quarta-feira, 27 de julho de 2016

MaDame Blockbuster: A Lenda de Tarzan, de David Yates

MaDame Blockbuster:

Cinema Pipoca e no stress





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação 
 
 
A produção da  releitura de Tarzan, o legendário homem das selvas criado pelos escritos de Edgar Rice Burroughs, explica consideravelmente os resultados audiovisuais do mais recente blockbuster "A lenda de Tarzan", dirigido por David Yates que tem no currículo  4 filmes Harry Potter e o aguardado "Animais fantásticos e onde habitam". Com produção de  David Barron, que já havia trabalhado com Yates em Harry Potters e com Kenneth Branagh em "Cinderela", a premissa está clara: como realizar um clássico Tarzan com uma superfície contemporânea, épica e dramática que valoriza os recursos CGI com maior estilização visual , com boa aceitação comercial para as massas e com a beleza dos valores da identidade, da justiça, da família e do amor?  Todas essas experiências da dupla Yates/Barron  estão nesse filme que pode ser resumido como uma aventura de natureza romântica , visualmente límpida , sem foco em explorar o contexto histórico do Congo e lutas sangrentas.
 
 
 
 
 
 
 
Em uma estrutura dramática que é dividida entre o tempo presente e  breves flashbacks da origem, infância e maturidade do rei das selvas, John Clayton/ Tarzan (Alexander Skarsgård , de "True Blood") é um Lord Britânico casado com  Jane (Margot Robbie) que, após ficar órfão e ser criado por gorilas no Congo, retorna à sua vida em Londres. Seus fortes laços de identidade com a terra que viveu, além da experiência, conhecimento e diplomacia o levam a ser convidado pelo Parlamento para atuar como adido comercial. Entretanto, ingressa em uma jornada que colocará sua vida, de Jane e de amigos em perigo.
 
 
 
 
 
 
É bastante evidente que o que menos importa em A Lenda de Tarzan é o senso de justiça a ser defendido quando um vilão ganancioso como  Leon Rom (Christoph Waltz) está disposto a matar por diamantes e destruir qualquer pessoa, inclusive uma figura ultra humana como Tarzan.  Leon não deseja empecilhos e é um mal a ser extirpado, mas a sua vilania não é sustentada por causa do desenvolvimento medíocre do seu personagem, o que representa uma forte lacuna do roteiro.
 
 
 
 
 
Gap semelhante é percebido no enredo da história que,  infelizmente tem uma dupla de roteiristas inexperientes em sólidos argumentos. Adam Cozad e Craig Bewer  não têm muito protagonismo (ou talento) para o desenvolvimento da história, afinal, o que foi priorizado na produção foi uma guerra sem muita violência e sem explorar profundamente os conflitos.  O longa evidencia um Tarzan  fisicamente bonito e escultural, em boa forma física e  que luta pela liberdade da sua esposa. É como o mocinho que irá salvar a princesa! Para não ficar isolado no filme, já que a esposa é refém do vilão, colocaram Samuel L Jackson para alegrar a aventura e que ficou subutilizado, considerando que o que importa são os recursos visuais e as performances heroicas de Tarzan.
 
 
 
 
 
 
Dessa forma, o filme funciona melhor como uma produção que enfoca a figura mítica e fantasiosa do homem das selvas. Todos os recursos imagéticos são bonitos para estilizar e valorizar o homem que volta ao seu verdadeiro lar, tem uma força física sobrenatural,  firma sua identidade  a partir das memórias da infância e da importância da selva em sua formação. Como um pai que defende a família, ele defenderá o Congo.  Antes dele, defenderá Jane, sua musa, daí o caráter épico romântico de Tarzan. De uma forma bem disciplinada, Yates cria uma selva  quase surreal, com um ambiente enevoado que lembra o sonho. Desde a palheta de cores escuras, a sofisticação da fotografia,  o belíssimo elenco de atores negros até  o figurino e os enquadramentos em close da estonteante Margot Robbie que ressaltam o seu aspecto etéreo de musa, definitivamente  está em foco a deusa de Tarzan.
 
 
 
 
 
Embora seu registro seja estilizado e desprovido de um crível realismo, o filme funciona bem em sua natureza romântica e vale o entretenimento desencanado, tanto que alcançou o ranking brasileiro de bilheterias em seu primeiro fim de semana de exibição com 620 mil expectadores. É uma história bastante idealista e que não coloca em pauta a sangrenta violência na África, mas evidencia valores românticos como o heroísmo, a liberdade e o amor e tudo isso vende bem no Cinema. Ele também reafirma, em variadas situações, o amor de Tarzan por Jane e é este fator que traz motivações e dinamismo à história.   


