Vidas amargas , clássico do talentoso cineasta Elia Kazan, um dos mestres inspiradores de Martin Scorsese, é um belo e atemporal filme que ...






Vidas amargas, clássico do talentoso cineasta Elia Kazan, um dos mestres inspiradores de Martin Scorsese, é um belo e atemporal filme que reconstrói a história bíblica de Caim e Abel, o filho rejeitado e o filho amado. Adaptado do livro East of Eden, do aclamado escritor Nobel de Literatura John Steinbeck, o roteiro carrega no seu âmgo a amargura e a inadptabilidade do filho rebelde, a ovelha negra familiar, que é ignorada pelo pai e cujos esforços para se adequar ao desejo paterno parecem em vão e nada reconhecidos. O fascinante e eterno jovem transviado, o ator James Dean, no ápice de sua meteórica carreira e prematura morte, vítima de acidente automobilístico, é o filho protagonista feito sob medida para esse catártico e maduro drama familiar, facilmente aplicável a qualquer tempo e a qualquer filho que sofre em busca de aceitação dos pais. No entanto, o filme é muito mais do que somente o drama de um filho, ele é o confronto entre a rebeldia e o tradicionalismo, entre gerações de filhos e pais, entre a negação de olhar a verdade e a revelação de obscuros segredos familiares e, por fim, a jornada de amadurecimento, redenção e perdão de um jovem que se enquadra bem mais como o filho heroi autêntico, sem máscaras e convenções, do que aquele que é brilhante em (quase) tudo.







Ambientada em Salinas, Vale na região da Califórnia, no período da 1º Guerra Mundial, Vidas Amargas conta a história do rebelde Cal Trask (James Dean) que vive com seu irmão perfeito Aaron (Richard Davalos) e seu pai Adam (Raymond Massey) em um rancho. Não tiveram a convivência com a mãe que morreu quando deu à luz aos irmãos, porém logo no inicio é sabido por Cal que Kate (Jo Van Fleet) é a mãe que está viva e os abandonou por ter uma atitude menos convencional para a época e se recusar a viver em um rancho sob as redeas de um homem tradicional e sem ambição. Adam é o homem religioso e de negócios que se empenha em produzir alface e prover uma educação rígida aos filhos. Enquanto Carl é o filho problema, a narrativa reforça o contraponto dele em Aaron, que tem o temperamento brando, diplomático, de futuro e que pretende formar família ao lado da noiva Abra (Julie Harris). Logo no início da esplêndida fita, na sequência de Overture (Abertura), o expectador vivencia o clima de suspense ao apreciar a imagem do mar, das ondas batendo nas rochas, como se aquele local fosse significativo para entender as fronteiras que separam essas vidas amargas. Mais adiante, a dramática história dos Trask não está somente na tensa relação entre Cal e Adam, mas também na verdade que está oculta com relação à Kate, a mãe rebelde, fria e imponente, cujos genes Cal herdou.











Esse é um clássico essencial na filmografia de Kazan, denso e complexo em sua verve psicológica para a época, porque afloram nele o drama na sua mais genuína veia passional, além de colocar sob o elenco a responsabilidade da verossimilhança com o cotidiano e com as emoções autodestrutivas que, enfim, também surgem como dolorosas e, depois, construtivas para evocar a valiosa humanidade intríseca aos individuos. Existem vários planos arrebatadores na película que ressaltam essa forma Elia Kazan de dirigir, ou seja, de provocar o embate ao máximo para que a catarse humana seja liberada sob fúria, violência, lágrimas, dor, sem soar como piegas e forçado. Esse olhar sob a humanidade, naturalmente dual, é tão sublime em outros filmes como Uma rua chamada pecado, Sindicato dos ladrões, clamor do sexo etc, que Vidas Amargas só vem a agregar mais valor à experiência de vida que é vivenciada com os dramas do diretor. Eles revelam as emoções que não são desejáveis revelar ou permitir sentí-las. Elas refletem como um espelho na vida do espectador, um espelho cujo reflexo é difícil de encarar porque pode ser monstruoso. É possível odiar o irmão, a mãe, o pai? É possível amá-los e odiá-los ao mesmo tempo? É possível perdoar pelo abandono? É possível liberar perdão por algo que não se aceita? Sentimentos diversos, violentos e amargos, vêm à tona e o roteiro e elenco são responsáveis por uma parte significativa da magnitude e beleza desse longa como puro Cinema, no qual também é incorporado um ingrediente de guerra que é fundamental para entender porquê Cal se esforça para ajudar o seu pai e amadurecer como homem.







