quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Maratona Oscar 2011: O Vencedor (The Fighter) - 2010




Dos finalistas à melhor filme no Oscar 2011, há vários dramas, o que evidencia que esse é um dos gêneros favoritos da Academia para premiação. Se for um drama de superação, é melhor ainda pois são esses a fazem chorar lágrimas de crocodilo. Indicado a 7 categorias do Awards, O Vencedor, dirigido por David O. Russell repete mais um drama esportivo do boxe assim como o indicado ao Oscar em 2005, Menina de Ouro de Clint Eastwood, no entanto, há alguns diferenciais nele: apresentar um dos melhores elencos coadjuvantes de 2010, com 3 indicações ao Oscar : Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams, uma direção muito bem acertada e um viés narrativo que está além do boxe e entra na arena das relações familiares. Micky Ward (Mark Wahlberg) é um promissor boxeador, filho de Alice Ward (Melissa Leo) e irmão mais novo do ex-lutador e viciado em crack Dicky Eklund (Christian Bale). Alice é a manager da casa, uma mãe que não dá ouvidos a Micky, protege e idolatra Dicky e tolera todas as suas irresponsabilidades. Dicky é treinador e ídolo de Micky e se vangloria por ter derrotado o lendário Sugar Ray Leonard no passado, porém por trás de seu esquelético físico, bom humor e ego, há o claro rastro de um fracassado que não soube lidar com uma promissora carreira e não se importa com sua drogatícia autodestruição.





Embora a história de um boxeador problemático, apaixonado pelo esporte, em busca de realização profissional e advindo de família humilde não seja uma novidade em filmes sobre esse esporte, O Vencedor supera as expectativas por ter uma pegada cômico-dramática, a qual se dá muito em função do excepcional trabalho de Christian Bale e Melissa Leo. Ambos conseguem através de seus personagens, respectivamente, um viciado lesado e uma mãe autoritária, tecer outros complexos problemas de uma família como as drogas, a violência, a falta de dinheiro, a cobrança na carreira e a dominadora influência familiar sobre as escolhas de um indivíduo. Muito mais do que um drama esportivo, O Vencedor é um drama familiar que mimetiza o quanto ela é o alicerce mais imperfeito que existe e é exatamente sua imperfeição que a torna tão perfeita, realista, dramática e humana, afinal, o ser humano é falho mas reconhecer tal vulnerabilidade ensina-o a superar suas deficiências, ajudar a si e ao próximo.


O filme já é vencedor por si só por causa da magistral direção de Russell que o torna muito agradável de assistir com uma smart narrativa cinematográfica e uma trilha sonora de bom gosto com gigantes do rock n' roll como Rolling Stones, Aerosmith e Led Zeppellin. É o tom certo do cineasta que nocautea qualquer olhar banal sobre o filme, mesmo que a fórmula boxe e superação não seja nada inédita. Bem apoiado pelo roteiro de Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, uma interessante edição de Pamela Martin e um elenco competente que eleva muito a qualidade da película, o cineasta dá oportunidade para que saíbamos o ponto de vista de cada personagem sem, necessariamente, defendermos um ou o outro. O realismo na mise-en-scene é o que vale, basta considerar o exemplo de Charlene (Amy Adams), namorada de Micky. Ao lado dele, ela é uma mulher que o incentiva no boxe e não tolera a forma como Dicky e Alice sufocam Micky. Ela se comporta a ponto de exercer o típico e tênue controle de namoradas que não suportam nem mesmo a mãe dominadora do namorado; mas ao mesmo tempo, Charlene não se dá conta de que também é dominadora ao impor e defender determinadas condições na carreira de Micky. Ela não tenta "baixar a guarda" e conquistar a família de Micky. Ela não investe em suas próprias conquistas mesmo que seja a outsider que chega em cena para catalisar as mudanças colocando Micky para acordar para uma nova realidade. Outro momento belíssimo é o trabalho de câmera e musical na cena de Christian Bale e Melissa Leo cantando I started a joke de Bee Gees. É tocante na linguagem visual combinada à uma canção que assume uma função de espelho no drama: "Eu comecei uma piada que fez o mundo inteiro chorar" . A cena é muito comovente no realismo dramático de uma mãe que não sabe lidar com o vício do filho e que continua em um estado de negação.




Assim como o espectador mais atento percebe tal imperfeição humana, ele percebe que não há necessidade de julgamentos porque o umbigo do outro pode ser o meu, o seu e de qualquer pessoa. O importante é remodelar os relacionamentos interpessoais, inclusive os familiares e dar ao homem a liberdade de suas próprias escolhas, dá-lhes o devido apoio de seguir o seu sonho, ser reconhecido e amado pelo que ele é. Essa é a grande luta de Micky, o de sair da sombra de seu irmão, das condições impostas por sua mãe e namorada e , no final, conciliar todas essas diferenças para o bem de todos e de si mesmo. Essa espontaneidade de aproximar e distanciar as personagens e seus dramas faz da direção de Russell um retrato da vida que pode ser a de qualquer um de nós. No meio dessa desestruturada família da cidadezinha de Lowell é que o espectador percebe o quão vital é que todos se dêem bem e que, no final da jornada, as conquistas estejam lá, com todos juntos celebrando o momento da vitória.




MaDame Lumière




Chances para o Oscar:
Das categorias para as quais foi indicado, deve ganhar as de melhor ator e melhor atriz coadjuvantes com os bem premiados na temporada, Christian Bale e Melissa Leo.




Título original: The Fighter
Origem: USA
Gênero: Drama
Duração: 123 min
Diretor: David O. Russell
Roteirista(s): Scott Silver,Paul Tamasy, Eric Johnson
Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo, etc.

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