Estreia nos Cinemas - 09 de Outubro.  Imperdível! #Memóriaafetiva #Juventude #Nostalgia #ComingofAge #Amadurecimento #CinemaBrasileiro #Fill...




Estreia nos Cinemas - 09 de Outubro.

 Imperdível!


#Memóriaafetiva #Juventude #Nostalgia #ComingofAge #Amadurecimento #CinemaBrasileiro #FillmesDePlástico #CinemaFamília #AmizadeVerdadeira #OÚltimoEpisódio #Lançamentos2025


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



O Último Episódio: Nostálgico, Afetuoso e Único, com Sabor de Doce Mel



Há filmes que atravessam memórias afetivas profundas como uma genuína celebração dos ritos que nos ajudam a encontrar aspectos essenciais de quem somos. O encontro com a própria existência. O recém-lançado longa-metragem brasileiro O Último Episódio, produzido pela excelente Filmes de Plástico e dirigido por Maurílio Martins, é um desses filmes que me fazem despir múltiplas camadas, enquanto gestos sinceros e afetuosos me abraçam. Atravessar essa experiência foi tão dócil e leve que, de forma rara, decidi escrever essa jornada com uma escolha estilística: escrever esse texto em primeira pessoa do singular.



É provável que o diretor e eu tenhamos idades parecidas, pois sou a garota que poderia ter inspirado Cristiane/Cristão (Tatiane Costa), personagem que carrega meu nome e minha época. Certamente eu era mais tímida do que ela, mas vivi a época do longa, 1991, na minha adolescência, e era aficionada pelo desenho Caverna do Dragão, uma obra muito mais que nostálgica, uma preparação para os ritos de passagem, inclusive, na minha visão, de natureza junguiana, com uma contínua busca pela individuação, entre ciclos em minha existência.







Nessa experiência nostálgica e, por ser também educadora, me percebo dentro desse filme, numa jornada descontraída, mas profundamente reveladora, que passa por lembranças como o hit Losing My Religion do R.E.M., o Doce Mel da Xuxa, os bolos grandes e recheados de aniversário, as garrafas de Coca-Cola e Fanta, aquele lado pop de se vestir com cores vibrantes, e aquele primeiro amor platônico que mal olhava para minha cara. É nesse universo de amadurecimento que o espectador poderá encontrar em O Último Episódio um abraço amigo, fraterno. É um filme de memórias lindamente bem executado, com a delicadeza e competência que a Filmes de Plástico tem ao lidar com histórias humanizadas, elenco jovem e a escola como elemento narrativo essencial.



Nos anos 90, minha relação com o cinema era muito mais caseira e afetiva. Eu era uma garota televisiva, entre os 11 e 13 anos, vivia entre novelas, programas da Xuxa e desenhos como Thundercats, He-Man, She-Ra, Changeman e Caverna do Dragão. O cinema, para mim, existia na tela da TV. Só mais tarde, com a ajuda da minha família, especialmente meu irmão, que adorava assistir fitas de DVD, descobri o prazer de ir à locadora. Escolher um filme, levar pra casa, rebobinar a fita: tudo isso fazia parte de um ritual que me ensinou a amar as histórias e a imaginar mundos. O Último Episódio me fez lembrar desse tempo com carinho, como se cada cena fosse uma fita rebobinada da minha própria memória.







Na história, Erik (Matheus Sampaio), com 13 anos, tem um amor platônico por Sheila (Lara Silva). Encantado pela garota e dividido entre a timidez e a ousadia, ele deseja apresentar o último episódio da Caverna do Dragão, uma forma de se aproximar da amada e beijar seus lábios pela primeira vez. Ambientado no bairro de Laguna, na periferia de Contagem (MG), local onde o diretor e roteirista cresceu, a trama acompanha a amizade de Erik com Cristiane (Tatiane Costa) e Cassinho (Daniel Victor), que juntos o ajudam a lidar com essa aventura em busca do último episódio.



