Histórias de amor no Cinema comovem de diversas maneiras e por variadas razões. São como um espelho da alma romântica, como a catarse de uma...



Histórias de amor no Cinema comovem de diversas maneiras e por variadas razões. São como um espelho da alma romântica, como a catarse de uma intensa emoção nutrida por afeto, esperança, desejo e sofrimento, como o reflexo de anos vivenciados com um romance que deu ou não certo, que nunca será esquecido ainda que décadas cheguem e digam adeus. Cada pessoa tem uma história de amor, dramática, ou até mesmo trágica, vivida ou sonhada. Cada pessoa tem uma história de amor que é a realidade de um romance sentido em um coração que espera 'um dia' esta realização amorosa, de uma alma que simplesmente ama.





Após Educação, a diretora Lone Scherfig retorna ao Cinema com a adaptação de uma bela história de amor, do best-seller internacional One Day, de David Nicholls, que assina este roteiro. A história é contada por vinte anos, em várias etapas da vida de dois amigos, Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess), que se conheceram na faculdade e desenvolveram uma relação sincera, afetuosa e de incalculável valor, um misto de amizade diferenciada com romance não assumido, feita de momentos de proximidade e de distanciamento, de declarações carinhosas, diálogos bem humorados, espontâneas discussões e silêncios que dizem tudo e que ocultam a vontade de verbalizar sentimentos profundos. O espectador é convidado a se emocionar ao ver as imagens de cada capítulo da história de Emma e Dexter: ela, uma professora de origem modesta, garota inteligente, reservada e madura. Ele, um apresentador de TV de família abastada, garoto charmoso, imaturo e mulherengo. Assim, os opostos se atraem e levam o público a uma linda jornada de 20 anos de encontros e desencontros, com tristezas e alegrias, perdas e ganhos.







Como Cinema, Um Dia não é excepcional e deixa um pouco a desejar em relação ao livro. Isso ocorre muito em função do roteiro que prioriza o relato fragmentado de pequenos momentos em anos distintos, sem ter uma evolução narrativa que intensifica o drama de amor, de uma forma mais fluída, harmoniosa e criativa. Isso demonstra que David Nicholls é melhor como escritor do que como roteirista, porém é importante considerar que adaptações das Letras para o Cinema costumam perder um pouco deste vigor narrativo, a não ser que o casamento perfeito ocorra entre estes diferentes suportes, além do mais a história em si é distribuída em mais de uma década, o que exige mais habilidade do roteirista e, também, do olhar do diretor. Aqui, Lone Scherfig não tinha o excelente roteiro de Educação, o que deve ter substancialmente influenciado o resultado final da película, mas ainda há um toque muito pessoal na direção porque ela é boa ao dirigir estes dramas românticos vivenciados por atrizes como Carey Mulligan e Anne Hathaway, além de ter habilidade para filmar protagonistas que passam por ritos de passagens, da juventude para a vida adulta. A cineasta também tem um bom gosto na direção de arte, no figurino e em criar um universo fotográfico charmoso que conta romances em inspiradoras locações europeias como Londres e Paris. Sua Emma de Um Dia é bem diferente de sua Jenny de Educação, mas ambas tem estilo, dos modelitos ao penteados, e se transformam durante suas jornadas tanto fisicamente como emocionalmente. Ambas são mulheres apaixonadas e, sob o aspecto da direção de atores, Lone trabalha muito bem com seu elenco. Basta observar que Anne e Jim tem uma ótima química, transmitem seus dramas pessoais também como ser traído, relacionar-se com quem não se ama, ter sucesso ou fracasso na carreira etc e estão bem na atuação ainda que o sotaque de Anne não tenha se ajustado às necessidades do longa e recebido críticas. No mais, destaque especial também para os bons coadjuvantes Patricia Clarkson (Alison, mãe de Dex), Rafe Spall (Ian, namorado de Emma) e Ken Stott (Steven, pai de Dex). Para completar, Lone usa bastante o recurso da trilha sonora para marcar distintas épocas, assim como abusa do apelo emotivo do score de Rachel Portman com a belíssima canção tema We had today. Rachel sabe criar composições melodicamente dramáticas como as de Não me abandone jamais (Never let me go) e, com este score, arranca lágrimas como os livros de Nicholas Sparks.






