terça-feira, 10 de julho de 2012

Rapidinhas da MaDame: Pronta para Amar (A Little bit of heaven) - 2011


Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia




Sobre a história: Marley Corbett (Kate Hudson) é uma jovem, bonita e divertida publicitária que curte sua liberdade sexual e é avessa a compromissos amorosos. Quando descobre que tem uma doença fatal, conhece o Dr. Julian Goldstein (Gael García Bernal) e inicia tratamento médico, tendo uma mudança de vida.


Opinião Geral sobre o filme:  A história é uma comédia romântica com um elemento muito dramático: o câncer em uma mulher cheia de alegria e energia para viver. Marley é uma mulher desapegada de relacionamentos amorosos e tem uma relação tensa com os pais, porém tem um grupo de amigos que cumpre o papel de família. A partir da descoberta de sua doença, ela  nos leva a tratar o tema com leveza, porém  ligeiramente comovidos com o fato dela ser tão jovem e somente descobrir o verdadeiro amor em um momento tão delicado e vulnerável de sua vida, na qual não há esperança de cura.  A ideia geral de Pronta para amar é que o paraíso afetivo pode acontecer quando já não temos tempo de desfrutá-lo e temos que continuar a viver até que nos falte o ar, ainda que viver seja aceitar a doença e a morte. De fato, o filme tem razão e deve ser valorizado sob essa perspectiva. Marley só aprende a amar  um homem e perdoar aos pais quando a doença não tem reversão. Talvez se ela não tivesse a doença, ela continuaria vivendo a vida adoidado, sem qualquer apego a um homem ou à família. Nunca é sabido quando partiremos e, é bem provável que, no leito de morte, questões que não tinham nenhum valor começam a tê-lo. O longa não é tão ruim e nos faz refletir que a vida é curta e que devemos lidar de uma forma mais leve com a morte, mas o roteiro e a direção são bem deficientes e abre espaço para questionamentos: Essa história é verossímil? Verdadeiramente, há um fundo de faz de conta nela. Até Deus surge, na figura de Whoopi Goldberg, para conceder os 3 últimos desejos à paciente, mas a inverossimilhança não está nisso, está na falta de um roteiro verdadeiramente humanizado. Muitas das falhas do filme é que ele não é tão convincente: a maneira racional e passiva como Marley reage à doença, a forma como o romance entre ela e Julian se desenvolve são exemplos de que a doença é uma pseudoprotagonista que não exerce o seu papel principal. Há até momentos que é questionável se existe amor no casal pois parece um romance ensaiado e com data de validade. Só é possível ver o humanismo da questão com personagens como a amiga grávida Renèe (Rosemarie DeWitt) e a mãe de Marley (Kathy Bates) que garantem algumas cenas marcantes. Os demais inclinam muito à um estado de negação total, que é incompatível com a gravidade de uma doença como o câncer. Sinceramente? Deveria haver mais verdade humana nesse roteiro. Embora trate de um tema sensível, Pronta para amar perde na própria sensibilidade do tema. Ela tem câncer como quem tem uma gripe e nisto reside o risco do filme tratar o tema somente como o "encare a própria morte e, enquanto estiver respirando, viva o amor  e aceite a doença".

O prazer: Kate Hudson é muito carismática para esse tipo de gênero. Seu sorriso ilumina a tela e a gente acaba perdoando sua mediana e repetitiva atuação em comédias românticas. A participação de Kathy Bates como Beverly, sua mãe e de Whoopi Goldberg  como Deus são bem vindas na telinha.

O desprazer: Roteiro e direção não ajudam na qualidade do filme e, a atuação de Gael Garcia Bernal é precária, transmitindo a sensação de que ele não se sentiu bem nesse tipo de filme. Apesar de sua bela presença ser um colírio, ele merece fazer longas melhores e mais aderentes ao seu talento.


Por que vale a rapidinha? Faz a gente encarar a ideia de morte e de doença de uma forma mais otimista e redentora.

