quarta-feira, 30 de março de 2011

Drama (2010)







Marcando a estreia do jovem diretor Chileno Matias Lira em longas metragens, Drama relata a obsessiva jornada de 3 estudantes de teatro em busca do autoconhecimento e sucesso a qualquer preço, mesmo que o alto preço seja de natureza afetiva, com obscuros e instáveis desdobramentos psíquicos e angustiantes conflitos interpessoais. Trazendo sua bagagem educacional na dramaturgia, Lira utiliza um diálogo metalinguístico do teatro dentro do Cinema no qual os jovens interpretados por Isidora Urrejola, Eusebio Arenas e Diego Ruíz testam seus limites através das técnicas teatrais do dramaturgo Antoin Artraud, o Teatro da Crueldade. O professor motiva-os a sair pelas cosmopolitas ruas, vivenciar experiências diversas, buscar cruas verdades, ceder ao sofrimento, a dor, a paixão e ao prazer, e retornarem ao palco para expor intensamente tais descobertas. Com isso, os inexperientes jovens mergulham no submundo, de áreas de prostituição a bares noturnos, vivenciando a contra-mão da convencional sociedade Chilena.











Drama é na mais óbvia signficação da palavra um drama show alternativo; é um drama de jovens que se jogam em situações diversas que testam suas emoções, seus comportamentos. Ainda que sejam jovens bonitos, carentes e solitários, cada um à sua maneira, a idéia legítima deles não é buscar tanto uma identidade pessoal, mas buscar o sucesso, a superação na atuação teatral, o confete ao fim do ensaio. Agem instintivamente e motivados por um professor que não lhes dá trégua. Nisso reside o perigo aos seus psicológicos porque não há uma regra em suas ações nesse laboratório social do teatro, não há uma coerência técnica, a intenção é ser cruel consigo próprio e com o outro por isso há um jogo sádico-masoquista nessa película. Se é para ser o melhor ator ou a melhor atriz, estão dispostos a tudo, até a machucar, zombar e denegrir a imagem do outro, voltar e sofrer com o passado, colocar em risco suas carreiras futuras, sua saúde psíquica. Nesse sentido, as atuações são convicentes e não comprometem. Mateo (Eusébio Arenas) é um jovem sedutor, intempestivo, insano, traumatizado pelo desaparecimento da mãe. É atuante na ação protagonista porque é o centro da trama, tem uma postura pueril e de enfrentamento e provocação frente às instituições, afeta e/ou desequilibra o psicológico dos demais, Maria (Isidora Urrejola), sua apaixonada e submissa namorada e Ángel (Diego Ruiz), seu amigo gay que o deseja sexualmente.







O roteiro foi elaborado para ser uma viagem louca dos jovens, motivados pela droga Artraudiana injetada na veia, assim como o mais importante é a mescla de um olhar ficcional e outro não-ficcional no desenvolvimento da narrativa, que aproveita o contexto Chileno de ditadura e uma sociedade formal e castradora para pincelar crítica social e religiosa. Normalmente o sexo é amplamente usado como instrumento de prazer e liberdade, mas a grande ironia em Drama é que ele tenta ser libertino sem sê-lo por completo. A liberdade dos prazeres é mais exercida como discurso do que projetado em imagens tanto que o cartaz não é um ménage a trois, só uma sugestão no imaginário de quem o contempla. Além disso, o que é intrigante e factível para investigação e reflexão é que há planos nos quais a audiência não tem certeza se é realidade ou ficção, se é verdade ou dissimulação, afinal no teatro atores são atores assim como o homem é um ator social no palco do cotidiano.






Drama não é espetacular como Sétima Arte, porém considerando a cinematografia do Cinema Latino Americano, ele não faz o Cinema Chileno passar vergonha, principalmente para um estreante já que Lira usa boas técnicas de flashbacks, cortes, fotografia, montagem e, aproveita o seu background teatral para dar à película uma atmosfera mais pautada na dramaturgia. Drama também prevê algumas reflexões sobre a busca incenssante pelo sucesso a qualquer custo, o submundo que é a destrutiva mente humana e a imaturidade e a miópia existencial dos jovens carreiristas. Tanto Mateo quanto María e Ángel têm suficientes predicativos para vivenciarem positivamente novas experiências libertadoras, mas infelizmente tomam caminhos obsessivos, que nada agregam além do trauma, do desespero, da rejeição, da solidão, da dor e da morte.



Avaliação Madame Lumière





Título original: Drama
Origem: Chile
Gênero: Drama
Duração: 80 min
Diretor: Matias Lira
Roteirista(s): Sebastián Arrau, Eliseo Altunaga, Matias Lira
Elenco: Isidora Urrejola, Eusebio Arenas e Diego Ruíz

domingo, 27 de março de 2011

R.I.P Diva Elizabeth Taylor (1932–2011)


"Quando as pessoas dizem 'ela tem tudo', eu respondo o seguinte:
'eu não tenho o amanhã"


(por Elizabeth Taylor, atriz e diva do Cinema, falecida em 23/03,
por problemas cardíacos)


Mesmo sem ter o amanhã, amanhã que nenhum de nós temos, Elizabeth,
você estará eternamente na memória e nos corações cinéfilos.


sábado, 19 de março de 2011

Maratona Oscar 2011: Toy Story e Randy Newman, enfim uma parceria reconhecida pelo Oscar



Entre uma das justiças do Oscar 2011 está o prêmio de melhor Canção Original para Randy Newman, por We Belong together, composição elaborada para a animação Toy Story 3. Não é o primeiro prêmio da Academia entregue a Newman. Em 2002 ele ganhou a estatueta dourada por If I didn't have you, de Monstros S.A., no entanto, apesar do não ineditismo, é preciso entender o porquê a recente premiação é uma conquista diferenciada, de reconhecimento ao trabalho do talentoso músico e de sua duradoura história de amor e amizade com uma das melhores animações de todos os tempos, Toy Story.

Um dos conceitos principais do prêmio de melhor Canção Original é que o compositor se dedica a elaborar uma canção exclusivamente para o filme. É como buscar no filme a inspiração para a letra e a música, independente de quem será o intérprete; é construir verdadeiramente uma relação entre a música e o filme, entre o compositor, a história e os personagens. Tendo em vista essa premissa, Randy Newman é um excelente exemplo de compositor que desenvolveu um casamento de sucesso com Toy Story, ainda que não tenha ganhado todos os prêmios das canções de Toy Story indicados nos Óscares de 1996 e 2000, respectivamente, You've Got a Friend in Me e When She loved Me.