Com relação à experiência cinematográfica, ela é muito mais como testemunhar a tocante história de Emma e Dexter, cheia de negação de amor e de postergar momentos a dois. É como folhear as páginas das memórias desta amizade e romance, como criar um processo de identificação com este drama. Quem já amou alguém e permaneceu em silêncio ao lado dele(a), esperou-o(a) por um longo período, vendo-o(a) casar e ter filhos, ou se afastar por anos, certamente se identificará com Um Dia. Sem dúvidas, este é um filme para os românticos sofredores, que já amaram ou amam uma pessoa próxima e muito especial , tardaram a tê-la ou nunca a tiveram em seus braços. Além do mais, o humor peculiar das boas falas de Emma e a química do casal protagonista que, está longe e próximo ao mesmo tempo, criam uma empatia com o filme e garante a sessão. Muito do valor desta narrativa está em emocionar pela espera e pela (im)possibilidade de concretização de uma relação afetiva durante anos, assim, ao evocar a história de amigos que se gostam mas que demoram a se envolver amorosamente, Um Dia cria uma conexão de um amor que não é só físico, mas está presente nesta conexão espiritual de um sentimento amoroso e esperançoso que tudo suporta. Para que essa conexão seja verossímil, a construção das personagens é bem pertinente porque Emma é a que tem muito mais noção do seu amor por Dexter. Ela é o porto seguro dele e tem que ser forte ao lidar com este sentimento intenso, de altos e baixos, de fugas contraditórias, por isso a emblemática frase "Eu te amo, mas não gosto mais de você". Enquanto ele é o mais vulnerável psicologicamente, com uma mãe que está doente e um pai com o qual tem uma relação conflituosa, além de ser o homem que tem uma fase regada a mulheres, bebidas, drogas, fracasso na carreira e no casamento.







O filme é muito bonito ao mostrar ao público que o amor aflora de momentos muito simples, únicos e memoráveis. Ele acontece de forma inesperada e se aperfeiçoa no afeto incondicional, de amar sem necessariamente esperar do outro um amor carnal, imediatista. Ele evoca esta história de amor atemporal e perfeita por ser imperfeita; uma história de longos silêncios e esperas, de afirmações e negações, de múltiplas reticências até a chance de vivê-lo intensamente ao menos um dia, ou outros mais, assim como perdê-lo repentinamente. É uma película na qual o amor leva tempo para amadurecer, para ser confessado, para ser vivenciado. Ele vive no coração dos amantes na esperança de Um Dia ser plenamente encontrado e celebrado.


Avaliação MaDame Lumière






Sob a direção de Selton Mello, O Palhaço é uma bela jornada de inspiração Felliniana que ao criar a ilusão cinematográfica do circo, sua tr...



Sob a direção de Selton Mello, O Palhaço é uma bela jornada de inspiração Felliniana que ao criar a ilusão cinematográfica do circo, sua trupe itinerante e aparições humorísticas em cidades do interior Brasileiro, trazem ao público um emocionante misto de magia circense com a melancolia de um jovem palhaço. Valdemar (Paulo José) e Benjamin (Selton Mello) são pai e filho, donos do Circo Esperança e formam a dupla de palhaços Puro Sangue e Pangaré. Viajam com sua divertida e excêntrica família circense, fabulosa em evocar a simplicidade, o humor e o amor do circo com poucos tostões no bolso. O elenco coadjuvante que representa os variados tipos: mágico, anão, bailarina, etc encanta com destaque para o Delegado Justo (Moacyr Franco), Paulo José e participações muito especiais de Ferrugem, Jorge Loredo e da carismática atriz-mirim Larissa Manoela, que interpreta a sonhadora e encantadora Guilhermina.




