sábado, 27 de fevereiro de 2016

O Abraço da Serpente (El Abrazo de la serpiente, 2015) , de Ciro Guerra






Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial



Baseado em diários de viagens na Amazônia Colombiana escritos por dois cientistas, Theodor Koch - Grünberg e Richard Evans Schultes, que exploravam a região em busca de uma rara e sagrada planta, "O Abraço da Serpente" (El abrazo de la serpiente) é o terceiro filme de Ciro Guerra  e o primeiro dele que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano. Além da incrível fotografia em preto e branco de David Gallego, um deleite aos olhos, o cineasta nos leva a uma viagem tão  misteriosa e hipnótica como os rituais de um tradicional xamã. 




"o cronograma de filmagens era muito apertado e ficou claro que nós nunca conseguiríamos terminar esse filme. Tínhamos sido muito ambiciosos e os deuses da floresta estavam nos punindo por isso. Com isso em mente, como um capitão que é o primeiro a descobrir que seu navio está afundando, sentei-me, confortavelmente e me preparei para enfrentar o naufrágio inevitável. 
Mas acabei por testemunhar um milagre" (Ciro Guerra, o diretor) 




À medida que a câmera explora a rara população local e os deslumbrantes planos de rios, matas e animais selvagens, mais somos enfeitiçados por uma jornada que mistura elementos de sonho e realidade, podendo ser considerada uma narrativa que emula um recorte antropológico com uma viagem ritualista, xamânica e uma lição redentora. Assim, a experiência com o filme deixa um rastro de encantamento e curiosidade que, combinados, demonstram que esta parte da Amazônia continuará sendo um mistério. 








Diferente do uso do ponto de vista do colonizador, como usado em vários filmes e livros sobre a relação de estrangeiros exploradores e povos indígenas, aqui, Ciro optou por dar voz ao índio através do protagonista Karamakate que aparece em dois recortes temporais diferentes: como jovem (Nilbio Torres) e como um senhor (Antonio Bolívar), sempre em torno de suas memórias e experiências do passado e as ações do presente, assim também, Karamakate convive com dois cientistas diferentes cujas pesquisas estão entrelaçadas com a história do índio e de uma planta sagrada. Os dois atores realizam uma crível performance com nuances entre o drama e o humor, com destaque para uma atuação mais naturalista que, felizmente, não apela para uma figura caricata do índio. Aqui, tanto Torres como Bolívar sabem mimetizar o mítico, o selvagem e o dócil de um índio.





Nilbo Torres e Antonio Bolivar  como Karamakate



É interessante notar que este roteiro acertou ao colocar o xamã em dois recortes cronológicos e a ideia de continuidade histórica, pois discorrer sobre a relação entre o homem branco e o índio é trazer à tona as memórias guardadas pelos povos. Ainda que a história dos indígenas ainda seja bastante desconhecida e na sua maioria contada através do ponto de vista do explorador, o roteiro não cala o índio. Mesmo no silêncio da floresta, a Amazônia guarda seus mistérios e a sua História  revela a voz de Karamakate. Ele é muito mais do que um mero protagonista, ele é aquele que traz o elemento da memória e a humanidade do índio evidenciada em comportamentos como a tolerância, a sabedoria, o aprendizado e a redenção. É ele que devemos ouvir com atenção. 







Jan Bijvoet e Brionne Davis como os cientistas: 

a ciência em contato com o mítico




A Amazônia é apresentada como uma terra desconhecida e vasta, de povos colonizados que já não existem mais, assim, o jovem Karamakate é um xamã que vive isolado e único sobrevivente de sua tribo. Ele optou por manter-se solitário e fiel à sua cultura. Isso é observável em suas vestes, em seu conhecimento sobre plantas, remédios caseiros e caminhos pouco explorados, em sua identidade e autoconfiança, entretanto, nos dois recortes temporais, ele nunca deixou de conviver com a figura do cientista e auxiliá-lo, seja em uma necessidade de cura de doença, seja em um conflito com outros homens da região como falsos profetas e exploradores da borracha. Assim, sob a perspectiva da sabedoria de um xamã, sua autoridade e proteção à região e sua cultura, Karamakate é a estrela do filme e nosso guia. É ele que terá a visão e os aprendizados do passado e pode influenciar e mudar o presente ao interagir novamente com o homem branco.  






"O abraço da serpente" é um verdadeiro estudo antropológico e  leva-nos à reflexão por que não procuramos os próprios relatos dos índios, por que não investigamos melhor esta história. Como bem dito por Ciro Guerra " Quando começamos a estudar essa região e a desenvolver as pesquisas é inevitável nos depararmos com o olhar estrangeiro, de membros de expedições e viajantes, quase sempre Norte Americanos ou Europeus que nos dão informações sobre o nosso próprio mundo, nosso próprio país. Então eu tive a ideia de contar uma história através do prisma desse encontro, mas a partir de uma perspectiva em que o personagem principal não é um homem branco, como de costume, mas um indígena, um aborígene.”



 Afinal, quais são os segredos da floresta? Qual foi o papel do índio em meio à sua aculturação? Como ele se colocou perante o homem branco? Como ele defendeu sua terra? Como ele lutou para preservar sua identidade e cultura? Poderia ele ter tido um comportamento menos passivo? O que sentia com relação ao homem da ciência? Estas são  perguntas comuns que surgem durante a projeção deste belíssimo filme.  De certa forma, as atitudes de Karamakate mimetizam as de qualquer outro ser humano: experientes, sábias, passionais, passivas, rebeldes, redentoras, entre outras.  O bem da verdade é que a História sempre guardará seus segredos, resta a nós explorá-la e investigar as perspectivas de todos os lados. Neste filme, o Cinema cumpre este sábio papel e dá voz à América Latina.




Ficha técnica do filme ImdB O abraço da serpente
Distribuição: Esfera filmes
Lançamento no Brasil:  25 de Fevereiro de 2016
Citações entrevistas Ciro Guerra: Uma cortesia Esfera filmes


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