Rendimento: 
Ficha técnica no Imdb

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids) - 2011



Missão Madrinha de Casamento é uma comédia tipicamente de elenco feminino, que traz  interessantes atrizes de talento cômico como Maya Rudolph, Kristen Wiig e Melissa McCarthy e é dirigida por Paul Feig, profissional que tem larga experiência em direção de Seriados de TV como The Office, Nurse Jackie etc.  Annie (Kristen Wiig) é uma mulher de meia idade e solteira para qual a vida não foi muito benevolente: não tem namorado, carro bacana e casa própria e acumula o fracasso de um negócio falido, uma loja de confeitaria. Sua melhor amiga, Lilian (Maya Rudolph) vai se casar e a convida para ser sua madrinha de casamento. A partir daí, a narrativa se baseia na divertida competição entre Annie e a dama de honra Helen (Rose Byrne), bonita, bem sucedida e nova amiga de Lilian. A rixa entre ambas e o elenco divertido das demais damas de honra garantem momentos engraçados e pincela o longa com tragicômicas tiradas de problemáticas femininas como o desgaste do casamento, a carência amorosa, entre outras.






O filme é  uma daquelas comédias que enganam o público. Quando se olha para a capa do DVD e/ou o cartaz do filme, é possível dizer: Eca! Mais um besteirol Hollywoodiano cheio de clichês!, porém ele surpreende com entretenimento, amizade e romance, mesmo que ainda haja clichês desse gênero. Há um senso de humanidade em algumas cenas que estão coerentes às emoções que são vivenciadas pelas mulheres como o ciúmes,   a baixa autoestima, a solidão, a sensação de fracasso afetivo e profissional etc. O longa é bem humorado, tem ótima energia e uma boa protagonista, Kristen Wiig, que é muito competente e para a qual o papel caiu tão bem como um vestido fabuloso.   O fato dela ter assinado o roteiro também pode explicar o porquê ela está tão à vontade na atuação. Com isso, embora o casamento de Lilian seja o agente impulsionador da história e o grande pano de fundo, ele não é o mais importante no filme. A relevância do longa está em Annie e seus dramas pessoais que se misturam com os risos e a competição em questão. Sendo um filme bem feminino, é mais imediato  o processo de identificação das expectadoras com Annie e as mazelas das mulheres. Por outro lado, os homens que assistem ao filme podem entender um pouco mais do sexo feminino.







Annie é autêntica e, por sê-lo, ela tem carisma. Não é preciso um excepcional roteiro para seu personagem crescer em tela. Primeiro, pelo talento cômico da atriz, segundo por ser humanamente uma mulher que não conseguiu nada na vida e ainda tem que celebrar o casamento da melhor amiga. Ainda que tenha alcançado uma idade mais madura e tenha o hábito da autosabotagem na história, Annie tem um senso de verdade que permeia a comédia e dá-lhe valor; exatamente por ser falha e ter esquecido de si e de seus projetos, de não se dar o devido crédito como mulher atrativa e interessante e não perceber o quanto é maravilhosa. Ela é aquele tipo de mulher que tinha sonhos e trabalhou duro, mas que a vida não lhe presenteou com um homem especial, com um trabalho satisfatório, com posses materiais mínimas. Pode parecer mais um clichê feminino, mas quem é mulher, principalmente, sabe como é terrível chegar a um momento melancólico que parece que a vida foi ingrata conosco. Esse momento é mais um poço fundo para qualquer um; mesmo que seja ocultado por sorrisos e risos que tentam disfarçar tal tristeza, ele continua sendo um buraco negro na vida. Na verdade, todas essas dificuldades são comuns a homens e mulheres nesse cotidiano que costuma ressaltar mais fracassos que sucessos. Existem cenas que Annie tem que comemorar a vitória amorosa da amiga e ver o quanto Helen é charmosa e próspera, enquanto que o seu mundo está desabando,  dessa forma, demonstrando que mal ela consegue cuidar da própria vida, imagine apoiar a noiva na preparação do casamento. Como é natural, ela se sente tão "menos do menos", que é incapaz de acreditar no Amor, assim, aceita as migalhas de afeto como as transas com o fútil e bonitão Ted (Jon Hamm, de Mad Men). Não enxerga o potencial amor de Rhodes (Chris O'Dowd) e, simplesmente, cede ao sexo casual e permite ser usada da forma mais humilhante que as mulheres sabem muito bem como é.