Além da fascinante fotografia assinada por Adrian Teijido, cadenciada em nuances solares e coloridas, a força imagética do filme também está combinada com uma excelente direção de arte de Claudio Amaral Peixoto e figurino de Kika Lopes que misturam uma estética mais regional, interiorana e popular com o excêntrico visual de artistas maquiados e vestidos como parte de um mundo mágico, surreal. Embalado pela bela trilha sonora do músico e produtor Plínio Profeta, O Palhaço tem a sonoridade popular Brasileira com a musicalidade instrumental que interage intimamente com o drama cômico. As texturas fotográficas têm um realismo vibrante e até mesmo, sinestésico, como a imagem das ondas de calor que exalam do asfalto, o suor palpável na pele da bailarina, o olhar contemplativo e sonhador da criança para o picadeiro. O espectador é levado a contemplar um visual mais provinciano, em contato com o público bem popular que comparece às apresentações para dar boas risadas. Este público assume um significado especial ao aproximar mais o Brasil e o circo, cada espectador e O Palhaço.




Selton Mello surpreende como realizador. Sua maturidade como artista é evidente e mais completa: ele roteiriza, dirige, atua e traz a carga reflexiva, melancólica e cômica de um palhaço. O apelo do diretor não é somente de apuro estético e de orquestração fílmica, Selton é bem apoiado pela equipe qualificada que rendeu prêmios ao filme e pelo ótimo roteiro elaborado em parceria com Marcelo Vindicatto. Ao enquadrar em closes a planos mais abertos, ora imagens do popular, ora de paisagens interioranas, seu olhar transformado em diretor de um “circo cinematográfico” é digno de aplausos. Exemplo disso é a relação fílmica que se estabelece entre o público e o palco formado pelos próprios integrantes do elenco: o plano do Delegado Justo conversando com a trupe após uma ocorrência de briga em bar, quando a trupe procura e dialoga com Beto/Deto Papagaio (Tonico Pereira) ou quando Benjamin Pangaré acompanha a conversa de Nei (Jorge Loredo) bem humorada de em uma mesa de bar. A trupe se torna plateia, os outros são palhaços e o Cinema é o grande palco; porém como na vida, nem tudo é riso, surge na narrativa um triste questionamento verbalizado pelo melancólico palhaço Pangaré: “Eu faço o povo rir, mas quem vai me fazer rir?”.





A partir dessa interrogação, o protagonista e a narrativa são bem desenvolvidos para demonstrar que o palhaço está em crise, que há mais tristeza cômica que alegria exacerbada, muito mais perguntas do que respostas, que depois dos gracejos e trejeitos no palco, Pangaré nem mesmo tem certeza se aquele é o seu lugar. O silêncio, a introspecção e a voz entoada para “dentro” na excelente atuação de Selton Mello caracterizam este palhaço que perde o viço e a vontade de entreter o público, fato que é fundamental para tornar o personagem uma incógnita dele mesmo, que sensibiliza e cria um processo de identificação com a platéia, afinal, pelo menos uma vez na vida, alguém teve vontade de viajar mundo afora e encontrar a si mesmo, ou riu com vontade de chorar, na mais verdadeira e humana das emoções. Com essa temática, o filme tem um clima e ritmo mais lentos, uma atmosfera de fábula com uma dose de realidade, que estabelecem uma comunicação com o público de que a jornada é mais dramática do que cômica, mais introspectiva do que extrovertida.




Tal problemática existencial é muito bem estilizada por Selton Mello através de seu personagem, de performático talento e carisma. Para criar um sentido bem maior às escolhas de Pangaré, alguns elementos cenográficos são inseridos como uma certidão de nascimento, velha e amassada, e ventiladores que surgem em diversas cenas. A inclusão do ventilador, elemento do sonho e desejo, é muito interessante e essencial para materializar um propósito e criar mais poesia na narrativa, a da busca por algo que se deseja e que deve ser conquistada. O ventilador não é somente a promessa do frescor do corpo físico, ele gira como um mundo de novas possibilidades, como a hélice de um avião que leva a descobrir outros lugares e novas experiências. Pangaré deseja comprar um ventilador, mas não tem nem carteira de identidade, CPF e comprovante de residência que possibilitem esta compra. O palhaço se torna um cidadão do mundo sem RG, um viajante que entra na vida das pessoas e, logo mais, tem que abandoná-las, um sonhador que parte em busca de uma realidade fora do mundo circense que lhe traga o autoconhecimento e a experiência, que lhe dê a oportunidade de encontrar qual é o seu lugar neste mundo, obter uma identidade na universalidade de sua vocação.




