quarta-feira, 27 de abril de 2016

MaDame Blockbuster: Capitão América: Guerra Civil (2016), de Anthony e Joe Russo

MaDame Blockbuster:
Cinema Pipoca e no stress



Você é #TimeCapitãoAmérica ou #TimeOhomemde ferro? 
Prepare-se para essa incrível guerra e [sem spoilers]! 



Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Capitão América: Guerra Civil, um dos mais aguardados filmes no ano chega nessa quinta-feira (28/04) no circuito nacional e a pergunta que não quer calar é: Você está preparado para essa guerra? O que acontece quando os Vingadores, que trabalham juntos pelo bem da humanidade, travam uma guerra entre eles e o seu coração cinefilamente MARVEL fica dividido entre os super heróis? Certamente o público fiel aos Vingadores terá emoções elevadas a cada dinâmica cena de ação dessa imperdível batalha.




As duas frentes da guerra têm opiniões próprias, o que implica que você também terá que ter a sua mesmo com um aperto no coração. Após os eventos ocorridos em Vingadores: A era de Ultron, o time continua fortalecido sob a liderança de Steve Rogers (Capitão América, Chris Evans), entretanto, enfrentar ameaças e perigos mundiais provocam danos colaterais até mesmo nas relações de parceria e amizade, imediatamente a política controladora do governo avança e a união dos Vingadores é ameaçada. 















Ser um Vingador é escolher como intervir em uma situação de perigo, como salvar vidas, como vencer unidos. Mas junto com o poder de defender a humanidade estão as grandes responsabilidades e riscos. Após uma missão com trágicas consequências,  Steve Rogers mantem-se leal aos seus princípios na proteção à humanidade e opta pela liberdade de atuar sem a intervenção do governo. Tony Stark (Homem de ferro, Robert Downey Jr), excêntrico e teimoso, cede à pressão política e é favorável a responsabilização e supervisão do governo na ação dos Vingadores.  Ser supervisionado pelo governo ou não? Essa é a principal questão de ruptura entre eles. Por excelência, a maioria dos super heróis são seres livres. Cada um vai para uma frente. A guerra está declarada!






Capitão América: Guerra Civil chegou para ser um tipo de "Mad Max: Estrada da Fúria" da Marvel. Com êxito, ele consegue merecer essa comparação!  É ação do começo ao fim, vibrante, bem coreografada e montada e entrecortada pelas recorrentes interações bem humoradas  entre os personagens. O filme é um exímio blockbuster de ação que junta todos os  heróis para uma festinha movida à exibição dos super poderes. Para deixar a batalha mais épica e cool, o roteiro escala O homem Aranha (Tom Holland) e o Pantera Negra (Chadwick Boseman) que fazem bonito. O primeiro dá o charme mais nerd, juvenil e gracioso, o outro tem uma marca exótica, misteriosa e vingativa. 








O maior mérito do roteiro, em comparação aos anteriores da franquia de Capitão América, é que existe uma guerra, mas não necessariamente ela traz efeitos pesados de espionagem, vilania e conflitos organizacionais. O resultado é um roteiro menos preciso nas reviravoltas e mais focado na tensão e ações que sustentam a  oposição entre as duas frentes. A grande diversão é ver as cenas de ação e os Vingadores lutando entre eles para valer. Não dá para levar a sério como conflito armado, mas dá para levar a sério como uma luta mais emocional e física, movida pela liberdade de escolha, excelente para um entretenimento blockbuster.  


Assim, independente da questão da responsabilização e supervisão do governo, há um elemento dinamizador na história de ordem muito mais pessoal e que relaciona os fatos : a conexão emocional de Steve Rogers com o seu amigo Soldado Invernal (Sebastian Stan), que segue sendo perseguido como uma arma humana perigosa, inclusive pelo vilão Zemo (Daniel Brühl). Dessa forma, o mais importante personagem ainda é o herói Capitão América,  o líder dessa franquia. 







