terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Spotlight : Segredos Revelados (2015), de Tom McCarthy


Indicado a melhor filme no Oscar 2016



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Dentre os filmes indicados à categoria de melhor filme no Oscar 2016, certamente “Spotlight: segredos relevados” é um dos mais completos em virtudes técnicas e foi concebido e executado para ser objetivo, pragmático e direto ao ponto, sem firulas, o que lhe garantiu outras indicações como melhor direção (Tom McCarthy), melhor ator coadjuvante (Mark Ruffalo), melhor atriz coadjuvante (Rachel McAdams), melhor roteiro original (Josh Singer e Tom McCarthy) e melhor edição (Tom McArdle).  Com tantos reconhecimentos nas premiações recentes, entre os quais, os prêmios de melhor roteiro original no BAFTA, melhor filme, roteiro e elenco no Boston Society of film critics awards e o SAG de elenco excepcional, “Spotlight” revela-se como um excelente filme sobre investigação jornalística com uma abordagem que evidencia a importância da liberdade de imprensa e da dedicação ao jornalismo com qualidade, obstinação e profissionalismo.







A história é baseada em um recorte cronológico real ocorrido com  jornalistas do Boston Globe no começo dos anos 2000 e conferiu-lhes o prêmio Pulitzer. Eles investigaram casos de pedofilia causados por padres católicos nos USA.  Com um ótimo senso de realismo e sem apelar para o “drama show” de expor a igreja católica com um approach narrativo muito agressivo, o diretor Tom McCarthy e o competente elenco formado por críveis atores como Michael Keaton, Liev Schreiber, Stanley Tucci, Mark Ruffalo, Rachel McAdams etc entregam um longa que preza por pontos muito fortes: roteiro, edição, direção e elenco, e faz o público perceber que não há santos debaixo do céu. O perigo do assédio sexual e toda a violência psicológica que ele causa está em toda a parte, inclusive nos lugares nos quais as pessoas deveriam estar seguras. Muitas delas são silenciadas por medo e vergonha.








Este roteiro, forte competidor a ganhar o Oscar, serve como um bom guia para retratar uma história investigativa e ele possibilita que o elenco trabalhe de uma forma ampla e, ao mesmo tempo, particular. Por quê? Porque todos os atores têm seu lugar ao sol. O desenvolvimento de personagens dá conta dá articulada interação entre eles e o desencadeamento das situações permite que cada um brilhe individualmente, muito bem apoiado por uma precisa montagem. Também os atores trabalham em prol da coerência e coesão da história como um todo. Todos, sem exceção, tanto que os coadjuvantes foram indicados ao Oscar e com méritos. Mark Ruffalo encarna tão perfeitamente o jornalista Mike Rezendes, totalmente focado na busca pela informação e com um sentimento de justiça. Michael Keaton como Walter “Robby” Robinson tem momentos relevantes para o papel de um jornalista, principalmente quando a mistura das dimensões pessoal x profissional resultam em dilemas e erros que nem sempre podem ser contornados facilmente.



A força narrativa de “Spotlight” está no que ele propõe como base argumentativa: a investigação realista e sem máscaras que, pouco a pouco, vai explorando as situações e provoca um contínuo e sutil mal estar, afinal, pensar que padres molestaram crianças é um assunto pesado e revoltante. Por Boston ser uma cidade tradicional nos Estados Unidos com uma comunidade católica, esta história foi um escândalo, entretanto, McCarthy acerta ao expor como a igreja teve manobras dissimuladas e cruéis para silenciar as vítimas e afastar os culpados. O pior crime é tratar o crime como algo normal. Era exatamente o que acontecia com os casos de pedofilia neste ambiente. Padres eram realmente afastados e acobertados e a sujeira jogada para debaixo do tapete.   Embora o roteiro pudesse ter atiçado um pouco mais a polêmica, seu tom suave e pé no chão é muito eficiente porque o elenco consegue entregar qualidade na atuação e preencher os espaços que, porventura, possam dar a impressão de que faltou algo.






Finalmente, um dos grandes ganhos da experiência da audiência com este filme é observar os bastidores do jornalismo, mais especificamente de um projeto investigativo de maiores proporções midiáticas e polêmicas no qual o vespeiro é lidar com uma instituição tradicional e poderosa como a igreja e com crimes que envolvem crianças. O clima aqui poderia ser muito pesado, mas não é porque o tratamento do roteiro é objetivo e pragmático. A história ocupa-se de mostrar como os jornalistas trabalharam com foco, como as responsabilidades foram divididas e as ideias e dilemas foram compartilhados.




O filme é um ótimo laboratório em formato audiovisual para analisar a missão jornalística. O filme traz certa nostalgia para quem é da área e sabe da importância da pesquisa e da estratégia comunicacional para lidar com tato com determinadas situações críticas. No passado, o jornalismo era levado mais a sério e existia uma análise mais profunda e reflexiva frente a um desafio editorial. Situações como apuração de dados e informações, influências diversas e abertura à confiança nas abordagens às vítimas, falhas profissionais  que impactam a constante correria e pressão de uma redação e da notícia em primeira mão são nítidas aqui, portanto, “Spotlight” é necessário a qualquer pessoa que valoriza este trabalho. Com relação ao Oscar, pode perder o de melhor filme apenas para “O Regresso” de Alejandro Iñarritu ou “Mad Max: Estrada da Fúria” de George Miller, seus principais concorrentes.




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