domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Novíssimo Testamento (Le tout nouveau testament) - 2015, de Jaco Van Dormael




Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



Na reconstrução de uma história ou um mito religioso através de elementos lúdicos e cômicos, uma das melhores opções é a escolha por uma dramédia, por mais sarcástica que ela seja. A combinação drama - comédia ajuda o diretor a falar sério com certa graça ou, até mesmo, falar com muita graça e pouca seriedade, dependendo da perspectiva e da construção da narrativa. No caso de "O Novissímo Testamento" (Le tout nouveau testament / The Brand New Testament), um dos destaques da Semana de realizadores do Festival de Cannes 2015, o diretor e roteirista Jaco Van Dormael brinca de reconstruir figuras como Deus, Jesus Cristo (também conhecido como "JC") e a Santa Ceia com os apóstolos e conta com uma abordagem naturalmente engraçada e familiar que até os mais religiosos não levarão tão a sério. 







Neste roteiro de bastante inspiração irônica e fantasiosa, Deus (Benoit Poelvoorde) vive como um homem comum e mora em Bruxelas. É um homem insuportável, mal humorado e sádico que, em uma privativa sala com seu computador divino, faz de tudo para atormentar a humanidade, criando várias situações cotidianas que continuamente tiram os homens do sério. Para contrariá-lo ainda mais, ele tem uma filha de 10 anos que se rebela contra ele e não suporta a forma como ele trata a mãe (Yoland Moreau) e as pessoas em geral. Seu nome é EA ( a revelação Pili Groyne, de "Dois dias , uma noite" dos Irmãos Dardenne) que vem a acrescentar um outro tipo de tratamento à humanidade e à história bíblica. Ela será a heroína que chega para desequilibrar a ordem do Pai autoritário e para iniciar o conflito para a transformação. Desta forma, o longa apresenta muito mais a jornada pelo olhos de uma criança que é capaz de ser o ponto de contato com os novos apóstolos. Deus vira coadjuvante.







No desenvolvimento da história, pode-se dizer que Van Dormael começa muito bem, tem um momento que perde o "ponto do caldo", e posteriormente retoma o propósito da reconstrução do "Novíssimo testamento" terminando a história com uma bela mensagem. Inicialmente, colocar Poelvoorde como Deus foi um acerto não apenas pela sua experiência cômica mas pelo fato do ator saber escancarar personagens excêntricos e/ou muito estranhos. Por vários momentos, este Deus encarnado por Poelvoorde é odiável porque ele é extremamente humano, exagerado, intolerante e falho. São nestes momentos que o roteiro ajuda nas seguintes indagações: "Por que um Deus precisa ser autoritário ou ter todo o controle?", "Por que as pessoas precisam acreditar que Ele comanda tudo ao invés de acreditarem que são elas que aperfeiçoam determinada fé e são responsáveis por suas vidas?". A questão essencial do filme não é questionar  a religião Cristã com crítica ácida, mas tocar em um ponto relevante de que o ser humano tem livre arbítrio. 









Apesar de certos absurdos em cena como a participação de Catherine Deneuve que se envolve sexualmente com um gorila (pasmen! Ela merecia algo melhor!), no geral, os arcos dramáticos dos personagens são interessantes dentro da dinâmica da reconstrução do testamento após receberem uma notícia inusitada e que vazou do computador de Deus. Tanto ela como François (François Damiens) foram pouco desafiados nesta comédia já que eles têm bom repertório no Cinema, entretanto, suas histórias são sobre segundas chances e, nesta angústia e solidão do caos humano, a história exige deles novas posturas e decisões. Assim não é só o mito de Deus que é reconstruído mas também a humanidade torna-se protagonista enquanto Jesus Cristo é uma miniatura na casa de Deus.  São estas sacadas do roteiro que fazem a diferença nas sutilezas.








Desta forma, esta comédia apresenta graciosidade, irreverência e originalidade, assim como um um non sense  que está entrelaçado com a clareza de que o ser humano tem que ser mais ativo e menos fanático por religião.  Embora o roteiro se enrosque no meio da narrativa e perca um pouco do ritmo cômico, Jaco Van Dormael consegue impor uma visão lúdica, surreal e transformadora, muito mais otimista, suave e divertida.









Ficha técnica do filme ImDB Novíssimo Testamento 
Distribuição no Brasil: Imovision
Estreia no Brasil: 21 de Janeiro de 2016 - em cartaz Reserva Cultural





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