domingo, 1 de novembro de 2015

Mostra SP: O Apóstata (El apóstata, 2015), de Federico Veiroj

MaDame te mostra a Mostra internacional de Cinema 
Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
Acompanhe!




Por Cristiane Costa


Se há um país que tem razões para usar o cinema como crítica à Igreja Católica, este é a Espanha. Tem 2/3 da população que acredita no Catolicismo, mas não integralmente o pratica, e que tem dolorosas marcas históricas ao ter sido governado pelo ditador Francisco Franco, cujo regime conhecido como "Franquismo" tinha a igreja Católica como um dos principais aliados para a manutenção da ordem e opressão. Considerando este contexto, a comédia dramática "El Apóstata" de Federico Veiroj, ganhadora do Festival internacional de San Sebastian (2015) -  prêmios FIPRESCI e  menção especial do Júri - é uma crítica discreta e verídica às dificuldades impostas pela igreja Católica aos membros que optam pela Apostasia, ou seja, escolhem abandonar a fé e prática da religião.






Gonzalo Amayo (Álvaro Ogalla) deseja apostatar da igreja. Solteiro, bonito e questionador, Amayo é filho de uma família espanhola tipicamente tradicional e foi batizado na fé católica quando criança. Sua mãe (Vicky Peña) é daquelas que preferem manter as aparências para todos ao redor, sua prima Pilar (Marta Larralde) lhe desperta o amor e o desejo desde a infância e, entre ele e sua vizinha Maite (Bárbara Lennie), há uma tensão sexual e uma possível chance de romance. Muito mais do que desejos carnais constantes, Amayo não acredita na fé católica. Ele faz parte da ala dos que somente estão inseridos na religião mas não a praticam e questionam seus mandamentos, práticas e valores. O cerne da escolha é que ele não consegue entender a intransigência histórica da igreja católica na Espanha e acredita na liberdade individual.







O Apóstata é uma dramédia leve. Muito leve. Ainda que o assunto seja sério e inspirado em fatos reais, a intenção dos roteiristas e de Federico Veiroj foi torná-la mais despretensiosa e, ainda assim, brandamente ácida. O roteiro é recortado pela jornada do protagonista em tentar a Apostasia pelos meios burocráticos e legais, no entanto, tais procedimentos não são claros e surgem dificuldades e indeferimentos impostos pela igreja que não são explicados. Embora a história não se aprofunde no tema e enfoque mais as cenas com narração em off nas quais Amayo questiona a postura da igreja assim como seus flertes sedutores com Pilar e Maite, dá para ter uma ideia de como a igreja Católica tem o histórico de agir como se fosse um governo na Espanha. Lá, ela ainda é um poder capaz de impor restrições e invadir a liberdade. Por consequência, após ver O Apóstata através de um recorte objetivo e resumido, o longa desperta a curiosidade de investigar mais sobre Apostasia na Espanha.






Além do tema interessante, o principal chamariz  é o ator Álvaro Ogalla que encarna um homem com jeito acessível, simples, autêntico e carismático. Dificilmente ele vai agir com agressividade como alguns com sangue espanhol, pelo contrário, existe uma certa tranquilidade nele, aquela paciência para tentar sua Apostasia, para ter o autocontrole necessário à uma decisão. Ele dá aulas para o filho de Maite, tem raríssima vida social e tem um comportamento mais tímido, romântico, respeitador. Com isso, Ogalla, que não tem formação como ator mas teve aulas de Clown para trabalhar melhor o corpo em cena, interpreta o personagem com leveza. Na verdade, existe um discreto estilo clown em Amayo, o que torna a crítica bem mais aguçada e inteligente.






Ficha técnica no ImdB O Apóstata


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