A ideia de Maurílio Martins de trazer esse elemento da cultura pop dos anos 90 a um longa contemporâneo é incrível. Sabemos que, pela história, o episódio final de Caverna do Dragão não foi lançado a tempo do cancelamento da série. Então, além da narrativa dos jovens em busca do retorno ao lar ser um clássico da busca pelo amadurecimento, essa intersecção narrativa, feita de forma sensível e gentil, é uma profunda reflexão sobre o amadurecimento, com todos os seus medos, inseguranças, amores, traumas e desafios. Em variados momentos, Erik representa muito de nós: um garoto que vive com uma família batalhadora, de origem humilde e com um coração gigante que acolhe suas vulnerabilidades e dúvidas. Assim, me vi em cada um deles: desde a coragem de Cristiane, a inteligência de Cassinho, à sensibilidade de Erik.



O Último Episódio despertou em mim uma profunda gratidão por ter vivido uma juventude cheia de esperança e amor por tudo que eu fazia, cada música, cada dança, cada brincadeira de rua. Sentir essa saudade não me paralisa, pelo contrário: ela desperta em mim a vontade de não desistir diante das dificuldades do presente. É como se o filme me lembrasse que a beleza da vida está nas pequenas coisas que nos fizeram inteiros.







Também me despertou o desejo de andar de mãos dadas com a minha própria criança interior. Aquela que dançava, sonhava, criava mundos com brincadeiras de rua, bolinhas de gude e fitas cassete. Percebi que ela ainda vive em mim: como um arquétipo, como os próprios personagens de Caverna do Dragão, que representam fragmentos da minha coragem, da minha força, da minha magia. Lembrar disso por meio do filme me fortalece na fase adulta, como se cada memória fosse uma centelha de potência que insiste em não se apagar.



Quando o filme mostra os alunos se organizando para uma feira de cultura na escola, fui tomada por uma lembrança doce: eu gostava de estudar. A escola era uma referência de aprendizagem, de desenvolvimento, de encontros, mesmo que eu não fosse a popular do colégio, e sim a mais estudiosa. Foi no colégio que escrevi e dirigi minha primeira peça de teatro. O Último Episódio me fez lembrar que a escola pode ser um lugar de afeto e formação, onde professores, diretores e colegas ajudam a moldar quem somos. Ao trazer a escola como personagem, o filme também me despertou um desejo: que crianças e jovens possam transformar a Educação para as próximas gerações, ao lado dos educadores, gestores e da sociedade. Porque educar é também ajudar a individuar, a descobrir os fragmentos de coragem, sensibilidade e potência que habitam cada um de nós.



Houve dois momentos no filme que me emocionaram profundamente. Um deles me fez lembrar dos bolos decorados e enormes que existiam na época: aqueles que podíamos repetir sem culpa, com fartura e alegria. No meu aniversário de 15 anos, um dos mais simples e belos que vivi, meu saudoso pai estava comigo e havia um bolo desse tamanho. Minha mãe, mesmo sem ser confeiteira profissional, era uma boleira de mão cheia e fazia bolos até para casamentos. Essa memória veio como um abraço inesperado durante a projeção. A lembrança da avó também é muito afetiva. A atriz Rejane Faria interpreta com ternura Dona Judite, vó da Cristiane, presença que reforça o calor familiar e a memória das mulheres que cuidam, ensinam e acolhem.






O outro momento foi quando um colega ajuda outro na escola, mesmo tendo todos os motivos para agir com egoísmo. Essa escolha, tão silenciosa e generosa, me tocou profundamente. É esse tipo de gesto que revela caráter, e é exatamente esse tipo de formação que a escola pode oferecer: sujeitos que olham para o coletivo, que escolhem o afeto, que transformam o mundo com pequenas atitudes.



No entanto, para mim, que sou uma aficionada, por alguns momentos, senti falta de viver mais intensamente o lúdico referencial de Caverna do Dragão. Talvez uma ou outra cena pudesse ter trazido esses arquétipos junguianos de forma mais explícita: como guia de sabedoria, sombra ou até como metáfora visual. Para os mais aficionados, como eu, fica um gostinho de quero mais. Ainda assim, o filme capta com maestria a essência da série: a busca, o amadurecimento, o desejo de voltar para casa, que, no fundo, é voltar para si.



E qual é o orgulho de ver uma obra 100% brasileira como essa? Ela celebra a brasilidade, com um profundo afeto pela memória da juventude e a belíssima potência de inspirar outras crianças e jovens, mostrando como a vida pode ser bem mais bonita do que a mera fixação em telas de redes sociais e jogos.