Assim como Toy Story entrou nos corações de milhões de pessoas em todo o mundo, ela também entrou no coração de Randy Newman que se empenhou a elaborar todas essas canções tão memoráveis e não havia ganhado nenhum Oscar pela sua dedicação. Por conta das derrotas de Newman em Óscares anteriores, principalmente em 1996, We Belong Together veio a fazer justiça a Newman e a todos os ToyStorianos; além de ser uma música de ritmo dançante e contagiante, embutida de alegria, amizade, lealdade e afeto, o prêmio foi conquistado em um contexto de despedida a Toy Story. É fechar o ciclo de uma jornada musical e cinematográfica inesquecível, é celebrar com Randy Newman essa intensa e justa felicidade, é cantar a maior declaração de amor a Toy Story : "Nós vamos continuar assim sempre, você e eu."



Leia na íntegra Resenha Toy Story 3
no MaDame Trilogias





Cine Belas Artes: A Doce Vida do Cinema Paulistano



Nessa quinta-feira, 17/03, perdemos um dos patrimônios mais importantes do Cinema de São Paulo, o Cine Belas Artes, localizado na Rua da Consolação na capital Paulista e que estava em atividades desde 1952. Esse triste acontecimento é um dano irreparável ao coração de qualquer cinéfilo e público em geral que tenha, pelo menos uma vez na vida, vivido uma experiência cinematográfica nesse lugar tão especial. Era simples e aconchegante, era como entrar em um templo da Cinefilia, com cheiro de Arte, cheiro de cultura efervescente, cheiro de pipoca deliciosa e de cafézinho expresso, cheiro de Cinema a qualquer hora do dia. Assim como alguns Cinemas de Rua em atuação, como o Espaço Unibanco e o Cinesesc, ambos na Rua Augusta, o Cine Belas Artes era aquele Cinema intimista, uma extensão de nossa casa, lugar interessante com gente do intelecto, sensível a filmes mais artísticos e de todas as idades. Definitivamente, o lugar de gente que queria fugir de assistir só os blockbusters exibidos nas grandes redes como Cinemark, Playarte, Severiano Ribeiro, UCI, etc.





O estabelecimento fechou suas portas após um período extenso de negociação com o atual proprietário do imóvel que tem outros interesses comerciais e financeiros na região. Além disso, após a parceria com o banco HSBC, o Cine Belas Artes não obteve um novo patrocínio que proveria investimentos no Cinema, com isso e, dada a concorrência das grandes cadeias de Cinemas em movimentados Shopping Centers e da pirataria desmedida, ficou difícil para uma Cinema com background de Arte manter-se ativo. Assim como o Gemini que fechou suas atividades em Setembro de 2010, agora foi a vez de dizer adeus à Doce Vida do Cinema Paulistano, com a exibição do filme La Dolce Vita, de Frederico Fellini , selecionado para a última projeção, a da despedida.





É com um pesar intenso que o público vê as portas do Cinema se fecharem, e principalmente eu, como paulistana e cinéfila da gema, frequentadora do local. Parece utópico acreditar que isso aconteceu. Parece um pesadelo pensar na perda emocional e cinematográfica que tal acontecimento significa, porém não quero entristecer-me, quero somente pensar que um dia o Cine Belas Artes vai voltar, nem que seja em outro lugar, afinal, ele tem luz própria, desperta o sentimento amoroso coletivo no coração de milhares de Paulistanos. Convém sabiamente levar em conta também que, esse fechamento é um movimento penoso que já vêm acontecendo nos Cinemas de Rua que, antigamente, eram recintos de luxo, principalmente os localizados no Centro da Cidade e, com o passar do tempo, ou encerraram suas atividades ou se tornaram locais de Cine Privé. Enquanto isso sobrevivem as populares redes como Cinemark e Espaço Unibanco de Cinema, respectivamente, com parcerias com bancos conceituados como Bradesco e Itaú que injetam dinheiro e um branding nessas salas.




No mais, com a condição de muitas familías que têm baixa renda ou mal sobrevivem com o orçamento apertado, dificilmente uma família tem dinheiro para pagar vários ingressos de Cinema a alguns ou a todos os seus integrantes (sem contar outros gastos como a pipoca, o refrigerante ou qualquer lanchinho e guloseima); ou seja, o ingresso do Cinema ainda é acessível em comparação a outros programas culturais mas, ao mesmo tempo, ele se tornou caro e, portanto, perde a chance de ser mais democratizado para o consumo massivo. As famílias mais populares acabam optando por comprar um DVD em vendedores ambulantes ou esperar o lançamento do DVD nas locadoras tal que toda a família assista ao filme. Também com a facilidade e ampla opção de downloads na internet, muitos usuários de Cinema deixam de comparecer às salas de exibição. Finalmente, com esse cenário econômico-social e com a falta de patrocínio, um Cinema não tem como sobreviver, principalmente em uma região cara como a da Consolação, próximo às expressivas Avenida Paulista e Avenida Rebouças e também à àrea nobre dos Jardins e Higienopólis, na qual há alta concentração e circulação de pessoas, por isso não é de se surpreender que o proprietário do local pode oferecer o imóvel dele a qualquer preço, não dando a mínima para o valor emocional e histórico dos Cine Belas Artes.






