sábado, 18 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês: Aconteceu em Saint Tropez ( Des Gens qui s'embrassent) - 2013





 Para quem aprecia  um agradável e despretensioso Cinema Francês , a comédia é um dos gêneros mais bem vindos e marcantes das produções realizadas pela França e são valorizadas pela audiência que as aprecia tanto a ponto de se tornarem fenômenos de audiência. Leves e bem humoradas, de uns anos para cá, filmes como Potiche, E agora , onde vamos? E Os intocáveis misturam questões mais sérias como a independência da mulher, a religião e a deficiência física e unem o humor como uma das matérias catalisadoras para rir da própria seriedade e se emocionar com as variadas situações que vão da amizade ao amor.


Nessa temporada de  Festival Varilux de Cinema, um dos filmes mais aguardados, devido às críticas em 2012, é Aconteceu em Saint Tropez. Sob a batuta da cineasta Danièle Thompson, conhecida por Rainha Margot e por ligeiras comédias de costumes, a diretora usa a seu favor sua veia genética de cineasta,  sua experiência como roteirista  e as influências judaicas para realizar uma divertida comédia  com abordagem familiar, que mistura romance e uma reflexão sobre o amor e a tolerância.





A história conta as desavenças de 2 irmãos de família origem judia, mas que levam a vida de formas bem diferentes.  Para viver estes dois irmãos, Danièle tem no elenco a presença de dois atores bem comediantes, o que facilitou a produção. Zef (Eric Elmosnino) é um musicista judeu, mais tradicional, que se torna viúvo após a esposa ser atropelada. Roni (Kad Merad) é um empresário hedonista do ramo de luxo. Às vésperas do casamento  da filha de Roni, a esposa de  Zef falece, situação dramática que, em um roteiro francês se transforma em motivo de riso. Para apimentar mais ainda os efeitos piadistas, as 2 primas, as belas Lou de Laâge e Clara Ponsot tem 1 amor em comum:  Sam , interpretado pelo também comediante Max Boublil. A voluptuosa Monica Bellucci faz o papel de Giovanna,  esposa de Roni e de origem católica. Ela é a personificação da mulher dona de casa  vaidosa e fútil mas de bom coração. O grande destaque cômico é Aron (Ivry Gitlis), o pai dos irmãos, já senil, que garante tiradas muito engraçadas. Também virá dele as lembranças dos filhos e a sabedoria sobre a união.





Apesar das diferenças entre os familiares, ora em irônico e suave pé de guerra, ora em demonstrações afetivas de que somente o amor e a tolerância os mantêm unidos, roteiro é desenvolvido com uma direção bem descontraída, em planos cotidianos ou advindos de momentos coletivos em família: : um jantar de aniversário, uma festa no barco, um casamento, um enterro etc. Estas situações  também  servem de contexto claro para marcar as diferenças de estilo de vida entre os irmãos. As delícias do filme são que, ainda que seja uma comédia mais americanizada com direito a momentos de comédia romântica, ele é um filme para emocionar e ressaltar que todos somos diferentes uns dos outros e erramos como família, mas ainda somos uma família que precisa ser tolerada para ser uma família de verdade. Além dos ótimos atores como Eric, Kad e Ivry, o texto piadista sem ser tão medíocre faz com que o público se torne íntimo dessa família e ria das situações que, por padrão, deveriam arrancar tensas e melancólicas expressões. 




Além da abordagem família, Aconteceu em Saint Tropez é uma comédia sobre o amor, aquele que perdemos como o da esposa que falece; aquele que ganhamos ainda que tentemos escapar dele; aquele que precisamos manter para seguir adiante. Sem dúvidas, é um filme sobre o amor e a tolerância e o seu desfecho reforça tal condição. Alguns personagens são utilizados em momentos certeiros para selar a necessidade  de união:  ainda que os irmãos Se alfinetem, as primas se mantêm unidas. Ainda que o velho patriarca esteja caducando, dele vem a sábia e lúcida paternidade. Daniele cria formas de unir a família e, automaticamente, o público é inserido nos costumes, ora hedônicos, ora religiosos. Com sua origem judia, a cineasta soube brincar com as diferenças dos laços familiares sem ofender a religião.