Outros elementos como a armadilha do vilão, pouco estratégica, além da rixa entre Tarzan e o Chefe local Mbonga (Djimon Hounsou) são apenas artifícios antagonistas em cenas para reforçar a importância protagonista de Tarzan , a defesa do lar e de sua vida na selva. Não espere aventuras envolventes e divertidas  como Indiana Jones ou um roteiro inteligente como Diamante de Sangue, A Lenda de Tarzan é um bonito romance com Robie e Skarsgard, atores que evocam uma beleza igualmente idealista e atrativa.
 
 
 
 
Ficha técnica do filme Imdb A lenda de Tarzan
Distribuição: Warners Bros Pictures
Estreia nos Cinemas Brasileiros em 21 de Julho de 2016
 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Mil vezes boa noite (2013), de Erik Poppe





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação


Após realizar Águas turbulentas , drama visceral sobre o recomeço de um homem às voltas com os fantasmas do passado, em  Mil vezes boa noite (Tusen ganger god natt), o diretor Norueguês Erik Poppe se empenha em abordar o drama de uma mulher. Rebecca (Juliette Binoche) é uma renomada fotógrafa de guerra que, após a explosão de um conflito terrorista em Cabul, retorna à sua casa e fica dividida entre a família e a sua vocação e demandas de sua profissão. Seu marido Marcus , interpretado por Nicolaj Coster - Waldau (de "Game of Thrones" e "Segunda chance"),  assim como as filhas Steph (Lauryn Canny) e Lisa (Adrianna Curtis) não suportam mais o medo de perder Rebecca, resultando em um drama familiar sobre quem  vai embora e quem permanece em casa.




A boa intenção do roteiro é narrar a ambiguidade de Rebecca entre os seus papeis de mãe e esposa e o desejo feroz de liberdade e de fotografar as zonas de conflitos armados. Sua fotografia de guerra é como uma missão de vida, um chamado, e na maioria das vezes, seguir essa vocação é incompreensível até mesmo aos entes mais queridos. A história evidencia que sua motivação não é uma questão financeira, de reputação e de envolvimento político, pelo contrário, é uma mulher sensível e corajosa que se empenha a correr risco de vida, a estar constantemente próxima à morte em ambientes inseguros, perigosos e imprevisíveis, pois tem uma força maior que ferve dentro dela, o de se comunicar com a fotografia e dizer ao mundo que há povos esquecidos e que morrem inocentes. Não deixa de ser uma missão de engajamento político, de denúncia das atrocidades humanas.





Apesar de um roteiro bem intencionado e de uma grande atriz como Binoche, Mil vezes boa noite é irregular em variados pontos da narrativa e não consegue ultrapassar um alto nível que poderia colocá-lo em um status de excepcional drama.  Isso ocorre em função de não criar críveis situações de conflito entre ela e a família e não desenvolver muito bem os posicionamentos do marido que, em boa parte do tempo, age como um homem intolerante e não disposto a compreender os aspectos da carreira da esposa. O amor expresso por ele segue a convenção do homem que comanda o lar e demonstra o  lado mais machista da relação, e ele não consegue ultrapassar essa barreira em melhores diálogos com a esposa. Medo de perdê-la? Sim, porém, mesmo diante desse risco, ele é um personagem que não evoluí na trama. Além disso, por mais que Rebecca tenha que vivenciar as contradições entre abandonar a carreira e viajar para mais uma zona de guerra, sua personagem fica bastante isolada no seu próprio drama e tem interação quase nula com outros coadjuvantes que não contribuem para as complexidades da questão. Felizmente, bons momentos com a filha Steph  garantem certa comoção.




A qualidade desse filme é sustentada pela experiente atuação de Binoche e pelo estilo de direção de Poppe que dá maior fluidez ao realismo na estrutura dramatúrgica escolhida. Como a maioria dos dramas noruegueses, é um Cinema mais cru na sua essência humanista, embora Águas Turbulentas é muito mais visceral, intenso. Dessa vez, fica claro que o diretor suavizou a direção e seus elementos e locações em cena, enfocando bem mais a personagem de Rebecca, seu estranhamento no próprio lar, suas dúvidas e tentativas em ser alguém que ela não é, em abandonar algo que é um dos sentidos de sua vida. Binoche trabalhou bem ao mostrar as vulnerabilidades de uma mulher forte, acostumada a ver mortes em áreas de guerra, como toda boa mãe ausente por questões profissionais, ela sente o peso da culpa e o deslocamento em ser quase uma estranha em sua casa.