Eu, como um exemplar da juventude dos anos 90, posso lhes assegurar: que saudade sinto de mim mesma, daqueles tempos que não voltarão em um passe de mágica, mas que posso evocar essa magia ao acessar filmes como o de Maurílio Martins e lembrar de Caverna do Dragão, He-Man, Thundercats e até aquele vinil com capa de novela ou banda que era um grande companheiro das tardes e fins de semana. Que filhos, sobrinhos, primos, alunos, afilhados, de todos os brasileiros, também possam conhecer um pouco mais sobre essa época tão efervescente, que toca profundamente a alma de um tempo saudoso.






Um dos encantos da história está em como cada detalhe da fotografia e cenografia revela o carinho da produção com sua própria história. A construção do longa realizou um formidável trabalho desde a concepção (2009), o roteiro (2010), o formato de longa (2015) e a filmagem em 2021. Essa gestação marcada por diferentes anos culmina na entrega de uma cápsula vívida e emocional do tempo. Com a montagem criativa que mistura memória, ficção, documentário e animação, o filme merece ser assistido por cada brasileiro que, direta ou indiretamente, viveu essa época.



Em muitas das cenas, vi as ruas do bairro, o interior da sala de aula, aquelas filmagens ou fotografias dos aniversários e casamentos dos anos 90: tudo é muito nostálgico e afetivo. E a experiência é vivida com um sorriso nos lábios durante a projeção, pois lembrar do guaraná Taí de garrafa, dos discos de vinil, daqueles tocadores de fita e das bolinhas de gude (que davam medo de engolir) é, sem dúvida, um prazer existencial.



Ao final do longa, o sentimento é que a existência é um presente. O amadurecimento dói, sim, bastante, mas olhar para si não precisa ser um último episódio. O filme da nossa vida segue em exibição, com a esperança de um doce mel.







  Hoje me despeço de uma das mulheres mais inspiradoras que o cinema já me apresentou. Diane Keaton partiu, mas sua energia continua viva e...

 



Hoje me despeço de uma das mulheres mais inspiradoras que o cinema já me apresentou. Diane Keaton partiu, mas sua energia continua viva em mim e em tantas outras mulheres que se viram nela.


Meus dois filmes preferidos dela são Annie Hall e Alguém Tem Que Ceder. Em Annie Hall, ela trouxe uma espontaneidade rara, uma mulher que não pedia licença para existir. Já em Alguém Tem Que Ceder, Diane me emocionou profundamente com a autenticidade da mulher madura que ama, sofre, escreve, chora e ri, tudo com verdade. Eu me vi ali, nas vulnerabilidades e na força.


E ela seguiu nos presenteando com personagens que desafiam o tempo. Em Do Jeito Que Elas Querem, Diane deu continuidade a uma franquia que celebra mulheres maduras com leveza, humor e afeto, e nesse trabalho, ela traz uma mensagem de cura, liberdade e potência às mulheres. Essa é a lição que levarei dela para sempre.


Diane Keaton foi uma sacerdotisa da cultura, como eu gosto de dizer. Seu sorriso leve, sua vibração positiva e sua feminilidade sem moldes me ensinaram que envelhecer é também florescer. Viver é longevidade na alma.


Descanse em paz, Diane. MaDame Lumière sempre te amará no cinema e no infinito dos filmes.


Muita luz na sua passagem!


Cristiane Costa, Editora


  Estreia nos Cinemas - 09 de Outubro. #Terrorpsicológico #Horror #Suspense #CinemaAsiático #CinemaCoreano #Ruidos #RuidosnoCinema #A2filmes...

 




Estreia nos Cinemas - 09 de Outubro.


#Terrorpsicológico #Horror #Suspense #CinemaAsiático #CinemaCoreano #Ruidos #RuidosnoCinema #A2filmes @A2filmes #Lançamentos2025


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Ruídos: Quando a mente cede espaço ao didatismo

 


O Cinema Sul-coreano consolida-se como uma usina de terror psicológico e suspense de alta voltagem, e Ruídos (Noise, 2024) se insere nesse cenário como um atrativo imediato. Com a promessa de aliar horror atmosférico, influenciado pelo J-horror a uma premissa contemporânea, o filme da A2 Filmes teve desempenho comercial expressivo. Seu sucesso de bilheteria revela um público ávido por narrativas que não se apoiem apenas em sustos fáceis, mas que proponham uma experiência sensorial imersiva. É a combinação entre tensão psicológica e a perspectiva singular da protagonista que, à primeira vista, torna o filme magnético.