Aconteceu em Saint Tropez só repete a agradabilidade proporcionada por uma ligeira porém reflexiva comédia de costumes Francesa e, portanto vale o ingresso. O fato de todas as famílias terem seus desentendimentos e alternarem momentos de amor e raiva transforma o longa em um produto eficaz já que o público se identifica com ele. Também é interessante perceber que, embora Daniele poderia ter polemizado mais as rixas familiares e incluir mais humor negro no roteiro, a comédia cumpre um papel mais comercial, sendo facilmente digerido por pessoas que não apreciam o cinema Europeu em comparação ao cinema Americano, mas que podem começar a tomar mais familiaridade com  a forma francesa de realizar comédias, que costuma render boas bilheterias com muito mérito.

sábado, 11 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês: Prenda-me (Arrêtez moi) - 2012






Prenda-me, uma produção França / Luxemburgo dirigida  por Jean-Paul Lilienfeld, retrata a violência doméstica contra mulheres. Com Sophie Marceau no papel de A Culpada e Marc Barbé como o marido agressor Jimmy, o longa enfoca uma forma diferente de retratar a mulher que, de tanto apanhar do esposo em um terrível terrror doméstico, principalmente psicológico, em um momento de desespero e dor , de repente, o mata. Acaba carregando o segredo do homicídio e a culpa por quase 10 anos. Às vésperas do período máximo para reabrir o caso, ela aparece no plantão policial de uma delegacia, decide confessar o crime à delegada Pontoise e pede para ser presa. Como desafio, encontra a resistência da policial em prendê-la.


O roteiro trabalha em um espaço temporal de uma noite na qual o diálogo entre A Culpada e a policial é desenvolvido. A mulher agredida reconta todos os seus traumas e violências sofridas que surgem como flashbacks de memórias. O público acompanha o tormento de seu casamento. À medida que Pontoise ouve o relato da Culpada, cada vez mais a incentiva a não se entregar à polícia, inclusive se recusa a tomar o depoimento e reabrir o caso.








Essa lógica estranha de uma policial que não dá andamento à prisão de uma criminosa é interessante porque mimetiza o real da opinião de muitas pessoas a respeito da violência doméstica.  Por que prender a vítima e homicida do marido, namorado, noivo, irmão , pai ou quem quer que seja agressor, se ele é um covarde batedor de mulheres? Provavelmente uma boa parte do público, principalmente o feminino, diria a ela: "Culpada, vá embora para casa e deixe seu marido apodrecer no inferno.", porém temos que analisar que , à medida que o diálogo evolui, A Culpada realmente é a culpada. Ela sente culpa por mais que o marido dela merecesse ser penalizado. Ela sente culpa pelo filho que já cresceu com personalidade rebelde , agressiva e de torturador psicológico como a do pai mas, acima de tudo, ela é uma viúva e mãe. Se fizermos um paralelo com a vida real, os sentimentos que afloram da A Culpada, que não tem um nome mas personifica a maioria das mulheres que apanham de seus maridos, são comuns. Muitas agredidas sentem arrependimento  e culpa ao denunciar seus agressores familiares, principalmente aqueles com quem tem um relacionamento afetivo.







Um recurso eficaz e muito Francês no roteiro  é o humor sarcástico. Aqui, ele é bem ponderado no diálogo e até usado em situações absurdas e sem sentido entre ambas as atrizes, no entanto, ele é bom porque ele alivia a carga obscura da violência, o peso do drama e estende o diálogo o tornando mais suportável. Se não houvesse esse humor, o filme seria um porre! Ainda que esse recurso pareça estranho em um filme que retrata a violência doméstica, ele é usado inteligentemente quando se deseja dizer uma verdade que moralmente não é politicamente correta, como por exemplo: quando a policial sugere que o marido tinha mesmo que morrer ou que ela vai dar uma lição no filho imaturo da Culpada. 