Como drama familiar, o longa ajuda na compreensão de que há escolhas que são caminhos sem volta (ou de difícil volta) e que, se uma pessoa escolhe uma profissão que dificulta a construir uma família ou que exige um desapego geográfico e interpessoal, deve pensar duas, três ou mais vezes. Aqui, o conflito é mais dramático porque é retratada a dor daqueles que permanecem em casa, que sofrem não apenas com a ausência, mas com o medo da morte de quem amam. Os filhos são os mais impactados e o terceiro ato comprova a importância da aceitação. Nos mais belos momentos da narrativa, o maior conflito de Rebecca é aceitar a sua missão de vida e estar segura de que os outros também compreendem a sua vocação e sua dor ao partir. Ela não encontra muito espaço para dialogar sobre isso, o que acaba contribuindo para as dificuldades de sua escolha.  Nunca é fácil seguir um caminho que poucos compreendem, mas os que realmente amam e estão sensíveis aos sacrifícios, sabem entender as diferentes missões de vida.







sexta-feira, 22 de julho de 2016

Cine Família: O bom gigante amigo (The BFG), de Steven Spielberg




"é uma história que fala de amizade, que fala de lealdade e de proteger os amigos, mostrando que mesmo uma garotinha  pode ajudar um gigantão a resolver seus maiores problemas". (Steven Spielberg)



Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação




Este ano, Roald Dahl faria 100 anos. De origem britânica, ele é um dos maiores escritores  de Literatura infanto juvenil e reconhecido mundialmente por clássicas obras  que foram adaptadas para o Cinema como "A fantástica fábrica de chocolate" e "Matilda". Em homenagem a esse centenário, a partir de 28 de Julho, o público terá a oportunidade de conhecer mais um pouco sobre o lúdico mundo de Dhal com o lançamento de O bom gigante amigo (The BFG) nos Cinemas Brasileiros, com distribuição da Disney e direção do grandioso Steven Spielberg.





Na clássica história que aborda a amizade entre um gigante e uma garota orfã, Sofia (Ruby Barnhill) é sequestrada por BGA (Mark Rylance) e levada à terra dos gigantes. Com seus quase 7 metros de altura, orelhas enormes, comedor de "chuchubobrinha" e  viciado em "frosbrulhante", BGA é assustador na aparência, porém, dócil, bondoso e abobalhado na essência, além de ser um caçador de sonhos e ter um coração sensível. Ambos desenvolvem uma bela amizade, com muito humor e confiança, e na qual Sofia o ajuda a resgatar sua autoestima e valor. Mas, o perigo ronda a caverna de BGA. Os gigantes maus BocaBrava (Bill Hader) e FazMaldade (Jemaine Clement) adoram comer seres humanos ("humanomens") e sentem o cheiro da garota. BGA e Sofia têm um plano de defesa e retornam à Londres para conhecer a rainha Vitória (Penelope Wilton) e sua assistente Mary (Rebecca Hall).



Com um time de produção e roteiro, nos quais se destacam nomes que têm trabalhado com Spielberg durante sua carreira, o filme foi adaptado por Melissa Mathison (de E.T. - o Extraterrestre) e tem produtores como Frank Marshall ("Jurrassic World"), Kathleen Kennedy ("Star Wars: o despertar da força" e "Lincoln"), Kristie Macosko Krieger (" Ponte dos espiões" e "Lincoln"), entre outros. Em mais uma parceria com o cineasta,  Mark Rylance que ganhou o BAFTA e o Oscar de melhor ator coadjuvante por "Ponte dos espiões", está de volta. Com ele e o desenvolvimento do talento de Ruby Barnhill, uma atriz cheia de doçura e carisma, mais uma vez Spielberg encanta com uma graciosa e sensível história sobre a amizade entre uma criança e uma figura não humana.





Cabe reforçar aqui que Spielberg é um dos pais do Cinema Americano, um dos melhores contadores de histórias do mundo e um exímio diretor de atores. São poucos os cineastas que  são referência e têm expertise para uma sólida direção que reúne variados gêneros como a fantasia, a aventura, o drama, a comédia e ação e é capaz de falar com as pessoas como um bom amigo. Spielberg é o cara até quando não realiza um clássico como E.T - o Extraterrrestre ! É o que ocorre nesse filme! A satisfação do público com O gigante amigo dependerá exclusivamente de uma questão de expectativas e exigências com relação a um diretor icônico na História do Cinema, isso porque quanto mais o diretor é competente, mais ele é exigido. 


O roteiro não explora tanto a aventura e os gigantes antagonistas; por outro lado, os efeitos visuais cheios de vida e magia, um design de produção tão "britânico" que logo no início  lembra os filmes de Harry Potter e, em específico, a atuação de Barnhill como uma encantadora e inteligente amiga de BGA já são mais que suficientes para valorizar essa adaptação.


A execução em si fica mais no plano da amizade e a lealdade, valores básicos da história e que desenvolvem o relacionamento, do que no desejo de evoluir para  uma aventura  de fortes emoções. Esta escolha foi um risco e poderá frustrar muitos espectadores e fãs de Spielberg, certamente, considerando que a dinâmica em cena não se apoia em outros acontecimentos, tudo é muito simples nas ações, os vilões não têm muito espaço e são mais bobos ainda. Dessa forma, o que vale é acompanhar os diálogos engraçadinhos entre a garota e BGA e dar atenção às características lúdicas da narrativa que são bem suportadas por um excelente trabalho de efeitos visuais. 