De maneira geral, o filme é muito bom porque o palhaço vem para contestar a ordem de sua própria existência e nos levar à reflexão, logo não é mais um filme de simples entretenimento, mas uma jornada de autodescoberta facilmente aplicada a cada um de nós. Em sua harmonia de roteiro, fotografia, direção e atuação, a força do filme está em se comunicar com o público, que é o desejo de Selton Mello. Ele queria um filme para emocionar e está conseguindo os resultados de suas expectativas, tanto que a recepção do mesmo no Festival de Paulínia foi muito positiva, ganhando os prêmios de melhor ator coadjuvante, direção, roteiro e figurino. Certamente as emoções afloram quando o Cinema é espelho de nossas próprias problemáticas. O Palhaço acerta ao criar uma beleza refinada e ao mesmo tempo capaz de se comunicar com a massa através de um assunto tão mágico como o circo e tão universal como a melancolia que abate o ser humano em variados ciclos de sua vida. Guiado por seu instinto e psicologicamente dividido por duas forças que o impulsionaram para baixo e para cima, o palhaço é uma figura de contestação e de reflexão, aqui não é diferente, como já dizia Fellini. Pangaré tem carisma assim como tinha a Gelsomina (a atriz-palhaço Giulietta Masina) em Estrada da Vida. Ambos têm a singularidade de encantar pessoas com simplicidade, com um estilo caricato tão único em um palhaço, capaz de mimetizar a alegria, a tristeza, o cômico, o trágico que é intrínseco ao ser humano e expressar aquele sentimento em suspenso, com dúvidas e questionamentos, com uma inadaptabilidade a algumas circunstâncias. O Clowning, a Arte de performar, viver e ser um palhaço, tem como excelência o riso como reflexão de outras dores da existência. O Clowning de O Palhaço provê uma reflexão ativa, uma mensagem tocante e de potencial transformação.




O Palhaço é um drama cômico genuinamente sincero e leve, uma homenagem ao circo e a seus artistas; nisso reside o seu real valor: o de ser um filme de coração e alma que tem o tom autoral de Selton Mello, o bom humor Brasileiro, o reconhecimento da Arte Circense do país de tantos palhaços como Benjamin de Oliveira e Valdemar Seyssel “o Arrelia” e ser comercialmente atrativo para o Cinema Nacional. Ele é recomendado por não ter exageros sentimentalistas e, ainda assim, ser cativante, emocionante. Com ele, Selton Mello transformou 90 minutos de projeção em um filme mímesis do palhaço que traz riso e esperança e, como dizia o cineasta Italiano Fellini, também faz bem à saúde.


Avaliação MaDame Lumière


Filme: O Palhaço País/ Ano: Brasil (2011)

Direção: Selton Mello

Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicatto / Produção: Vânia Catani

Elenco: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoel, Gisele Motta, Teuda Bara, Álamo Facó, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Moacyr Franco, Tonico Pereira, Ferrugem, Jorge Loredo, etc.

Com roteiro e direção do coreano Hong Sang-soo , O dia em que ele chegar é o retorno do diretor aos hábitos do Cinema-Metalinguagem d...