O humor é  muito aliviante após as cenas na qual a mulher é agredida pelo marido e que são bem mais viscerais. De uma maneira bem diferenciada e bem proposital, o diretor optou por não mostrar o rosto de Sophie Marceau durante boa parte das cenas com o marido, além de colocar a câmera a partir dela, que foi acoplada na atriz para que as agressões fossem visíveis de maneira real. A esposa são os olhos do espectador, desta maneira, incomoda bastante ver o  ator Marc Barbé como o nervoso e covarde marido se aproximando da vítima e surrando-lhe, em especial, a cena do elevador. A câmera treme como se fosse uma câmera na mão que desestabiliza a imagem reforçando o quanto essa esposa é desestabilizada pela agressão do marido e, portanto, a escolha da direção é bem acertada ainda que, em termos imagéticos, esse tipo de filmagem cria bastante mal estar visual ao espectador.








As atuações são boas. Marc está muito bem porque mimetiza o assustador desiquilíbrio de um homem agressor. Seus olhos são raivosos como de um cão endemoniado. Seu rosto dá até nojo! Certamente, o destaque maior vai para ambas as atrizes. Sophie evoca bem o rosto da mulher culpada, amargurada e traumatizada por um passado tão infeliz como o dela: pai agressor, marido agressor, filho agressor. É como um pesadelo familiar! Ela deseja ser punida por ter sido tão punida na vida. O fato de ser uma mulher comum que não faria mal nem a uma mosca e se tornou uma assassina em uma situação limite de agressão faz com que a veracidade tome conta da tela. É possível acreditar nessa mulher destruída! Ainda que guardando os traços da beleza francesa, ela está bem transtornada, com olheiras e rosto marcado por cicatriz, o que garante credibilidade à esposa sofrida. Mais sóbria mas igualmente afetada por seu emprego burocrático de uma policial  em plantão e viciada em automedicação, Miou-Miou está ótima e dá mais leveza e sua experiência ao drama. O roteiro não lhe ajuda pois ela bem que merecia um papel melhor, mas ela é dotada de uma atuação bem humorada da forma mais negra possível. Atuar assim era necessário pois ela é a policial que resiste a prender uma mulher que matou o marido agressor. Ela representa uma lei que não funciona da forma que está, na qual muitos agressores não são condenados e nem presos. Devido ao não funcionamento de uma lei que deveria proteger as mulheres, ela se torna a própria anti-lei durante o seu plantão, aquela que diz: seu marido foi um canalha e merecia morrer! Com o humor, o diretor alivia o que seria uma heresia para a lei atual e opressora dos homens.

O desfecho do filme é compreensível, mas conservador e, portanto, só reforçou a dúvida do por quê o público teve que acompanhar todo o diálogo para ter um final tão acomodado. Com o tema da violência doméstica em voga e dada a seriedade dessa trágica realidade, o cineasta poderia ter optado por outras escolhas, mais dramáticas, viscerais e mais provocativas contra o status quo de uma sociedade machista que alimenta esse mal estar contra as mulheres.





domingo, 5 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês 2013: O homem que ri (L'homme qui rit) - 2012




Um dos grandes expoentes da Literatura Francesa e de renome mundial, Victor Hugo e suas talentosas obras  que misturam o grotesco ao belo e mostram os males da aristocracia e da monarquia sobre o povo, são um belo e cheio prato para as adaptações para o Cinema.  Normalmente emocionam por misturar o monstruoso e o  sublime com vieses político e romântico. Além do recente os Misérables de Tom Hooper, Victor Hugo está nas telinhas novamente. Desta vez, o cineasta Jean-Pierre Améris decide revisitar a obra O homem que ri, que em 1928 foi também dirigida por Paul Leni, estreando  Conraid Veigt no papel principal de Gwynplaine, homem que tem uma cicatriz de um constante riso no rosto e que o transforma em motivo de riso e de horror.  Esse personagem serviu de inspiração para compor o Coringa de Batman.





