domingo, 30 de setembro de 2012

MaDame Cult: Cova Rasa (Shallow Grave) - 1994






Cova Rasa é o primeiro longa metragem do diretor Britânico Danny Boyle que, mais tarde, tornou-se conhecido por filmes como Trainspotting - sem limites, Quem quer ser um milionário e 127 horas. Neste cult movie do suspense, roteirizado e dirigido com excelência, Boyle o realiza de forma muito funcional e bem sucedida: 1 hora e meia de duração, com um ritmo tenso e envolvente,  atores bons, desconhecidos e sedutores, com um estilo próprio que seria recorrente em outros filmes como o uso de trilha sonora eletrônica, o gosto por edições com músicas e TV, planos claustrofóbicos, e com  muita qualidade cinematográfica  em uma produção com cara de independente filme perturbador e assustador. A partir de Cova Rasa, começa a parceria do diretor com o ator Ewan McGregor, que está em Trainspotting e Por uma vida menos ordinária  e com o roteirista John Hodge, que além de ter escrito o roteiro destes 3 filmes, também assinou o de A Praia.







Juliet (Kerry Fox), David (Christopher Eccleston) e Alex (Ewan McGregor) são amigos e dividem um mesmo apartamento de classe média. Decidem procurar pelo quarto morador, encontram um homem misterioso e atrativo e o selecionam como novo colega de quarto, porém o mesmo é encontrado morto e deixa uma mala cheia de dinheiro. Os problemas começam a ocorrer, o que coloca à prova a autenticidade desta amizade e o quanto ela pode ser impactada pela ganancia  e por todo o horror que as pessoas revelam em suas verdadeiras personalidades. 


O roteiro é trabalhado de forma muito perspicaz e evolutiva, trazendo ao expectador a questão: Continuarão amigos após encontrarem muito dinheiro e um homem morto? No início, ao buscar um novo colega de apartamento, é perceptível que Juliet, David e Alex não tem qualquer tipo de relação comum entre eles. É notado que são amigos excêntricos, aparentemente sem máscaras um para o outro e sem papas na língua. Eles são íntimos, com um senso de humor bizarro e liberdade de dizer o que pensa, sem melindres. Se por um lado, este traço de amizade demonstra que são ligados por uma química nada convencional, por outro lado abre espaço para questionar se eles são realmente quem  demonstrar ser. É evidente que há um aura de mistério e humor negro em suas personalidades, porque eles agem muito naturalmente em situações nas quais as pessoas agiriam de forma mais dramática; exemplo disto é quando encontram o homem morto e uma mala recheada de grana, é como se eles tivessem encontrado um gato morto e um carteira com trocados. 







Ter muito dinheiro sem o dono por perto é sedutor, portanto os três amigos dão um jeito de sumir com o corpo e esconder a grana, mas a cova é muito rasa , os problemas começam a ser desenterrados como gente perigosa que procura pelo dinheiro e a polícia no encalço. Nesta jornada de tensão, a narrativa torna-se mais psicológica com uma triangulação dramática nos personagens amigos, comprovada em cenas mais claustrofóbicas  nas quais eles estão restritos ao apartamento, onde tudo pode acontecer e a qualquer momento. Na cenografia, o sótão assume o lugar de uma mente perigosa, que planeja, observa, esconde, enlouquece. São os traços de loucura , personalidades dúbias e comportamentos homicidas que cooperam para um filme mais intrigante, com uma ótima atmosfera de suspense, muito bem orquestrada com uma edição  que conserva um ritmo perturbador nas quais as horas não são percebidas. As externas também são muito boas ao selecionar lugares como um matagal e clima noturno com buracos cavados e dilaceração de corpos ou, em clima diurno, com investigação de policiais e a paranoia e o medo da descoberta dos assassinatos. A violência é  gráfica e em linha com a atmosfera e estética da década e, para valorizar o aspecto voyeurista do suspense, Boyle tem um estilo muito interessante de enquadrar algumas cenas, a partir de ângulos como câmera alta ao Juliet ser observada  por David a partir do sótão e close ups em cadaveres, partes do corpo e objetos, o que só aumenta o efeito moderno da linguagem cinematográfica no  gênero  suspense, além disto, Boyle  também recorre ao estilo próprio de iniciar o filme com planos que fazem parte do meio ou fim do longa.