Diante desse argumento, não espere que haja um grande antagonista fora dos Vingadores. Daniel Brühl atua apenas como um acessório. A ausência de um forte vilão não chega a fragilizar o filme por conta do dinamismo da ação e do significado afetivo dos Vingadores lutando entre si. Ninguém quer ver amigos que protegem a humanidade brigando entre si, entretanto, já que os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely se empenharam nessa ideia divertida, por que não torcer para que as cenas sejam boas? É o que acontece aqui!  E o mais bacana é ver que há determinados planos que foram exatamente fotografados para arrancar palmas, gritos, assobios e boas energias dos fãs Marvel. Planos que surgem como épicos retratos entre os Vingadores.







A execução das cenas de perseguição e de  conflito frente a frente é engenhosa e intensamente ativa para proporcionar ao público uma luta armada que nem mesmo a amizade entre Rogers e Stark é capaz de interromper. Por causa desse capricho da direção, a coreografia das lutas é um verdadeiro show  e chega com força, impulsionada por um bom ritmo. Entre os destaques, a Viúva negra (Scarlett Johansson) surge mais ruiva, charmosa e à vontade, derrubando homens fortes com forte impulso a cada golpe, passando rasteira sem piedade. Pantera Negra, Homem Aranha e Homem formiga ressaltam suas habilidades físicas, acrobáticas e de velocidade. Capitão América, Soldado Invernal e Pantera Negra em uma maravilhosa sequência entre carros emocionam qualquer amante do cinema de ação. Melhor do que toda essa diversão é só assistir ao filme pela segunda, terceira, quarta vez... E aí, já está pronto para a guerra do ano?




Ficha técnica do filme IMDB Capitão América : Guerra Civil

Distribuição : Disney/Marvel
Fotos: Uma cortesia Disney
Estreia nacional: 28 de Abril 2016





terça-feira, 26 de abril de 2016

O Escaravelho do diabo (2015), de Carlo Milani




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



Adaptações de livros para o Cinema costumam agradar ao conciliar esses dois formatos em uma obra para entretenimento. Para quem ama Literatura, ficção e não ficção, ver a execução de um roteiro adaptado, inicialmente, desperta o interesse, posteriormente pode representar satisfação ou decepção. Independente de acertos ou erros nessa fusão criativa de Literatura e audiovisual, o Cinema é uma seara ampla e fértil para adaptações e nunca faltarão interessados, em especial quando se resgata um importante elemento de atração para esses filmes: a nostalgia. 






Esse ano o diretor Carlo Milani lançou seu primeiro longa-metragem, "O Escaravelho do diabo", que foi aguardado exatamente  por resgatar esse elemento nostálgico. É uma história bem conhecida no universo da Literatura infanto-juvenil no Brasil e vê-la na Tela Grande faz com que a memória afetiva volte à época do colégio, com as leituras recomendadas pela professora de português e trocadas entre amigos e as tardes silenciosas  na biblioteca. A obra escrita pela jornalista Lúcia Machado Almeida é um clássico da emblemática coleção Vagalume da editora Ática, histórias que marcaram a adolescência de muitas gerações como "O rapto do garoto de ouro" e "O mistério do cinco estrelas".


Com adaptação da experiente roteirista Melanie Dimantas ("Meu pé de laranja lima") e de Ronaldo Santos, o filme reacende as lembranças dos primeiros livros de suspense que conciliavam um espírito de curiosidade, aventura, heroísmo e amizade na Literatura infanto-juvenil da Vagalume e, adiciona temas mais obscuros como a morte, a vingança e o bullying.




Na história, a cidadezinha de Vale das Flores vive um momento aterrorizante com a ação de um serial killer que utiliza um padrão peculiar: apenas pessoas ruivas são assassinadas. Antes de serem mortas, recebem uma caixinha com um escaravelho. O  primeiro crime tem como vítima Hugo Maltese (Cirillo Luna), morto em ambiente doméstico e de forma muito abrupta e violenta. Seu irmão, o garoto Alberto Maltese (Thiago Rossetti), tomado por grande tristeza e senso de justiça decide investigar detalhes dos crimes e conta com o delegado Pimentel (Marcos Caruso).

                                     


Como obra audiovisual, além do resgaste da nostalgia , o filme acerta em criar uma obra que mescla bem a violência com uma certa leveza narrativa. Existe uma fotografia que ressalta a faceta cult da obra, com a beleza dos personagens ruivos, as referências do horror com o uso de insetos e de um serial killer deformado e misterioso, mas também é possível observar que há o desabrochar do personagem Alberto Maltese, um jovem carismático, amoroso e corajoso que está disposto a defender sua família, amigos e comunidade. 