Nas minhas últimas visitas ao Cine Belas Artes, houve a presença de três cineastas fantásticos na telinha: um cômico - cético (Woody Allen, Como Conhecer o Homem dos seus Sonhos), um curador mestre de Cinema (Martin Scorsese, Uma Carta para Elia) e um homem do Tempo (Abbas Kiarostami, Cópia Fiel). Ter assistido a esses filmes por lá faz tudo ficar mais claro agora. Eles estavam predestinados a ser os fillmes da minha despedida do Cine Belas Artes, torná-lo agora o meu amor, a minha história, a minha lembrança. Com Woody Allen, o amor pode não dar certo em algumas vivências, mas prevalece a ilusão de que encontraremos um novo amor. Com Martin Scorsese, eu coleciono cada momento que tive no Belas Artes e registro na minha história, na minha enciclopédia pessoal de Cinema. Com Kiarrostami, eu guardo esse Cinema em minha vida, através dos tempos, através das Artes. Ainda que sinto-me triste como uma canção de Chopin, manterei o Cine Belas Artes na minha memória, porque ele foi e sempre será a Doce Vida do Cinema Paulistano, ele sempre será inesquecível como um clássico filme de Fellini.




domingo, 13 de março de 2011

Burlesque (2010)



De todos os gêneros que há no Cinema, o musical é um daqueles entretenimentos ligeiros e agradáveis no qual contar uma densa história não é a prioridade, por mais que a sinérgica combinação de dança, música e uma boa história seja bem-vinda. O que apreende a atenção e a sensibilidade do público em uma película musical é como a música e a dança se comunicam com a história, como se integram e se complementam para transmitir uma intenção, uma emoção, uma diversão com humor e descontração. Envolver o público com o charme da música e da dança é fundamental. Nesse quesito, Burlesque tem uma fórmula que dá certo: reúne duas carismáticas estrelas de diferentes gerações, Cher e Christina Aguilera, que têm em comum um público fiel que preza pela sensualidade e pela liberdade: o gay, são cantoras de renome, inimitáveis, e o musical segue uma estética burlesca, do figurino à paródia musical, com mulheres pin-ups, sedutoras e ousadas para atrair olhares masculinos e femininos em performances dançantes de tirar o fôlego.





Dirigido por Steve Antin, Burlesque tem um apelo levemente romântico-dramático e uma energia sensual burlesca. Relata a trajetória de superação de uma garota de uma pequena cidade, pobre, orfã de mãe e sozinha no mundo, Ali (Christina Aguilera) que tem uma bela voz, sabe dançar e interpretar e não tem um tostão no bolso. Ali é segura de que é talentosa e deseja ser uma estrela. Ela viaja a Los Angeles e conhece o clube noturno Burlesque que faz apresentações teatrais do Burlesco, um misto de dança, comédia e liberação da sensualidade feminina. A proprietária do clube, Tess (Cher) e seu ex-marido e sócio Vince (Peter Gallagher) estão passando por dificuldades financeiras e podem perder o clube a qualquer momento. Com a chegada de Ali, novas possibilidades surgem na vida das duas estrelas, assim como nasce e se renova a paixão pelo Burlesque. Para apimentar o filme, além da sedução de Christina Aguilera representando ela mesma com sua arrebatadora e vigorosa voz, temos as atrativas performances de belas mulheres, entre plumas e espartilhos, e entra em cena o clima de romance entre Ali e Jack (Cam Gigandet), barman e compositor do Burlesque.





O roteiro é modesto e baseado em uma receita pronta de uma garota talentosa e sonhadora que precisa de uma oportunidade para ser uma estrela. Ao encontrar uma lenda (Cher), a estrela dela tem mais chance de brilhar. Como já esperado, o filme é um entretenimento descompromissado de qualquer densidade e complexidade no argumento, além de estender o número de musicais junto com a duração da fita. Sem delongas, é um longa-metragem feito para curtir a trilha sonora e as coreografias que dão o tom humorístico do Burlesco, ver o retorno de Cher ao Cinema e o surgimento de uma nova atriz-cantora em Hollywood, Christina Aguilhera, que sustenta a atuação mais como cantora do que como atriz. O roteiro raso não dá muita oportunidade para Cher exercitar seus velhos tempos de atriz, porém basta a sua simpática presença para fazer valer a exibição. Os coadjuvantes conquistam, seja pelo charme e beleza (Eric Dane e Cam Gigandet), seja pelo senso de humor (Stanley Tucci e Alan Cumming). Além do encontro das cantoras, Burlesque se torna um deleite ao olhar para quem aprecia a sensualidade das pin-ups, trajadas com figurino vintage boudoir sexy, envolvidas pela deliciosa atmosfera do Burlesco, uma mistura bombasticamente sensual que a própria Christina Aguilera conhece de corpo e alma e que lhe é tão própria. Evidentemente, Burlesque foi feito sob medida para Christina Aguilera dado que ela é adepta desse estilo, é a protagonista da produção , é a artista emergente do Burlesque. Ter tal percepção é essencial para compreender o filme como um produto comercial e musical de Christina Aguilera. Desde a sua ascensão na cena pop, a cantora sempre foi reconhecida como uma charmosa pin-up moderna, que incorporou uma veia de dançarina de cabaret em Lady Marmalade, de Moulin Rouge, uma Dita Von Teese platinada dos palcos musicais. O Burlesque é dela, do estilo ao recinto.


Avaliação MaDame Lumière



Confira a canção vencedora do Globo de Ouro 2011
You haven't seen the last of me - CHER






Título original: Burlesque
Origem: EUA
Gênero: Musical
Duração: 119 min
Diretor: Steven Antin
Roteirista(s): Steven Antin
Elenco: Cher, Christina Aguilera, Stanley Tucci, Cam Gigandet, Alan Cumming, etc.

sábado, 12 de março de 2011

Bruna Surfistinha (2011)




Bruna Surfistinha, primeiro longa-metragem de Marcus Baldini , é um dos atuais líderes de bilheteria no Cinema Nacional e é a cinebiografia de Raquel Pacheco, a ex-garota de programa mais famosa do país que há seis anos atrás fez sucesso internacional com o lançamento do livro O Doce Veneno do Escorpião, relato de suas aventuras sexuais como prostituta, e com o seu popular blog no qual dava cotações ao desempenho sexual de seus clientes. Raquel era uma adolescente de classe média Paulista, com background educacional em bons colégios de São Paulo e que abandonou a casa dos pais motivada pela sua liberdade, autoconhecimento, ganho de dinheiro e inadequação àquele rígido mundo familiar. Deborah Secco interpreta a ex-garota de programa em excelente atuação, sob a competente preparação de atores do renomado Sergio Penna. Temos o retorno de Drica Moraes, sempre perfeita como uma das melhores atrizes do Cinema e TV no Brasil. Para um primeiro trabalho com tanta exposição comercial e um obrigatório material sexual, Marcus Baldini soube conduzir sua câmera cuidadosamente, sem ceder ao tom muito vulgar considerando que o filme é impregnado de cenas de sexo. Ele as dirige realisticamente de acordo com o cotidiano de uma garota de programa e aplica uma dose de bom humor, ótimas fotografia e montagem, fantástica trilha sonora com Céu, Radiohead, BlueBell.