Mais adiante, com a entrada da rainha Vitória em cena, o clímax em si é mais engraçado e Rylance dá um show que arranca boas risadas. Não há como negar que, por mais que BGA seja bem abobalhado, suas falas erradas e sua carinha afetuosa não deixam de ser adoráveis, afinal, a fantasia é lidar com o imaginário, com aquilo que nos tira do lugar comum.





A lição que fica ao ver O gigante amigo é se dar conta de que adaptações costumam ser fieis ao original e nem sempre o diretor deseja alterar essa autenticidade, principalmente quando o assunto é lidar com o público infantil.  Por tradição literária, "The BFG" foi concebida como se fosse uma canção de ninar. Ressalta mais a ida de uma garotinha que vive em um orfanato mergulhada na solidão a um mundo diferente, no qual ela pode se aventurar na Terra dos sonhos e conhecer um grande amigo. Ao optar por este foco, Spielberg perde em dramaturgia mas investe na relação dos protagonistas. Há momentos que são desperdiçados, em compensação os vívidos efeitos visuais são capazes de encantar o público, se não como técnica, como trabalho artístico.

Assim como Martin Scorsese realizou "A invenção de Hugo Cabret" e foi criticado por alguns por não ser "um grande filme de Scorsese", o mesmo ocorrerá com Spielberg. O bom gigante amigo não nasceu para ser um clássico na tela, mas tem ternura de Spielberg e isso aquece o coração, então vá assisti-lo sem altas expectativas.



Ficha técnica do filme Imdb O bom gigante amigo

Estreia: 28 de Julho
Distribuição Disney

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Agnus Dei (Les innocentes, 2016), de Anne Fontaine




"São vinte quatro horas de dúvida e um minuto de esperança" 
(irmã Maria, interpretada por Agatha Buzek)




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação


Baseado na história real da jovem médica Madeleine Pauliac que, em 1945, foi nomeada médica- chefe do hospital de Varsóvia para o repatriamento da Cruz Vermelha Francesa, Agnus Dei de Anne Fontaine, é uma das obras mais fascinantes lançadas em 2016 e foi um dos destaques da última edição do Festival Varilux de Cinema Francês


Com produção dos irmãos Altmayer, que respondem por grandes produções francesas como as de François Ozon, com a musa da nova geração europeia de talentosas atrizes, Lou de Laâge (de "Respire") e a solidez interpretativa de Agata Kulesza ( de "Ida"), Fontaine realiza uma esplêndida junção entre imagem solene e contemplativa, a intensa dramaturgia dos brutais efeitos da violência física e psicológica de mulheres de um convento, estupradas  por soldados soviéticos na Polônia de 45, e a iluminadora esperança que supera a dor, o desespero e a dúvida. 







"Ela tem uma beleza muito intensa, muito particular; e ela tem uma graça pessoal.Eu senti que essa graça, junto com um lado muito combativo que ela possui , além de um frescor e uma fragilidade que percebemos aflorar, seriam proveitosos para o filme."  (Anne Fontaine sobre Lou de Lâage)




Segundo relatos de pesquisa de Anne Fontaine sobre os fatos históricos, mais de 25 delas foram violentadas nesse convento, muitas outras mulheres, mesmo estando grávidas ou prestes a dar a luz, foram violentadas. O horror contra a mulher em tempos de guerra é uma realidade dramática  não apenas em 1945 mas também em outros contextos modernos, portanto Agnus Dei é um drama social universal e que deve ser visto e admirado por sua força dramatúrgica.


Com roteiro de Fontaine, baseado na história de Philippe Maynial, sobrinho de Madeleine Pauliac, Mathilde (Laâge) é a médica da Cruz Vermelha, encarregada apenas de cuidar de feridos franceses da guerra, entretanto, é levada a conhecer a brutalidade sofrida pelas irmãs. Entre a razão e a emoção, a ciência e os mistérios da fé, ela decide ajudar essas irmãs após a permissão da Madre Superiora (Kulesza), desenvolvendo também uma bela amizade e mútuo respeito pela irmã Maria (Agata Buzek).







Essas irmãs não apenas foram violentadas por  homens que consideravam  os estupros prêmios de guerra, mas também muitas ficaram grávidas. Nisso está uma das principais consequências do estupro, uma dor que marca a memória, o psicológico, o físico. O que deveria ser a alegria  da maternidade é transformado em emoções contraditórias, considerando que, a fé e espiritualidade, seja no Cristianismo, seja em outras religiões, pressupõe uma valorização da vida, respeito e amor ao outro. No caso dessas irmãs, carregar uma gravidez as leva, ora à vergonha, ora à dúvida, ora à possibilidade de gerar um filho e revelar o amor através da maternidade, ora ao sentimento de que foram abandonadas por Deus. São essas complexas linhas dramatúrgicas do roteiro que enriquecem a história e são fascinantes como drama feminino. 