Com roteiro e direção do coreano Hong Sang-soo, O dia em que ele chegar é o retorno do diretor aos hábitos do Cinema-Metalinguagem de filmes como Oki e Woman on the beach, no qual suas histórias falam de diretores que ora filmam, ora deixam de filmar. O que poderia soar aborrecedor, repetitivo e subjetivo demais na sua filmografia, neste seu último trabalho, apresentado no Festival de Cannes de 2011, não é. O longa é uma leve proposta, melancólica e bem humorada de um protagonista diretor totalmente ocioso. Relata sobre o ex-cineasta, Yoo Seong-jun (Yu Jun-sang) que viaja à Seul para encontrar um amigo crítico de Cinema. Sua estadia na cidade é de caminhadas pelo bairro de Bukchon, bebedeiras e muita conversa jogada fora. Ele encontra estudantes de Cinema, sua ex-namorada, novos flertes e toma clássicas biritas como o makgeolli (vinho de arroz) em um bar de Insadong. Tendo se aposentado, o ex-cineasta vive o anonimato de não ter nada para fazer e de não ter chegado à lugar algum, além de evidenciar na narrativa que não resolveu nada na vida, tanto de ordem afetiva como o relacionamento mal resolvido com sua ex, Kyungjin (Kim Bok-yung) como também de ordem profissional como os poucos filmes os quais ele nem comenta a respeito.




É um filme bom e peculiar, baseado em conversas descontraídas, simples, engraçadas e tristes, e também em enquadramentos recorrentes. Por não exigir uma profundidade de atenção à narrativa e na reflexão sobre a mesma, ele se torna mais leve, envolvente e, por incrível que pareça, desperta a curiosidade para descobrir qual é o propósito de Hong, principalmente com o dejà vu que é orquestrado pelo diretor com o seu montador Hahm Sung-won, no qual há repetições de planos semelhantes como o encontro de Yoo na rua com a mesma jovem atriz e com os mesmos estudantes de cinema, a conversa na mesma mesa do bar entre amigos, o mesmo local para o qual Yoo se dirige a fim de tomar um fôlego pós-bebida e fumar um cigarro, o beijo e a noite de sexo com Yejeon (Kim Bok-jung), a dona do bar, que se parece com sua ex Kyungjin e é interpretada mesma atriz, as mensagens SMS no celular de Yoo enviadas pela ex-amada, as falas de amor de Yejeon e Kyungjin que assemelham e se repetem e que não provocam efeito algum no cineasta, que aparenta aversão a compromissos amorosos.





O expectador é conduzido a acompanhar as andanças de Yoo e, de forma bem circular, voltar às cenas semelhantes com o bate papo regado à bebida, as paqueras com as bonitas garotas, a sensação de que ele não tem nada para contar sobre sua carreira cinematográfica na provinciana Daegu. Definitivamente, parece ter parado no tempo! E a pergunta que fica é: Quem era o diretor Yoo Seong-yun? Não se sabe, as conversas tem pessoas do meio cinematográfico: um crítico, uma professora, um ator, porém se fala de qualquer coisa que não seja profundamente falar sobre cinema. Esta escolha do diretor roteirista também demonstra que esta é a vida de Yoo, de total inércia perante sua carreira. O Cinema, a grande Arte de contar histórias, já não faz parte do dia a dia dele, ele já não sabe mais contar nada sobre ele e nem sobre os outros, o que pode ser potencialmente comum quando um diretor pendura a câmera. No geral, o recurso narrativo da repetição é uma das melhores virtudes da fita, pois estiliza e formaliza em cena o quanto emocionalmente este diretor tem um bloqueio existencial e é patetico até mesmo para lidar com as mulheres, levando-as para a cama, fazendo com que se apaixonem e verbalizem declarações de um amor que não é vivenciado, que mais parece uma promessa surreal, romântica ou de pós-coito. Yoo é incapaz de dar um rumo diferenciado à sua vida. Suas andanças materializam o completo ócio, em dias presentes que se repetem como reminiscências dos dias anteriores.