O que tornou Raquel Pacheco uma garota de programa tão famosa e, agora, tema de um filme de grande alcance e repercussão nacionais?
Não foi somente em função da confissão escancarada de sua vida sexual, que levou para a cama de homens pobres a milionários, cobrando de R$ 20 a R$ 300 ou mais por programa, mas primeiramente pelo fato de que Raquel era uma garota que tinha de tudo para não se tornar uma prostituta. Ela foi adotada por seus pais, tinha casa, comida e boa educação, no entanto, tinha um sentimento de inadequação perante aquela realidade, precisava se libertar, ganhar dinheiro, conhecer a si mesma, além de ter uma relação tensa com a família. Além disso, ela uniu o seu gosto pelo sexo com a possibilidade de ter ganhos financeiros, sem depender de ninguém que ditasse regras e controlasse sua vida. Aliás, o gostar muito de sexo é uma das recorrentes afirmações da ex-garota de programa, traço que fez com que ela encarasse o pelotão de homens diversos a tratando como um objeto sexual com etiqueta de preço e ouvido para desabafos. Ela optou por esse caminho, o da "difícil vida fácil", com todas os desdobramentos humilhantes como o vício das drogas, a decarrota financeira e a solidão. Em segundo lugar, Raquel fez uma escolha na contra-mão do moralismo da sociedade preconceituosa que coloca as garotas de programa na clandestinidade, como seres anônimos do prazer que ficam entre quatro paredes. Com
Bruna Surfistinha, a garota de programa saiu da cama e foi parar nos programas de televisão, jornais e revistas como ares de celebridade e com status de escritora de best-seller nacional.





Embora o filme tenha contínuas e fortes cenas de uma garota de programa tendo relações sexuais com todo tipo de homem e entregue às drogas, cenas que não deixam de ser degradantes, Bruna Surfistinha é uma grata surpresa, um retrato realista de uma garota que tomou uma complexa decisão em plena adolescência: a de ser uma garota de programa. Tal decisão deve ser respeitada e bem observada durante a exibição até como forma de valorizar essa produção. Bruna Surfistinha se lançou em uma jornada de autoconhecimento e parecia não ter certeza onde tudo isso iria levá-la. De alguma forma, ela teve coragem para enfrentar o que vinha pela frente. Deborah Secco torna o personagem tão veridíco e tão bem realizado que chega a enobrecer a cinebiografia de Raquel Pacheco. Por mais que a ex-prostituta tenha se envolvido no fundo do poço, de desejada a ignorada pela sociedade, de garota de família a viciada em drogas e em sexo, a atuação de Deborah Secco conquista pela beleza, sensualidade e maturidade da atriz, que não está nada global na fita. De maneira geral, há como ter um certo respeito pela escolha de Bruna Surfistinha, mesmo que uns concordem, outros não. Muitas mulheres, inclusive as que tem um nível educacional elevado, optaram por ser prostitutas de luxo muito mais motivadas pelos ganhos financeiros, ou seja, têm a racionalidade da ex-garota de programa que afirmou que "também fazia isso pelo dinheiro e não por caridade", por isso, não é esperado que alguém aponte o dedo em Raquel Pacheco e a critique. O filme ilustra que ela teve propósitos mais relacionados à sua liberdade e um distanciamento familiar.
Ela começou a labuta em um prostíbulo no centro de São Paulo, longe de ser uma garota de programa de luxo. O bom do filme é que ele não julga a ex-prostituta, deixa o público tirar suas próprias conclusões.





Bruna Surfistinha leva a algumas reflexões sobre o que motiva algumas mulheres a optarem pelos caminhos da difícil vida fácil e até mesmo a outros caminhos que as levam ao prazer, à dor, à solidão e à autodestruição. É natural sair da sala de exibição e ficar pensando na escolha dessas garotas. O caso de Bruna pode ser (re)aplicado para outras situações que confrontam os ditos "bons e saudáveis hábitos" da sociedade. Muitas vezes, tudo o que uma mulher deseja é experimentar uma situação, provar o desconhecido, livrar-se das amarras dos preconceitos e do tradicionalismo, ser livre por alguns instantes, libertar-se afetivamente (e sexualmente). Pelo demonstrado no filme, Bruna Surfistinha gostava de sexo, era dedicada aos seus clientes a ponto de ser chamada de "a mulher perfeita": a que escutava os homens, permanecia calada e ainda transava com eles sem recalques e inibições. Tal citação pode parecer machista demais, no entanto, é a pura verdade que nutre o imaginário social com relação ao papel da prostituta, a da mulher a qual o homem procura e paga somente para o prazer e/ou fantasia, para suprir a carência de algo que ele não encontra em sua vida habitual: sexo e/ou diálogos descompromissados. Não a toa que o filme tem conquistado as bilheterias do país; qualquer material biográfico que se relaciona a uma vida regrada a muito sexo, polêmica e nudez é um prato cheio para o imaginário sexual do público Brasileiro. Após tantos anos, Bruna Surfistinha ainda sobrevive e tem mais de 1 milhão de espectadores no Cinema.


Avaliação MaDame Lumière






Título original: Bruna Surfistinha
Origem: Brasil

Gênero: Cinebiografia, Drama

Duração: 109 min

Diretor: Marcus Baldini

Roteirista(s):
Antonia Pelegrinno, Homero Olivetto e José Carvalho, baseado em livro de Raquel Pacheco, O Doce Veneno do Escorpião
Elenco: Deborah Secco, Cassio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabíula Nascimento, Cristina Lago, etc.



Confira o making off Trilha Sonora do Filme,
um dos pontos altos do filme





quarta-feira, 9 de março de 2011

Citação do Dia : Sobre o Filme Bróder, de Jeferson De - Reportagem 'Um Bróder no Cinema' - Revista Criativa

Jeferson De, cineasta de Bróder, vencedor em Gramado
Filme entra em Circuito, com estréia prevista para 21/04




"Bróder é um filme sobre amizade, como Antônia.
Também é sobre um Capão Redondo que pretende se firmar pelo afeto,
não pela arma de fogo."




