sexta-feira, 24 de junho de 2016

Certo agora, errado antes (Right now, wrong then, 2015), de Hong Sang-Soo

 
 


Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



O Cinema do coreano Hong Sang-Soo é uma rica experiência sobre o próprio ato de realizar Cinema, de ser um exímio contador de histórias sobre as relações humanas e como diferentes decisões nos levam a distintos caminhos na ficção e na realidade. Assim é o que acontece nos relacionamentos e também na realização artística, criativa, humanizada enfocados pelo  diretor de extensa filmografia indie como "O dia em que ele chegar",  "Montanha da liberdade", "A visitante Francesa". Em algum momento, seja na escrita de um roteiro, na montagem de uma sequência, seja na forma como ocorre uma conversa descontraída entre amigos e o flerte com um pretendente, estas situações culminam em erros, acertos, aprendizados e reflexões. Faz parte da nossa humanidade e das dificuldades inerentes a se ajustar em diferentes cenários e relações.
 
 
Com esta inteligente escolha de emular as relações humanas através metalinguística e universal arte do Cinema, podemos dizer que "Certo agora, errado antes", último longa de Hong Sang-Soo, vencedor do Leopardo de Ouro, prêmio ecumênico do Júri e melhor ator (Jae-Yeong Jeong,) no Festival Locarno de 2015, sustenta mais uma vez o estilo do diretor e perenidade de seu Cinema independente ao ser fiel às suas escolhas de roteiro e direção.





A história aborda outro personagem cineasta, Ham Chunsu (Jeong), que chega à cidade de Suwon para um debate sobre seu filme e encontra a jovem  artista plástica Yoon Hee - Jeong (Min-hee Kim). Começam a conversar, beber e dar uma volta pela cidade. Como em "O dia em que ele chegar", Sang-Soo focaliza um personagem que está de passagem em uma cidade, desta forma, marcando um tempo transitório no qual qualquer coisa pode acontecer. Muito seguro e leal à sua marca autoral, o diretor desenvolve uma narrativa com diálogos intimistas que expõem a complexidade das relações humanas, com suas palavras ditas e não ditas, verbalizadas equivocadamente ou não, com diálogos seguidos de longos silêncios e introspectivos gestos.


 
 
 
As duas pontas da contradição humana em relacionamentos são notáveis neste filme. Chunsu e Hee-Jeong conversam naturalmente como se fossem antigos conhecidos ou amigos. A forma como se deslocam em cena, do primeiro ponto de encontro a um bar e depois à casa da garota é consideravelmente rápida no tempo e no espaço. Às conversas mais íntimas  e risos, opõem-se os comportamentos tímidos, de um tênue e tão natural deslocamento no ambiente, semelhante a quando não conhecemos tão bem a alguém e, mesmo diante disso, nos sentimos atraídos a vivenciar os momentos.


Como decisão recorrente em certos filmes de sua carreira, Sang-soo divide sua narrativa em duas partes, repetindo as mesmas situações que levam os personagens a vivências diferentes. Este recorte é bem interessante como experiência reflexiva sobre o filme e as relações humanas. Em diversas vezes durante a projeção, é natural se perguntar: quantas vezes determinado episódio da vida me levou a um caminho x e não ao Y? Ou, o que aconteceria se eu tivesse seguido este caminho e não aquele outro? Finalmente, esta escolha na construção da narrativa dialoga com o ato de criação no Cinema, o que se converte em uma bela e autêntica forma de fazer filmes.



 

Fazendo um paralelo com a realização audiovisual, o exercício é o mesmo. São escolhas, são memórias e experiências, são atos de tomar decisões e criar histórias que são catalisados para construir um filme. Nisso está a lúcida forma de Sang-Soo fazer Cinema. Com dramas relativamente simples e cheios de lacunas para deixar os pensamentos livres, o diretor  não tem  pretensões de dar as respostas pasteurizadas ao público. Em "Certo agora, errado antes", suas fórmulas  para a direção continuam as mesmas mas o resultado final abre inúmeras interpretações para as audiências. Tanto que, cada espectador poderá chegar a outras observações e percepções sobre os diálogos entre um homem e uma mulher, por exemplo, muitas das quais não necessariamente estão dentro do filme e foram expostos por Chunsu e Hee-Jeong . É um filme pequeno de significados gigantes e universais como tudo que é bom no Cinema independente Coreano.
 

 
Ficha técnica do filme Imdb Certo agora, errado antes
Distribuição no Brasil: Zeta filmes
Data de estreia :  19 de maio de 2016

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Top 5 : Filmes do Festival Varilux de Cinema Francês 2016

Especial Festival  Varilux de Cinema Francês 2016

por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière






Este ano o Festival Varilux de Cinema Francês chegou à reta final provando que disponibilizou uma excelente gama de filmes inéditos. Com uma equilibrada agenda em diferentes localidades geográficas que movimentaram o circuito de exibição, o Festival ofereceu uma prévia de imperdíveis lançamentos que estão sendo distribuídos nos cinemas Brasileiros a partir deste mês.