Não há como passar indiferente ao trabalho de Anne Fontaine, que realizou  "Coco antes de Chanel" e "Gemma Bovery" e está continuamente em atividade cinematográfica. Ela tem um genuíno interesse por histórias sobre mulheres e protagonizadas por mulheres e sabe trabalhar muito bem com o poder da imagem e de como a fotografia, as locações, a trilha sonora, o design de produção e as atuações femininas estão acima da pura contemplação. Seus filmes são visualmente bonitos, revigorantes e cuidadosamente bem fotografados, e também, são filmes que as mulheres têm um brilho e força naturais. 


Com Agnus Dei, ela viaja para a Polônia, dirige atrizes polonesas, seleciona um elenco protagonista de forte sensibilidade e compromisso com os personagens e alcança um patamar de superação como cineasta. Ela corrobora o diferencial do seu filme e suas motivações: "Eu queria entender de perto o que aconteceu no interior daqueles seres humanos, narrar aquilo que é indizível. A espiritualidade tinha que estar no coração do filme". Ela realmente conseguiu entregar um drama mais maduro como Cinema independente.






"Como compreender o sentido da vida em meio a semelhante caos?  Como sobreviver à  violência que também marcou brutalmente a carne  das religiosas polonesas? Como julgar a fé delas, que parece sobreviver a uma prova tão dolorosa? (...)  Existe, eu acho, algo fascinante em inventar um novo caminho  quando tudo parece não ter saída." (Anne Fontaine)



Uma questão essencial de Agnus Dei é : como transformar trevas em luz? Dor e desespero em esperança e afirmação da vida? Como continuar a viver após uma violência que não será extraída da memória, que deixa marcas no corpo? Nesse sentido, durante toda a projeção, todas são heroínas, mas há  uma em específico: Mathilde. Não a veremos como a que se converterá ao Cristianismo, pelo contrário, ela é uma médica que conserva o ofício científico, porém, com graça , empatia e coragem. É por isso que sua  personagem é magnífica, humana e essencial para percorrer o cotidiano dessas mulheres. Muito mais do que cuidar de sua saúde e realizar os partos, o ponto de vista de Mathilde deveria ser o de todos nós, uma postura combativa, firme, corajosa.



Espiritualidade é diferente de religião, portanto, Mathilde está acima de credos e poderia facilmente conviver com variadas crenças. Ela é o ápice da consciência sobre o valor do amor, da compaixão e da vida, sempre com vias a ajudar o próximo. Dessa forma, a valiosa contribuição de Agnus Dei é perceber que, mesmo em tempos tenebrosos, a revolução humana é sutil e poderosa. Ela está na mente e, também, no coração. Ela é impulsionada por um senso de fazer o bem e encontrar soluções, dar o primeiro passo ainda que as condições não sejam favoráveis e que hajam questionamentos e dúvidas.





Contar os variados momentos de iluminação do filme seria entregar o melhor do que ele tem. Descubra isso! O que impressiona e enaltece o valor dessas irmãs é que, por mais que suas escolhas pela fé e pelo enclausuramento são uma manifestação de leal sacrifício, e Fontaine não deixa de apresentar o cotidiano de cantos em latim, rigidez e disciplina de suas tarefas, em diversas e belas cenas, o Cinema registra a humanidade dessas mulheres que, independe de religião. 


São mulheres  que sentem dores físicas e psicológicas, que preenchem a tela com sorrisos e lágrimas, com trabalho e recolhimento, e que não deixam de expor seus dramas individuais. Nesse aspecto, o roteiro de Fontaine equilibra a objetividade, a sensibilidade e, de uma forma bastante articulada, as características das personagens coadjuvantes. Algumas terão um papel relevante em cenas que demonstram a dúvida e o livre arbítrio, o que amplia o campo de visão humanista do espectador. Nesses conflitos,  a atuação de Kulesza é formidável e desperta uma relevante compreensão pelas particularidades dramáticas de seu personagem.


Finalmente, apoiado pela fotografia da excepcional Caroline Champetier, parceira de trabalho de longa data de Fontaine, com a atuação crível de um fascinante elenco feminino e uma execução bem madura, Agnus Dei é um filme que naturalmente impõe respeito e empatia como drama social que não abandona as individualidades presentes nesse convento. Nem mesmo um elemento masculino humanitário e com senso de humor, o médico de origem judia e companheiro de trabalho de Mathilde, Samuel (Vincent Macaigne), deixa de ser incluído, considerando que sua família sofreu os horrores dos campos de concentração e ele contribuiu para o amadurecimento  da médica.


Em diferentes cenas, ações improváveis, tomada de decisões necessárias, conflitos existenciais contundentes, palavras honestas e cortantes e silêncios  reforçam as imagens como  lugares de expressão das vulnerabilidades e compaixões humanas. São essas mesmas imagens que provêm  a força dramatúrgica para buscar a consciência e a luz, encontrar o seu lugar, tomar uma atitude que requer sacrifícios, domínio próprio e ação. Agnus Dei é mais luz do que trevas, é a morte transformada em vida.


