#Drama #CríticaSocial #Cotidiano #Repressão #CinemaIraniano  #CinemadoOrienteMédio #CinemaDenúncia Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogu...

Crônicas do Irã (Terrestrial Verses, 2023)

 




#Drama #CríticaSocial #Cotidiano #Repressão #CinemaIraniano  #CinemadoOrienteMédio #CinemaDenúncia




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Crônicas do Irã: A Vigilância fora do quadro e o Cinema de Denúncia





Crônicas do Irã, dos diretores Ali Asgari e Alireza Khatami, configura-se como um urgente cinema de denúncia, utilizando o humor sutil como arma contra os absurdos do autoritarismo. O filme potencializa a vigilância e a arbitrariedade ao adotar uma escolha estética radical: retira a figura repressora do quadro de visão do público, deixando o cidadão oprimido em situação humilhante e aprisionada. Essa técnica revela que o censor pode ser qualquer um e nem sempre é identificado, reforçando o caráter sistêmico da opressão. Essa escolha estética se soma ao contexto político da obra, que nasce como um ato de resistência. 




O valor intrínseco de Crônicas do Irã reside no fato de que o filme é, em si, um ato de coragem. Filmado inteiramente na clandestinidade, o chamado “cinema de guerrilha”, para driblar a censura oficial do Estado, sua própria existência desafia o autoritarismo. Os diretores enfrentaram proibições de viagem e restrições severas, sendo impedidos de comparecer à estreia mundial em Cannes. A ausência dos criadores no Festival transformou-se em um poderoso protesto silencioso contra a repressão. 










A opção de manter o interlocutor fora de quadro confere ao filme impacto político e psicológico. Essa ausência transmite a ideia de uma omnipresença repressiva que cerca o indivíduo e suas liberdades. Não há diálogo construtivo ou resolutivo com essa figura; os cidadãos passam por interrogatórios como forma de tortura institucionalizada. Eles não podem questionar, pois são julgados de forma arbitrária ou desencorajados a buscar soluções mútuas. Esse recurso visual é um incômodo constante, pois expõe a vulnerabilidade das existências submetidas a uma vigilância ininterrupta.  




Se por um lado a ausência de rosto intensifica a opressão, por outro o humor surge como válvula de resistência. O riso escancara que o que está sendo praticado ali é um absurdo sem sentido. Já que a burocracia teocrática não respeita a vulnerabilidade, a autenticidade e a verdade de cada história, o nonsense do totalitarismo é introduzido com frases que ecoam essa falta de humanidade. Esse riso, portanto, não é gratuito; é uma alternativa política que revela a fragilidade de um sistema que parece invencível.  










O filme consegue costurar as dez histórias curtas de forma coesa, sem dispersar o foco narrativo. Isso ocorre porque há uma unidade estética rígida: a figura de poder sem rosto, fora do quadro, e a câmera estática que observa criam um sistema visual que encurrala o cidadão. Tanto o primeiro plano como o último amarram essas vinhetas, dando um efeito realista e profético ao totalitarismo. Assim, a soma das pequenas injustiças, como regras cotidianas aparentemente banais, atinge o objetivo de mostrar o autoritarismo em escala humana e transversal, com prólogo, desenvolvimento e desfecho coesos.  





O legado de Crônicas do Irã é inegavelmente de coragem e denúncia. Sua criação foi um ato de bravura, pois expõe que, para ações básicas do cotidiano, o cidadão iraniano não tem liberdade dentro de uma ética humanizada. Isso só foi possível com um cinema de guerrilha rodado na clandestinidade e fora da censura, caso contrário, a própria moralidade os prenderia. Por isso, o filme repercutiu tanto em Cannes, espaço consagrado ao cinema de combate que valoriza os temas de Direitos Humanos e liberdades individuais e coletivas. Crônicas do Irã se estabelece como um registro urgente que confronta o totalitarismo.







(3,5)

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