Não se pode esquecer que essa é uma obra infanto-juvenil que, ainda hoje, é lida por adolescentes. É claro que o jovem moderno não é mais inocente ainda que o filme preserve a ingenuidade, a docilidade de Alberto. O adolescente atual está acostumado a ver filmes violentos de super heróis, suspenses de ação, aventuras macabras, entre outros, mesmo assim, o diretor insistiu em preservar um approach ingênuo e curioso no jovem. Assim, a marca forte de "O escaravelho do diabo" é seu valor literário como obra que guarda uma combinação de inocência com o revelar de um mundo brutal. Sim, as crianças também são violentas e cometem erros com os seus coleguinhas! Só que essa violência psicológica é sutil no filme porque ela cresce na figura do que o assassino representa: um adulto brutal e vingativo com traumas passados, ou seja, uma criança que se tornou um ser humano ruim.





Embora o roteiro tenha mantido essa suavidade narrativa e é bem apoiado na execução pela fotografia de Pedro Farkas e a direção de arte de Valdy Lopes que retratam muito bem esse ambiente interiorano de Vale das Flores e a variedade na forma que as mortes acontecem, suportada por referências visuais do gênero horror/suspense, o filme não é nem apaixonante e nem intenso nas emoções dos personagens. A violência está lá, só que ela é mais plástica e desencadeada por uma sucessão de eventos que, em si, não vão entregar um intrigante processo de investigação e muito menos uma arrebatadora aventura juvenil. Por conta disso, o último ato é concluído de maneira apressada, os personagens não são bem desenvolvidos e o ritmo é lento. 


É um filme visualmente bem produzido, que é fiel às virtudes citadas e tem um toque de humor, entretanto, a direção opta por não torná-lo muito obscuro, emocional. Ela foi conservadora e realiza um filme mais direcionado para o público de  pré-adolescentes ou para resgatar a memória afetiva de quem leu o livro na adolescência. Opta por preservá-lo como  uma  brincadeira juvenil, uma ficção que só encontra a sua melhor manifestação nas aventuras imaginárias de uma leitura.





Ficha técnica do filme Imdb O Escaravelho do diabo 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Desajustados (Fúsi / Virgin Mountain, 2015), de Dagur Kári





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Contar uma história simples e divertida sobre a solidão com compaixão e graça é coisa para poucos roteiristas. Na verdade, a condição de ser solitário é uma realidade constante no mundo contemporâneo, entretanto nunca é tão fácil falar sobre ela. Por mais que as pessoas estejam cercadas de amigos e possibilidades de amor, variadas permanecem sozinhas à espera de uma boa e leal companhia e, quem sabe, um grande amor para construir uma família, um relacionamento estável. A solidão é um processo natural e necessário de amadurecimento, mas ela é extremamente dolorosa quando ela dificulta a socialização e quando, a depender do indivíduo, ele sofre de timidez, depressão, rejeição e bullying.






Com essa sensível e universal temática, a co-produção entre Dinamarca  e Islândia "Desajustados" (Fúsi/ Virgin Mountain), vencedora de melhor roteiro, melhor narrativa e melhor ator para Gunnar Jónsson no 14º Festival de Cinema de Tribeca (2015), apresenta um homem de meia idade, Fúsi (Jónsson) que vive com a mãe e brinca de soldadinhos na 2ª Guerra Mundial. Muito tímido, com uma introspecção bastante peculiar e de baixa socialização, ele é vítima de bullying no trabalho e tem dificuldades para relacionamentos amorosos e amizades. 






Mas a magia acontece no Cinema, certo? Esse é o diferencial do roteiro, que é enxuto e com situações claras das vulnerabilidades dos ditos "desajustados" e ainda possibilita encontrar uma bela história sobre o amor. Fúsi funciona muito bem como um personagem disfuncional e há uma graciosidade na forma como ele é, mesmo que não seja fisicamente e nem intelectualmente atrativo, ele tem a capacidade de surpreender com belos gestos, principalmente quando conhece Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir) em uma aula de dança. Ela, uma depressiva bem instável, teria de tudo para afastar qualquer homem, entretanto esses dois desajustados aos olhos da sociedade que prega um ideal midiático de perfeição, de beleza e de sucesso são mais perfeitos do que os padrões.