Ficha técnica do filme Imdb Agnus Dei

Estreia nos cinemas Brasileiros: 14 de Julho
Distribuição: Mares filmes

Trechos de entrevista e fotos: 
uma cortesia press book via Mares Filmes


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Riocorrente (2013), de Paulo Sacramento




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação



O primeiro longa de ficção de Paulo Sacramento (de "O prisioneiro da grade de ferro") tem a ambição narrativa de um diretor que se influenciou pelo Cinema Marginal Paulistano e tem uma ampla experiência como montador. Com roteiro próprio, "Riocorrente" é ambientado no cru e solitário macrocosmo da capital de São Paulo e enfoca um triângulo amoroso entre o ladrão de carros  Carlos (Lee Taylor), a misteriosa Renata (Simone Iliescu) e o jornalista Marcelo (Roberto Audio). Em paralelo, o menino Exu (Vinicius dos Anjos) perambula com seus pés descalços pelas ruas decadentes da cidade, cada vez mais vulnerável ao abandono, ao crime e às drogas.







É notável que Sacramento teve uma boa intenção ao preencher a tela com o esvaziamento existencial, a paralisia atitudinal e uma iminente necessidade de mudança, todos desafiadores na contemporaneidade das relações. A narrativa é rebuscada de metáforas e simbologias que começam e não terminam e têm o intuito de incomodar o espectador.  Aqui, menos importa o triângulo amoroso do ponto de vista sexual, afetivo e libidinoso, o que vale é como os personagens não fazem absolutamente nada com suas vidas frageis e entendiantes. Nem mesmo o sexo, a violência e a traição dão prazer e uma sensação de aventura e perigo, muito menos as relações humanas são desenvolvidas. São momentos de fúria e de extravasar do desejo até um gozo rápido, são pequenas lacunas temporais que explodem a intensa força letárgica que, uma vez colocada para fora, não necessariamente  é catalisada da melhor forma. A insatisfação e um contínuo deslocamento em São Paulo permanecem, o que traz uma temática contemporânea e universal a esta história.





Dessa forma, o tempo passa e os problemas humanos continuam com um engessamento de ações. Embora sob a perspectiva técnica do roteiro, Riocorrente deixa muito a desejar na primeira uma hora de projeção, por outro lado, obriga o público a levar o filme para a casa. Tecnicamente virtuoso na edição e fotografia, que garantiram prêmios no Festival de Cinema de Brasília em 2013, o roteirista e diretor perde a chance de desenvolver melhor os seus bons personagens, os diálogos e as linhas antagônicas do roteiro . Havia espaço para expressar melhor conflitos e uma relação mais simbiótica entre as pessoas e São Paulo. Cabe mencionar que, este é o ponto ame ou odeie do filme. 


É o tipo de produção que pode ser encarada como potencial para o Cinema Brasileiro: dramas mais universais, narrativas menos pasteurizadas, direção com decupagem mais lúdica e experimental, espaço para o espectador sair incomodado da sessão. Mas também, ela pode ser encarada como um ato audacioso e falho de um diretor que ainda não tem muita experiência na direção. Sacramento se inspirou em David Lynch? Talvez. A diferença é que ele não conseguiu tornar o seu experimentalismo mais envolvente, efervescente e assertivo para se comunicar com o público menos intelectual, menos "Cinema independente". Riocorrente  está no meio entre a provocação e a rejeição.  Este lado dúbio se deve ao roteiro em 60% do tempo de narrativa, que não houve bom desenvolvimento dos personagens e da relação das cenas metafóricas e simbólicas com os mesmos.



Com locações no Centro da cidade, na região da Paulista e Vila Mariana, Marginal e nas periferias, Sacramento aplica bem o repertório físico da cidade sem usar tal recurso  como muleta. São Paulo é retratada como um personagem ao lado dos demais personagens, um espaço de reflexão que está ali mais estática entre um semáforo e outro, uma boca de fumo, um escritório empresarial, uma oficina mecânica.  Para quem é Paulistano ou gosta de São Paulo, a fotografia se torna uma homenagem à cidade e suas contradições. Ainda assim, ela é cinza na narrativa e corrobora a violência, a solidão, a exclusão social e a inesgotável fonte de insatisfação com a própria existência, logo, ela se torna mais interessante do que os próprios personagens.