(por Alexandre Carvalho dos Santos, reporter para artigo
"Um Bróder no Cinema" - Revista Criativa nº 263, Março de 2011)

Parabéns pela excelente matéria!




Para ler a resenha de MaDame Lumière
sobre Bróder, clique aqui.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher: 10 Inspiradoras Diretoras de Cinema, 10 Filmes para Todas as Mulheres

Susane Bier: mulher vencedora do Oscar 2011,
melhor fillme estrangeiro: Em um mundo melhor


No Dia Internacional da Mulher, não poderia deixar de homenagear as mulheres do Cinema, especialmente as cineastas que são jóias raras em um universo cinematográfico dominado pelos homens, em um mercado de trabalho que ainda evolúe em oferecer melhores oportunidades profissionais para ambos os sexos. Apesar dos desafios, o Cinema cresce e faz história entre mulheres que se esforçam continuamente para nos trazer a Sétima Arte. Para minha vibrante comemoração, após uma análise de uma lista extensa de diretoras reconhecidas pelo seu talento, concluí que falta espaço nessa postagem para mencionar todas, o que significa um bom sinal, o de que a mulher faz a diferença no Cinema. Priorizei 10 delas em função de 10 bons filmes que também falam de mulheres e para mulheres, um das premissas para compor minha homenagem cinéfila nesse dia especial.

Kathryn Bigelow: Vencedora por Guerra ao Terror. No campo de batalha do Cinema, gosta de adrenalina e aprecia temas masculinos como o militar.


A festiva verdade é que motivos de sobra para celebrar o fato de que temos grandes mulheres na liderança de premiados filmes, principalmente porque ainda vivemos em um mundo muito machista na competitiva seara profissional , o qual ainda tem muito a fazer pelo bem da diversidade, em todos os seus âmbitos e desafios. Além disso, estou muito feliz por termos tantas diretoras Brasileiras em crescente ascensão, em especial, as da pós-retomada como Carla Camuratti, Lina Chamie, Rosane Svartman, Tatá Amaral, etc. Após a vibrante vitória de Kathryn Bigelow no Oscar 2010, como melhor diretora por seu premiado Guerra ao Terror e como primeira cineasta a ganhar um Oscar na categoria, além da premiação no Oscar 2011 de uma das melhores diretoras do momento, Susane Bier, pelo seu magnífico trabalho em Em um mundo melhor, o que posso dizer-lhes é que esses prêmios são somente o reconhecimento público de algo mais profundo que temos visto na História do Cinema Moderno: mulheres em ação na frente e por trás das câmeras, excepcionais em seus trabalhos e tão necessárias umas às outras ( e aos homens também) da pré produção à finalização de filmes. A todas às mulheres, um feliz dia da mulher com muito Cinema, todos os dias!


10. Feo Aladag

Feo é estreante na direção de longas mestragens. Sua estreia é a realização do drama Quando Partimos (Die Fremde), selecionado como o candidato alemão ao Oscar 2011, reconhecido na Mostra de Cinema de SP como vencedor do Troféu Bandeira Paulista 2010 . O filme é comovente e profundo, um retrato da opressão sofrida por uma mullher de família turca, no casamento e pelos familiares. Feo é muito mais do que uma jovem cineasta, ela é uma mulher engajada em temas densos como a violência contra a mulher. Toda mulher precisa assistir: Quando partimos

9. Nora Ephron

O romance sempre está no ar com Nora Ephron. Conhecida por suas comédias românticas, um dos gêneros favoritos das mulheres, ela é conhecida por assinar a direção de Sintonia de Amor e Mensagem para Você e o roteiro de Harry e Sally - feitos um para o outro. A cineasta ficou um período distante dos sets e retornou com o recente Julie & Julia, a inspiradora história 'gastronômica' de Julia Child.
Toda mulher precisa assistir: Julie & Julia


8. Nicole Holofcener

Como boa Nova Yorkina, Nicole entende das neuras das mulheres modernas, é como uma cineasta antropóloga, de olhar feminino, que tem Woody Allen como inspiração. Com um background em TV, assinando trabalhos em séries famosas como A Sete Palmos e Sex and the city, Nicole tem um estilo cool e independente. Toda mulher precisa assistir: Sentimento de Culpa




7. Lisa Cholodenko

Com High Art e Laurel Canyon no currículo, Lisa está entre as atuais e emergentes realizadoras do Cinema independente Americano. Recentemente obteve um excelente êxito com Minhas Mães e meu pai (The Kids are all right), indicado ao Globo de Ouro e Oscar em 2011 e que enfoca uma família contemporânea formada por um casal de mulheres homossexuais às voltas com os conflitos afetivos, como a criação dos filhos. Toda mulher precisa assistir: Minhas mães e meu pai




6. Sandra Werneck

Sandra é uma das grandes produtoras e diretoras do Cinema Brasileiro, com trabalhos que se dividem entre o amor e a dor, basta lembrar de suas comédias românticas como Pequeno dicionário amoroso e Amores Possíveis e, por outro lado, trabalhos comoventes como Cazuza - O tempo não para. Nos últimos trabalhos, mais socialmente engajados, como o documentário Meninas e longa Sonhos Roubados, ela tem enfocado as jovens mulheres de comunidades carentes. Toda mulher precisa assistir: Sonhos Roubados






5. Mira Nair

Mira é um nome de respeito no Cinema Indiano e renomada internacionalmente. Com trabalhos também americanizados como Feira das Vaidades e Amélia, ela honrou o valor do Cinema Bollywoodiano e gosta de enfocar fortes mulheres em suas produções. Mesmo com os desafios às convencionais tradições de sua própria cultura, é uma cineasta muito bem sucedida que venceu, de forma inédita, o Leão de Ouro no Festival de Veneza e, desde Salaam Bombay, já era engajada com as questões sociais da Índia. Toda mulher precisa assistir: Um casamento à indiana





4. Nancy Meyers

Nancy é uma das cineastas mais exemplares e dedicadas para falar sobre o universo feminino, praticamente uma antropóloga e psicóloga das mulheres em filmes como O Amor não tira férias e Simplesmente Complicado, além de ter um senso de humor delicioso para tratar questões que não são mero clichê afetivo de mulheres carentes e, sim, a dinâmica dos relacionamentos maduros como eles se apresentam. Nancy Meyers fala para mulheres e para homens que precisam entender de mulheres. Toda mulher precisa assistir: Alguém tem que ceder





