domingo, 28 de fevereiro de 2016

O Lobo do Deserto (Theeb, 2014), de Naji Abu Nowar



         Indicado a melhor filme estrangeiro no Oscar 2016



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Nominado da Jordânia no Oscar, "Theeb" é o primeiro longa-metragem de Naji Abu Nowar e recupera os primórdios das tribos beduínas do país e a  representação da força moral, coragem e lealdade do protagonista Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat), um garoto que, em uma época histórica de transições na península Arábica, ressalta esta identidade do povo islâmico. Ambientado às vésperas da Primeira Guerra Mundial, em uma região desértica do Oriente médio com raros trausentes,  a história nos apresenta seu rito de passagem e a firme atitude de ser fiel às suas origens, à sua família. Orfão de pai , o garoto tem como referência seu irmão Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen) que assume uma figura paterna, assim como um guia, ensinando o irmão a usar uma arma ou partir em uma missão perigosa.








Ambos partem a uma jornada pelo deserto para acompanhar um oficial britânico (Jack Fox). Com pouquíssimos recursos e correndo sério risco de vida, os irmãos não sabem exatamente qual é a missão do oficial, ainda assim, fica claro que poços de água são um bem precioso e emboscadas podem acontecer próximo a eles. Entretanto, o mais importante da jornada não é a visão do militar estrangeiro pois, no contexto histórico, mais tarde o território da Jordânia seria objeto de acordo entre França e Inglaterra, o que é relevante neste roteiro é a função dramatúrgica do personagem Theeb.







Theeb significa Lobo. O lobo é um animal que tem fortes valores alicerçados na sua matilha, em defendê-la, em ser leal a ela, mas também sabe viver na solidão  e é bastante observador. É feroz para defender o seu território e sua família. Desta forma, o jovem garoto representa este lobo do deserto como uma geração que teria o desafio de defender a identidade do seu povo. Na verdade, este filme é um bonito conto. Ainda que tenha lhe faltado uma melhor estruturação do roteiro que coloca totalmente a responsabilidade do ponto de vista sobre Theeb, a partir do último ato, o longa mostra sua função. Sendo um garoto muito jovem em situação de fragilidade e solidão, o roteiro não oferece um forte engajamento das cenas com o argumento. Faltou desenvolver melhor o texto. Tudo em cena é mais contemplativo  e o diretor não consegue explorar a aventura e o suspense. Por outro lado, a atuação do jovem Jacir, a fotografia e o aspecto cru e decadente deste povo no deserto, sendo afetado por um calor intenso,muitos insetos, roupas sujas , sem asseio,  água e comida suficientes trazem mais realismo e desafios à desgastante jornada.







Por outro lado, a mensagem  do filme tem a sua força quando enfocamos o rito de passagem e os valores islâmicos do garoto. Embora eles não são tão expressivos em cena, estão lá em sutis atitudes. O contexto da história do Oriente Médio e suas fortes tensões por territórios também cooperam para enfocar o ambiente violento desta jornada e uma abordagem narrativa com características western na qual não se pode confiar em qualquer um e que, a qualquer momento, alguém poderá tirar-lhe a vida e levar seus poucos pertences. Em uma importante passagem, também é possível observar que muitos peregrinos perderam sua lealdade e que, em uma época de guerras e as fragilidades morais, físicas, financeiras e emocionais que ela traz, as pessoas vendem suas almas por algumas moedas. Mesmo assim, "Theeb" nos mostra que , não importa quanto poder há naqueles que comandam um governo, uma guerra, um acordo , ainda é possível mantermos nossa força moral e poder como povo. 






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