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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
O novo documentário de Lúcia Murat, Hora do Recreio (Playtime,2025), estabelece-se como um exercício fundamental de alteridade e escuta ativa. Ao adentrar o universo do ensino médio em escolas públicas do Rio de Janeiro, a obra transcende o mero registro documental para se tornar um espaço dialógico onde o jovem deixa de ser o objeto de estudo para assumir o protagonismo de sua própria narrativa. O filme confronta o estigma da passividade juvenil, revelando uma juventude profundamente consciente, crítica e articulada sobre as dores e as estruturas que atravessam seus corpos e territórios.
A direção de Murat opta por uma abordagem que reflete a multidisciplinaridade da educação. A escola não é apresentada como uma redoma, mas como um elemento transversal conectado organicamente à cidade. O conceito de território é central: a narrativa flui entre as salas de aula e os espaços externos, metrôs, estações de trem e centros culturais, evidenciando que o aprendizado e a resistência ocorrem em cada esquina. Essa conexão com o real é palpável, inclusive, nas ausências forçadas, como quando a violência sistêmica e os tiroteios impedem o acesso físico a determinadas comunidades, tornando a própria impossibilidade de filmar um dado da realidade educacional brasileira.
Um dos pontos mais luminosos da obra é a valorização da figura do professor. Longe de ocupar um lugar de autoridade estéril, o docente surge como um mediador essencial, um facilitador de diálogos cheios de humanidade. É nesse ambiente seguro que os alunos encontram vazão para verbalizar temas densos como o racismo, a misoginia e a homofobia, transformando vivências pessoais em crítica social coletiva. O filme deixa claro que o jovem de escola pública não é um ser alienado; ele é uma "massa viva" que compreende perfeitamente como sua identidade, especialmente a do jovem preto e periférico, é lida pela sociedade.
Esteticamente, o documentário arrisca ao utilizar uma montagem que se assemelha a uma colagem artística. A inclusão de intervenções com grupos de máscaras, coreografias de expressão corporal e releituras teatrais de obras clássicas (como a de Lima Barreto, um grande escritor negro revisitado) traz uma camada de metalinguagem que enriquece a obra. Participam potentes atores de grupos emblemáticos da cidade como o Nós do Morro (Vidigal), Grupo de Teatro VOZES!(Cantagalo-Pavão-Pavãozinho) e o Instituto Arteiros (Cidade de Deus).
Para o espectador familiarizado com os ritmos e as linguagens da educação, esses recortes são percebidos como uma solução criativa e potente. Entretanto, para o público geral, o fluxo narrativo pode soar, por vezes, abrupto. As quebras de ritmo entre os depoimentos diretos e as inserções mais conceituais, ou mesmo o uso de imagens com estética jornalística vertical para retratar conflitos, podem gerar um efeito dispersivo que distancia momentaneamente o espectador do relato vivo. Ainda assim, essa recepção da obra vai depender do repertório e da experiência de cada espectador com a cultura, as juventudes, os territórios e a Educação.
A trilha sonora coroa essa construção cultural com precisão, integrando nomes e ritmos que dialogam com o slam e a cultura urbana, evitando a redução da periferia a estereótipos musicais. A intenção de Murat, ao hibridizar o documentário com a encenação, parece ser justamente a de oferecer ferramentas para que a inteligência desses jovens ganhe novas formas de manifestação.
Hora do Recreio é um filme urgente, muito necessário. Ele reitera a necessidade de uma escola que, inspirada pelos ideais freirianos, seja um espaço de construção do ser e de reflexão contínua. Ao recusar o olhar de vitimização e apostar na potência intelectual e artística dos alunos, Lúcia Murat entrega um documento sensível sobre o futuro do país, lembrando-nos de que a consciência crítica é o primeiro passo para a transformação de qualquer território.



Seu parágrafo final me remete a máxima do grande Paulo Freire :“Desenvolvendo a consciência crítica os educandos passam a agentes transformadores dessa realidade “
ResponderExcluirFiquei muito emocionada lendo e revendo a minha trajetória nesse universo desde os 16 em salas de aula .
Obrigada 🌷
Olá, tenho que dizer que fiquei muito contente com sua visita e digo que seu relato demonstra a sua alma sensível, que entende o terreno da Educação. Obrigada pela visita. É muito gratificante ver educadores aqui lendo essa crítica, pois esse filme é a potência que precisamos diariamente com nossos olhares e resistência. Sim, valorizamos a intersecção entre o educar e a humanidade do Cinema. Esse documentário precisa ser visto em todos os cantos do nosso país e no mundo. É especial ver que Paulo Freire permanece e inspira. Abraços!
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