E qual é a magia? Eles são solitários e cada cena é um pedaço especial dessa poética vulnerabilidade que há na solidão e nos encontros e desencontros que a vida lhes reserva. A atuação de Gunnar Jónsson é positiva para  a proposta narrativa porque ele transita bem entre a comédia e o drama, despertando o riso e a compaixão. Esse efeito cômico dramático é muito eficiente para criar uma empatia com o personagem.







Mesmo que Fúsi pareça um personagem bobo demais, sem grandes reações emocionais e que facilmente seria diagnosticado como uma pessoa com algum transtorno mental e presa fácil para constantes rejeições, "Desajustados" é muito mais do que só a superfície de seu protagonista. É um filme sobre o amor e o afeto.  É um filme sobre o primeiro amor ainda que tardio. É um filme sobre a aceitação do outro, sobre cultivar a doação incondicional independente de fragilidades e frustrações afetivas. O significado do amor está aqui.


Fúsi tem a capacidade de amar que muitos homens mais bonitos e desejáveis não têm. Isso já basta para o público encontrar uma história que cativa por mostrar que amar é muito mais do que explodir de paixão como fogos de artifícios  e deixar-se apaixonar por uma aparência física ou vigor intelectual, amar é cuidar do outro, estar presente e compreender a sua solidão.





Ficha técnica do filme Imdb  "Desajustados"
Distribuição: Imovision

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Truman (2015), de Cesc Gay





Por Cristiane Costa, Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Sempre digo que o Cinema tem vários dons especiais, mas há um que é imbatível: contar histórias que mostram o que temos de melhor: a nossa humanidade; aquela capacidade de ser fortes e também tão vulneráveis e falhos, de ser amados por familiares, amigos e animais de estimação e ter o coração aberto e sincero  para amá-los, cultivar essas relações e até mesmo brigar com eles, de tomar decisões espontâneas por surpreendentes escolhas e assumi-las diante dos outros, ainda que muitos pensem que estamos loucos. Ao final de um filme que nos aproxima de nossa humanidade, o sentimento que permanece é o da gratidão. É o que acontece em Truman, a mais recente coprodução Argentino-espanhola dirigida por Cesc Gay e estrelado por  dois atores bem conhecidos na filmografia desses países, Ricardo Darín e Javier Cámara, mais um galã cativante: o cão Troilo, que arranca suspiros com seu olhar de leal amigo.




Vencedor de 5 prêmios no Goya: Melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro original,  Truman conta a história de Julian (Ricardo Darín) , um ator que está vivendo um momento crítico ao enfrentar uma grave doença. Separado, irmão de Paula (Dolores Fonzi) e com um filho que estuda na Holanda, Julian vive sozinho com seu cão Truman. Ele recebe a visita de seu amigo Tomás (Javier Cámara) que vive no Canadá com a família e ambos iniciam uma jornada cômico-dramática de compartilhar os momentos juntos ao lado de Truman. Se o cachorro é o melhor amigo do homem, Tomás também demonstra que, ainda que tenha um jeito de ser bem diferente de Julian, a amizade resistiu ao tempo e à distância. O resultado é um filme singelo, leve e com a agradável simpatia dos dois atores.





Em suas linhas mais amplas de entendimento, Truman é basicamente um filme sobre a amizade. Amizade que dura anos, que não se entristece pela ausência e nem pelas verdades ditas na cara. É por isso que a química dos personagens de Darín e Cámara funciona muito bem. São diferentes e cada um reage à delicada situação da história de uma forma distinta. Ainda assim, o respeito mútuo é uma constante e as discussões cômicas fazem parte da sinceridade. Na execução da narrativa, essa amizade é belíssima porque há cenas com gancho para a tristeza, a culpa, o companheirismo, o humor, a briga (com alguns palavrões no bom e velho espanhol) e, no final da contas, ninguém é julgado ao extremo. As escolhas são respeitadas, os desabafos e o silêncio, também. O afeto está presente e, com graça, domina o filme.