O belo tom imagético invernal, com a queda da neve, o beijo roubado no entardecer, o dia que logo se fará noite, ou se restringirá a uma mesa de bar em um ambiente fechado, sempre em preto em branco, contribui bastante para a sensível atmosfera do filme e, conjuntamente com a repetição, causam a impressão de um longa sem um tempo cronológico, que poderia ser inserido em qualquer momento, e se perpetuar como se não houvesse nem dia e nem noite, como se a relação tempo-espaço fosse ilimitada mesmo com a limitação narrativa em cenários tão recorrentes. No mais, fotografia e elenco mantêm o interesse do espectador pela fita: a incrível fotografia P&B de Kim Hyung-koo, elaborada com a beleza singular de uma nitidez capaz de extrair cores em branco e preto agrega um diferencial à sua qualidade e é inicialmente bem perceptível e impactante. Os atores representam bem, são agradáveis e estranhamente engraçados, como o crítico de Cinema Young-ho (Kim Sang-joong) e a professora de Cinema Boram (Song Sun-mi), charmosos e atrativos o suficiente para serem bons companheiros de alcool e de bate papo. Em cada novo gole e prosa, o expectador é impelido a gostar deles, concordar com frases cheias de verdade que falam de solidão, amor, sonho e qualquer coisa que combine com um pouco de embriaguez.


Avaliação MaDame na Mostra

4 estrelas

Quando a perda faz encontrar a si mesma Se há um gênero que funciona muito bem com o Cinema Independente Americano, este é o drama. É uma bo...



Quando a perda faz encontrar a si mesma



Se há um gênero que funciona muito bem com o Cinema Independente Americano, este é o drama. É uma boa oportunidade para que o expectador mergulhe em uma atmosfera fílmica de um cotidiano mais real, verossímil, catártico, desta forma, voltando o seu olhar para a contramão dos grandes blockbusters da fábrica de ilusões Hollywoodianas, e se conectando com os desafios emocionais tão inerentes ao ser humano. Maria my love é um destes filmes independentes que, na simplicidade de evocar um drama pessoal e familiar, aproxima-se do público através da história de Ana (Judy Marte), uma jovem garota que vive na Califórnia e tenta refazer sua vida após a morte da mãe. Tendo uma relação distante, mal-resolvida e de profunda mágoa com o pai, a princípio, resta-lhe somente a convivência com o novo namorado Ben (Brian Reiger) e com sua meia-irmã Grace (Lauren Fales), no entanto, mais tarde, ela decide embarcar em uma missão de ajudar à alguém, e conhece Maria (Karen Black), uma solitária senhora com problemas psicológicos que acaba por desafiar emocionalmente Ana.




Selecionado para o Tribeca Film Festival e vencedor do HBO's New York International Latino Film Festival, ambos de 2011, o longa dirigido por Jasmine McGlade Chazelle tem características de um independente com influências cenográficas e narrativas latinas em um cenário Americano: a atriz Judy Marte tem origem Dominicana e, portanto, cria esta relação da personagem com o meio em questão; o enredo se desenvolve em um bairro da periferia da Califórnia; alguns enquadramentos fotográficos são realizados com imagens revigorantes e coloridas, de efeito solar natural e com closes em flores da região que remetem à publicidade do cartaz; alguns detalhes que compõem o roteiro incluem música hip hop e referências à street dance, comuns nos subúrbios da comunidade Latina, e coexistem no drama importantes questões familiares como os conflitos e perdas que acometem os jovens. Maria my love é um filme mais intimista e pode ser a história de qualquer pessoa comum, logo, imageticamente, o filme reflete o cotidiano dramático de uma garota latina e uma maneira mais caseira e independente de fazer Cinema nos USA, tendo como um dos pontos desfavoráveis a qualidade da fotografia, cuja textura deixa um pouco a desejar.




O ponto mais favorável é a atuação conjunta de Judy Marte, mais centrada no drama da sua personagem com a ótima participação coadjuvante de Karen Black, que vem a agregar à narrativa o início da catarse necessária à Ana. O filme se apóia mais na atuação de Judy, filmada em diferentes closes e em pequenas situações de confronto, seja consigo mesma, seja com o namorado, a meia-irmã e Maria. Claramente, a responsabilidade maior é de Judy pela atuação de protagonista, que a realiza bem e sem muitos sentimentalismos, o que é positivo e coerente, considerando que o longa tem um estilo mais Indie, e Ana está em uma fase emotiva, porém tem uma personalidade racionalmente mais orgulhosa. Por outro lado, pela maior maturidade e experiência interpretativas e in(sano) papel, Karen Black dá ao longa o sabor dramático e cômico e, em menos tempo de fita, é a melhor atuação. Seu papel é interessante pois, por trás de sua intempestuosa loucura, é a pessoa que desafia e ajuda Ana a olhar para dentro de si e buscar um recomeço.