O MaDame Lumière afirma com todas as letras: Não faltaram emoções em filmes que combinaram o dramático e o cômico com as fraquezas, as vivências e as paixões humanas. Não faltaram emoções em dramas comoventes que foram realizados com sólida pesquisa histórica e escritos de memórias. Não faltaram emoções em  comédias ligeiras com o gustativo toque de humor negro. Essa variedade de histórias propiciou ao público assistir a bons filmes com o privilégio de conhecer melhor jovens atores e realizadores e outros já experientes e estabelecidos na cinematografia Francesa,com destaque para as atrizes Lou de Lâage, Emmanuelle  Bercot e Catherine Frot, os atores  Omar Sy e James Thierrée e os cineastas Anne Fontaine, Christian Carion e Xavier Gannoli.

Desta vez, intencionalmente ou não, os organizadores do Festival atenderam  um importante pedido na programação:  uma edição com mais dramas, especialmente significativos e reconhecidos em premiações internacionais como Cannes, César e Veneza. Estes dramas não passaram desapercebidos e realmente se destacaram na programação e na avaliação do MaDame Lumière.

Com muito prazer, finalizo este especial Festival Varilux com o top 5  filmes da edição , baseado apenas nos filmes inéditos , com exceção da animação. É uma seleção que tentou perseguir, prioritariamente, as virtudes  da história,  da intenção do diretor, da pesquisa e seus resultados na produção, da atuação do elenco e da execução geral do longa.

Espero que vocês gostem da seleção destes filmes e, quem não pôde assisti-los, agende-se para uma memorável experiência cinéfila com estas belas histórias. Histórias que evocam nossa frágil (e universal) humanidade com todo o charme Francês.


Um abraço e obrigada por visitar o blog!

Cristiane Costa - MaDame Lumière








Chocolate (Chocolat)
Dir: Roschdy Zem 



Rafael Padilha, o "Chocolate",  primeiro artista circense negro na França ganhou vida com o carisma de Omar Sy. Neste palco construído no Cinema, o palhaço é homenageado por trazer o riso sem ocultar o seu drama pessoal, da ascensão à queda.





Viva a França (En mai, fais ce qu'il te plaît)
Dir: Christian Carion



A história da França é a história de inúmeras famílias que abandonaram seus lares para fugir da guerra e do cruel avanço do Nazismo. "Viva a França" é um belo retrato de memórias que ajudaram a construir o futuro de um povo, com esperança.





Marguerite (Marguerite)
Dir: Xavier Giannoli




A história de Marguerite, uma mulher apaixonada por óperas e entusiasta cantora clássica, que tinha muitas riquezas mas não tinha uma voz afinada. Sua intensa jornada como cantora é um grande espetáculo que mescla sua autenticidade e solidão com as mentiras e compaixão dos outros.







2º Meu Rei (Mon Roi)
Dir: Maïwenn


Amar é uma volta ao céu e ao inferno, assim é este relacionamento conturbado, realista, profundo e de altos e baixos em "Meu Rei". Um filme denso sobre um casamento em carne viva, que abre e fecha feridas, marca as cicatrizes, se faz presente por anos com dores emocionais impactantes.




1º Agnus Dei (Les innocentes)
Dir: Anne Fontaine


Um filme dirigido por uma mulher que compreende a alma feminina, com mulheres e sobre mulheres em um violento cenário de guerra. Agnus Dei tem o primor de uma direção que valoriza o solene, a vida, a compaixão e a gratidão, o resultado é uma belíssima jornada que converte a dor e a violência em  sobrevivência e segunda chance.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Viva a França ( En mai, fais ce qu'il te plaît, 2015), de Christian Carion


por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière






Quarto filme de Christian Carion (De "Joyeux Nöel"), "Viva  a França" é um drama sobre a guerra  e seus impactos nas vidas de pessoas que deixaram seus vilarejos e fugiram do Nazismo. Para o encantamento dos olhos do público e a inevitável sensibilidade provocada quando um povo tem que abandonar o próprio lar, sua primordial beleza cinematográfica se constrói  nas paisagens bucólicas e neste êxodo de gente simples, do interior, a se perder de suas raízes, de sua família e amigos, sob o risco de serem mortos e ver seus entes queridos mortos a qualquer momento.



