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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
O cinema de horror contemporâneo ganha vigor quando abandona fórmulas saturadas para investigar o mal-estar social e a vulnerabilidade humana. Ao assumir o reinício de uma marca historicamente associada ao espetáculo militarizado, Zach Cregger busca reposicionar a franquia no campo do horror autoral. Para isso, escolhe um entregador de aplicativo como protagonista. Essa decisão ancora a narrativa na precarização do trabalho e aproxima o público de um homem comum que, ao sair para cumprir seu expediente, vê a própria rotina ser tragada pelo absurdo.
A condução desmistifica a figura do herói clássico por meio da atuação expressiva de Austin Abrams, cuja postura frágil e assustada contrasta radicalmente com os agentes táticos invencíveis das adaptações anteriores. Essa escolha, contudo, pode causar estranhamento entre espectadores acostumados aos protagonistas mais combativos associados à franquia. Ainda assim, é justamente essa fragilidade que sustenta a proposta do filme de recolocar o medo e a impotência no centro da experiência. Em sintonia com essa abordagem, o roteiro evita diálogos excessivamente expositivos e privilegia reações espontâneas, das quais surge um humor ácido alimentado pelo próprio desespero. Esse riso nervoso funciona como mecanismo de defesa psicológica, oferecendo pausas que suavizam a tensão sem enfraquecer o clima de perigo iminente.
Visualmente, a obra abraça o body horror como instrumento de crítica social. Assim como em A Substância, a deformação da carne torna visível a lógica corporativa que reduz vidas humanas a meros experimentos. Embora essa alegoria nem sempre opere com sutileza, a frontalidade da abordagem encontra coerência em uma narrativa construída em torno do excesso, da degradação física e da violência como espetáculo. A fotografia de contrastes severos e o desenho de som claustrofóbico intensificam a sensação de aprisionamento, aproximando a experiência da essência do survival horror dos jogos originais. A travessia solitária por corredores asfixiantes apoia-se no improviso e na pura lógica de fuga, transformando cada confronto em um cálculo desesperado contra o inevitável.
Em meio a esse ritmo opressivo, o filme encontra respiro ao iluminar o desamparo íntimo do personagem diante de um colapso que o transcende. Raros instantes de vulnerabilidade expõem a frustração de um jovem comum que vê sua rotina, seus vínculos e suas expectativas para o futuro desmoronarem diante de uma tragédia impossível de controlar. Esse contraste entre o calor dos vínculos pessoais e a frieza do caos urbano confere à sobrevivência um peso dramático genuíno.
O desfecho coroa a coragem do projeto ao rejeitar resoluções apaziguadoras e sustentar a sobriedade de que a decência pessoal nem sempre basta contra a fatalidade do acaso. Se, em determinados momentos, essa sobriedade reduz parte do senso de aventura tradicionalmente associado à marca, a troca revela-se acertada ao oferecer uma identidade mais própria e consistente para o projeto. Trata-se de uma obra sólida, concisa e corajosa, sustentada pela recusa a soluções fáceis. Ao revitalizar a franquia com inventividade e maturidade, abre um caminho promissor para futuras investidas autorais.
Imagens: Divulgação



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