O longa somente se torna interessante, em termos mais reflexivos para a experiência cinematográfica, quando se compreende que uma complementa a outra em determinado avance da película. Ambas são solitárias mulheres que, de diferentes maneiras e com idades distintas, não se enquadram ao mundo. Ana está passando por uma fase de introspecção, de perda familiar e de si mesma, de tentativas de entender seus sentimentos, colocar os pés no chão e conviver melhor com as pessoas à sua volta. Maria é uma mulher de personalidade e convívio mais difíceis por conta do alterado psíquico que exige compreensão, tolerância e cuidados alheios. Nesta ensolarada Primavera que contrasta com as cinzentas emoções de Ana, sua jornada pode terminar em um florescer para a vida, assim como a flor símbolo do filme, porém para que isso ocorra, há um caminho de autoconhecimento para compreender suas limitações e a dos demais, ser tolerante com os erros e saber recomeçar mesmo com as ausências afetivas.


Avaliação MaDame na Mostra

3 estrelas

Confira os vencedores da 35ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, nas principais categorias participantes: Troféu Bandeira Paulista Me...




Confira os vencedores da 35ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, nas principais categorias participantes:


Troféu Bandeira Paulista

Melhor Filme: Respirar, de Karl Markovics

Melhor Documentário: Marathon Boy, de Gemma Atwal




Prêmio da Crítica

Melhor Filme: Era uma vez na Anatólia, de Nure Blige Ceylan

Prêmio Especial: Sábado Inocente, de Alexander Mindadze

Melhor Aquisição de Curta Metragem (Canal Brasil):
A casa da Vó Neide, de Caio Cavechini




Prêmio do Público

Melhor Ficção - Brasil:
Teus olhos meus, de Caio Soh

Melhor Ficção - Internacional:
Desapego, de Tony Kaye
Frango com ameixas, de Marjane Satrapi e Vicent Paronnaud

Melhor Documentário - Brasil
Raul - O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho
Vai, vai, 80 anos nas ruas, de Fernando Capuano

Melhor Documentário - Internacional
Batidas, rimas e vidas - As viagens de a Trible called Quest, de Michael Rapaport






Prêmio Itamaraty
(em reconhecimento às produções nacionais baixo orçamento)

Melhor Ficção:
Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios,
de Beto Brant e Renato Ciasca
R$ 45 mil




Melhor Documentário:
Raul - O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho
R$ 39 mil

Melhor curta-metragem:
Cine Camelô, de Clarissa Knoll

Prêmio da juventude
Uma incrível Aventura, de Debs Gardner-Paterson





Atom Egoyan


Homenagens especiais:

Prêmio Humanidade Leon Cakoff
Atom Egoyan
Mohsen Makmalbaf


Prêmio Itamaraty (pelo conjunto da obra)
Hector Babenco


MaDame Lumière parabeniza todos os vencedores por MostraR
um cinema de qualidade e vencedor!

Após ganhar o prêmio de melhor Diretor no Festival de Cannes em 2010 por Tournée, Mathieu Amalric retorna à direção com o seu segundo longa...