3. Sofia Coppola

A famosa filha de Francis Ford Coppola é a cineasta da melancolia e do tédio, assim como a do apurado e contemplativo senso estético, que tem bom gosto até na trilha musical e nos belos figurinos. Sofia Coppola provou que não é só a filhinha do The Godfather do Cinema, mas uma diretora que abordou em Virgens Suicidas, Maria Antonieta e Encontros e Desencontros temas muito relacionados à mulher como a virgindade, a emancipação feminina, a liberdade, a solidão. Toda mulher precisa assistir: As Virgens Suicidas



2. Laís Bodanzky

A cada nova realização, Laís tem sido o orgulho do Cinema Nacional, uma cineasta de atitude que já se lançou nos longas-metragem, com pulso firme, ao realizar o pertubador O Bicho de Sete Cabeças. Recentemente presenteou a audiência com As Melhores Coisas do Mundo, um atual (e nostálgico) retrato da adolescência. Com Chega de Saudade, Laís traz a dança de salão, um prazer adorado por várias mulheres e, são as mulheres do filme, cada uma em sua particularidade, que tornam o filme bem humorado, um ótimo entretenimento made in Brazil. Toda mulher precisa assistir: Chega de Saudade





1. Jane Campion

Jane Campion é expert em filmes com belas e dramáticas personagens femininas e o sentimento do amor, além de seu talento em transportar o público para outras épocas através de sublimes imagens. Seu premiado O Piano, ganhador de Oscar, César e Palma de Ouro e o mais recente Brilho de uma paixão (Bright Star) indicam que ela é uma cineasta em perfeita harmonia com as emoções femininas. Toda mulher precisa assistir: O Piano

segunda-feira, 7 de março de 2011

Maratona Oscar 2011: Se a vida é Biutiful, o herói é trágico


Biutiful (2010), o primeiro longa-metragem do cineasta Alejandro González Iñarritu sem a participação do roteirista Guillermo Arriaga é um soco no estomâgo. Dolorosamente visceral, ele é pertubador como a miséria e a morte. Imagine a vida de um homem mergulhado em um caminho sem volta, o de uma doença incurável em estado terminal; um homem de bom coração que mantém certa dignidade, mesmo que cometa negócios ilícitos como atravessar imigrantes chineses e africanos em condiçoes ilegais na periferia de Barcelona; um homem soturno que tem o espírita dom de comunicação com os mortos; um homem solitário, divorciado, às voltas com Marambra, sua bipolar ex-esposa (Maricel Álvarez, excelente) a qual não consegue perdoar. Um pai de dois filhos, que a qualquer momento podem se tornar órfãos do pai, entregues à misericórdia do destino. Esse herói trágico é Uxbal (Javier Bardem, em excepcional atuação), decadente física e socialmente. Para ele, a vida não é Beautiful, é Biutiful!





Aclamado como vencedor da Palma de Cannes em 2010 e indicado ao Oscar de melhor ator no Oscar 2011, Javier Bardem brinda o público com mais uma atuação que dilacera qualquer coração e não dá espaço à pieguice sentimentalista. Embora a fita esteja impregnada de desgraças suas e alheias, Javier tem tanta luz própria como um ator à frente de qualquer desafio, que o seu formidável profissionalismo não deixa o filme desandar em uma piada da miséria humana. Ele alcança uma interpretação heróica que salva o filme do começo ao fim. Uxbal é um herói obscuro e imperfeito, o que o aproxima da verossimilhança com tantos cotidianos e trágicos heróis. De comportamento intrigante, Uxbal tem uma moralidade dúbia, ou seja, se for preciso ajudar o próximo ele o faz pois tem um dom espírita de ajudar os mortos a partirem na paz e está sensível às necessidades dos imigrantes, porém é beneficiado financeiramente por tais ações para manter sua própria sobrevivência, inclusive recebendo até propinas. O interessante é que não há como julgá-lo, apontar o dedo em sua cara, pois o filme apresenta sua tragédia, a jornada rumo ao seu adeus à vida, e Iñarritu não faz questão alguma de esconder o fim do túnel. Uxbal é soturno, porém é possível contemplar sua bondade, ter afeto e piedade por ele pois há uma transparência em sua forte personalidade, em sua vulnerável condição. Ele está definhando aos poucos. Seu infortúnio em um contexto social problemático e um drama doméstico complicado é desconfortante. A morte está à sua espreita, o sofrimento é seu companheiro.





Iñarritu continua recortando sua narrativa em viscerais histórias dramáticas e paralelas, assim como fez em Babel. A diferença é que sua separação de Arriaga não lhe fez tão bem em termos de roteiro; se não fosse Javier Bardem, o resultado de Biutiful não seria tão impactante. Mesmo sem Arriaga, Iñarritu deu um jeitinho de integrar ao roteiro a jornada trágica de Uxbal e a miserável questão dos imigrantes na Europa, o que prejudica o andamento coerente da fita em alguns avanços do desenvolvimento. Nos planos que se relacionam aos imigrantes chineses e senegaleses, à corrução policial e ao comércio de produtos falsificados, há uma intenção clara no roteiro de relacioná-lo ao personagem de Uxbal, por uma necessidade lógica de estabelecer uma conexão com o herói. Depois, a projeção enfoca o drama doméstico e as tomadas mais 'espirituais' e delirantes de Uxbal, logo nem tudo é tão bem amarrado no roteiro de forma a dar uma certa fluidez fílmica. Por outro lado, era de se esperar que fazer tais relações na narrativa exigiria não só um bom trabalho de cineasta, mas a habilidade de um roteirista que esteja acostumado a unir no desenvolvimento narrativo diferentes dramas, de ricas e profundas metáforas e complexidades sociais. Iñarritu se arriscou e fez bem em fazê-lo sem Arriaga. Um cineasta reconhecido como ele, em trabalhoso como Amores Brutos, Babel e 21 Gramas, tem que andar por pernas próprias, ter a autoria do filme. Não a toa que dedicou o fime à memória de seu pai e dirigiu um dos seus trabalhos mais pessoais, com ótimo elenco, compatível direção de arte com a degradação dessa sociedade e uma fotografia impecável do competentíssimo Rodrigo Pietro. Biutiful é um maravilhoso e tocante filme sobre a morte, o sofrimento, a doença e a solidão, condições das quais nenhum homem escapa, esses são os demônios que Uxbal tem que enfrentar.






