexo sem afeto passa a ocupar integralmente a sua vida como uma compulsão. Outras já são viciadas em sexo desde as primeiras experiências com impulsos compulsivos.  Em uma das cenas do trem, no qual Joe sabe da importância de um homem não gozar naquele momento, ela continua na sua missão de transar com ele em troca de uma aposta com uma amiga. Aquela cena dá uma dimensão exata de que  não importa de quem seja o pênis, Joe não abre mão de uma presa. É algo natural e incontrolável para ela como uma adolescente que deseja seguir uma atitude destrutiva. Mais adiante, com o desenvolvimento do diálogo entre Seligman e Joe, fica evidente de que, ainda que ela não tenha tanta consciência de sua humanidade, ela já teve sentimentos amorosos, um sentimento por Jerôme que poderia ser a cura mas que, como toda faca de dois gumes, pode reforçar o vazio existencial assim como foi a sua perda de virgindade, que aconteceu como se ela fosse um nada como mulher.

O filme diz: "O ingrediente secreto do sexo é o amor" mas não se esquiva do "Esqueça o amor", como se o sexo e o amor fossem irreconciliáveis para um compulsivo por sexo. De fato, talvez seja até que uma cura seja possível. Daí vêm as várias indagações que cercam a curiosidade sobre uma ninfomania:  A ausência do amor cria novas viciadas em sexo? Se o amor é o sentido de uma relação a dois,  a falta dele traz o mesmo vazio que transar livremente e sem compromisso? Uma adicta por sexo pode amar e continuar sua compulsão em uma relação aberta? Uma viciada em sexo pode ter uma existência menos trágica? Ninfas modernas estão encarceradas em seu vício sexual para sempre? Com a bela cena final de sexo entre Jerôme e Joe e as últimas palavras da ninfomaníaca, tudo é possível na parte 2.





Ficha técnica no Imdb

Um comentário:

  1. Ótima análise madame. O amor amor é o ingrediente secreto do sexo e ao perceber-se desviada da convenção na cena final deste primeiro volume, Joe se desesperada. A grande beleza desse primeiro filme, desconfio que gostei mais do que vc, é que Von Trier discute nossa relação com o sexo, a moral inerente a ele. O fato dos personagens serem meros arquétipos com pouco oxigênio me incomoda, mas suspeito que essa "defasagem" será menorada no segundo volume.
    Bjs

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