                               

August Diehl: um dos melhores atores alemães em atividade



Na história falada em três idiomas, inglês, francês e alemão, o povo de um vilarejo no Norte da França parte em êxodo devido ao avanço da invasão germânica nos anos 40. Liderados pelo prefeito Paul (Olivier Gourmet) e Mado (Mathilde Seigner), estes habitantes não têm armas e nem homens experientes em batalhas, pelo contrário, são a expressão de um povo que foge para sobreviver e que está destinado a encontrar a paz ou a morte. Paralelamente, a história adiciona um elemento familiar e emocionalmente mais forte,  a busca de um pai por seu filho. Hans (o experiente ator alemão August Diehl, de Bastardos Inglórios), após ser preso em Arras,  se perde de seu filho Max  (Joshio Marlon). Max acompanha o grupo de imigrantes Franceses e encontra na doce Suzanne (Alice Isaaz), um coração materno, conforto e segurança na fuga. Hans tenta a todo custo encontrá-lo com a ajuda de um soldado escocês, Percy (Matthew Rys).



Christian Carion: um filho do Norte da França que fala sobre as memórias de sua família


Entrecortada por belas cenas interioranas com fotografia de Pierre Cottereau e a suave e tocante trilha sonora composta pelo Maestro Enio Morricone, "Viva a França" é um filme sobre guerra mas não usa os mesmos artifícios do lugar comum encontrados em filmes sobre as guerras mundiais. É nítido perceber que, por trás do drama histórico, o diferencial são as distintas histórias que formam esta França sob o ataque da Alemanha. É a história sobre o desencontro e reencontro entre pais e filhos, a história sobre o pequeno agricultor ou comerciante que deixa o seu campo e negócios, é a história dos amantes que não podem desfrutar o amor pleno, é a história do soldado que não voltará a seu país, é a história de outras histórias que surgem no pós guerras. 





E, aos poucos, a tranquilidade das cenas no campo se harmoniza com os caos pessoais de uma guerra e com a contínua sensação de que os soldados alemães encontrarão estes franceses e seus aliados e as baixas virão com sangue e dor, formando esta dicotomia tensa e dramática que é delicadamente intercalada com a belíssima trilha sonora de Morricone e atuações minimalistas e realistas, com destaque para a madura e focada interpretação de August Diehl. 




De uma maneira muito interessante, a direção de Christian Carion, entusiasta em filmar dramas sobre as guerras como o fez em "Joyeux Nöel", deixa claro que este é um filme sobre memórias pessoais e não sobre soldados em trincheiras, cadáveres expostos e inimigos em estratégias de ataque. Tal escolha acrescenta um valor especial ao longa. O realizador Francês se inspirou nas memórias de sua mãe para iniciar este projeto. Sendo filho de fazendeiros do Norte da França, o cineasta teve bastante naturalidade e sensibilidade para não exagerar na direção. Seu filme tem a simplicidade que conquista pela discrição. É sobre a história de sua família, uma homenagem à França  e oito milhões de pessoas que tiveram que deixar seus lares.



Alice Isaaz: se bem dirigida e em bons papéis, tem beleza e talento para fazer sucesso no cinema Francês


Embora o roteiro seja irregular no desenvolvimento dos personagens, passivo na elaboração de melhores conflitos e não teve a pretensão de desenvolver as subcamadas da guerra ligeiramente indicadas em cena, como por exemplo, a propaganda política e  a rebeldia contra o regime Nazista (e havia espaço para isso), o longa cativa especificamente pela humanidade de uma personagem, a da revelação Alice Isaaz. A jovem atriz trabalhou recentemente com Vincent Cassell e  François Cluzet na comédia romântica "Doce Veneno"  (Un moment d'engarement) e aqui demonstra potencial  para dramas. 


Suas cenas exploram este lado dócil e empático que nem a guerra consegue vencer. Ela é como a mãe de Max, a menina forte e corajosa que tem que amadurecer  e tomar decisões durante a fuga, que está atenta aos sentimentos e a segurança dos outros, que se dedica às crianças de forma a protegê-las da crueldade da guerra. As tomadas com Isaaz e Marlon mostram que nem tudo está perdido, que há esperança na juventude que precisa mudar o mundo após uma guerra.

Para fechar a beleza desta discreta joia do cinema Francês, Carion realiza uma parceria fantástica com Morricone que acrescenta poesia à tela grande. Sem a música do Maestro, este filme não teria a mesma comoção, a mesma capacidade de dialogar com os dramas da guerra, com os sentimentos dos personagens. Em diversos momentos, a melodia dialoga perfeitamente bem com a função dramatúrgica de uma cena e com a fotografia expressa nos rostos do êxodo. Ao lado das escritas dos fugitivos espalhadas pelos caminhos da fuga, são nestas horas que as Letras e a Música também tornam suportáveis imaginar a dor dos que abandonam seus lares , que mantêm a esperança sem um destino certo, que somente desejam permanecer com quem amam.