O romance é considerado uma clássica alegoria política do homem comum,  grotesco, miserável e saltimbanco. Gwynplaine é monstruoso aos olhos do povo, da monarquia e da aristocracia, mas faz o povo ri da própria fatalidade e da pobreza e é ignorado pela Corte, ainda que tenha uma origem nobre, riqueza e direito à palavra em um Parlamento. Sua aberração o torna um dos mais belos e trágicos personagens de Victor Hugo porque a história em si é emocionante, misturando a realidade e o sonho, o grotesco e o sublime, a tristeza e o amor. No século XVII, Gwynplaine (Marc-André Grondin) é filho do nobre Lord Clancharlie que traiu o Rei James II. Como vingança, o monarca ordena, além da morte de seu pai, que Gwynplaine seja vendido a um grupo chamado "comprachicos" (compradores de crianças) e que tenha o rosto desfigurado. Ele é abandonado com o rosto marcado por uma cicatriz de um sorriso macabro e aterrorizante. Posteriormente, encontra Déa (Christa Théret), orfã e cega e, juntos, são acolhidos e adotados por Ursus (Gerárd Depardieu). Ursus é um modesto e itinerante saltimbanco, um tanto excêntrico e engraçado já que nunca derramou uma lágrima, mas é capaz de ter a sensível e bondosa atitude de criar duas crianças abandonadas.







Na fase mais adulta, Gwynplaine e Déa se apaixonam e se tornam a atração de um espetáculo do circo "O homem que ri": Ele, a evocação do monstro grotesco. Ela, a metáfora da virginal pureza. As apresentações cativam a audiência, não somente pela comédia, mas pelo amor. O jovem desfigurado desperta a curiosidade e o riso na plateia e o desejo da voluptuosa e perigosa duquesa Josiane (Emmanuelle  Seigner). Ao descobrir sua real origem, desdobramentos trágicos ocorrem a ponto de evidenciar ainda mais sua miserável vida: a de um jovem destinado a ter o rosto marcado, a ser motivo de piada e riso e que só encontrou o amor verdadeiro nos braços de sua humilde família composta por Ursus e Déa. Em uma das cenas mais retóricas  do filme, em um discurso político no Parlamento, fica claro que a aristocracia Francesa é muito mais monstruosa que o rosto de Gwynplaine. A monarquia e a nobreza são o verdadeiro grotesco!






O encanto de O homem que ri é a beleza do amor entre Gwynplaine e Déa e o  protetor afeto do pai Ursus, juntamente com a composição do filme, que mistura o sublime e o grotesco, uma direção de arte mais pautada nos antigos circos itinerantes Franceses, que demonstram a pobreza do povo e o reflexo do rir da própria desgraça que advém da própria Arte Circense. Ao assistí-lo, é mais possível lembrar-se da cinematografia de Tim Burton com um pouco de Terry Gilliam do que do Expressionismo do antecessor longa de Paul Leni.  Os efeitos visuais do longa são leves e ressaltam mais o figurino e a dicotomia nobreza x pobreza. Diante da tela, a atmosfera de um sonho advindo de uma fábula literária é o que enche os olhos e emociona. Contemplar a pureza da jovem cega Déa que não enxerga a feiura de Gwynplaine e que o ama profundamente é um dos motivos que transforma esse filme em uma viagem afetiva em meio à tragédia de dois orfãos. Já não se vêem como irmãos, mas como homem e mulher a desabrochar o amor, um sentimento que supera o dramático meio no qual vivem,   tomado pela vergonhosa e massacrante ambição de uma monarquia e nobreza que deseja ver o povo a milhas de distância e como ratos de esgotos. Assim, como a clássica obra de Victor Hugo, o Corcunda de Notre Dame, que enfoca o amor do grotesco Quasímodo pela preciosa Esmeralda, aqui também há um romance inspirador entre a Bela e a Fera e que cria uma conexão emotiva mais íntima com a audiência.