Os três amigos é um elenco muito bem selecionado, com ótima atuação e uma química convincente a ponto de fazer pensar que eles poderiam até formar um trio de amantes. Kerry Fox tem um estilo muito peculiar, de mulher misteriosa, sedutora e bem humorada que pode endoidecer de uma hora para outra e mostrar as garras. Christopher Eccleston é o mais convencional da turma e tem reações de introspecção, timidez e medo, mas normalmente pessoas com estes comportamentos podem ser muito perigosas. Alex é o mais extrovertido e divertido e, portanto, o que aparenta ser o mais influente e esperto. No geral, há espaços na narrativa que demonstram que a amizade pode evoluir para um romance entre eles, seja genuíno por atração física e intelectual, seja forçado por motivações interesseiras e relacionadas ao dinheiro e à sobrevivência. Essa dualidade de intenções entorna o caldo de Cova Rasa pois a amizade vai sendo colocada à prova, a ganancia se eleva, o medo pertuba. Além do mais, a atuação natural e, ao mesmo tempo, tensa e tragicômica do trio está relacionada à forma mais independente de dirigir os atores neste filme. Eles não fizeram elaborados laboratórios e extensos ensaios, pelo contrário, Kerry Fox, por exemplo, chegou a receber textos pouco antes de filmar, o que torna a interpretação dela uma expressão de memorável talento. Em uma das cenas mais emblemáticas de Cova Rasa, ela surta entre risos e lágrimas.







Cova Rasa é um suspense imperdível, tanto do ponto de vista técnico como também de uma história na qual a amizade é impactada por dinheiro e os valores mudam de pessoa para pessoa. O filme traz à tona o quanto o homem mostra sua verdadeira face, ou a oculta, motivado pela ganância. Ele também demonstra o quanto os amigos perdem o valor ou nunca tiveram para certas pessoas.



Título original: Shallow Grave
Ano/ país: 1994 (Uk)
Gênero: Suspense, Thriller, Crime
Diretor: Danny Boyle
Roteiro: John Hodge
Elenco: Ewan McGregor, Kerry Fox, Christopher Eccleston






domingo, 23 de setembro de 2012

Rapidinhas no MaDame: Os Mercenários 2 (2012)


Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia




Sobre a história:  A velha  guarda dos filmes de ação como Sylvester Stallone, Dolph Lundgren, Arnold Schwarzenegger, entre outros, estão de volta com o novo filme da fraquia Mercenários. Em mais uma missão bombástica dada por Mr. Church (Bruce Willis), eles partem em busca do mapa de uma mina de plutônio, porém o perdem para o terrível Vilain (Jean Claude Van Damme). Um dos homens do líder Barney Boss (Stallone) é assassinado brutalmente e eles juram vingança, além de ter que recuperar uma arma química perigosa da mão de um ambicioso vilão.


Opinião Geral sobre o filme:  Mercenários é o tipo de filme descontraído para curtir as cenas de luta e dar risada com as piadinhas dos velhacos dos filmes de ação. O longa continua em boa forma, embora a reação ao primeiro filme seja mais impactante em virtude da ideia gerada pela franquia: Juntá-los em um filme só foi bem original. Vê-los na tela faz com que a flexibilidade tome conta do expectador, que não exige tanto um excepcional roteiro e só deseja comemorar a presença unificada de tantos nomes dos action movies em uma película só. Nestas horas, o imperativo é esquecer que a história não precisa ser bem elaborada e, muito menos, complexa. Basta deixar os mercenários bravos o suficiente para que eles façam justiça com os próprios tiroteios e porradas. A narrativa se preocupa em misturar algumas emoções,  como  um amigo que falece à serviço dos Mercenários, e outros momentos mais racionais como matar os caras do mal a sangue frio e sem piedade. Assistir a Mercenários 2 é a prova de mais um prazer nostálgico para pessoas que apreciam os filmes de ação e  para quem acompanhou a cinematografia de emblemáticos atores como Chuck Norris, Sylvester Stallone, Bruce Willis etc.  Não há como não colocar um sorriso nos lábios ao ver Chuck Norris aparecendo como um solitário e ajudar os demais colegas, e Bruce Willis deixando de dar ordens como Mr. Church e se juntando ao grupo  para  metralhar os inimigos. Não há como não rir das bolsas embaixo dos olhos de Van Damme, cobertos por óculos escuros, e a cara decadente de Lundgren rocando como um porco  após uma bebedeira. O filme é uma grande piada que traz esses grandes nomes de volta a mis en scene de ação Hollywoodiana, mas também tem o bom humor escrachado de que eles são como lobos solitários, à margem da sociedade  como em um blockbuster de grandeza B, o que é uma grande ironia para o Cinema. A época de ouro já passou, mas eles continuam adoráveis e despertam saudades e gratidão por tudo o que eles significaram. Os músculos tatuados continuam malhados, as rugas já mostram rostos mais deformados, momentos decadentes com solidão  e bebidas, sem mulheres e sem vida social e com piadinhas sobre eles mesmos. Essa é a energia boa que torna o filme um passatempo recomendado.