Após ganhar o prêmio de melhor Diretor no Festival de Cannes em 2010 por Tournée, Mathieu Amalric retorna à direção com o seu segundo longa, A Ilusão Cômica, baseada na homônima obra clássica (1635) de Pierre Corneille, que conta a história de um pai, (Prindamante, o ator Alain Lenglet) que procura seu filho desaparecido (Clindor) com o qual tem uma relação distante. Para encontrá-lo, contrata um mágico (Alcandro), que com sua bola de cristal acompanha a tragicômica vida do jovem. A aventura metalinguística de Amalric em unir o teatro e o Cinema cria um resultado bem interessante, que causa um inevitável estranhamento do espectador com a narrativa milimetricamente rimada em Alexandrinos em pleno cenário de uma Paris contemporêa, assim como provoca substancialmente o ilusionismo cinematográfico, levando o público a pensar se aquilo que se vê está realmente acontecendo. Para lançar luz à magia narrativa feita por Amalric, o mago Alcandro, intepretado por Hervé Pierre, um porteiro metido à detetive que usa as câmeras de uma sala de segurança como bola de cristal, lança a seguinte frase: "Acredite somente no que você vê".





Financiado pela Comédie Française em uma iniciativa que adapta peças da comédia do repertório teatral Francês para o audiovisual, primeiramente, a obra foi feita para a TV, por isso mantém uma identidade com esta plataforma como uma série televisiva. Visualmente, seja pela agilidade do registro, seja pelo suporte da TV, é fácil imaginar a película na TV5 Monde, contudo, o que se sobressaí nesta produção é que ela ainda é um bom e surpreendente filme dadas as condições rígidas de se manter a fidelidade ao texto de Corneille e o estranhamento de se acompanhar um filme cujo texto é teatral, com atores pronunciando rimas em clima solene como se estivessem no período Renascentista.




Ainda que a narrativa pareça confusa, de difícil assimilação como um jogo de espelhos movido por tramas de paixão, ciúmes, traição e assassinato, Amalric demonstra que tem controle sob a direção e muito talento por conseguir rodá-lo em 12 dias, prazo imposto pelo programa. Realizou um filme dinâmico, com ritmo que mantém a curiosidade do público como uma brincadeira de um ilusionista com a plateia, como um convite ao voyeurismo realizado pelas câmeras de segurança. Por outro lado, o filme ainda se prende muito ao texto de Corneille como se fosse um teatro em 35 mm, o que limitou explorar melhor outros recursos narrativos e linguísticos na adaptação e até mesmo o trabalho com os atores que tinham que decorar um texto original e proclamá-lo independente de suas demais reações intepretativas ao fazer Cinema. Felizmente, o elenco que faz parte do triângulo amoroso principal é jovem, bonito e tem intimidade com o texto teatral, o que desperta interesse em apreciá-los não só pelo romance e sedução da obra como pela disciplinada atuação pautada em uma experiência prévia com o teatro. Uma parte são atores provenientes da Sociedade de Comédia Francesa, e os protagonistas deste trio convencem: Loïc Corbery é Clindor, o filho procurado pelo pai, Suliane Brahim é Isabelle, sua amada rica, Lyse (Julie Sicard), a amante rejeitada.




Muito mais do que uma obra na qual o pai tenta se aproximar do filho e saber o que se passa com ele com a ajuda de um mágico, A Ilusão Cômica é um filme que faz refletir sobre como o Cinema cria uma ilusão que facilmente o expectador aceita, compra a ideia, mesmo que o que se vê lhe seja claramente uma ilusão, um espetáculo mágico, uma estranha imitação. A todo o momento de projeção, o que se vê é mais um teatro cinematográfico, do que um Cinema que usa o teatro como inspiração e o espectador tem como desafio unir estas duas Artes, entre o registro imagético contemporâneo de Amalric e um texto de séculos atrás. Verdadeiramente, a sensação é a de que aquilo é um anacrônico faz de conta Cornelliano pelos corredores do Hotel do Louvre que está ali para um entretenimento voyeurista ou, no mínimo, que os atores enlouqueceram e decidiram recitar religiosamente Corneille. Isto não torna a obra de Amalric menor, pelo contrário, o filme tem uma dose cômica pelo próprio estranhamento do texto com o registro, tem frescor com uma pegada moderna e elegante e um final surpreendente que só reforça a ilusão criada na mente do público. O longa confirma que Amalric é um inventivo diretor, aberto a novas ideias que aproximam as fronteiras entre as distintas linguagens.

Avaliação MaDame na Mostra

4 estrelas

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