O roteiro acende a chama com uma premissa profundamente humana: o desaparecimento inexplicável da irmã de Ju-young (Lee Sun-bin), uma jovem com deficiência auditiva. A busca, inicialmente prática, logo se revela uma jornada interna. O filme é eficaz ao sugerir uma culpa não resolvida e uma separação emocional entre as irmãs. O luto de Ju-young, sua solidão e a dificuldade em lidar com o silêncio e o abismo comunicacional prometem um terreno fértil para um terror que nasce da paranoia e do trauma. O mistério da irmã desaparecida se torna espelho do conflito da própria protagonista, elevando a expectativa de um mergulho na psique atormentada.



Ao focar nos vizinhos e nos ruídos que ecoam pelo apartamento, o filme introduz uma camada temática contemporânea instigante. Vivemos em uma sociedade ruidosa e crescentemente intolerante, onde o respeito pelo silêncio e pelo espaço do outro é constantemente violado. A ideia de que o horror possa emergir do conflito social e da falta de civilidade em ambientes confinados é promissora. No entanto, Ruídos não aprofunda esse embate. Em vez de transformar a intolerância sonora em um terror existencial sobre a vida em comunidade, o roteiro utiliza os conflitos entre vizinhos como recurso narrativo funcional, enfraquecendo o potencial da crítica social em favor de uma convenção de gênero.







Apesar dessas fragilidades temáticas, a direção de Kim Soo-jin é notável na construção da tensão, e o elenco, com destaque para Lee Sun-bin, sustenta a ambiguidade inicial com competência. O design de som é, sem dúvida, o ponto alto: ao nos fazer vivenciar a desorientação e a paranoia de Ju-young, ele se torna um personagem por si só. O problema surge quando o roteiro e a execução se recusam a sustentar a incerteza. A tentativa de resolver o mistério no último ato é apressada e compromete a ambiguidade, minando o excelente trabalho atmosférico e sensorial desenvolvido até então.







O maior deslize de Ruídos reside em seu desfecho. O filme perde força ao tentar entregar uma resposta literal, desperdiçando a chance de usar o horror como expressão de dilemas e traumas internos. A narrativa, ao concluir de forma didática e acelerada, retira do espectador a possibilidade de elaborar o luto, a paranoia e a reflexão. A parte mais vulnerável e rica da trama, a mente de Ju-young, se dilui na pressa de justificar uma ameaça externa.



Ainda assim, Ruídos merece ser assistido. Seu design de som é uma aula de construção de terror sensorial, e a premissa envolvendo luto e deficiência auditiva levanta questões relevantes sobre vulnerabilidade e comunicação. Mesmo sem atingir seu potencial máximo, o filme provoca discussões sobre os caminhos possíveis do gênero. E é justamente na escolha por uma resposta fácil que reside a crítica mais visceral:

Nem tudo precisa de respostas quando a mente humana passa por uma travessia turbulenta.







  Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Masterclass de abertura - "Educação, Cine...

 




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Masterclass de abertura - "Educação, Cinema e o Reencantamento do Mundo"

📅 06/10 – 5º Seminário Cinema e Educação 


Com a professora e pesquisadora Rosália Duarte (UFMT), a atividade inaugura o evento trazendo uma reflexão sobre o papel do audiovisual na transformação dos olhares, narrativas e relações da escola com o território, o meio ambiente e a comunidade.


A tese central da Masterclass exigiu um alicerce filosófico robusto. Rosália Duarte, com a lucidez que lhe é própria, invocou dois gigantes visionários: John Dewey e Walter Benjamin. A partir deles, traçou a distinção que funda o olhar pedagógico: Vivência e Experiência. Se a vivência é o ato de estar vivo e testemunhar o mundo, imediata, prática, quase instintiva, a experiência é o que se elabora depois: o pensamento que transforma o vivido em narrativa, em aprendizado, em capital simbólico. É nesse intervalo entre o ver e o significar que o Cinema se insere como ferramenta pedagógica: não apenas para registrar a vida, mas para mediar a reflexão que dá sentido ao mundo.