Com relação ao elenco, tendo em vista a natureza do roteiro,  os atores adultos são excelentes, todos com experiência teatral e críveis no pouco que lhes foi dado. A escolha por um triângulo amoroso não é tão convincente porque eles não se comunicam adequadamente e os conflitos não percorrem bem no nível passional e nas dificuldades de lidar com os amantes. Renata é uma mulher adepta de aventuras sexuais e não se prende nem a  um e nem ao outro. Perdida nas relações, não faz absolutamente nada da vida e está mais preocupada com o prazer. Entretanto, tem uma relevância: ela é um personagem que liga estes dois mundos, o do pobre e o da classe média, função que fica clara à medida que ela tenta ter diálogos com Carlos fora dos lençois e ter mais atenção de Roberto. O triângulo amoroso acaba sendo mais uma forma de visualizar o esvaziamento e as complexidades das relações interpessoais. 


O jovem ator Vinicius dos Anjos poderia ter sido melhor incorporado à dinâmica dos outros três personagens. Ao andar pela cidade como um menor marginalizado, a todo o momento, a busca mais imediata de um espectador atento é compreender qual é a relação dele com Carlos e se a função de Exu é apenas mostrar ao público que uma criança negra não tem chances decentes na sociedade ou será Exu, um anjo protetor a trazer positividade  e uma necessária mudança na vida de Carlos. Infelizmente, o roteiro não evoluí no desenvolvimento desta relação e caberá ao espectador sonhar que Carlos e Exu darão certo na vida, imaginar algum bom futuro para eles.






Apesar da influência do Cinema Marginal, tanto que o diretor dedica o filme ao saudoso Carlos Reichenbach, a cinematografia não chega a ser decadente e crua ao extremo. A edição de Idê Lacreta e Paulo Sacramento é um diferencial e a melhor virtude. Ela sustenta a própria intenção da narrativa não linear proposta por este argumento. Ela une todas as pontas do drama onde os diálogos e as ações faltam.  Há um refinamento contemporâneo nos enquadramentos da fotografia e cortes e  montagens que aproveitam os recursos visuais do digital para fundir o realismo e o lúdico, o palpável e o fluxo de pensamentos, sensações e imaginação. Dessa forma, Riocorrente consegue elevar sua qualidade cinematográfica ainda que seja um filme com momentos irregulares.




Ficha técnica do filme Imdb Riocorrente


quinta-feira, 7 de julho de 2016

A Academia das Musas, de José Luis Guerin





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação


O belo título do novo filme de José Luis Guerin, realizador espanhol que explora as fronteiras entre a ficção e o documentário, soa suavemente como poesia sedutora que abre caminhos para o desejo, o sonho, o encantamento. Assim como o universo literário de heroínas apaixonadas, sensuais e trágicas, "A Academia das musas" atraí o espectador para um labirinto de constantes flertes para um tesão intelectual. Não a intelectualidade vazia , exibicionista e arrogante, mas aquela que se perde em discursos, reflexões e experimentalismos com o propósito de se encontrar. O que é então o ser humano? Um grande mistério e uma sequência de tentativas de sobreviver com mais consciência e poesia.
 
 
 
 
 
Dirigido como um híbrido longa no qual convergem a ficção e a não-ficção e um importante repertório da Literatura do século XVI, "A Academia das Musas" é um convite a um microcosmo social no qual tudo pode ser verdade ou uma mera ilusão.  Raffaele Pinto, um professor de Filologia da Faculdade de Barcelona, conduz discussões sobre a Literatura e a Poética do Amor com um grupo de alunos amplo e diverso. Entre eloquentes discussões, o diretor enfoca algumas musas que se dedicam a esta inebriante experiência aplicada ao mundo moderno e sua regeneração, além de cenas entre o mestre e sua esposa. Estas mulheres farão a diferença em uma contemporaneidade ainda patriarcal? Elas serão inspiração para o ideal poético em uma sociedade que nem sempre sabe lidar com seus conflitos básicos nas relações humanas? A cada cena, Guerín deixa o filme inacabado, o que abre lacunas para infindáveis interpretações e digressões quando o espectador deixar a sessão.
 
 
 
Neste fascinante exercício cinematográfico que instiga pelo poder e dinamismo das palavras e as tênues fronteiras entre o registro documental e a ficção, o melhor é que  Guerin constrói um filme que deixa variadas janelas abertas para a reflexão sobre a Mímesis e o desejo, como eles se atraem em toda a labiríntica e atraente jornada neste fértil ambiente acadêmico. Assim como brilhantes discussões em determinadas aulas nas universidades de Humanidades, a beleza do diálogo está  no poder da linguagem e em como ela é construída e articulada para produzir significados valorosos, práticos e renovadores. Como bem dito pelo diretor, "Como muitas vezes pode acontecer nos filmes "O que surpreende não é "o que acontece" nem "o que é dito", mas "como isso acontece" e "Como as coisas são ditas". As coisas só fazem sentido por ocorrer de uma determinada maneira, por ser contado de uma maneira particular: uma maneira de dizer, sugerir, insinuar. Uma pausa, um olhar, um gesto, uma rima."
 