Sob a perspectiva mais politizada, o roteiro deixa mais a desejar em função de que não explorou de maneira mais inteligente e profunda ações que poderiam ser mais proveitosas na relação de Gwynplaine com a política, por exemplo. Não precisava ser um tratado cinematográfico para não perder muito da magia, mas o dinamismo e conteúdo das cenas poderiam criar um outro olhar mais e mais metafórico a respeito da função política do "O homem que ri". O filme só se detêm a ridicularizá-lo, ainda que necessário, e colocá-lo como um ser desgraçado que até mesmo é usado pela duquesa. Devido à estas questões, o longa perde a oportunidade de ser mais marcante. Felizmente, os atores da trupe conquistam porque formam uma família pobre e trágica pela qual é impossível não sentir compaixão, além disso Emmanuelle Seigner faz uma participação pequena, mas ardilosa o suficiente para comprovar o mau caratismo da nobreza. Ainda que esta seja uma versão mais contemporânea, o simpático Marc- André Grondin poderia ser mais convincente  na função de uma aberração. Sua atuação é mais mediana  e o roteiro não lhe ofereceu mais possibilidades de ser exposto e desafiado. Gérard Depardieu tem como benefício a sua experiência, seu lado bem humorado, carismático e de gigante bonachão, características que facilitaram sua inserção no papel. Ainda que se exilado na Bélgica e fugido dos impostos do Leão Francês,  Gérard ainda é um ator ícone do Cinema Francês. O destaque vai para Christa Théret, uma das jovens estrelas emergentes da França, que mesmo em um papel coadjuvante, demonstra o lado mais onírico e puro de uma bela virgem que ama e deseja um homem desfigurado. O fato de ela ser cega, de ter sido criada como se Gwynplaine fosse seu irmão e de ele não se sentir digno de seu amor, torna esse traço romântico do filme muito mais contido, trágico e poético. Por causa deles, esse não é um filme para rir, mas para chorar.

sábado, 4 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês 2013: Adeus, Minha Rainha ( Les Adieux à la Reine) - 2012




Adeus, Minha Rainha, drama histórico Francês dirigido sob a batuta de Benoît Jacquot, traz a mise-en-scene 3 belas atrizes: Diane Kruger como a Rainha Maria Antonieta, Léa Seydoux como a sua leal leitora Sidonie e Virginie Ledoyen como o amor da Rainha, Gabrielle de Polignac. Adaptado do romance homônimo de Chantal Thomas, a história acontece em 1789 em Versalhes e enfoca os tensos bastidores da pré-Revolução Francesa às vésperas da Tomada da Bastilha e da queda do Monarquia de Luis XVI. Muito mais do que um drama, o longa tem uma direção que abusa do suspense e da iminência de que cabeças podem rolar a qualquer momento, incluindo a de Maria Antonieta, além de oferecer ao expectador um novo olhar, o feminino, através da devota criada da Rainha, Sidonie, e dos profundos e discretos sentimentos lésbicos que a Rainha nutre pela Duquesa Gabrielle, emoções que conjuntamente influenciam o desfecho do longa, assim como provocam a curiosidade no público a respeito das relações afetivas que une estas três mulheres.







Através de Sidonie e sua absurda lealdade à Rainha é que o filme se sustenta. Ela é o ponto de vista que guia e que, ao mesmo tempo, coloca a curiosidade na mente do observador! Como em um estado de negação a qualquer custo, ela se recusa a acreditar que a Rainha está na mira dos rebeldes e está disposta  a permanecer ao lado de Maria Antonieta nem que tenha que renunciar a sua própria segurança e se colocar em uma posição cada vez mais submissa a favor dos caprichos e instabilidades da monarca.  Com a excelente atuação de Léa Seydoux com sua beleza  e frescor juvenis, suas olheiras marcantes que ressaltam sua servidão e seu olhar dissimulado e misterioso, a protagonista Sidonie é o grande acerto deste filme. Ao trazer uma leve temática homossexual através do amor e desejo de Maria Antonieta por Gabrielle, a devoção de Sidonie pode ser considerada somente a lealdade de uma serviçal ou pode ser especulada como o potencial desejo de uma jovem pela sua Rainha. Algumas cenas do longa projetam prováveis evidências de um algo a mais nos sentimentos: Sidonie apreciava o toque da Rainha em sua pele, observava as confissões afetivas de Maria Antonieta à Gabrielle, contemplava o belo corpo nu da duquesa e não poupava esforços em abrir mão do orgulho e amor próprios para satisfazer a sua Rainha.  Sob esta perspectiva e, considerando a intrigante forma de atuação de Léa Seydoux, que é por si só uma atriz de olhar naturalmente misterioso, Sidonie é a atração  principal do filme.