Afeto como Travessia


A ponte entre teoria e tela se chama Afeto. Rosália nos convoca à urgência de ser afetado, resgatando o affectum de Spinoza e Deleuze, essa capacidade radical de se entregar à experiência e ser transformado por ela. O educador Jorge Larrosa aprofunda essa resistência, propondo que a escola e o cinema sejam espaços de pausa, escuta e encontro. Essa pausa é uma afronta ao feed caótico das redes, à burocracia que anestesia o olhar. O automatismo, essa repetição vazia, nos rouba a fruição e a liberdade de sentir. O Cinema, então, torna-se uma máquina de guerra contra o autômato, exigindo que o aluno abandone o scroll e se entregue ao tempo da tela, para que a vivência amadureça em experiência.


A experiência estética como arma contra a anestesia


Para combater o automatismo, é preciso uma arma à altura: a Experiência Estética. Rosália nos leva à etimologia grega Aesthesis (sensibilidade) e à imagem poética do tear: “a estesia é um desses fios que compõem essa peça”. Essa sensibilidade, oposta à anestesia, complementa o pensamento de Larrosa. Como educadora e curadora, MaDame Lumière observa com inquietação a realidade de crianças e jovens aprisionados a telas e conteúdos que pouco agregam à formação. Essa carência exige que a estrutura estética seja ensinada nas escolas. A experiência estética é essencial porque educa o olhar, expande o sentir e refina o pensar. Somente ao cultivar essa estesia, o Cinema pode cumprir seu papel mais elevado: educar e reencantar o mundo.


O Cinema como arte caprichosa e espelho da existência


A beleza da Masterclass reside em seu ponto de partida: a não-coisificação do Cinema. Rosália não fala da arte como produto, mas como processo de autoconhecimento. Define o Cinema como uma arte caprichosa que nos força a olhar para as entranhas da existência. Essa lente de aumento não permite terceirizar a culpa: o Cinema revela o lado sombra e o lado persona da nossa psique. A verdade é cortante: o problema que enxergamos no outro é, muitas vezes, o reflexo do que evitamos em nós. Rosália nos lembra: “somos intrinsecamente diversos”. O Cinema exige Alteridade, a capacidade de acolher o outro em sua plenitude. Significa ocupar o lugar do outro, ver por seus olhos, e não pelas nossas próprias convicções. Ao ampliar a cinematografia, percebemos que a dor ou o amor de alguém num filme africano também pode ser o nosso, fazendo com que a gente experiencie aquela emoção como uma experiência individual transformadora que abraça o coletivo.


Curadoria como ato de resistência


A chave para esse exercício de alteridade reside no repertório cinematográfico. Rosália Duarte enfatiza que não basta estudar cinema; é preciso gerar um repertório diversificado que possibilite o diálogo com o mundo. O cinema, afinal, é a ferramenta que nos ensina como o outro nos retrata, capacitando-nos a, então, construir a nossa própria autoimagem. A sabedoria da curadoria, ela reforça, não está em desqualificar o gosto do outro, o blockbuster que lota o cinema do shopping tem seu valor na vivência, mas sim em oferecer a oportunidade de ampliar o olhar. O papel do educador, e da MaDame Lumière, é o de um curador que mostra as vastas possibilidades da cinematografia mundial, sem nunca invadir a individualidade ou forçar gostos. É a liberdade de escolha que permite que o cinema cumpra sua missão pedagógica.


A urgência que emerge da Masterclass é a de ampliar as oportunidades para a formação do olhar e da experiência por meio do cinema. Isso exige ir além da simples exibição da “peça”; o foco deve ser o que Rosália chama de reencantamento do mundo com resistência e liberdade. É nesse ponto que reside o poder da curadoria. Não basta ligar o projetor; é preciso direcionar o que pode ser mostrado e a quem, transformando a sessão em um ato de mediação sensível. A escola e o educador, munidos dessa consciência, tornam-se arquitetos do reencantamento, criadores de espaços que replicam a inspiração e a profundidade da professora Rosália Duarte.