Ficha técnica do filme Imdb  Viva a França
Distribuição: Fênix Distribuidora de filmes
Data de estreia no Brasil: sob definição (atualizaremos em breve)
Fotos: uma cortesia Fênix 

Marguerite (2015), de Xavier Giannoli


por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière





"Eu sentia que aquela voz imperfeita tinha algo a me dizer, um segredo."
(Xavier Giannoli, diretor)



O Cinema é uma Arte de reinvenção e, como toda inventividade que abriga várias histórias inspiradas em biografias reais, o Cinema nos ajuda a compreender as dimensões emocionais dos personagens que souberam se reinventar apesar de seus seus defeitos, excentricidades e falhas.


O cineasta Xavier Giannoli (de "No princípio") encontrou uma humanizada inspiração para seu novo longa "Marguerite": a desafinada aspirante à cantora de ópera Florence Foster Jenkins que viveu nos USA nos anos 40. Vencedor do prêmio Nazareno Taddei no Festival de Veneza 2015 e de 4 Césares em 2016 (Melhor atriz - Catherine Frot, melhor figurino, design de produção e som), o longa é ambientado na Paris dos anos 20  e é uma fabulosa comédia dramática, digna de ter compaixão de Marguerite, sua terrível voz e falta de autocrítica.

Interpretada magnificamente por Catherine Frot, que dá à personagem uma personalidade acessível, refinada e carismática, Marguerite é casada com Georges (André Marcon) que se sente bastante constrangido pelo péssimo canto da esposa. Ambos os atores personificam muito bem este ambiente classudo de ilusões que cercava Marguerite.


Todos sabiam que ela era um fracasso e não conseguia identificar em si quão mal cantava, ainda , como uma forma de proteção e amor, Georges e o leal mordono Madelbos (Denis Mpunga) fazem de tudo para não contar a verdade a ela e esta é uma das dimensões mais dramáticas e compassivas da história. Marguerite tem a alma de artista mesmo que lhe falte uma boa voz, ela é adorável, por que frustá-la? Todos vivem a mentira que faz parte da sociedade do espetáculo.


                              


Ela era uma mulher rica e apaixonada pela música clássica, que tinha muito dinheiro para arcar com seus refinados gostos para demonstrar a Arte da ópera e, também, tempo e empregados para isso, entretanto, lhe faltava o dom e a habilidade técnica do canto, lhe faltava a voz. Ela cantava muito mal a ponto de ser motivo de riso e zombaria. A sociedade elitizada e hipócrita, bem evidenciada na história, tenta enganá-la agindo como se ela fosse talentosa  e com potencial para apresentação em palcos. O cinismo social é o lado amargo em cena, o que faz o contraponto com a doçura de Marguerite.


Estes comportamentos da sociedade, que funcionam como uma crítica, entre eles o do engraçado (e mal humorado) professor de música e fracassado cantor de ópera,  Atos Pezzini (Michel Fau) e do contraditório e interessseiro jornalista Lucien Beaumont( Sylvain Dieuaide) são uma mostra de que as pessoas suportavam os sonhos de Marguerite e também sabiam fazer parte do espetáculo da mentira, dos interesses financeiros. Como bem dito por Giannoli, "A mentira é um espetáculo que precisa de várias pessoas. E trata-se de uma situação muito cinematográfica porque ela embarca o espectador na sua lógica, no seu delírio" 


De alguma forma, ela sabia conquistar a todos, seja pelo dinheiro , seja por virtudes como a bondade e a confiança.  Mesmo não cantando bem, Marguerite sabia reconhecer quem cantava e investir até mesmo em uma jovem cantora sem posses como Hazel (Christa Théret) e iniciativas humanitárias de apoio às vítimas de guerras. Marguerite é encantadora, um personagem bem desenvolvido e interpretado que eleva consideravelmente a qualidade do longa.



"Marguerite vive uma paixão, em todos os sentidos da palavra: o aprendizado do sofrimento e a alegria de viver pela música. Ela canta desastradamente mal mas sentimos que ela expressa uma necessidade feroz de viver." (Giannoli)



Este longa é um bel prazer para quem ama Cinema de época, ama Paris dos anos 20, ama música clássica e teatro. Os prêmios do César dados aos aspectos artísticos da cena como figurino e design de produção são merecedores e embelezam a cena.  Giannoli teve um cuidado extraordinário com a direção de Arte na mise en scène e com o caráter teatral das personificações de óperas interpretadas  por Marguerite, com uma ênfase na relação da fotografia com a cenografia. 