Com uma ótima atuação de Diane Kruger, menos louca, mimada e excêntrica em comparação a outras Marias Antonietas do Cinema,  o expectador observa uma Rainha mais vulnerável por um amor lésbico. Neste ponto, Diane fez uma concentrada e elegante interpretação, mais contida no aspecto passional mas perfeitamente verossímil e convincente. O romance homossexual não é concretizado visualmente na tela, mas ele é sugerido e atiça mais a imaginação do público exatamente pelo fato de não ser concebido através do sexo, por isso estes se tornam momentos mais sedutores e de ligeira tensão. A aproximação, pele a pele, se dá mais pelo carinho de amigas como um beijo na mão, um olho no olho ou um abraço intenso. Aqui, o filme se torna mais interessante porque ele oferece à audiência o benefício de imaginar por si mesmo se Maria Antonieta teve um romance tórrido com Gabrielle e se a Rainha era homosssexual por excelência ou bissexual. Ao explorar levemente esses sentimentos da Rainha, o cineasta Benoît criou uma outra dimensão cinematográfica para Maria Antonieta que vai povoar a mente dos curiosos pela história da Monarquia Francesa e pela sexualidade de personalidades icônicas.  Como o roteiro não se propõe a criar um dinâmico foco sexual na história, é impossível não ficar com vontade de buscar o íntimo da rainha nas literaturas, assim como quem foi Sidonie e suas reais intenções de inabalável devoção.






Ao ser o filme que abriu o último Festival de Berlim, ter ótimas atrizes, primorosa direção de Arte e bonito figurino, é evidente que era esperado mais deste roteiro para compor um inesquecível drama histórico. O filme escolhe os bastidores de uma pré-revolução, que é a dimensão histórico social, mas não a explora de forma tradicional e plenamente, o que provoca um sentimento de que faltou acontecimentos catalisadores no filme. O longa somente gera o contexto e a tensão para enfocar  as personagens femininas, suas emoções e escolhas. Se por um lado, tal escolha faz com que questões mais históricas não sejam exploradas, como por exemplo, a rebeldia de uma Revolução, suas ações e desdobramentos, por outro lado, como Cinema, ele gera um olhar bem mais interessante sob o aspecto inovador: o da criada de uma Rainha e seu dedicado Amor, sem julgamentos, somente a entrega genuína. A  personagem feminina de Sidonie é bem construída para conceber esse tipo de olhar e é o fator principal que deve ser considerado para  analisar e valorizar este longa. Mesmo em sua aura de mistério, há momentos específicos  que evidenciam claramente como Sidonie , mesmo em sua aparente maturidade e força de carater, era muito leal à Rainha. Ela era tão empenhada a ponto de fazer questão de não ser reconhecida e de não acusar as reais facetas políticas e pessoais de sua Rainha, assim como estava ali tão disponível que não buscava um romance ou  um homem para satisfazê-la afetivo e sexualmente, nem desenvolver suas amizades com outras criadas e, muito menos, fugir para bem longe . É um filme que fala sobre amor, auto sacrifício e renúncia de uma criada e, portanto, merece seus méritos na compreensão das variadas dimensões do que é o Amor e como ele é capaz de nos exaltar e nos humilhar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês 2013: Camile Claudel 1915 (2013)





 
O filme Camile Claudel 1915 com a mais que excelente Juliette Binoche no papel de Camile Claudel, escultora Francesa, irmã do escritor Paul Claudel e ex-amante de Rodin, é uma demonstração da reclusa decadência de uma mulher apaixonada, que foi abandonada pelo grande amor e foi internada em um longíquo hospício para ser enterrada por uma sofrida vida. O longa dirigido por Bruno Dumont é um dos destaques da programação do Festival Varilux de Cinema Francês, que estreou em 01 de Maio e percorre 40 cidades em todo o país.
 