                                

“’Truman é um olhar sobre a forma como reagimos ao inesperado, à dor e ao desconhecido. E é também um filme sobre a amizade.” (Cesc Gay)


Com igual peso, essa é uma comédia dramática de fácil gosto popular e tem uma grande sacada: consegue ter uma pegada de cinema independente e contar uma história universal que, em algum momento, alguém deve ter vivenciado com algum amigo, familiar ou animal de estimação. Além do mais, apresenta um elemento que muitos amam: a amizade canina, esse amor profundo que muitos de nós temos por cães e que chega a doer no peito por ser maior do que o próprio coração. Com esse roteiro, simples e original,  a narrativa coloca o afeto, a lealdade e o amor acima de desafios como a doença e a morte e, de uma maneira gentil e bem humorada, guarda em si uma forte autenticidade do personagem de Ricardo Darín. Mais uma vez, o ator paixão nacional (e mundial) do Cinema Argentino leva o papel com muita segurança, carisma, bom humor e tranquilidade. Preenche toda a tela com sua simpatia e , muito naturalmente, faz a gente tirar o lencinho do bolso para enxugar as lágrimas. Darín tem um perfil muito diferenciado como ator porque ele consegue ser um homem acessível e normal às  plateias. Ele consegue ser aquele amigo que estamos encontrando na tela grande ou que gostaríamos de ter.





Truman é um daqueles filmes comoventes que permanecem na memória por dias não apenas pelo valor da amizade, mas pelo valor das nossas escolhas que não precisam ir na mesma via do que a sociedade acha como mais natural e esperado.  Muitas vezes, os nossos valores não estão em bens materiais, terrenos e na urgência de seguir a previsibilidade imposta pelo ambiente, eles estão nas relações que encaramos como saudáveis e leais, estão no nosso bem querer em todos à nossa volta, ainda que estejamos em situações desesperadoras. Assim, aqueles amigos que sabem entender nossas escolhas, ainda que não concorde com elas, esses são nossos verdadeiros amigos.






Ficha do filme no Imdb Truman
Distribuição: Pandora filmes









terça-feira, 19 de abril de 2016

A Juventude (Youth / La Giovinezza, 2015), de Paolo Sorrentino




Por Cristiane Costa, Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



Um caminho natural a medida que envelhecemos é pensar no que fizemos na vida. Pensar nas relações familiares, nas paixões, no trabalho, no que foi realizado e no que poderia ter sido vivenciado é uma carga que pode ser pesada ou  leve, dependerá de como encaramos a passagem dos anos e o passado. Em "A Juventude", de Paolo Sorrentino, a ação transcorre com estas lembranças e  recupera os elementos da memória e do envelhecimento a partir de dois amigos  com mais de 80 anos que passam férias em um luxuoso hotel spa. 




Acompanhado de sua filha e assistente Lena (Rachel Weisz), Fred Ballinger (Michael Caine) é um compositor e maestro aposentado que não tem a mesma inspiração  e nem vontade de dedicar-se à música. Em suas conversas com seu amigo Mick Boyle (Harvey Keitel), um cineasta que continua dedicado à carreira, ambos relembram a juventude e a infância. Unidos pela amizade e por suas afinidades artísticas, enquanto Mick está em um processo de criação cinematográfica, Fred está com um humor melancólico, deprimido, intensificado por profundas recordações.






Nessa dinâmica de velhos amigos é apresentada uma reflexão sobre a própria vida e a intimista relação que temos com os tempos que passam mas não nos abandonam. As memórias estão ali afetando o presente de Fred e Mick, memórias que são belas, dolorosas, nostálgicas e que, mesmo que possam ferir ou acalmar o coração, ainda são parte integrante de uma história de vida que não pode ser esquecida na velhice. Entre tantas virtudes do filme, principalmente as sólidas atuações, a deslumbrante fotografia de Luca Bigazzi  e  magnífica canção original Simple song #3 (nominada ao Oscar 2016 e composta por David Lang),  " A juventude" se destaca como uma jornada de memórias  que injeta uma força maior para que nenhum homem desista de viver, ainda que tenha deixado de apostar em certos projetos ou se arrependido de ter tomado outros rumos. 





