quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O quarto de Jack (Room, 2015), de Lenny Abrahamson





Indicado a melhor filme no Oscar 2016



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



Por mais doloroso que seja um impactante drama no Cinema, ele é mais fácil de ser compreendido quando enxergamos o mundo pelos olhos de uma criança. Ela consegue desenvolver uma empatia naturalmente em qualquer história, principalmente quando ela é inteligente, espontânea, sensível e inocente. É possível colocar-se em seu lugar e imaginar o que ela poderia pensar e sentir em um mundo real, mergulhada em seus pensamentos lúdicos e ingênuos, mas também atentos e surpreendentes. Isso é o que ocorre em “O quarto de Jack” (Room), um dos indicados a melhor filme no Oscar 2016 e com direção de Lenny Abrahamson, que tem como protagonista o talento nato Jacob Tremblay (Jack). Ao lado da vencedora do Globo de Ouro e do BAFTA 2016, Brie Larson, Tremblay realiza uma impressionante e madura atuação para sua idade.





Baseada no Best seller “Room” da escritora e roteirista Emma Donoghue, o longa conta a história de Jack, um menino de 5 anos que vive em um quarto de 10 m2 com a mãe (Larson). Desde que nasceu ele nunca viu o mundo lá fora. Vivem como prisioneiros, com poucos recursos financeiros e em um espaço sem janelas. Com este confinamento, o garoto aprendeu a ser bastante imaginativo e a criar seu próprio mundo. Como toda criança, ele chega a um ciclo de mudanças e fica cada vez mais curioso. Paralelamente, sua mãe toma uma decisão: elaborar um plano de fuga.







Falar muito sobre “O quarto de Jack” é retirar-lhe a magia e os grandes momentos de Jacob Tremblay e Brie Larson. O diferencial da história são as atuações e o que está por trás de cada palavra, silêncio, expressão. São eles que dão uma força dramatúrgica comovente a este drama simples e incomum. A relação é bonita e sincera entre eles e há uma química raramente vista nos filmes do gênero, muito em virtude de que ambos tiveram esta combinação única em cena.  Tremblay é muito natural nas expressões físicas e, até mesmo nas cenas mais desafiadoras, ele não é caricato. Tem carisma e simplicidade,  um jeito acessível, uma  inocência no olhar e na ação. Por outro lado, Brie Larson entrega um desempenho excepcional e é o contraponto de Jack não apenas por ser uma personagem adulta, mas também mais crua, sofrida, traumatizada, visualmente transtornada e abatida psicologicamente. Apesar disso, entre picos de rebeldia, vulnerabilidade e afetos  de ambos, Jack e sua mãe é uma equipe. Só têm um ao outro naquele decadente e claustrofóbico quarto. Esta relação ganha uma dimensão bastante afetuosa na tela, o que enriquece a proposta narrativa.





A história é muito interessante e atraente para um roteiro de Cinema. Embora não seja uma história rara, existe um toque original no roteiro, especialmente quando explora a narração em off de Jack e possibilita ao público compreendê-lo e imaginar como seria uma situação destas com uma pessoa que conhecemos. Além do mais, a mais degustativa experiência com o filme é como as pessoas reagem diante do desconhecido, de outros problemas que surgem quando outros se resolvem.  O drama da mãe e do filho é tratado sem alvoroço e com muita naturalidade, o que representa um excelente acerto. Também, a narrativa caracteriza-se como Cinema independente, da concepção do roteiro até o trabalho de movimentação de câmera, logo, não criará diversas situações tradicionais de dramas familiares. As que foram selecionadas, são críveis e tem um significado para o sofrimento e traumas desta família. Em uma das mais belas cenas, a mãe de Jack mostra ao filho uma foto na época que ela era adolescente. A intenção daquela cena é extremamente dolorosa quando pensamos em amigos, por onde eles andam e se lembram realmente de nós.





Abrahamson faz um bom trabalho de direção de atores, assim o drama está concorrendo nas categorias Melhor filme, melhor direção, melhor atriz e melhor roteiro adaptado no Oscar 2016. Certamente, Brie Larson vai ganhar este prêmio. Ela realiza um trabalho que toda a atriz deveria fazer: ela é muito real na personagem. Muito! Falha, perturbada, estranha, traumatizada como boa parte das pessoas que, em algum momento da vida, sofreram males que não podem ser esquecidos e com os quais têm que conviver. Por outro lado, há bastante humanidade nesta mãe.  Ela não é perfeita e ela fez de tudo pelo filho. Abriu mão de pensamentos destrutivos para proteger Jack quando, na verdade, sua história é muito triste.


Com fortes concorrentes no Oscar como “Perdido em Marte” e “A grande Aposta”, este roteiro não é sua fortaleza porque em certo ponto, a reviravolta foi tratada de forma fácil, simplista, o que soa como fictício demais para o realismo das atuações, entretanto isso não chega a afetar a competência do filme como drama. É um filme belíssimo e uma história que permanece na mente por dias, exatamente por causa das atuações incríveis de Tremblay e Larson.







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