 
 
 
Permito-me agora continuar discorrendo pela minha própria análise  crítica, de forma híbrida, alterando este texto para a primeira pessoa (algo que não costumo fazer em minhas críticas) e combinando minha experiência pessoal com a Literatura Clássica, e como o filme é tão sedutor, intelectualmente afrodisíaco e com forte base no desejo mimético. Há alguns anos atrás, estudava na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Durante as aulas de Literatura Clássica sobre a "Arte Poética" de Aristóteles, lembro-me de que o professor relacionava a capacidade de imitação e emulação da Arte, em especial como os princípios Aristotélicos influenciaram a  Literatura  e são uma das bases da Linguagem na produção de significados.
 
 
 
 
 
O professor Raffaele Pinto: Professor bem intencionado
ou um sedutor das musas a mostrar o seu próprio poder?
 
 
 
Era um momento de extrema sedução. Diferentes pontos de vista verbalizados e entrecortados por silêncios e inquietudes, conflitos entre a Poesia e a Ficção, entre o Amor e o Desejo, pensamentos ligeiros com os altos e baixos das paixões, tentativas de compreender o lugar comum da Literatura e o que seria uma forma extraordinária de fazer a diferença com a palavra, a realidade e o sonho. Não havia respostas instantâneas e óbvias, apenas um intenso desejo de se apoderar daquelas discussões filosóficas e literárias,  de voltar para a casa e devorar as leituras clássicas, de trazer o ideal poético ao cotidiano e transformar o mundo, de inspirar homens, poetas, artistas, de sentir prazer com este tipo de poder, que é a palavra transmutada em Poesia, Arte e renovação.
 
 
Como acontece no longa, a figura do professor Raffaelle Pinto também exercia um forte poder sobre as mulheres, especialmente à minha pessoa, como se ele e a infinita capacidade da poesia de adentrar a minha alma fossem o meu maior desejo naquelas preciosas horas. Eu queria ser desafiada a pensar e debater as ideias ainda que não tivesse background literário amplo! Eu sentia muito prazer ao ouvir o professor falando sobre poesia. Era um prazer intelectual, um desejo de que aquelas palavras penetrassem o meu corpo como o sexo e me levasse a um gozo transcendental. Diante destas nostálgicas memórias, em diversos momentos da projeção do filme, eu me vi como uma musa  ( e na mais modesta e natural expressão que lhes confesso isso). Lembrei de tantas musas e heroínas da ficção, dos arquétipos de deusas citados por estudiosos da Psicologia Junguiana  e das mulheres comuns e batalhadoras que deixam o mundo mais sensível, empático, apaixonante, humano. Todas inspiradoras e partes da minha contínua formação humanista , da minha apaixonada alma feminina.
 
 
 
 
 
Desta forma, em "A Academia das musas", Guerín me guiou a este caminho de estimulante intelecto, capaz de fazer uma mulher se perder e se encontrar no dinâmico e arrebatador jogo de palavras entre professores e alunas, e entre estas e outras alunas e pessoas,  de inspirá-la a um encontro consigo mesma, a estar aberta ao questionamento e à reflexão sobre o seu próprio papel na sociedade e até mesmo a manipular a palavra para satisfazer seus desejos e ego. Não há limites para a linguagem, seja ela no Cinema, na Literatura ou em qualquer outra representação da Arte, e este belo tesouro cinematográfico deixa o espectador participar dela.
 
 
Com uma plena fluidez narrativa sem apelar a técnicas de direção e montagem predefinidas e exaustivamente usadas no Cinema, Guerín é como um "Gianfranco Rosi Espanhol" no registro (apenas como analogia); porém aqui bem mais experimental, espontaneamente sem muita edição do material,  aberto a cortes abruptos e descontínuos,  cenas que funcionam como simples esboços transitórios entre planos. Ele acaba reforçando o tom ilusório da ficção e aproxima o espectador ao criar um filme também documental. Essa posição do realizador contribui para registrar o próprio desejo como Mímesis: seu filme é uma imitação de um teatro encenado? um documentário com alguns rascunhos ficcionais para iludir o espectador? É tudo realista ou uma  ficcional viagem à  reflexão poética como  ferramenta de uma idealista mudança social?
 
 
 
 
A bem da verdade é que este longa abre amplas possibilidades de compreensão  desta sociedade de mulheres obstinadas a inspirar outros como musas da Poesia, mas também mulheres de carne e osso, voltadas a seus momentos de paixão,  egocentrismo, insegurança, autoconhecimento, dúvidas e experimentos. É um filme envolvente que seduz e desafia , e que cada vez que for visto, acrescentará algo novo que não havia sido visto antes. Finalmente, "A Academia das Musas"  cresce com o poder, a beleza e o valor das palavras, um Cinema com postura ativa para a reflexão humanista.
 
 
 
 
 
Ficha técnica do filme Imdb A Academia das musas
Distribuição: Supo Mungan filmes
Estreia no Brasil: 23 de Junho de 2016
Fotos e trecho da nota do diretor José Luis Guerin,
 uma cortesia Supo Mungan