A riqueza narrativa dessa obra é exatamente essa sensível capacidade de expor aspectos que naturalmente incomodam nossos pensamentos quando envelhecemos. Poderia ter feito meu trabalho melhor? Poderia ter amado mais? Poderia ter sido um melhor marido, um melhor pai, um melhor amigo? Poderia ter escolhido outro projeto?  São perguntas comuns que guardam em si uma neurose que muitas vezes é inevitável e é parte da nossa natureza humana. O diferencial é como Paolo Sorrentino executa esses comportamentos e situações, como por exemplo, como perdemos a vitalidade física e o status e, ainda assim, não podemos perder a capacidade de valorizar os nossos dons, amigos, amores. Não podemos deixar de valorizar a nossa biografia. Em um dos mais belos planos do longa, é possível ver que a juventude está na alma, no que podemos construir de positivo enquanto indivíduos que têm a capacidade de amar os outros e de superar a nós mesmos.




Mais uma vez, seguindo seu estilo em "A grande beleza" e apoiado pelo mesmo diretor de fotografia,  Bigazzi, Sorrentino  recorre à construção de uma narrativa que mescla o realismo e a poesia visual, mergulhando o público em uma  experiência cinematográfica pós Fellini, com cortes para pensamentos, sonhos, memórias em uma execução evocativamente poética. Ao contar com dois protagonistas de peso, Caine e Keitel em momentos comoventes, o elenco coadjuvante com Jane Fonda, Paul Dano e Rachel Weisz  apoia bem a história e possibilita criar elos dos velhos amigos com outras experiências familiares e profissionais. 


É um filme belíssimo ao transferir para a tela  uma combinação de humor e drama que é inerente ao próprio ato de viver e de envelhecer. Assim é a vida, um caminhar constante entre risos e lágrimas, entre acertos e erros, entre a nostalgia do vivido e a hesitação do que ainda podemos viver no tempo que nos resta. Se há duas certezas em uma longa existência, uma é a morte e a outra é o envelhecimento, então que a vitalidade não seja uma incerteza em nossas experiências.





Ficha técnica no Imdb A Juventude
Distribuição: Fênix Filmes



terça-feira, 12 de abril de 2016

Mais forte que bombas (Louder than bombs, 2015), de Joachim Trier




Por Cristiane Costa, Owner, Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Cinema é uma Arte do imaginário e a liberdade de se relacionar com uma história da forma que bem nos pareça é um dos grandes prazeres de assistir a um bom filme. Diante dele, podemos ser desafiados a enxergar além do que está no plano, podemos ver e sentir como o relacionamento humano é, ao mesmo tempo, tão palpável e tão distante, e como dúvidas, silêncios e palavras abandonadas no esquecimento podem soar bem mais barulhentas. 


Nesse aspecto, Mais forte que bombas (Louder than bombs) de Joachim Trier nos possibilita essa liberdade de observar uma família emocionalmente frágil. Recém lançado no Brasil, é um drama minimalista e intimista que não perde o viés vigoroso de narrar a história de uma família que está em processo de recuperação  após um luto e os impactos dessa perda. Com um recorte que também prioriza seus problemas disfuncionais, especialmente os de comunicação entre um pai e seus filhos, o longa foi um dos destaques no Festival de Cannes de 2015.







Isabelle Freed (Isabelle Huppert) é uma renomada fotográfa que, pela natureza de sua profissão, passou boa parte do tempo longe do marido Gene (Gabriel Byrne) e de seus filhos  Jonah (Jesse Eisenberg) e Conrad (Devin Druid). Após a morte dela em um acidente de carro, essa família vivencia as dificuldades de sua ausência. Jonah é pai de primeira viagem e mora em outra cidade. Conrad é um jovem tímido no despertar da adolescência e mergulhado em seu mundo de video games, isolamento social e primeiro amor. Gene tenta seguir a vida  afetiva, entretanto, seu maior desafio é como se relacionar com os filhos.







Com roteiro assinado por Joachim Trier e Eskil Vogt, já é possível compreender por que o filme tem uma construção narrativa que não tem uma linearidade padronizada e que abre um maior caminho de interpretação ao espectador, estabelecendo um vínculo mais próximo ao convívio desta família e as dificuldades que eles têm de lidar com esta morte. Trier e Vogt têm origem no excelente Cinema Escandinavo e, especialmente Vogt, elaborou o roteiro e dirigiu "Blind", que tem uma história  baseada em fluxo de pensamentos aleatórios que se fundem na edição e intensificam o conflito . Aqui,  o mesmo ocorre.  O filme retoma momentos com Laura, como flashes de sua presença, deixando sempre ao público o benefício de imaginar quem era esta mulher, como era a relação dela com o marido e com os filhos, como ela morreu, ela estava cansada da profissão, sofria de algum transtorno mental etc. 