Essa é a densa e bela reflexão que agrega valor à fita: a morte e como lidar com ela. Como lidar com o sofrimento com certa dignidade? Como lidar com o fato de ser tão estranho em uma vida? Como lidar com uma realidade tão problemática que mais parece uma morte em vida? Esse sentimento de estar 'fora', de ser 'imigrante' em uma vida miserável é permanente e um das maiores dores da humanidade. A vida nem sempre é Bonita (Beautiful), ela sempre será grafada de forma errada em algumas circunstâncias desafiadoras do indivíduo e de sua família, por isso Biutiful coloca Uxbal, Marambra e filhos no núcleo do enredo. Famílias têm problemas de relacionamento, de falta de dinheiro, de perdão, de violência e de convivência. A única certeza que há é que a morte chegará e, com ela, a preocupação em dizer adeus a quem fica, de desfalecer na completa solidão e pobreza, a de morrer tão prematuramente.



Avaliação MaDame Lumière



Título original: Biutiful
Origem: México, Espanha
Gênero: Drama
Duração: 148 min
Diretor: Alejandro González Iñarritu
Roteirista(s): Alejandro González Iñarritu, Armando Bo, Nicolás Giacobone
Elenco: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanna Bouchaid, Guilermo Estrella, Eduard Fernandez.

domingo, 6 de março de 2011

Maratona Oscar 2011: A realidade sobre Inception: O que torna A Origem o filme dos sonhos cinematográficos


Inception: O sonho é real


Inception é a origem dos sonhos cinematográficos, é a concretização de mais uma genial idéia no Cinema a serviço de trazer o surreal e o real ao expectador. Ao entrarmos em uma sala de exibição, muito mais do que a simples intenção de ter um descontraído e/ou vibrante entretenimento, esta o desejo de sonhar através da Sétima Arte e, ao mesmo tempo, relacioná-la com a realidade do cotidiano e ter perante os olhos um filme bem realizado, com excelentes diretor, roteiro e elenco, vigor e perfeição técnica . A Origem, do fenomenal Christopher Nolan é exatamente isso; é um daqueles raríssimos filmes no qual o lúdico e o real são projetados na tela do Cinema para materializar a incrível capacidade imaginativa do indivíduo, o seu fascinante dom de criação e inovação no qual sonhar é uma magnífica experiência humana, além de que tal exercício surreal não está distante do real. Em Inception, o sonho é real!






A Origem é concebido no seu cerne a partir de uma idéia de Nolan, que levou 10 anos para elaborar esse roteiro. A idéia era unir a espionagem corporativa com os sonhos; para tal, como exímio argumentista, ele criou uma estrutura lógica dentro do surrealismo do enredo: Entrar nos sonhos de um executivo que herdará um império empresarial e implantar, através do Inception (a inserção) uma idéia para que ele divida a sua corporação, cumprindo, desta forma, o desejo do concorrente. Nesse processo estrutural no mundo dos sonhos, uma equipe liderada por Cobb (Leonardo di Caprio) parte na missão Inception entrando em vários níveis do subconsciente, na qual há regras do que é realidade e do que é sonho, do que deixa os personagens vulneráveis e do que os deixa defensivos, portanto, Nolan torna A Origem um sci-fi palpável, de um heist movie sensível, um suspense arrebatador, uma obra prima multi-gêneros que não limita a mente humana, e muito menos, a capacidade ilimitada do Cinema como criação artística, de reflexão existencial e ressonâncias psíquicas.



Apesar de ser mais uma louvável idéia de Nolan, racionalizar esse argumento construindo uma estrutura lógica de regras para a equipe de Cobb operar não era a única manobra criativa do cineasta, era preciso mover a emoção dos personagens e, principalmente sobre o público. Era preciso coletivizar o sentimento dramático de Inception, aproximá-lo de culpa, redenção, amor, perda, etc., acercar o sonho de uma real experiência humana, somente assim a emoção poderia aflorar na audiência e o sonho ser percebido como um sonho que pode ser o de qualquer um de nós. Tal brilhantismo de Christopher Nolan é tão evidente e reconhecido por quem está sensível à linguagem cinematográfica que, nem mesmo o fato de ele não ter sido indicado ao Oscar de melhor diretor fez com que ele ficasse no limbo. Nolan é o arquiteto do filme dos sonhos cinematográfico (e cinéfilos). Acima de tudo, A Origem é o ponto de vista único de um cineasta que é habilidoso conhecedor da mente humana, uma competência que já havia demonstrado em suas produções Batman - O Cavaleiro das Trevas, O Grande Truque e Amnésia. Ele é capaz de harmonizar a sua habilidade técnica e intelectual com sua sensibilidade e curiosidade e abraçar a psicologia individual e da coletividade, inclusive bebendo da fonte de mestres da Psicanálise como Jung e Freud. Ele insere uma idéia na sétima Arte emanando o poder inovativo e ilimitado da mente humana, a mesma idéia capaz de catalisar a catártica mudança em nós ao assistir esse fantástico longa-metragem e ser impactado por ele por dias e mais dias.




Nolan permanece o cineasta original, criativo, visionário pensador e sofisticado, um desenvolvedor de planos surreais em A Origem para demonstrar que, por trás de uma ficção, de um heist movie que aproxima características de James Bond a film-noir, há uma forte ressonância emocional que massifica o filme despertando a sensibilidade do público em geral, e por conseguinte, sua simpatia. Nesse sentido, o espectador compreende o drama de Cobb e como ele tem que lidar com um peso enorme durante o filme, longe de seus filhos, saudoso de sua esposa, assim como fica intrigado com a intenção do autor. Além disso, os sonhos também são esconderijos do subconsciente dos desejos mais ocultos, um mundo que criamos, no qual construímos para viver uma realidade paralela, mas também um mundo no qual desenvolvemos estratégias de autopreservação. Finalmente, a maior dádiva de A Origem é não precisar escapar do sonho para viver uma emoção real. Em mais uma obra prima de Christopher Nolan não há limites para sonhar, para transformar o sonho em uma realidade, afinal, quando dormimos, somos nós os arquitetos dos nossos sonhos. Quando assistimos a um filme, queremos que o autor compartilhe propriamente o seu sonho cinematográfico, ou seja, o filme que ele criou, a origem de mais um sonho realizado chamado Cinema.