Catherine Frot está uma diva fabulosa. O filme é dela, com ela e para ela. Ao mesmo tempo está humanizada, de carne, osso e coração, ao mesmo tempo marcada por uma aura de  atemporalidade que apenas as mulheres imortais do Cinema e da Ópera têm. Para quem não conhece a biografia de Florence Foster Jenkins, observar os delicados gestos, a ingenuidade, a solidão e a insanidade da atuação de Frot corroboram para que sua verdadeira história seja pesquisada e lida.




André Marcon:  excelente atuação no drama de um marido que ama e ilude a esposa


O filme é como um grande palco da sociedade Parisiense dos anos 20, seus teatros, glamour e excentricidades, mas também tem uma dinâmica bem cômico- dramática, mais restrita ao lar de Marguerite, sua relação com o marido e com os conhecidos, com os que quem tinham que suportar sua irregular voz. O público é colocado no grande palco criado por Marguerite, sua vida solitária e seu amor pelo marido que, nem sempre, sabia como valorizá-la. Seu amor por Georges é comovente. Sabe aquelas mulheres que querem ser muito amadas por seus maridos, que querem que eles a enxerguem? Marguerite é uma delas! Ela quer que o marido a enxergue.




Os momentos mais engraçados contam com o excelente Michel Fau.
 A mentira faz parte do espetáculo.



Esta imperdível "dramédia" é uma das melhores surpresas do Festival Varilux de Cinema Francês 2016 e um dos filmes que têm de tudo para cativar o público. É uma produção feita com tenacidade e perfeccionismo por Xavier Giannoli que não transforma a história em uma cinebiografia convencional. Nisto está uma de suas principais forças como Cinema pois o diretor ressalta " minha convicção é de que precisamos da ficção para tentar compreender e sentir a realidade do mundo e dos seres humanos. Eu não me contentaria com uma abordagem documental nem com um puro trabalho de ficção"


Diante disso, há um recorte claro no roteiro, alicerçado por uma escrita com excelente senso de humor, um pouco de biografia, de ficção,  de onirismo, de um mundo feminino muito próprio. O diretor pesquisou sobre divas sublimes em fotografias na biblioteca da Ópera de Paris e soube dar bastante humanidade à Marguerite, uma mulher que tudo tinha menos o canto lírico que tanto amava. Uma mulher que se apegou à música não apenas como uma paixão mas por que a ópera era sua companheira, sua amiga em todas as horas. 


A voz insuportavelmente ruim e a vulnerabilidade de Marguerite, expressas através de um auto-engano e algo mais próximo da negação são honestos com o espectador. É como rir da tragédia alheia, uma tragédia que funciona como um espelho e mimetiza tantas outras falhas que temos e não conseguimos enxergar. Ela criou o seu próprio mundo e ninguém tinha coragem de derrubá-lo. Ninguém tinha coragem de fazê-la infeliz porque, com seu jeito autêntico, ela também sabia trazer o sonho para a superficial e solitária vida de muitas socialites da época. Talvez Marguerite se deixou enganar por ingenuidade, talvez por uma cegueira disfaçarda, o bem da verdade é que Marguerite se deixou levar por sua paixão e não há mal nisso.  Podemos ter paixões e nenhum talento.



"O importante é ter uma visão pessoal, propor um ponto de vista sobre a verdade humana que se exprime num destino bastante original... e depois sentir-se livre para fazer cinema." (Giannoli)





Além do bom gosto artístico, cuidadosa direção,  esplêndida atuação de Frot e set de músicas como "Casta Diva" (Norma, de Bellini) e clássicos de Bach, Mozart, Purcell e Vivaldi, o mais apaixonante nesta imperdível produção é que Marguerite é  insana e apaixonada. Ela não tem consciência ou não está preocupada com o que os outros pensam. Há vivacidade  e paixão na sua obsessão, no melhor dos sentidos. Ela é obcecada, uma adorável e autêntica mulher.  Com isso, a compaixão dos outros ao conhecê-la é natural, afinal, em vários momentos da projeção, a pergunta mais óbvia e recorrente é: "Marguerite, será que você não enxerga como tem uma péssima voz e não merece ser ridicularizada em público? De repente, a resposta é mais óbvia ainda: Viva a sua paixão e sua loucura, Marguerite! Ouça a música e viva a Arte à sua maneira. Não nos esqueceremos de você."







Ficha técnica do filme Imdb Marguerite
Distribuição : Mares Filmes
Data de estreia no Brasil: 23 de Junho de 2016
Trechos da entrevista e fotos: uma cortesia Mares filmes




terça-feira, 21 de junho de 2016

Os Cowboys (Les Cowboys, 2015), de Thomas Bidegain


por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière




Na tradição dos filmes de faroeste ou influenciados por este gênero e por uma sociedade e cultura de cowboys, é natural encontrarmos uma tradição de valores familiares com pais rigorosos que jamais abririam mão de determinadas regras ou visão de mundo para os filhos. Estes comportamentos, estilo de vida e regionalização de costumes são reforçados pelo ambiente, pela vizinhança e pelos laços próximos que asseguram a criação dos filhos. Entretanto, as novas gerações são levadas a buscar suas identidades e suas próprias escolhas, no meio dos cowboys não seria diferente.




