segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Mostra SP: Chronic (2015), de Michel Franco

MaDame te mostra a Mostra internacional de Cinema 
Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
Acompanhe!





Por Cristiane Costa


Vencedor de melhor roteiro no Festival de Cannes 2015, Chronic de Michel Franco é um necessário soco no estômago e trata o fim da vida com naturalidade. Aproxima o espectador de pacientes com doenças crônicas e próximos à morte mas, ao mesmo tempo, trata os enfermos com respeito e dignidade através dos cuidados do atencioso enfermeiro David, interpretado com maestria por Tim Roth. É o ator que sustenta a qualidade do longa do começo ao fim e dá o tom dramático certo à sua profissão, sem apelar para sentimentalismos baratos.




Michel Franco e Tim Roth: excelente parceria em Chronic. 
Foto: Vignette Magazine


David trabalha para uma agência de Nursing home care e presta serviços a pessoas que estão com doenças graves como AIDS, câncer etc. Tendo perdido o filho e ainda transtornado por esse drama pessoal, David  catalisou sua perda de uma maneira positiva: é um enfermeiro extremamente dedicado aos seus pacientes. Muito mesmo. Sua lealdade chega ao ponto de romper as rígidas barreiras profissionais e ajudar o paciente na minimização da dor, fato que traz complicações ao seu trabalho em determinadas cenas. Devido à excelente atuação de Tim Roth, bem concentrado, calmo e consciente da importância de profissionais que lidam com a saúde e home care residencial, David é um personagem bem concebido e executado. 







Ele também se torna melhor protagonista quando nota-se o descaso, deslocamento ou falta de maturidade da família para lidar com seus próprios doentes, afinal, esta é uma realidade recorrente. Quando alguém fica muito enfermo em nossas famílias ou entre amigos e conhecidos, é difícil saber ou aprender a reagir diante desses sofrimentos. São situações que só vivenciamos quando acontece de forma muito próxima a nós e depende muito de cada pessoa. Alguns encaram mais naturalmente, outros sofrem demasiado. E, ainda assim, conviver com pessoas com doenças graves e com grande risco de óbito exige uma boa dose de autoconhecimento e sensibilidade para se relacionar com a própria dor e a dor dos outros.







Michel Franco é um cineasta que gosta de trabalhar com filmes de temáticas densas e fortes e com bons protagonistas, então a experiência costuma ser realista e intensa.   Diretor de "Depois de Lucía", um dos seus filmes mais conhecidos, e produtor de "Desde allá" de Lorenzo Vigas, ele tem uma boa qualidade como roteirista e diretor: seus filmes fazem a audiência sair do cinema, ou deprimidos e/ou reflexivos sobre a história. São filmes que não saem da mente facilmente e que devem ser assistidos quando o espectador estiver ciente de que o longa trará um desgaste emocional. Naturalmente, Chronic consome energia, mas também, ele é honesto e claro. A morte e a doença estão aí e podem surgir a qualquer momento. Familiares, amigos e pacientes em geral terão que encará-las. 






Exemplo de belíssimo enquadramento com câmera estática. 
Marca registrada da direção de Michel Franco.




Franco não faz grandes acrobacias com enquadramentos e movimentação de câmera, normalmente usa câmera estática e um certo distanciamento para que o público possa observar bem cada situação. Em Chronic, por exemplo, ele deixa a câmera estática em várias tomadas ou a posiciona atrás ou na frente do protagonista. Em uma das mais belas cenas  com relação à linguagem cinematográfica, quando  David vai ao encontro da filha, é perceptível ver como ele decupa bons planos. Em outro, quando está alimentando uma paciente muito fragilizada pela AIDS, a câmera é colocada do lado externo à casa e tem um maravilhoso efeito na tela (foto acima). Franco é um diretor bem contemporâneo, um misto de cinema Europeu com Latino Americano considerando que é Mexicano e seus longas costumam ter colaborações com a França. 


Para quem já teve entes queridos que sofreram muito com uma doença terminal, Chronic é comovente e não chantageia emoções. Elas surgem naturalmente a medida que presenciamos o sofrimento alheio. Franco conduz a câmera para dentro das intimidades familiares e o resultado  é muito bom. Coloca-nos com os pés firmes no chão. Não há como controlar o poder da vida de nos levar por caminhos dolorosos.





Ficha técnica do filme ImDB Chronic

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