domingo, 24 de julho de 2011

MaDame Western: Matar ou Morrer (High Noon) - 1952

MaDame Western:


Grandes Clássicos Bang-Bang no MaDame Lumière




Em uma das suas atuações mais emblemáticas, Gary Cooper é o delegado recem aposentado Will Kane de Matar ou Morrer, clássico do faroeste dirigido esplendidamente por Fred Zinnermann, com roteiro de Carl Foreman. No dia de seu casamento com a quaker Amy Fowler (Grace Kelly), Kane recebe a notícia de que o implacável bandido Frank Miller (Ian MacDonald) foi libertado da prisão e chegará no trem do meio-dia para vingar-se do xerife. O tenso suspense se aproxima da cidadezinha de Hadleyville já na sequência inicial quando os três capangas de Frank Miller chegam à cidade cavalgando ao som da música tema do filme: Do not forsake, oh my darling, e posteriormente em novas tomadas, são enquadrados à paisana aguardando o comboio na inóspita paisagem do Velho Oeste. O delegado Kane foi o responsável pela detenção de Miller, além de ter se envolvido amorosamente com a bela mexicana Helen Ramírez (Katy Jurado, em excepcional performance coadjuvante), dona do bar e ex-namorada de Frank Miller. Amy tenta convencer o novo marido à fuga, mas Kane permanece na cidade, disposto a contar com a ajuda do delegado auxiliar Harvey Pell (Lloyd Bridges, pai do ator Jeff Bridges) e demais auxiliares para enfrentar o violento bandido e sua gangue, porém nem tudo saí como Kane imagina, ele está sozinho, Hadleyville não está do lado de seu homem da lei.






Basedo na história "The Tin Star" de John W. Cunningham, Matar ou Morrer é um fascinante western, roteirizado, dirigido e editado de forma brilhante, assim como muito diferente da estrutura pura do faroeste Americano, normalmente mais caricata e preconceituosa no trato com as mulheres, índios e negros e com mais ação. High Noon desenvolve mais questões morais que de entretenimento, mais questões sócio-políticas que bang-bang. No longa, o conflito em suspense, o drama psicológico de um herói solitário, o retrato de uma sociedade Americana nos anos 50 são fatores mais relevantes na narrativa do que a corrida por riquezas e a expansão progressista das fronteiras nos Estados Unidos. O filme é muito mais intimista, existencial e, portanto, é um formidável western, mais denso em sua personalidade fílmica e psicológica. O herói interpretado por Gary Cooper é um homem da lei, solitário e destinado a enfrentar o violento inimigo. Mesmo tendo sido o melhor delegado que Hadleyville já teve, Kane não pode contar com seus cidadãos. Sua jornada antes que o relógio toque o meio-dia e o trem apite é buscar auxiliares para ajudá-lo no confronto com Frank Miller. Essa busca por ajuda não é meramente pessoal, para defendê-lo de suas rixas com o bandido, pelo contrário, é uma busca pelo coletivo, motivada pelo zelo por Hadleyville, a de lutar com ela e por ela até o fim. Kane diz à Amy: "Essa cidade é minha. Eu tenho amigos aqui", assim não é só o orgulho de um homem viril que sustenta o embate que se aproxima, mas a corajosa escolha de não abandonar a cidade ao qual se dedicou há anos. A atuação de Gary Cooper é magnífica porque não caí no sentimentalismo e desespero de um delegado em apuros e no machista clichê de um homem da lei. Aqui ele não manda na cidade e não resolve tudo na base do tiro ao alvo, na briga física e na ameaça man datória. Ele tem humildade para buscar auxiliares, para demonstrar que está sozinho e que precisa de ajuda.