O elenco é muito bem desenvolvido e muito interessante no seu espectro de personalidades que, a qualquer momento, revelam quem realmente são ou não, como um mistério que pode ser o bem e o mal, ou ambos. Tudo é ao mesmo tempo nítido e passível de ser desdobrado em camadas para entender a alma humana. Jo Van Fleet, excelente atriz nesse papel, incorpora uma mulher fisicamente apavorante com o rosto marcado por uma certa malignidade, uma solidão bem resolvida, uma maternidade que nunca existiu, uma independência sem arrependimentos. Personagens como o dela provocam sentimentos dúbios e enriquecedores para reflexão pois ela abandonou os próprios filhos e o marido em troca de uma liberdade que gritava dentro de si. Também, Raymond Massey interpreta a si mesmo em cena, um homem autoritário, tradicional, religioso que, em certas cenas, demonstra sua doçura paterna assim como sua vulnerabilidade de homem abandonado. Com Massey e Dean está uma das mais dramáticas cenas de pai e filho na história do Cinema, que só confirma o quanto ele não suportava o jovem Dean na vida real. Julie Harris, em ótima atuação, exibe uma garota sonhadora, madura e nada inocente, embora a 'casca' seja de namorada amada, de nora de boa índole, de mulher para casar, há algo suspeito na jovem que parece menina mulher, ora manipuladora, ora carinhosa amiga. Ela tem uma impetuosidade dentro de si, que é liberada a medida que flerta e se envolve com o cunhado Cal. Richard Davalos também está bem como Aaron porque é pateticamente perfeito, chegando a ser o garoto que não tem voz para nada e, portanto, passaria desapercebido na película. De todos, além de Jo Van Fleet, como uma essencial coadjuvante, o protagonista de brilho é James Dean, em atuação marcante que foi indicada ao Oscar postumamente.









Dean é a expressão da 'imperfeição perfeita' pois erra e acerta em vários níveis, como o jovem que transgride qualquer regra paterna, e ainda guarda o carisma excepcional que atrai todos à sua frágil rebeldia: chora e grita pela mãe que o expulsa como a um ladrão, rouba uma calha de trem com boa intenção, beija a namorada do irmão por estar apaixonado, negocia com a mãe para ajudar o pai, enfrenta raivosamente o irmão com a verdade. As fronteiras que separam essas vidas são fragéis, mas as emoções são fortes, intensas, principalmente as que são como um pedido de socorro de Cal. Ciúme, raiva, rejeição se misturam com a esperança da aceitação e, eis que o filme é puro fascínio, expondo que o ser humano é muito mais complexo e imperfeito do que imagina ser, que o grotesco e o macabro em cada personalidade existe, mas que há a possibilidade de encontrar esse paraíso ao leste, terra de Cains regenerados, ainda que o coração tenha turbulentas emoções e amargas cicatrizes.





Avaliação MaDameLumière







Título original: East of Eden





Origem: USA
Gênero: Drama
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Paul Osborn
Elenco: James Dean, Raymond Massey, Jo Van Fleet, Julie Harris, Richard Davalos.

A cada ano, novos documentários chegam às telas do Cinema e conquistam pela autenticidade do registro, por explorar um pouco mais da históri...



A cada ano, novos documentários chegam às telas do Cinema e conquistam pela autenticidade do registro, por explorar um pouco mais da história de pessoas comuns e famosas que constroem suas realidades nesse mundo que, por si só, é um macro documentário. Nessa categoria que vem sendo muito bem apreciada por Madame Lumière, optei por selecionar os documentários cujo registro fica no campo mais não ficcional, incluindo o de Ana Rieper (Vou rifar meu coração) que obteve mais destaque na Mostra de Cinema São Paulo, CCBB e Festival de Brasília. Coincidentemente, a música foi um personagem na maioria dos documentários escolhidos, sempre inspiradora e nostálgica. Destaco também, como menções honrosas, os diretores Sergio Borges e João Jardim, respectivamente, por dirigem híbridos de documentário e ficção, respectivamente, em O céu sobre os ombros e Amor?. Eles não entraram como documentário puro, mas já demonstram que as fronteiras entre ficção e não ficção têm rendido excelentes longas, o reconhecimento do público e da crítica e uma nova forma de fazer Cinema Brasileiro.






5 - Eu vou rifar meu coração, de Ana Rieper


Um documentário que fala do amor e das canções bregas que emplacaram as histórias passionais, afetivas, eróticas no cotidiano e imaginário dos brasileiros. Além de apresentações e testemunhos de Wando, Amado Batista, Lindomar Castilho, Agnaldo Timóteo etc, essa não-ficção diverte e emociona pois demonstra que as pessoas amam de uma forma que, pouco importa se é brega ou não, doida ou não, o importante é amar muito e não ter vergonha disso.