Reencantar o olhar: O Cinema como Pedagogia da Existência


O resgate da experiência estética nos conduz à mais profunda das viagens: a jornada para dentro. Rosália costura sua Masterclass com o fio da sabedoria ao citar Rosa Maria Fischer, defensora da Estética da Existência. Afinal, não se trata apenas de conhecer o mundo, mas de, através dele, conhecer a si mesmo. Como entusiasta e crítica, MaDame Lumière sempre defendeu que aprendemos sensibilidade na sala escura. O Cinema é essa arte e essa estética que abrem espaço para o nosso ser mais vulnerável e humano. Ele nos dá as coordenadas para decifrar a nós mesmos e, por consequência, aos outros. Onde nada sabemos, mas tudo sentimos o Cinema se torna a pedagogia da ética e da estética, impulsionando a formação humana em sua essência.


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Fique ligado no MaDame Lumière para os próximos temas do 5º Seminário Cinema e Educação. Vêm aí novas provocações, reflexões e encontros que atravessam a tela e tocam o mundo.



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  Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Estive ausente por um período de lutos que era...

 





Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação


Estive ausente por um período de lutos que era preciso eu ressignificar.

Fiquei silenciada por um tempo. E nesse silêncio, precisei me recolher, repensar, cuidar.

Mas estou de volta, pouco a pouco, para que possamos avançar.

Sem likes, sem holofotes, sem necessidade de validação ou de seguir o mainstream.

Apenas existindo e resistindo.

Porque o MaDame Lumière nunca foi sobre números, embora tenhamos uma marca de resistência para a palavra escrita, sem patrocínios ou anúncios.

De fato, essa foi uma escolha consciente: não se render à lógica do algoritmo instagramável.

E está tudo bem. Podemos existir de várias maneiras, com igual coerência e autenticidade.

Foi sempre sobre pensamento, afeto, ética e cinema.

Um blog só escrito, sem Instagram, sem rosto, sem fórmulas.

Feito de pausas, de retornos, de curadoria sensível.

Feito de filmes brasileiros, latinos, mundiais.

Feito de mim.

E mesmo com todos os desafios, eu sigo.

Porque o Cinema é aquela alquimia que cura, e é ele que me faz permanecer aqui.

Um muito obrigada.

Por cada leitura silenciosa, por cada visita sem alarde, por cada olhar que pousou sobre uma palavra minha.

Você é sempre bem-vindo(a) ao MaDame Lumière.


  Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação O 5º Seminário de Cinema e Educação, uma inici...

 



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



O 5º Seminário de Cinema e Educação, uma iniciativa robusta do Sesc SP em parceria estratégica com a Prefeitura Municipal de São Paulo, e enriquecida pela perspectiva vital da Mostra Ecofalante, estabeleceu o palco perfeito para o nosso mergulho crítico. É neste encontro de instituições que se reafirma uma verdade inegável: o cinema é, sem dúvida, nosso luxo editorial, não por excesso, mas por excelência. Mas na confluência entre a sétima arte e a sala de aula, ele se revela uma ferramenta pedagógica de potência inigualável.


Foi com essa abordagem que Elisângela Nogueira, Coordenadora Pedagógica da Rede Municipal de SP e Mestra em Educação, cravou a tese central do evento. Ela ecoou uma verdade que incomoda: “O audiovisual é importante, mas nem sempre fazemos um uso adequado dessa ferramenta.” A questão, portanto, não está na ausência de recursos, mas na falta de um letramento audiovisual consciente. O seminário, impulsionado por essa reflexão, propõe-se a nos tirar do lugar comum e a fornecer o arcabouço para que o cinema seja, de fato, um agente transformador, exigindo que o educador conheça profundamente essa linguagem e a associe de forma estratégica e poética aos objetivos de aprendizado.


Se Elisângela nos deu o diagnóstico do uso, Emiliano Zapata nos aponta o caminho da ação. Ele destacou a Spcine como plataforma fundamental para a redemocratização do acesso ao cinema, especialmente nos territórios periféricos. A relevância da Spcine ultrapassa o mero incentivo à produção; ela está na vanguarda da inovação em acessibilidade, com iniciativas como as sessões azul para mães de crianças neurodivergentes e com TEA, além de projetos dedicados à terceira idade. Essa democratização só se completa, contudo, através da interlocução direta com os professores. São eles que, munidos dessa ferramenta, transformam cada exibição em capital cultural e potência pedagógica, garantindo que o direito ao audiovisual seja exercido com dignidade e significado em cada sala de aula da cidade.