Com elenco  coeso e divertido e um bom ritmo, Missão Madrinha de Casamento promete momentos hilariantes e emocionantes. A jornada à essa comédia é muito válida para acompanhar a história de Annie. Ao fim, assim como na canção tema Hold on, de Wilson Phillips e perfeita  na trilha sonora para realçar o que é mais relevante no longa, aprendemos que é preciso não se isolar como uma ilha e nem se autosabotar tanto, há que ter a vontade de superação e de dar a volta por cima, sem deixar de ser amigo(a) e acreditar no Amor. Nunca é tarde para partir à missão, a que é rumo a nós mesmos.






Título: Bridesmaids
País/Ano: EUA / 2011
Diretor: Paul Feig
Roteirista: Kristen Wiig,  Annie Munolo
Elenco: Kristin Wiig, Maya Rudolph, Rose Byrne, Mellisa McCarthy etc.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Confiar (Trust) - 2010

Quando a confiança é necessária e é quebrada.






Confiar é o longa dirigido  por David Schwimmer, popular ator que fez sucesso com o seriado Friends. Com grandes atores no elenco como Clive Owen e Catherine Keener e a jovem e promissora Liana Liberato, o filme retrata a história de uma adolescente que é vítima de abuso sexual ao conhecer um homem mais velho pela internet. Muito mais do que um tema moderno frente à degradante realidade dos crimes sexuais e do crescimento da pedofilia na internet, Confiar torna-se um filme muito pessoal do diretor, com um olhar muito sensível ao drama de uma adolescente traída e violada em sua intimidade sexual, pois David é ativista da Rape Foundation, uma instituição que presta suporte a crianças abusadas sexualmente e a seus familiares.







No roteiro, a estrutura é previsível porém eficaz para analisar a aproximação do criminoso sexual de uma jovem solitária. Ele coloca o expectador na realidade de como uma adolescente, carente e ingênua, é enganada por um homem adulto pervertido. A adolescente Annie (Liana Liberato) tem problemas de autoestima e uma necessidade de se afirmar  como uma garota colegial desejável e aceita pelo grupo de colegas. O personagem dela segue aquele estereótipo cinematográfico da menina mais caseira, de poucos amigos, que nunca namorou nenhum dos colegas atléticos do colégio e é considerada estranha pela garota mais popular da escola. A partir dessa linha de desenvolvimento, o personagem de Liana é coerente com o que acontece na realidade. Ela é inexperiente mas, como toda mulher jovem, quer ser apreciada. Ela inicia chats  na internet com o desconhecido Charlie, pouco a pouco se envolve platonicamente e afetivamente com ele, confia nele, perdoa-o, deseja-o com papos íntimos e encontra-se com ele. Liana a interpreta muito bem,  com veracidade e emoção, em um misto de desejar essa independência como mulher mas vulnerável como qualquer adolescente.






Charlie (Chris Henry Coffey), o criminoso sexual, é bem caracterizado a partir de uma aparência comum e patética, uma voz mansa e manipuladora, mais um Zé ninguém que oculta um psicopata. Através das falas nos chats e de como ele a aborda e a leva para o motel, o personagem dele é bem asqueroso, porém de uma forma discreta, exatamente como ocorrem nos noticiários. Tal caracterização dele é um acerto do roteiro porque os pedófilos são cínicos tarados sexuais que ganham a confiança da vítima como se fossem "bonzinhos". Podem ser os homens mais ordinários do cotidiano, como aqueles que ninguém desconfia que são o que são. Embora o desfecho do filme tenha sido abrupto em termos de ritmo da narrativa, ele deixa claro que o criminoso sexual pode ser qualquer um, inclusive um pai de família respeitado pela comunidade.