4 - Filhos de João, o admirável mundo novo baiano, de Henrique Dantas


Um ótimo retrato de uma época marcante na música popular Brasileira: anos 60 e 70 com o grupo musical Novos Baianos em um contexto de ditadura militar. O imensurável legado cultural está no filme com temas como o tropicalismo, o futebol, a contracultura, o estilo alternativo e comunitário dos Novos Baianos. Muito mais do que fazer música boa e autêntica, com a veia da Brasilinidade, o grupo Novos Baianos é parte da História cultural do Brasil em uma época de represssão, no qual os artistas abriam os caminhos da liberdade com paixão pela Arte.







3 - Rock Brasília: Era de Ouro, de Vladimir Carvalho



Para quem viveu a geração Legião Urbana, provavelmente se emocionará muito com esse documentário que registra uma jornada nostálgica ao rock dos anos 80. Nostalgia é uma palavra essencial para essa época, cheia de significados militantes e inspiracionais em um documentário que recupera a verve de desejos e sonhos de uma juventude única existente no país.





2 - As Canções, de Eduardo Coutinho


O documentário é fascinante. É uma verdadeira declaração de amor às canções que marcam a vida afetiva de várias pessoas, através de testemunhos intimistas, impregnados de verdade e sensibilidade e músicas entoadas por elas mesmas. O diretor Eduardo Coutinho, com seu toque de Midas, experiente e cativante, faz de As canções um documentário obrigatório a todos que gostam de uma autêntica emoção amorosa através da música e da memória.




1 - Lixo Extraordinário, de Lucy Walker


Belo documentário que tem sua força no contraste com o lixo, elemento rejeitado pela sociedade e tido como fétido e descartável, aqui ele se apresenta como um meio para a beleza artística, a qual se produzirá através dele e do trabalho do artista plástico Vic Muniz. No filme, o lixo é extraordinário e assume um valor imensurável que traz trabalho e dignidade a cidadãos humildes e um espírito de mudança de vida através da Arte e da solidariedade.

Foram anunciados hoje os indicados à 5ª edição do Blog de Ouro, organizado pela SBBC - Sociedade Brasileira dos Blogueiros Cinéfilos. No tot...


Foram anunciados hoje os indicados à 5ª edição do Blog de Ouro, organizado pela SBBC - Sociedade Brasileira dos Blogueiros Cinéfilos. No total, 62 blogueiros associados, incluindo o Madame Lumière participaram desse grande momento de celebração da blogosfera cinéfila que selecionou o que houve de melhor no Cinema 2011.
Para o Madame, foi um prazer participar dessa votação pelo primeiro ano e ver que, nós, amantes da sétima arte, prestigiamos o cinema de excelência,com amor e senso crítico que preza pela qualidade. Parabéns a toda a SBBC pela organização e comprometimento com essa premiação.
Confira os finalistas na home page da SBBC.

As canções, por Eduardo Coutinho merece muitas honras! Em uma categoria concorridíssima e de dificil eleição, esta foi a mais desafiadora na...






As canções, por Eduardo Coutinho merece muitas honras!


Em uma categoria concorridíssima e de dificil eleição, esta foi a mais desafiadora na retrospectiva do Cinema Nacional do blog, o que é uma prova de que nossos diretores são talentosos e têm realizado excelentes trabalhos. Madame Lumière gostaria de parabenizar todos os diretores brasileiros que engradeceram o Cinema Nacional em 2011 como os trabalhos de Marcos Dutra & Juliana Rojas em Trabalhar Cansa, Toniko Mello em Vips, Rosane Svartman em Desenrola, Marcus Baldini em Bruna Surfistinha, André Ristum em Meu País, Claudio Torres em O homem do futuro, Sérgio Borges em O Céu sobre os ombros, entre outros.





5 - João Jardim, por Amor?



"Uma direção que harmoniza a ficção e o documental, a poesia do visual com a realidade crua dos relatos, a bela fotografia com a consistente interpretação dos atores."









4 - Eryk Rocha, por Transeunte



"Uma direção que transita entre o intimismo, a solidão e a introspecção de um protagonista e a velocidade da vida urbana. O belo olhar de um cineasta sobre a modernidade de homens anônimos."









