Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação O que vimos no Critic's Choice Awards 2026...

Crítica | O Prêmio no Pátio: A Segregação Cultural do Critic's Choice e a Redoma de Vidro de Hollywood

 




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




O que vimos no Critic's Choice Awards 2026 não foi um erro de cronograma, mas um sintoma de exclusão institucionalizada. Ao entregar o prêmio de Melhor Filme Internacional para O Agente Secreto no burburinho do tapete vermelho, interrompendo a fala de Kleber Mendonça Filho para um comercial do canal E!, a organização não apenas marginalizou a obra; tentou domesticar a resistência brasileira.


O desrespeito começa na hierarquia arcaica de “nacional” versus “estrangeiro”. No cinema, todos somos estrangeiros, inclusive os Estados Unidos. Ao tratar cineastas brasileiros como figuras periféricas que devem ser toleradas em um corredor de passagem, o Critics Choice cria uma guetificação simbólica. O contraste é ainda mais grave porque O Agente Secreto conquistou o primeiro prêmio brasileiro da história nesta categoria. Em 2025, o vencedor teve palco e discurso; em 2026, fomos relegados ao “pátio”, reafirmando um território que se pretende cosmopolita, mas opera sob lógica colonial.


Produzir cinema político e social no Brasil é um ato de bravura hercúlea. Para Emilie Lesclaux e sua equipe, cada frame de O Agente Secreto representa uma luta monumental por recursos e reconhecimento. Premiações deveriam ser o ápice da valorização desse esforço, e não um espaço de minimização. Entregar uma estatueta no tapete vermelho, em meio a fotógrafos e entrevistas, é um desrespeito à seriedade do ofício e à resiliência da produção independente brasileira.


Não podemos ignorar o contexto geopolítico. Em um momento de tensões agudas e intervenções americanas em solo latino-americano, como na Venezuela, a organização parece ter sucumbido ao temor estratégico do discurso. Kleber Mendonça Filho é uma voz que usa o palco para denunciar estruturas de poder. O “apartheid” simbólico da premiação, onde Kleber e Wagner Moura foram chamados ao palco para apresentar o prêmio principal, mas não puderam subir para receber o seu próprio, é prova disso: querem a nossa imagem para performar diversidade, mas não querem a nossa voz para proclamar resistência. O próprio Kleber lamentou a forma da entrega, mas reforçou que a vitória fazia parte de um movimento iniciado em Cannes.


Há também uma miopia absoluta sobre o mercado. Os organizadores ignoram que os brasileiros formam uma das audiências mais engajadas do mundo. O descaso gerou efeito rebote imediato: comentários de repúdio invadiram o Instagram do Critics Choice e a imprensa brasileira repercutiu a indignação. Não se invisibiliza a excelência de um país e se espera que o seu público continue a consumir um espetáculo higienizado.


A tentativa de limpar o palco principal de discursos desconfortáveis apenas deu mais volume ao que O Agente Secreto representa. O Brasil conquistou o primeiro prêmio da sua história nesta categoria, mas a solenidade foi sacrificada no altar da conveniência corporativa. No fim, o Brasil venceu com arte, mas Hollywood saiu derrotada pela sua própria pequenez e miopia institucional. Defender o cinema brasileiro é resistir à lógica de invisibilização cultural.


 

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