Tecnicamente, o longa é uma obra prima, merecedora de seus vários Oscars, entre os quais de melhor ator para Gary Cooper. Excelente direção com belos enquadramentos, poderosos close-ups e planos gerais, e precisos cortes que o tornam um formidável trabalho de montagem assinado por Elmo Williams e Harry Gerstad, com um apurado ritmo temporal. Até o ponteiro do relógio chegar ao meio-dia, a narrativa ocorre em tempo real, com uma fantástica demonstração de como fazer um excepcional Cinema, digno de ser Clássico. O xerife caminha pela cidade nos apresentando os seus personagens: a ida à delegacia, ao saloon, à casa do amigo, à igreja, ao antigo delegado, etc, com isso, a narrativa dá conta de mostrar o microcosmo político desta sociedade Americana, que dá as costas aos seus heróis, sem argumentar muito do porquê da autocensura, sem questionar o terror que os fragiliza e assola. Até hoje, o longa é controverso e rende discussões. Especula-se que é uma alegoria cinematográfica que critica o período de 'Caça às Bruxas' do MaCarthismo nos anos 50, que perseguia grupos favoráveis ao Comunismo e suspeitos de atividades anti-norteamericanas. A censura silenciou e acovardou muita gente, assim como o silêncio dos moradores de Hadleyville. Se esse foi o propósito de Foreman e Zinnermann, o filme é um primor ao executar, com discrição porém colocando luz à covardia da população, a crítica a esse período de Trevas.









Outras virtudes técnicas contribuem para a qualidade diferenciada de Matar ou Morrer: A fotografia de Floyd Crosby, fascinante no plano geral à espera do trem, a proximidade dos trilhos e o fundo das montanhas distantes, cortando para os planos em close de alguns habitantes da cidade e de planos detalhes no relógio e na cadeira de réu é um primoroso trabalho narrativo de direção e cinematografia, um deleite para os admiradores da decupagem clássica do Cinema. Assim como quando Kane fica sozinho à espera de Miller, um travelling no centro da cidade vazio, um corte para o rosto do delegado, posteriormente, outros cortes para os closes dele, de sua esposa e de sua amante e, finalmente, mais adiante, a beleza cinematográfica de um plano com Kane na qual a grua se afasta e lá está ele, mais solitário, único a lutar contra Miller no vazio de Hadleyville. Igualmente a trilha sonora, com a recorrente canção-tema Do not forsake me, oh my Darling de Tiomkin e Ned Washington que se torna um personagem no elenco, acompanhando o herói Kane em toda a via crucis até o confronto final.




As atuações de Grace Kelly, bela e graciosa como sempre, e a imponente e marcante preesença de Katy Jurado reforçam que Gary Cooper estava muito bem acompanhado. As duas simbolizam as duas mulheres da vida do delegado, opostas no semblante e no jeito de ser: Amy, americana, loira, esposa delicada, trajada de figurino claro. Helén, mexicana, morena, ex-amante (e uma suposta grande paixão de Kane), trajada de figurino negro. A primeira, uma quaker, pacifista. A segunda, uma ex-mulher de bandido, corajosa, de passional personalidade. Elas representam um interessante e evolutivo contraponto da presença feminina em comparação aos convencionais westerns, um gênero que é por excelência machista. Logo,em se tratando do gênero faroeste, elas são um avanço da mulher que, agora, colabora para definir os rumos da narrativa de Matar ou Morrer. Basta observar como o encontro de ambas e, posteriormente, a separação, contém o cerne de desdobramentos que são importantes para a ação e para a vida de Kane. Também convém observar que tanto a mulher como o homem permanecem na sequência na igreja, quando as crianças são retiradas e, portanto, a mulher tem direito à palavra assim como o homem, bem diferente das mulheres que cozinham, passam e lavam roupas em acampamentos do Velho Oeste. Matar ou Morrer é muito mais que um simples western, é o cinema faroeste em evolução.



Avaliação MaDame Lumière




Título Original: High Noon
Gênero: Faroeste, Western
Diretor: Fred Zinnermann
Roteirista: Carl Foreman
Elenco: Gary Cooper, Grace Kelly, Katy Jurado, Lloyd Bridges

Um comentário:

  1. Westerns são minha grande lacuna como cinéfila. Ainda não assisti esse, apesar de Grace Kelly ser uma das minhas atrizes favoritas.

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