O prazer: A aparição de Chuck Norris é hilária. Parece que ele voltou de outro mundo já que dá a impressão de que havia morrido há muitos anos.

O desprazer: A primeira perseguição e explosões iniciais do filme  são narrativamente mais irregulares, pois não tem tanta relação com o resto do roteiro em termos mais pragmáticos. Acaba funcionando mais como uma ilustração do poder de fogo de Os Mercenários e suas missões secretas. O filme só começa a ficar bom e coerente quando há um motivo para a vingança  e a justiça, e um vilão entra em cena enfurecendo o líder e herói Barney.


Por que vale a rapidinha?  Saudosismo dos filmes de ação com esses atores. É muita testosterona em um filme só e  há um clima de camaradagem entre eles, ou seja, cada um contribui sem haver egos exaltados. 




Rendimento: 
Ficha técnica no Imdb

domingo, 16 de setembro de 2012

Revisitando SHAME: O vazio da solidão e do sexo, a vergonha de todos nós




"Não acha isso triste?" (Carey Mulligan)

( aviso: somente para quem assistiu ao filme)




Já se sentiu sozinho(a) a ponto de querer que essa dor fosse curada somente pelo sexo desenfreado, sem qualquer compromisso, ainda que o coração queira carinho, amor e companheirismo? Ainda que a pele clame pelo toque prazeroso,  pode-se dizer que, na solidão das grandes cidades cheias de solitários, o sexo é como um remédio  que te faz bem nos primeiros momentos e, depois, causa terríveis efeitos colaterais. É claro que há pessoas que reagem melhor à essa liberdade ou, em algumas situações, a esse vício que lhes é tão característico; porém  convém dizer que nossa modernidade está impregnada de almas vazias e complicadas em estabelecer vínculos como vemos em Brandon (Michael Fassbender), do excelente Shame, dirigido por Steve McQueen. Não necessariamente é culpa delas porque a vida contemporânea, cada vez mais individualista, solitária, capitalista etc reforça que você pode estar morrendo por dentro, contato que o seu exterior evoque uma imagem de beleza  e sucesso, uma vida de hedonismo e de pseudofelicidade. Vivemos de pequenas grandes mentiras. O sexo vazio com  jeito de apoteótico é uma delas. Acredite: Não encontraremos nosso encaixe perfeito buscando o prazer sexual e descompromissado. A gente sabe disso, mas a solidão nos impulsiona a simplesmente buscar no outro a intimidade que tanto desejamos.




