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Lançamento de 11 de Dezembro #MaresFilmes #AlphaFilmes
Por Cristiane Costa, Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação
Sorry, Baby, estreia de Eva Victor, surpreende pela delicadeza com que trata um trauma profundo, equilibrando sensibilidade e humor em meio a temas complexos que deixam marcas de deslocamento e solidão. Fenômeno de crítica com 97% de aprovação no Rotten Tomatoes e eleito um dos melhores filmes do ano pelo The New York Times, o longa chega ao circuito brasileiro chancelado por prêmios de roteiro em Sundance e indicações ao Spirit Awards e Globo de Ouro. O projeto consolida Eva Victor como uma das vozes mais potentes do cinema independente contemporâneo e revela uma roteirista de habilidade excepcional.

Agnes surge como uma protagonista magnética que habita ambientes bucólicos, mas cuja vida é atravessada por uma dor silenciada. Em vez de performar o luto ou se entregar ao choro desesperado, ela reage com uma mente intelectualizada: processa o trauma através de reflexões cortantes, risadas inesperadas e uma lucidez que desconcerta. É nessa intersecção entre o ordinário e o trágico que o filme se estabelece como um drama cômico de força universal, capaz de dialogar sobre dores frequentemente invisíveis em um cotidiano marcado pela indiferença.
Na arquitetura desse descompasso, Agnes habita um tempo próprio, um relógio interno que não sincroniza com a insensibilidade coletiva da vida moderna. O roteiro é estruturado em capítulos como um livro, ecoando sua profissão de professora de literatura, e cria uma conexão imediata com o espectador. O humor funciona como ferramenta de humanização: permite que sua fragilidade transpareça sem que ela perca dignidade ou inteligência. Eva Victor, que traz experiências em séries como Billions e Eva vs. Anxiety, revela-se em seu primeiro longa um talento visceral. Sua atuação é simultaneamente dolorosa e divertida, solitária e universal. É nesse equilíbrio que reside o frescor de sua autenticidade: uma mulher brilhante, deslocada e machucada. Por essa entrega, ela desponta como forte candidata ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama.
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O ambiente acadêmico, que teoricamente deveria abrigar o ápice do conhecimento e da compreensão humana, revela-se em Sorry, Baby como um espaço de violência velada e de profunda falta de empatia. Através de figuras alienadas que recorrem a desculpas burocráticas para evitar qualquer envolvimento emocional, o filme expõe a crueldade inerente às instituições, onde a competição frequentemente camufla abusos e omissões sistêmicas. Fora das salas de aula, o cenário bucólico não oferece refúgio, mas intensifica uma solidão austera. A escolha de roteiro e direção por uma arquitetura de casas regionais, marcada por uma estética fria e seca, acentua o isolamento de Agnes. É nesses espaços cotidianos, na imobilidade da banheira, no enquadramento da janela e na clausura do carro, que sua solidão ganha contornos físicos. O design de som completa essa imersão, alternando silêncios pesados, gritos contidos e a fragmentação sonora de um ataque de ansiedade para traduzir, com precisão, as oscilações de humor e a dor da protagonista.
Além da entrega visceral de Eva Victor, o filme ganha ainda mais densidade com a excelente atuação coadjuvante de Naomi Ackie. Ela surge como o elo de amizade e empatia, a única voz que se manifesta em genuíno amor pela amiga Agnes. Suas cenas tornam o acolhimento uma atitude palpável de quem realmente se importa, reforçando que a escuta e a presença são gestos transformadores diante da dor silenciada.
O roteiro diferencia-se ao abordar um tema extremamente doloroso sob uma perspectiva feminina que jamais esquecerá o trauma, mas aprenderá a lidar com a dor sendo fiel a si mesma. No mundo contemporâneo, que clama incessantemente por performance e sucesso, Agnes caminha na contramão. Sua trajetória revela uma mulher humilde, cujo “empoderamento vulnerável” traduz uma personalidade autêntica e forte, mas que não esconde suas fragilidades. Esse conceito ganha força ao mostrar que sua coragem está em expor vulnerabilidades sem perder autenticidade. Agnes é tão genuína que nem mesmo sua mente brilhante escapa ao silêncio e à incompreensão. O desfecho, embora claro em sua intenção, deixa marcas realistas para as próximas gerações que, idealmente, aprenderão a escutar mais o outro em vez de ostentar uma força invulnerável que não existe.
Em última análise, Sorry, Baby é um convite ao despertar. Ao expor que todos estamos sujeitos ao silenciamento coletivo, o filme sugere que um mundo mais sensível só é possível através da relação genuína com a dor alheia. Eva Victor não entrega apenas um filme premiado, mas um espelho incômodo e necessário sobre a nossa capacidade de acolhimento. A jornada de Agnes nos ensina que ser fiel à própria vulnerabilidade é, talvez, o ato mais corajoso de resistência diante da indiferença do mundo.
Imagens. Divulgação. Mares e Alpha Filmes.