quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Serenata Prateada (1941), de George Stevens






Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação




Por tradição, o Cinema Americano da Era de Ouro era previsível no que concerne à gramática fílmica de muitos clássicos que acompanhava o funcionamento dos grandes estúdios de Hollywood, notoriamente quando os gêneros eram romance e comédia como as de Frank Capra, Billy Wilder, George Cukor,  entre outros exímios contadores de histórias.  Nesses filmes,  era comum esperar a influência do romance, do melodrama, do screwball,  de personagens femininas  inteligentes, cômicas e fortes, além da delicada e sedutora beleza das musas do Cinema, de histórias otimistas que celebravam os anos dourados da América e o surgimento de personagens e temas em referência ao jornalismo e imprensa.  Com o advento da Segunda Guerra Mundial, a necessidade de escapismo e  superação,  entre as décadas de 40 e 50, essa indústria sofreu uma transição para musicais, e posteriormente, para dramas, melodramas e cinema expressionista Americano (o Noir).  Esse período posiciona Serenata Prateada (Penny Serenade, 1941) como um drama romântico e corrobora  o porquê  é um excelente filme de transição do que viria a ser as próximas produções do diretor George Stevens.
 
 
 
 
 
A história é bem resumida pelo slogan "Unidos pelo amor, testados pela tragédia" . Em sua superfície, parece um romance mas não  é na essência. É um comovente drama de um casal que enfrenta  perdas e são confrontados pela fragilidade do casamento, apesar do amor que não sabem  demonstrar inteiramente em atitudes. Roger Adams (Cary Grant) é um editor de jornal que sonha alto, em ter seu próprio negócio e proporcionar o melhor à família. Sua esposa, Julie (Irene Dunne), é do lar e sonha em ser mãe. Após uma tragédia em Tóquio, local onde Roger recebeu uma oportunidade de trabalho, eles retornam aos Estados Unidos e decidem adotar uma criança (Trina).
 
 
 
 
 
 
 
 
Independente do menor ou maior sucesso de Serenata Prateada, o longa  tem uma virtude expressiva  por trás de sua frágil aparência: o roteiro , adaptado da obra da novelista Martha Cheavens. É uma história melodramática  realizada por um excepcional cineasta clássico que, mais tarde, seria um dos mais competentes na execução de dramas ou romances dramáticos como "Um lugar ao sol", "O diário de Anne Frank" e "Assim Caminha a Humanidade" .  Muito habilidoso na mise em scène que valoriza a simplicidade das atitudes em cena e dá espaço para o espectador analisar o que está por trás de determinadas escolhas da direção, ele  reúne vários elementos que dialogam com os anos anteriores, como trabalhar com um brilhante casal de atores como Irene Dunne e Cary Grant (que realizaram "Minha esposa favorita" e "Cupido é  moleque teimoso" juntos),  nuances  da comédia suave e terna  balanceadas com cenas dramáticas, um relacionamento conjugal com altos e baixos, um ligeiro screwball "Carygrantiano",  elementos sociais como o desemprego e as dificuldades profissionais de jornalistas e a falta de dinheiro. Em paralelo, a história acrescenta o drama familiar, o casamento testado pela tragédia e pelo distanciamento do casal, pelo romance que tem um fio de esperança e pode superar as adversidades.
 
 
 
 
 
Irene Dunne, uma das melhores atrizes da época, tem uma beleza impactante em cena  pela força feminina que nasce da fragilidade. Por diversos momentos, Julie demonstra insegurança como esposa, mulher e mãe. A atriz equilibra bem o drama passado com a necessidade de acreditar em uma melhor vida familiar e fazer acontecer.  A câmera em close também realça a doçura de seu rosto e cria uma conexão com o drama feminino.  Cary Grant atua com mais tons interpretativos entre o drama e a comédia. Em determinadas cenas, ele expressa um coração mais duro, uma leve insensibilidade e  insegurança na interação com Julie e o peso da responsabilidade como provedor, logo mais, isso é quebrado pela sua habilidade de fazer graça com boas tiradas cômicas e a doce sedução do seu carisma.
 
 
George Stevens era tão perspicaz na seleção de seus projetos relacionados a filmes dramáticos que,  ao trabalhar com uma história que  aborda uma questão de adoção, ele pôde incluir questões sociais, institucionais e humanistas em cena. Um dos melhores exemplos é a burocracia da adoção que passa da negociação do casal ( vamos adotar ou não? Menino ou menina?), pela necessidade de comprovação da renda familiar ao sistema legal, a expectativa e as preocupações até a concessão da adoção em definitivo e a realidade prática de pais de "primeira viagem". Esse desenvolvimento da história, em um nível consideravelmente leve a cada plano e corte, porém eficiente, transforma Serenata Prateada em uma obra com viés  contemporâneo, já antecipando, naquela época, dramas mais realistas da década de 40 e 50, principalmente os melodramas  com pano de fundo romântico. Cinco anos mais tarde, Frank Capra realizaria "Felicidade não se compra", um clássico de que "a esperança é a última que morre", uma esperança que também está presente aqui.
 
 
 
 
 
 
A aparente casca romântica dessa preciosidade cinematográfica é uma estratégia inteligente. Nos primeiros planos, Roger e Julie se conhecem em uma loja de discos. Em flashback, quando Julie ouve cada disco, ela se lembra da história de amor, da lua de mel meteórica, da tragédia em Tóquio, das diferentes perdas no transcorrer do tempo. É uma bela introdução e constância das memórias revividas através da música, daquela caixa de discos que fez parte do primeiro encontro do casal, das canções que funcionam como pontes para relembrar os afetos e as tristezas. Como o Cinema  clássico é uma agradável caixinha de surpresas, em determinado ponto da narrativa, a história toma um rumo totalmente diferente  do romance  mais enviesado da comédia romântica. Essa generosa competência do roteiro em levar o público do romance ao drama é o grande diferencial, é o presente ao espectador com uma atemporal história familiar sobre perdas e ganhos. Comovente e inesquecível!
 
 
 
 
 
Ficha técnica do filme ImDB
 
 

Um comentário:

  1. Nada como um clássico não é mesmo? Filme "velho" é que faz uma sessão boa! rs

    Os filmes de George Stevens e sobretudo produções dessa transição que diz, sempre tinham algo a mais para contar (não que os filmes mais escapistas sejam descartáveis, vide produções de Charles Chaplin que mesclavam as críticas sociais), mas principalmente o Noir - alguns até sórdidos como , por exemplo, fitas de Robert Aldrich. Adoro Cary Grant aqui. Que ator magistral ele era. Tanto pra comédia pastelão - principalmente com Katharine Hepburn - quanto para o drama e é claro, romance. Um dos galãs da era de ouro. Fazia suspense também como poucos - sua ótima parceria com Hitchcock que o diga, enfim, era um cara versátil e muito bom.

    Belo texto.
    Beijos

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