 
A história gira em torno de Camile confinada em um hospício no Sul da França, aguardando a visita de seu irmão Paul. Preservando sua beleza frágil com um olhar distante e, em alguns momentos dócil, ela  convive com mulheres tão destruídas quanto ela. O filme não se detêm a contar a história de amor que ela viveu há mais de 20 anos com Rodin. Após uma introdução de que ela foi amante do escultor e internada pela família, o filme a retrata já no hospício, muito abatida, suja. Este início convida o público a acompanhá-la em uma prisão na qual não existe vida, ainda que ela seja respeitada pelas irmãs e outras internas e pelo diretor do local. Ali o mundo parou e só ficou na mente dela a mania de perseguição e seu ódio por Rodin. Camile expressa a dor de uma mulher que efetivamente se sente perseguida, traída e abandonada, mas também demonstra que sua loucura é visualmente muito mais lírica e psicológica que física na forma como o longa foi dirigido. O diretor consegue criar uma atmosfera bem bucólica, de um confinamento que a separa completamente do mundo externo, que tem certa poesia à medida que a coloca tão próximo ao espectador mas também muito distante da França glamourosa de grandes artistas. Ela é um ser isolado, do choro ao silêncio, passando por surtos de ameaçadora agressão e momentos de oração, ela tem uma vida a qual nenhuma mulher genial e talentosa deseja chegar.
 
 
 
 
 
Além da atmosfera de reclusão e muita solidão, o que torna Camile Claudel 1915 um filme melancólico, ele é claramente difícil de assistir por ter um roteiro muito mais contemplativo que falado. Há muito pouco diálogo e o que sustenta o interesse é obviamente a concentrada atuação de Juliette Binoche, ora deprimida e extremamente chorosa como um grito de clamor desesperado, ora sorrindo levemente com a esperança de que a tirem daquela prisão. Juliette é o filme! Sem ela, não seria possível assistí-lo e suportá-lo em 1 hora e meia de projeção, ainda que o diretor seja bom, tenha um senso de direção  realista muito Europeu que se alterna com a sublime atuação da atriz. Ele parte de planos visuais de extrema beleza como os paisagísticos e vai ao detalhe de um copo, uma comida em preparação e os pés que descem uma escada. No geral, não necessariamente é somente a contemplação que o torna um desafio para as plateias, afinal observar com admiração o talento dramático de Juliette Binoche é para muitos.
 
 
 
 
Na verdade, é o abandono, a paranóia e a solidão de uma artista Francesa como Camile que faz com que o filme seja um exercício de coragem para o público, principalmente para as mulheres que tem mais tendência a se sensibilizar com a escultora em função de que ela foi abandonada por um homem. Dá muita compaixão perceber que Camile foi engolida pelo seu amor por Rodin. Ela simplesmente endoideceu e ficou muito mais louca convivendo com aquelas outras mulheres que já haviam perdido a sanidade mais que ela. Embora o filme expresse essa loucura dela uma forma muito elegante e serena, reflexões sobre um aspecto afetivo da cinebiografia de Camile são necessárias: "O quanto ela sofreu? O quanto ela realmente enlouqueceu devido ao amor e ao abandono? O quanto Rodin e Paul Claudel foram carrascos? O quanto a mulher artista foi silenciada na França?" O espectador tem que ter vontade de assistir a um filme como Camile  pois, até mesmo suas palavras que pedem ajuda podem ser suaves delírios de uma mente doentia; por outro lado, há momentos que chamam a atenção para o mistério de sua personalidade, muito citado pela História, pois dão a impressão de que ela foi uma mulher muito inteligente e acima de sua época e, portanto, foi silenciada pelos homens com os quais conviveu, incluindo o irmão Paul. Muito bem dirigido no aspecto de enquadrar planos que evocam a solidão, o silêncio e a loucura, Camile Claudel retrata uma vida que ninguém deseja ter, principalmente após ter amado perdidamente.