terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Filho biológico ou filho adotivo? Um nevrálgico dilema em Pais e Filhos



Um dos filmes de destaque da última Mostra de Cinema Internacional em São Paulo é  Pais e Filhos (Soschite chichi ni naru, 2013), do diretor e roteirista japonês Hirokazu Koreeda,  vencedor do melhor prêmio do Júri em Cannes. O delicado drama aborda a troca de bebês e a controversa decisão da troca das crianças biológicas, o que impacta a vida de duas famílias. Nesse roteiro, o conflito central se torna mais nevrálgico porque a troca de bebês aconteceu há 6 anos atrás por um equívoco do hospital. Pais e filhos já se adaptaram às suas famílias e já tem hábitos e rotinas bem diferentes. O mais doloroso é que o vínculo afetivo já foi desenvolvido, logo, após receber um telefonema do hospital, o choque: o filho que você criou há anos não é seu filho biológico! Como enfrentar essa situação?


O cineasta insere na narrativa famílias bem diferentes, tanto do ponto de vista comportamental como o econômico - social e constrói o filme com locações e características cenográficas que marcam o mundo particular de cada família, o que mais adiante demonstra que dinheiro e educação não é tudo quando o assunto é  Amor. De um lado,  Ryota Nonomiya  (Masaharu Fukuyama), casado com Midori (Machiko Ono) e pai de Keita (Keita Ninomiya), é um bem sucedido executivo, um homem mais racional. Ele teve uma relação distante com o pai e não é capaz de fazer grandes demonstrações de afeto. Ambos vivem em um apartamento mais impessoal que parece um quarto de hotel. Do outro lado, Yudai Saiki (Rirî Furankî) tem como esposa Yukari (Yôko Maki), é um homem mais rústico e engraçado. Eles vivem na periferia em uma minúscula e bagunçada casa na qual ele mantém sua própria oficina  e tem como filho Ryusei (Shôgen  Hwang) e mais duas crianças. É uma família mais informal, alegre. A partir desse antagonismo, o expectador já nota que há um conflito de adaptação, porém com a sensibilidade e habilidades técnica e narrativa de Hirokazu para contar histórias sobre relações humanas, o filme é fascinante. Pais e Filhos é singular pois o diretor toca nas emoções sem dilacerar as feridas e aumentar os sangramentos. 


É um filme muito bonito, profundo e, o melhor, singelo. Tecnicamente, é também interessante no roteiro e na direção de atores e comprova que o cineasta é um expert e estudioso do universo familiar e infantil. O elenco tem performances de excepcional realismo e entregam na medida certa o respeito, compaixão e fraternidade necessárias. Ainda que o dilema seja polêmico, o expectador não é bombardeado com um drama agressivo, com discussões e brigas danosas  entre as famílias. Fazer isso seria o lugar comum em um roteiro mais ocidental, porém, felizmente, o espírito da cultura japonesa tem uma profundidade mais emotiva. Mesmo quando as emoções parecem tão contidas, elas estão lá. Existe a dor da descoberta e da adaptação, mas ela é compartilhada com o público de uma forma fraterna, portanto, é natural o dilema ser delicado porque ambas as famílias se respeitam e conquistam a empatia do público.  Um traço da qualidade da direção de Hirokazu nesse longa é a sua impressionante capacidade de entender de relações humanas, conduzir o expectador para o cotidiano dessas famílias e colocar um elemento primoroso e intangível que é a solidariedade entre elas. Há situações bem humoradas e mais introspectivas que tornam o drama mais espontâneo e, mesmo nas cenas de maior embate, é recorrente o clima  de empatia entre as famílias, afinal, a dor não é só de uma delas, a dor é de ambas. 


Desde que eles sabem da notícia de que Keita é filho biológico dos Saiki e Ryusei dos  Nonomiyas, há uma troca temporária de filhos para que possam tomar uma decisão do futuro das crianças. Embora desenvolva o filme com o dia a dia das famílias, o diretor foca mais em uma camada: como Ryota lida com o conflito, o que representa uma excelente escolha narrativa. Era necessário desenvolver mais esse personagem para que o filme contasse a melhor parte história: a da relação entre pais e filhos e o que é relevante independente das circunstâncias. Ryota é o típico executivo que não teve uma boa relação com o pai e se esforçou muito para provar a si mesmo ser capaz de ser um bom pai e provedor financeiro para a sua família. Receber a notícia de que Keita não é seu filho biológico desestrutura o seu mundo formal e estruturado, além de ir contra o seu perfil mais normativo e individualista; com isso, ele terá  uma jornada de transformação como pai, que garante momentos tocantes e inesquecíveis para o público. Exemplos como este evidenciam que o cineasta fez um belo trabalho de drama familiar. Como um mágico que vai sacando uma surpresa da cartola,  Hirokazu mostra que a  magia do Cinema está no cotidiano de tantas pessoas e histórias.






Ficha técnica no Imdb

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