Com esta premissa das distintas escolhas entre pais e filhos e as diferenças entre gerações, Thomas Bidegain dirige seu primeiro longa - metragem, "Os cowboys", um drama que aborda a história de Allain Balland  (François Damiens), pai de Georges "The Kid" (Finnegan Oldfield) e Kelly (Iliana Zabeth) que, repentinamente, vê a sua filha desaparecida e inicia uma jornada de busca ao lado de "Kid". Bidegain é conhecido pelos roteiros de grandes filmes de Jacques Audiard  como "O profeta", "Ferrugem e Osso" e "Deephan : o refúgio". 


Nota-se claramente a influência desta parceria na execução do longa, na forma como o diretor expõe o drama bruto vivenciado por aqueles que fazem parte da sociedade islâmica ou com ela tomam contato. Por consequência, estas cenas refletem um mundo globalizado constantemente mergulhado na intolerância e desconfiança, no qual os europeus são diariamente testados e precisam amadurecer. Neste cenário, os personagens de Oldfield e Zabeth simbolizam a nova geração que nasceu de outra mais tradicional, colocando em confronto o velho cowboy (Damiens) e o novo cowboy (Oldfield).


"Não é uma história sobre pessoas que vão mas as que ficam" 
(Oldfield, durante debate pós sessão do filme no Caixa Belas Artes)



Em sua primeira direção, Bidegain escreve uma história que também enfocará diferentes microcosmos sociais como a França e o Paquistão, além de situações que envolvem tensões étnicas e sociais, com mortes, racismo e terrorismo. Entretanto, ainda que tenham certas referências visuais de Audiard, na maneira como é decupado, fotografado e editado, este não é um filme Audiardiano no qual os conflitos étnicos na Europa são intensos. Também não é um filme sobre terrorismo. Pelo contrário, "Os cowboys" é sobre pais e filhos, amadurecimento e escolhas e tem uma visão mais otimista que, à medida que "Kid" sai à procura da irmã, a história ajuda o público a notar que os tempos heróicos devem ser mais tolerantes, mais construtivos e baseados na aceitação do outro e de respeito por como as pessoas querem viver.

Evidentemente, este filme veio em boa hora mesmo com as preocupações iniciais dos realizadores tendo em vista de que foi lançado na França 1 semana depois dos últimos atentados em Paris. Felizmente teve boa aceitação.  Ele funciona como uma mensagem de que, apesar do mal estar francês com relação à xenofobia e terrorismo, ainda existe esperança de dias melhores e mais tolerantes.  O jovem francês não quer cometer os mesmos erros das gerações passadas, portanto, o filme abre a mente para novos heróis capazes de se colocar no lugar do não Francês, do não Europeu, ou seja, pensar o mundo de uma maneira mais global e harmoniosa.




Finnegan Oldfield ao lado de Philippe le Guay na coletiva de imprensa do Varilux:
 "Cowboys é um filme sobre diálogo entre diferentes gerações"


François Damiens, um ator por excelência bem participativo em comédias, aqui demonstra uma  boa atuação, um pai tradicional e apaixonado pela família, muitas vezes mal compreendido em sua agressividade, ainda assim, um pai obstinado, sem medo de ir até o fim do mundo para buscar Kelly e consideravelmente em conflito por causa da decisão da filha. Finnegan Oldfield, um dos jovens atores da França, promissor novos projetos no Cinema, executa muito bem seu papel e, com evidentes foco e concentração, considerando que, em determinado ponto do roteiro, ele tem mais autonomia em cena e assume totalmente o papel de cowboy a não desistir da família e honrá-la em sua jornada. Para Oldfield, trabalhar neste filme foi "uma aventura humana". Seu personagem está realmente aberto ao mundo, tem empatia para compreender  as pessoas de regiões diferentes, quebra fronteiras ao ir para outro país e se envolver com pessoas de outras nacionalidades e isso faz dele um novo herói.