Avaliação MaDame Lumière




Título original: Inception
Origem: USA, Reino Unido
Gênero: Ação, suspense, Crime, Sci-Fi

Duração: 148 min
Diretor: Christopher Nolan

Roteirista(s): Christopher Nolan
Elenco: Leonardo Di Caprio, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Lewitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Michael Cane, Pete Postlethwaite,Dileep Rao

terça-feira, 1 de março de 2011

Maratona Oscar 2011: Quem é Rei por último, Ri melhor : O Ditado que dita o Oscar 2011

Colin Firth mereceu o Oscar, mas Tom Hooper....




Sabe aquele ditado que diz que quem ri por último, ri melhor? Permita-me realizar o trocadilho "Quem é rei por último, ri melhor", ditado sob medida para comentar sobre a festa do Oscar 2011 realizada no último domingo (27), direto do Kodak Theatre de Los Angeles. O Discurso do Rei é o grande vencedor da premiação reinando em 4 categorias, melhor diretor, ator principal, roteiro e filme, que juntas, representam o peso da côroa da consagração de um longa-metragem no tradicional Academy Awards em sua 83ª edição. Com direção de Tom Hooper, O Discurso do Rei relata a história do rei britânico George VI e sua gagueira. Ao assumir a monarquia, George, interpretado por Colin Firth, tem que assumir também a responsabilidade pelo discurso à nação. Sendo gago, qual a nação que levaria um rei à sério? E a exímia oratória de um Rei? Assim, George tem que superar o problema da gagueira.


O argumento é interessante pois, para um chefe de Estado, discursar e influenciar é preciso. Não há como ele se esconder por trás de um problema que afeta diretamente a forma como se comunica e é respeitado por um país, portanto, faz sentido ter ganhado o Oscar de melhor roteiro original dado à David Seidler, assim como é digno de reconhecimento o Oscar de melhor ator a Colin Firth que, no ano anterior, realizou uma fascinante atuação em Direito de Amar (A Single Man) como um professor mergulhado na solidão após a perda do amado. Colin acabou perdendo o Oscar para Jeff Bridges, de Coração Louco. Mesmo que merecida, a premiação de Colin foi como um "tapa na cara" ou um "pedido de desculpas" da Academia. Dessa vez, eles tiveram que engolir Firth com gagueira, discurso e a elegância britânica que lhe é tão natural.


Não há como negar que O Discurso do Rei tem tudo a ver com o trocadilho do "Rei que ri por último". Ele chegou de mansinho, praticamente gaguejando sem causar muito alvoroço. Não conquistou a crítica como A Rede Social e nem tantos fãs como A Origem, ainda que seja uma produção qualificada. Enquanto o público apostava em diretores como Darren Aronofsky (e seu Cisne Negro), David Fincher e seu filme "Facebook" e Christopher Nolan com Inception, Tom Hooper e o seu "The King's Speech", era praticamente um desconhecido. De repente, surgiram várias indicações de O Discurso do Rei em premiações que mais pareciam coroações. A Rede Social, queridinho da crítica americana, foi ficando para trás como se fosse um plebeu na côrte do Rei. E não é que Tom Hooper foi o Rei do Oscar? Ganhou o prêmio de melhor diretor para a surpresa geral da comunidade cinéfila que poderia ter gaguejado: Ma-mas co-como a-a-asssim? To- Tom Ho-ho-hoper ? Tarde demais para tamanha indignação! Ele já está rindo essa hora.


Confesso que a direção dele não é desmerecida, mas é tradicional e combina perfeitamente com a Academia. Obviamente, ela tem uma impecabilidade na gramática fílmica, no entanto, não traz nenhuma surpresa além da contemplação visual, beleza e força do roteiro. É uma direção que tem um tênue frescor, de bom gosto, mas continua convencional, academista. Ele desloca muito pouco a câmera, trabalha com os planos e enquadramentos de forma cuidadosa como um filme de época costuma ser, além de ser bem apoiado pela ótima fotografia e direção de arte. Por ser uma direção mais tradicional em um filme sobre a monarquia, Tom Hooper foi a surpresa mais esperada e, ao mesmo tempo, inesperada da noite, fazendo côro à ambiguidade de sua premiação. Ele merece o prêmio pelos olhos da Academia e dos lobistas , mas desmerece pelos olhos dos formadores de opinião que sabem que essa direção dele não é superior aos seus concorrentes. De certo, havia possibilidades dele vencer porque a Academia não está preparada para reconhecer diretores visionários, que pensam fora da caixa e que costumam incomodar bastante com os filmes que realizam, basta pensar que David Fincher já dirigiu Clube da Luta, Darren Aronofsky realizou Requiém para um sonho, e o mais injustiçado da noite, Christopher Nolan fez a obra prima Batman - O Cavaleiro das Trevas. Aliás, Nolan nem teve a chance de concorrer com Hooper. Infelizmente, ele nem chegou a ser indicado para o Oscar de melhor Diretor.


Com isso, além da risonha zebra Tom Hooper, a festa do Oscar teve outras duas zebrinhas: James Franco e Anne Hathaway, novos mestres de cerimônia que não souberam dar à premiação o vigor e o entretenimento necessários ao evento mais aguardado do ano. Anne estava um pouco mais à vontade, mas nem isso resolveu, James Franco estava paralisado como se tivesse caído no Grande Canyon. Nem se ele ganhasse o Oscar como melhor ator em 127 horas, ele sairia daquela inércia. Por outro lado, algumas justiças foram feitas como a premiação de Natalie Portman como melhor atriz por Cisne Negro, o roteiro adaptado de A Rede Social e os prêmios técnicos de A Origem como o de som e efeitos visuais. Ainda assim, é importante repetir sem gaguejar: a festa do Oscar contina previsível, um fiasco de audiência e nada apaixonante, seguindo dessa forma os canônes da Academia, ou melhor, o absolutismo da monarquia Academy Awards colocando o excepcional Cinema como se fosse um mero súdito.