A decisão de revisitar Shame, realizando um recorte ligeiro sobre o vazio da solidão e  do sexo na película, é que  o gozo final que o personagem vivencia é a evidência de um orgasmo da vergonha, um completo vazio existencial de como  as relações são raramente afetivas e, na busca pelo prazer intenso, goza-se por gozar quando o desejo é chorar pela nossa própria vergonha de salvar-se do vazio com um outro estilo de vida igualmente vazio que não nos levará a uma relação completa, de amor, desejo e prazer, com uma pessoa querida. Nessa cena, fica claro como é doloroso viciar-se em encontros sexuais rápidos e, como a dor que isso traz, afastar-se mais ainda de como lidar com um relacionamento de verdade. Em algum momento, talvez você já tenha tido um gozo desse tipo. Goza-se e é bom, sem hipocrisias, mas qual o preço a pagar por isso?  Certamente é alto, a ponto de nos colocar em mais um estágio avançado do vazio da solidão e do sexo. Basta lembrar que Brandon, após transar loucamente com uma desconhecida, exibindo-se na janela de um prédio enquanto a penetrava por trás, fica sozinho até o anoitecer contemplando a vista através da mesma janela. Ela, uma Brandon de saias, não quis que ele nem a ajudasse a arrumar a alça do sutiã. É assim que funciona mesmo: Após sair da cama, mal olhar para a cara do(a) parceiro(a) e vestir-se rapidamente como se estivesse saindo de um provador de loja, a sensação que fica após lembrar da cena é : Isso pode ser  apagado da minha vida, principalmente se o sexo não foi tão bom e a pessoa menos ainda; e assim vamos vivendo de trepada em trepada, quando o que o coração deseja é a continuidade de um relacionamento.





Transar é ótimo, porém transar casualmente ou, como um vício como visto em Shame, o atemporalíssimo filme do brilhante McQueen, é uma prova viva e cinematográfica de que o Cinema é a própria materialização de nossa vazia condição humana. É sabido que sexo  pelo sexo não é só uma doença para os viciados, ele é um analgésico que acalma a carne carente por amor e por relações mais profundas. Se você reparar os momentos que transou da forma mais louca, descompromissada e intensa, vai reparar que foram aqueles movidos por uma celebração da 'carne':homens,  mulheres, festas, bebidas, música, sensualidade, flertes diversos, ou  no outro extremo, momentos que você estava sozinho(a) sentindo-se a última das criaturas, então decidiu vestir a máscara da sedução e extravasar a dor de sua existência, buscando o prazer no corpo do outro, sem ao menos saber de onde ele veio. No geral, um ponto interessante do filme é que Brandon é um viciado em sexo e, embora se esforce para um encontro mais afetivo com uma potencial mulher que pode se tornar uma namorada, ele está preso à situação de sexo a qualquer custo. Ele sabe que precisa de afeto, só não sabe como vencer essa barreira. Em uma Nova York de solitários que vivem na cidade que não dorme,  dormir pra que? Transar a qualquer hora é o limite. Nos minutos finais de Shame, em desespero, Brandon  não se coloca limites. Flerta com a namorada alheia, entra em um inferninho gay e se aventura em uma transa homossexual, participa de um ménage a trois, enfim, a dor é tremenda, é preciso uma overdose de sexo para esquecer uma vida mal amada.




O aspecto positivo de Shame, além de sua contemporaneidade, é que ele resgata que cada escolha por uma trepada só demonstra que o sexo casual e viciante faz lembrar o quão frágeis somos em nossa pobre existência e como buscamos mais um remedinho para curar nossas dores. O sexo não cura mas alivia a dor. Fazendo um breve paralelo:  O sexo é analgesia, a dor de cabeça vai passar, e depois, você descobre que tem uma enxaqueca e a cabeça começa a doer de novo pois aquele analgésico não vai te curar. Aquele momento de sexo selvagem é só carne, não precisamos pensar se a pessoa nos ama ou não, essa é a triste verdade. Amor pra que, mesmo que o desejamos ? Afinal, aquele (a) desconhecido(a) dificilmente entrará em nossas vidas e será apresentado para a nossa família. Se isso acontecer, você é um homem ou uma mulher de sorte, mas em boa parte dos casos, você nunca mais volta a encontrar a pessoa. Nesse contexto, o sexo faz um certo bem e um certo mal. Ele é muito mais um entretenimento com desfecho infeliz. Ele penetra as vísceras mais profundas e as ideias mais sacanas que temos, vem como uma diversão e passatempo, mas a grande ironia é que o sexo pelo sexo não preenche o afetivo que precisamos. Não ter esse afeto é um tipo de vergonha que tentamos esconder, leva-lo conosco é um fardo muito pesado.


Resenha de Shame, clique aqui.