Um plus das atuações: mostrar o cômico ator François Damiens em papel dramático


Como destaque, a composição de determinados planos é de uma beleza ímpar, principalmente as que mostram o estilo de viver dos cowboys como as festas, os cavalos e a paisagem bucólica, com destaque para o plano detalhe de uma dança regional, um dos mais bonitos. Por outro lado, nem tudo são flores em "Os Cowboys". Sendo a primeira direção de Bidegain, a fluidez narrativa e as transições entre acontecimentos foram diretamente afetadas pelo roteiro bastante apressado e simplista em passagens que deveriam ser melhor trabalhadas. Como exemplo, destaca-se à ida de "Kid" ao Paquistão e as dramáticas consequências de tal ato que não culpabilizam o jovem de forma realista, mas o fazem sair da situação com bastante facilidade. Se fosse uma não ficção, talvez isso não aconteceria a ele de forma tão breve. Na sequência, com um belo e aberto desfecho que deixa o público a pensar o porquê desta conclusão, ainda que o final seja um acerto, as ações que o antecedem são ligeiras e poderiam ter sido melhor desenvolvidas nos tempos cronológico e narrativo.



Quem são os nossos novos heróis? Fica a reflexão.


Salvo estas derrapagens técnicas, pode-se dizer que "Os Cowboys" é um bonito filme. Traz uma reflexão contemporânea, madura, útil: respeito às escolhas individuais, respeito ao estilo de viver que cada um tem, respeito à identidade. Também, a história eleva sua força dramatúrgica ao evidenciar que não sofrem apenas os que partem mas sofrem os familiares e amigos que ficam, aguardam notícias e têm esperança de que os seus entes queridos voltem para casa. 



Ficha técnica do filme Imdb Os cowboys
Fotos e frases: debate  e coletiva com 
ator Finnegan Oldfield . Por MaDame Lumière

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Um belo verão (La belle saison, 2015), de Catherine Corsini


por Cristiane Costa,  crítica de Cinema MaDame Lumière


"Eu tinha um desejo profundo de homenagem as feministas, que foram frequentemente menosprezadas(...) Compreendi que o feminismo colocava o humano no centro. E isso foi o grande princípio propulsor da escrita do filme." (Catherine Corsini, diretora)



Anos 70, mulheres  feministas em luta por direitos iguais e melhores condições de vida, saúde, trabalho e protagonismo, duas jovens se conhecem e uma história de amor começa em "Um belo verão" (La belle saison/ Summertine), filme de Catherine Corsini que, ao lado de sua companheira, a produtora Elisabeth Perez, realizam um filme com mulheres, sobre mulheres  e uma história de amor entre duas mulheres, como idealizado pela cineasta.





Izïa Higelin, a atriz revelação ganhadora do César em 2013 por "Mauvaise Fille", é Delphine, uma jovem criada no campo e única filha de um casal de pequenos fazendeiros. Cansada desta vida árdua e bucólica, ela vai à Paris e conhece um grupo de jovens feministas, entre elas, Carole (Cécile de France, de "O garoto da bicicleta" e "Enigma chinês"). Além de suas afinidades políticas e atitudes libertárias, elas se apaixonam e vivenciam este amor. Mas, por um motivo de força maior, Delphine terá que reencontrar a mãe (Noémie Lvovsky) e seu pai (Jéan-Henri Compère).


"Um belo verão" é um junção de drama histórico com conflitos intimistas e uma verdadeira história de amor. Carole e Delphine são mulheres jovens e de forte personalidade em uma relação homossexual. Ele não representa apenas os desejos de filmagem da diretora, lésbica assumida, mas também a liberdade de amar tão efervescente na década de 70, principalmente entre as feministas lésbicas. Carole, Parisiense, casada, professora de Espanhol, tem um comportamento mais feminino, rebelde, engajado, passional. Delphine é a moça do campo, mais bruta no físico e no trato com os outros, dedicado ao trabalho pesado e corajosa no amor, mas  também bastante leal aos seus valores familiares,  respeito e afeto pelos pais e com uma racionalidade mais centrada nos negócios da família. 





"Quanto a escolha de Cécile de France, eu escrevi o papel de Carole para ela, eu a via interpretando essa personagem. Foi uma evidência. Eu gosto de sua franqueza, de sua valentia, de sua atitude." (Corsini)



Estes dois mundos se atraem e também entram em choque. Na vibrante Paris de jovens libertárias, influenciadas por Maio de 68 e por um mundo mais justo para as mulheres, o filme corta para cenas de tranquilas paisagens do interior, iluminadas pelo calor do sol e o suor do trabalho; em lado oposto à Paris, os valores dos campos são mais tradicionais e o ambiente é mais masculino, rígido, intimidador. Ainda assim, não haverá limitações para este amor em cena, os corpos nus e almas apaixonadas de Carole e Delphine se entregam às emoções. Continuamente, a diretora revelará as cenas de sexo, inclusive bem fotografadas tomadas no campo que enfatizam o frescor e a intensidade deste amor.

