Especial Bienal do Livro SP no MaDame Lumière Ensaios exclusivos sobre as fronteiras entre Livros, Cinema e Audiovisual.

A Matriz da Madeira e a Cadência da Fala: As Pontes Entre o Cordel e o Cinema Brasileiro

 





Especial Bienal do Livro SP no MaDame Lumière

Ensaios exclusivos sobre as fronteiras entre Livros, Cinema e Audiovisual.



Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos



A experiência de caminhar por uma grande feira literária ganha um sentido especial quando encontramos espaços dedicados ao cordel e ao repente. Mais que um espaço de compra ou passagem, o estande se revela pelo acolhimento de seus anfitriões, onde poetas, livretos em varais, estandartes e peças entalhadas convidam a uma pausa generosa. Em meio ao dinamismo dos pavilhões, o contato direto com quem vive da palavra cantada e escrita devolve ao visitante o valor da conversa autêntica e da hospitalidade, transformando o evento em território de reencontro com nossas raízes culturais vivas.



Essa tradição oral estabelece um diálogo profundo com a linguagem cinematográfica e audiovisual do país. O cinema brasileiro sempre demonstrou sensibilidade ao transpor a métrica rimada do cordel e a cadência do repente para a construção de roteiros e diálogos, preservando a força poética das falas regionais. Em obras inspiradas pelo universo de Ariano Suassuna, essa herança se manifesta na altivez e no humor diante das adversidades. O homem do campo e o pícaro popular resgatam a função crítica e afetuosa do palhaço tradicional, utilizando graça, esperteza e ironia como instrumentos legítimos de conexão e leitura social.



No plano imagético, essa herança visual desdobra-se em duas vertentes complementares da filmografia nacional. De um lado, a vertente dramática e messiânica que marcou o Cinema Novo e as narrativas do cangaço, apoiada nos contrastes da luz, na terra árida e na devoção popular. De outro, a exuberância festiva das celebrações, onde santos e a herança afro-brasileira dos orixás compõem uma estética sincrética e vibrante. Em ambas, a composição de cena bebe de uma sensibilidade que une o terreno ao sagrado, trazendo para as telas a mística e os elementos fantásticos do imaginário sertanejo.



Nesse processo criativo, a xilogravura se destaca como matriz gráfica fundamental, atuando como pequenos fotogramas talhados em madeira que inspiram direção de arte e design de produção. O trabalho paciente do artesão sobre a matéria rústica não é mera ilustração, mas uma linguagem autônoma que projeta símbolos marcantes, das figuras sagradas e festivas à fauna sertaneja, como a juriti. Na tradição do cordel, gravura e palavra nascem integradas: a estampa funciona como primeira tomada visual da narrativa, oferecendo um traço que há décadas alimenta a concepção cênica e o olhar dos realizadores brasileiros.



A valorização contínua desses espaços nos grandes eventos reforça a potência da literatura como elo de aproximação humana e fonte de repertório artístico. Muito além de palestras e compras, há sempre um terreno fértil para ampliar o acolhimento, a escuta e as conversas descontraídas entre leitores, artesãos e autores. Ao celebrar a autenticidade dos nossos artistas locais e a riqueza da cultura popular nordestina, a Bienal consolida sua vocação de aproximar públicos e manter aceso o manancial criativo que inspira cinema, artes visuais e a imaginação nacional.



Foto: Arquivo Pessoal / MaDame Lumière

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Cristiane Costa, MaDame Lumière

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