A ambição de redemocratizar o acesso exige, contudo, um salto de qualidade na formação. Patrícia Barcelos, com a autoridade da UnB e da Ancine, expõe o ponto nevrálgico: o desafio não é apenas levar o projetor para a periferia, mas sim capacitar professores e trabalhadores institucionais a operar essa ferramenta com maestria. Sua reflexão nos força a ir além do espaço físico, perguntando: como o cinema é vivenciado dentro e fora da escola? A resposta está em vê-lo como uma linguagem que perpassa todas as experiências possíveis na área da educação. Para que esse potencial se materialize em prática cotidiana, e não seja apenas um projeto isolado, Patrícia enfatiza a necessidade crucial da regulamentação dessas ações, garantindo que o audiovisual seja parte indissociável da formação escolar.


Se Patrícia nos impulsiona à necessidade de regulamentação, Joelma Oliveira Gonzaga, Secretária do Audiovisual, aponta o novo território estratégico: as plataformas de streaming. Ela sublinha que a discussão sobre a regulamentação dessas plataformas é mais do que uma questão de mercado; é uma política pública essencial para o audiovisual brasileiro. O objetivo é duplo: garantir o financiamento do cinema nacional e, crucialmente, assegurar a disponibilização de conteúdo brasileiro para que possamos cumprir o dever de formação do público. Com essa regulamentação, o Estado utiliza o novo locus de consumo como veículo para conectar o cinema e o audiovisual brasileiro diretamente ao olhar do espectador e da sala de aula, reconectando o espírito da Lei do Cinema na Escola às telas digitais que moldam o cotidiano. É a garantia de que as histórias do Brasil não se percam nos algoritmos estrangeiros.


A complexidade da regulamentação e o desafio da formação nos remetem ao ponto final: a responsabilidade cívica da sociedade. Apoiar o cinema em toda sua potência transversal não é apenas um ato cultural, mas um compromisso brasileiro com a educação formal e informal. Ir à sala escura ou assinar uma plataforma de streaming transcende o entretenimento: implica movimentar toda uma jornada de transformação social, que mobiliza uma cadeia vital de profissionais, desde artistas e gestores, até professores, educadores e a própria sociedade civil. O que se exige, portanto, é uma seletividade rigorosa do cinema como ferramenta educacional. É aqui que reside a filosofia da MaDame Lumière: defender a intersecção entre o cinema e a vida como impulsionamento da valorização das diversidades e do olhar atento e reflexivo sobre as realidades sociais e os desafios humanos. Por isso, desde o nosso início, o foco não é a quantidade, mas a qualidade, com o compromisso inegociável de formar o olhar do espectador e, acima de tudo, dos indivíduos que têm em suas mãos o privilégio de educar as futuras gerações.


O Cinema como Ato Cívico



O que a abertura do 5º Seminário de Cinema e Educação nos provou é que o cinema, em sua potência máxima, é a mais urgente das questões pedagógicas. Não se trata apenas de regulamentar plataformas ou capacitar professores; trata-se de reconhecer o audiovisual como o idioma de nosso tempo, exigindo uma ação orquestrada do poder público (Spcine, Ancine, SAv) e do corpo docente (Elisângela Nogueira, Patrícia Barcelos e Rosália Duarte)  . O uso adequado do filme na escola é o reflexo de um compromisso de nação, um ato cívico que transforma a fruição em formação. A verdadeira democratização do cinema só acontece quando entendemos que a tela é um espelho que exige o olhar crítico, um farol que ilumina as diversidades e um catalisador para a consciência social.


O cinema, afinal, é a vida em movimento.


Fiquem ligados no MaDame Lumière! Nosso mergulho neste seminário está apenas começando. Acompanhem os próximos capítulos desta cobertura que promete ser uma base formativa, reflexiva e crítica, essencial para entendermos o futuro da nossa sociedade e o papel inegociável do cinema como ferramenta pedagógica e de formação humana.


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