A diretora Catherine Corsini realiza um filme minimalista em cena mas grandioso em significados. Todas as intenções feministas estão nele, ora mais discretas ora mais vibrantes. Primeiramente,  ela acerta na escalação das protagonistas. Cécile de France encarna uma musa jovem, desinibida e com vibrante força para tomar atitudes intempestivas e de bom coração. Apesar das contradições de ser uma mulher casada e disposta a levar seu relacionamento com Delphine, Carole é uma jovem que deseja ser fiel aos seus sentimentos e missões no Feminismo. Discutirá o aborto, comandará discursos universitários com outras colegas e não terá medo de viver um período no campo por amor à Delphine.






Por outro lado, a atriz Izïa Higelin é um promissor talento no Cinema Francês.  Seu exotismo e juventude dão um novo rosto a ele. Após vencer o César e aparecer em "Samba", ao lado de Omar Sy e Tahar Rahim, ela incorpora bem este personagem que nasceu no campo. Ela não é delicada e elegante como outras atrizes da França, entretanto, tem um comprometimento e um foco na atuação que lhe conferem bastante segurança, naturalidade, labor. 



Seu personagem ajuda muito neste processo porque é uma jovem entregue ao amor e à responsabilidade com a família, mas também em crise , dividida pela situação que cerca dos pais, assumidamente insegura em muitos momentos quando se confronta com a tradição do campo amplamente liderado por homens. Desta forma, ainda que não haja grandes reviravoltas e ações neste roteiro, o diferencial da historia é este amor intenso muito bem protagonizado pelas atrizes e que, em determinados momentos, entrará em choque com as escolhas e o contexto da vida familiar de Delphine.

"Um belo verão" apresenta variadas cenas relevantes para moldar o filme com a proposta do feminismo, do lesbianismo e da luta pelas mulheres no Movimento de Liberação das Mulheres . Percebe-se que não é um trabalho amador e frágil ainda que o filme seja bastante linear e discreto na exposição dos conflitos; além do fato de Corsini ser lésbica e compreender muito bem as lutas de emancipação da mulher, em especial, a homossexual, que ainda tem que lidar com preconceitos e censuras, ela realiza um trabalho que prezou pela pesquisa histórica e por uma excelente combinação da direção de arte, figurino, fotografia e trilha sonora de Grègoire Hetzel (compositor de "Incêndios" de Villeneuve).  Em sua pesquisa, ela entrevistou feministas como Catherine Deudon, Anne Zelensky e Cathy Bernheim.




" A questão de relacionar o íntimo ao histórico encontrava-se no centro de nossos debates durante a escrita do roteiro. Como podemos nos engajar politicamente, ser corajosas com relação aos outros e, no entanto, ter dificuldade para defender as nossas próprias “causas” no âmbito da nossa vida privada? Essa oposição tocou-me profundamente e trouxe a ficção, a dramaturgia para a trama." (Corsini)




O longa tem a naturalidade deste amor livre e do engajamento pelo feminismo, porém não se força a ser grandiosamente politizado, o que acaba sendo um acerto. Ele não enfoca uma mise en scène extremamente de época e nem apela para criar cenas de muito embate político, então acaba por ter sua identidade própria, lembrando as nuances visuais de filmes de época como "Depois de maio" (Olivier Assayas) e a   influência da pintura na cinematografia como "Renoir" (Gilles Bourdos). 


A escolha em mostrar cidade e campo contribui para suavizá-lo e torna a reconstituição de época mais consciente e equilibrada com desenvolvimento da narrativa.  Em diferentes planos, a diretora conduz as cenas com elementos mais brandos da época para marcar sua proposta, em especial nas tomadas que enfocam discursos e ações feministas como as em um anfiteatro da Sorbonne e durante a  invasão a um hospital psiquiátrico. Desta forma, o foco no amor das jovens não é retirado e fica mais harmônico com as locações e as problemáticas mais intimistas, seja no campo ou na cidade.





Sob o ponto de vista psicológico, os melhores momentos estão reservados às contradições de Delphine. A atuação de Izïa Higelin enriquece a tensão do conflito interno entre viver plenamente o amor ou optar pelo campo e as responsabilidades locais com a família. Em variados momentos, sendo ela, a única filha e conhecedora do trabalho da fazenda, ela está dividida entre a obrigação e a liberdade, conflito que é universal, independente de ser homossexual ou heterossexual, em alguma fase da vida, somos testados a decidir se vamos prosseguir em algo ou não. Neste aspecto, "Um belo verão" é um bem realizado filme sobre escolhas e o tempo para elas.




Ficha técnica do filme Imdb Um belo Verão
Distribuição: Pandora filmes
Trechos entrevista com Catherine Corsini, uma cortesia Pandora filmes
Data de estreia no Brasil: 07 de Julho