3 - Gustavo Pizzi, por Riscado


"Uma direção bem conjugada com o roteiro e com a direção de atores. Trabalha a favor de um filme de momentos visuais únicos que celebram o amor pelo trabalho de uma atriz, pelo cinema, pela Arte e não se distancia dos desafios dessa dura realidade."










2 - Jeferson De, por Bróder




"Uma direção que demonstra identidade e afeto. De forma consistente e muito focada, o talentoso cineasta demonstra que sabe contar uma história afetuosa de família e de amigos e realiza uma ótima direção de atores na qual uma protagonista resplandece: a periferia de São Paulo."













1 - Selton Mello, por O Palhaço




"Uma direção completa que reune e maximiza a beleza de vários elementos e a catártica temática da crise da identidade de um palhaço. Do roteiro a fotografia, do elenco a direção de arte, o diretor demonstra um trabalho maduro e consistente que emociona com o riso e com as lágrimas."



Menção Honrosa










Eduardo Coutinho, por Canções




"Com as canções, o cineasta emociona atráves da música e de relatos marcantes de pessoas que tem histórias por trás das canções. Uma direção experiente que conduz o documentário de forma espontânea como deve ser e tão emocionante como o cinema é capaz."







5 -Newton Cannito e Jeferson De , Bróder "Roteiro bem estruturado de forma a valorizar os laços familiares e de amizade, os diferentes ...


5 -Newton Cannito e Jeferson De, Bróder

"Roteiro bem estruturado de forma a valorizar os laços familiares e de amizade, os diferentes destinos de 3 amigos, a periferia de SP, a questão da identidade e o afeto. Conciso e amoroso!"





4 -Eryk Rocha e Manuela Dias, Transeunte

"Roteiro que se destaca pelo intimismo de um cotidiano solitário e instrospectivo de tantos anônimos urbanos, o que traz à experiência cinematográfico a dicotomia de que homem é uma ilha em uma selva urbana."




3 -Claudio Torres, O homem do futuro


"Roteiro que harmoniza bem romance, ficção científica e comédia, com um toque criativo e de nostalgia, que é contagiante e cativante. Diverte e seduz pela bela história de amor!"






2 -Gustavo Pizzi e Karine Teles, Riscado


"Roteiro que evoca e favorece a proposta da narrativa. Trabalha a favor da protagonista, uma atriz em sua jornada desafiadora de atriz. Momentos espontâneos, simples e sublimes como o Cinema deve ter."





1 -Selton Mello e Marcelo Vindicatto, O Palhaço


"Um roteiro que é o casamento perfeito com a direção do filme, em uma bela sinergia que emociona o público através de risos e melancólicos olhares e silêncios. Também se destaca pela forma como apresenta a necessária necessidade de 'cair no mundo' e ter uma crise de identidade para se encontrar na vida."

5 - Cassia Kiss , Bróder "Mesmo em papéis coadjuvantes, a atriz é uma titã na interpretação em poucos planos. Como uma humilde mãe da p...


5 - Cassia Kiss, Bróder

"Mesmo em papéis coadjuvantes, a atriz é uma titã na interpretação em poucos planos. Como uma humilde mãe da periferia de São Paulo, mulher batalhadora e amorosa, ela traz o afeto que o filme evoca."




4 - Everlyn Barbin, O céu sobre os ombros

"Excelente presença na ficção documental de Sergio Borges, a atriz demonstra ao público que seu papel nao é um travesti que se prostitui, é de uma muher inteligente, divertida e autoconfiante que eleva a qualidade da película."



3 - Deborah Secco, Bruna Surfistinha

"A atriz aparece madura e concentrada em uma atuação muito mais desafiadora pela frequência e quantidade das cenas de sexo do que pelo personagem em si. Ela consegue atuar bem sem que seu papel caía em escancarada vulgaridade."



2 - Gilda Nomacce, Trabalhar cansa

"Uma atuação coadjuvante marcante que cativa pelo talento como mola principal e a experiência de quem tem uma base teatral. Com esse trabalho, ela entra em cena no cotidiano de um supermercado e fica na memória do Cinema Brasileiro."





1 - Karine Teles, Riscado


"Uma atuação sublime de uma talentosa atriz que vivencia a jornada de uma atriz. No papel de Bianca, ela enfrenta muitos desafios para viver sua própria Arte, em uma entrega apaixonante ao seu trabalho, uma verdadeira declaração de amor."


Menção Honrosa

Julia Lemmertz, Amor?




"Em alguns poucos minutos e, com muita maturidade, a atriz relata um verídico testemunho sobre amor, paixão, sexo, violência psicológica, maternidade, drogas, redenção. Um primor interpretativo em 35 mm!"

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