As atuações de Clive Owen e Catherine Keener são muito boas porque a escolha por eles foi positiva, além do mais há a presença ilustre de Viola Davis como a assistente social que, com sábias e simples perguntas, esmiuça o  quadro de negação da vítima. Clive, com seu estilo truculento e de fisionomia intempestiva quando fica nervoso, exerce bem o papel de pai revoltado, que deseja fazer justiça com as próprias mãos. Catherine é a cereja do bolo no filme, ainda que seu personagem não ganhe um desenvolvimento muito denso, vê-la na tela é sempre um bel prazer. Como uma grandiosa atriz indie, sua participação coadjuvante é centrada, madura e dramática, tudo na medida certa. Ambos ressaltam que os pais tem emoções distintas e contraditórias perante o problema:  podem se desesperar e fazer algo insano, podem se tornar mais protetores, se sentirem culpados ou não saberem o que fazer. De fato, ter um(a) filho(a) vítima de abuso sexual é doloroso e sempre traz muitas questões nevrálgicas: Eu protegi meu filho como deveria? Ele confiou em mim? Por que ele se aproximou de um desconhecido e deu espaço a intimidades? No geral, o filme é bom ao enquadrar algumas cenas que lançam essas questões que levam à reflexão. Infelizmente as questões não são evoluídas em sua profundidade, o que tornaria o filme excepcional com o assunto tão delicado e contemporâneo. 






Por outro lado, não se pode esquecer que Confiar ainda é um filme mais comercial com excelente elenco. Sua intenção não é tornar o drama mais drama e adentrar a psicopatia de um criminoso sexual, esmiuçando a sujeira do abuso de menores. Percebe-se que a película é mais convencional e funcional, com os devidos clichês. Ela expõe o 'processo' de como ocorre na prática quando duas pessoas se conhecem na internet e uma delas é abusada: Uso de planos com as legendas das transcrições de chats, conversas de flerte em celular e telefone, encontro às escuras, mentiras perdoadas, abuso e vergonha, etc. Logo mais, há o envolvimento da polícia, da assistente social, do bullying na escola etc. 












Sem dúvidas, a parte mais interessante do filme é a negação da vítima de abuso sexual. Neste contexto, Annie não acredita que o criminoso é um criminoso, principalmente quando ouve uma troca de confidências e confiança entre eles. Para ela, Charlie a valorizava e a amava. Ela era única. Acreditar nessa mentira só ressalta que ele a enganou com a mais degradante hipocrisia. Também a película acerta ao  não ser tão maniqueísta com o tema, ou seja, Annie deu abertura de sua vida à Charlie e isso pode acontecer com qualquer um, pois as pessoas se iludem e são traídas. Ainda que seja uma jovem imatura, como é comum na internet, ela trocou intimidades até mesmo de fantasias sexuais com um estranho. Há algumas vítimas que acham que são amadas pelos canastrões que as abusaram. É aí que mora o perigo. A narrativa constrói e  desconstrói a negação dela de uma maneira tênue e exemplar, que reflete a realidade de alguns casos pós traumáticos de abuso sexual, no qual a vítima tinha uma relação afetuosa com o criminoso. É mais traumático negar a quebra da confiança do que ser enganada.






Confiar garante uma boa sessão, tratando de forma mais leve um assunto pesado. No desfecho, a lição que fica é solidarizar-se com a dor de Annie, não somente pelo abuso em si, mas porque ela só deseja o que é intríseco ao ser humano: ser aceito, amado e desejado. Querer isso tem consequências boas e ruins. Assim, a bela canção tema, My Declaration, de Tom Baxter resume a personagem de Annie e é comovente, bem inserida na trilha sonora. Verdadeiramente, Annie não queria se esconder. Ela queria superar a sua autoestima e ser mais madura. Depois do ocorrido, muito mais, ela terá que ser forte como tantas crianças e jovens que vivenciaram esse drama. Infelizmente, as pessoas se ferem quando querem crescer. Elas se ferem quando querem Confiar.







Título original: Trust
País/Ano: EUA/ 2010
Diretor : David Schwimmer
Roteirista: Andy Bellin, Robert Festinger
Elenco: Liana Liberato, Clive Owen, Catherine Keener, Viola Davis etc.