No contraponto, o universo masculino com esses 3 personagens mostra o sexo viril como também frágil. A história mostra sua intimidade: os amores , a desconfiança,  a insegurança, os segredos, etc. Nesses momentos, é inevitável pensar como a ausência de uma mãe é dolorosa, principalmente quando Conrad demonstra ser um garoto criativo e amável que está passando uma fase de transformações que não pode compartilhar com uma mãe. Por outro lado, o roteiro desenvolve as nuances dessa mulher que, mesmo morta, está tão presente na história.  Assim,  essa figura materna, feminina e tão globalmente desbravadora, capaz de extrair muita sensibilidade com uma fotografia em campos de guerra, também era uma mulher destruída por suas vivências ou, no mínimo, cansada, deprimida.


Mais forte que bombas é um imperdível e maduro drama familiar. É atrativo à medida que nos deixa estas lacunas para reflexão, a cada plano, podemos pensar nos vivos e nos mortos, nas relações que cultivamos e nas que abandonamos, em como acertamos e falhamos e,  como algumas dores  emocionais permanecem como um luto intransponível que somente o companheirismo , a empatia e o amor podem suavizá-las. 





Ficha técnica do filme Imdb Mais forte que bombas
Estreia no Brasil: 07 de Abril - em cartaz
Distribuição : Vitrine filmes


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Nossa irmã mais nova ( Umimachi Diary, 2015) , de Hirokazu Koreeda



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Poucos diretores conseguem contar bem e com gentilezas histórias sobre a família, adicionando à direção e ao roteiro elementos que façam o público reconhecer que há ali espaço para a  convivência, o perdão e o amor. Nessa seara, Hirokazu Koreeda é um mestre. Sua competência como narrador de belas histórias ressalta outras habilidades chave como ser um excelente diretor de atores e um realizador capaz de compreender o seio familiar, suas relações e conflitos e mimetizá-los na tela de uma maneira delicada e empática. Seus últimos  filmes "Pais e Filhos", vencedor do prêmio do Jurí no Festival de Cannes 2013, e o mais recente "Nossa irmã mais nova", indicado à Palma de Ouro de 2015, colocam  Koreeda como um dos melhores cineastas de dramas familiares.








O filme conta a história de três irmãs que, após a morte de seu pai, começam a viver juntas com uma meia-irmã mais jovem e dividir suas experiências e emoções. Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa) e Chika (Kako) conhecem  Suzu (Suzu Asano) no enterro do pai . Inicialmente, o que deveria ser um choque maior entre irmãs, considerando que Suzu é filha da amante do falecido, torna-se uma oportunidade de aceitação e união. Nas mãos do sensível Koreeda, a  história apresenta a influência de um aspecto autobiográfico dele: seu pai faleceu quando o diretor era criança, sendo assim, Suzu é uma adolescente que está sozinha e encontrar as irmãs é uma possibilidade de pertencimento à família, de ter outras referências femininas, de sentir-se aceita, amada e apoiada por elas.







Diferente de Pais e Filhos, mais dramático e que centraliza um conflito entre uma troca de filhos biológicos e suas consequências,  Nossa irmã mais nova é contemplativo, suave e intimista. É o tipo de filme que demonstra como a família está longe de ser uma instituição perfeita, mas ela ainda é um importante alicerce. Com poucos diálogos, planos fotográficos de beleza ímpar e atuações delicadas e graciosas, as irmãs conquistam a empatia porque , cada uma tem um estilo, um micromundo, um ligeiro e despretensioso desenvolvimento do personagem.  Dessa forma, ainda que o roteiro não seja desfocado do propósito de ressaltar a entrada de Suzu na convivência das irmãs, Koreeda opta por adicionar cenas simples do cotidiano para tornar a história o mais natural possível. Além do dia a dia das irmãs, esse belo longa-metragem tem uma natureza bastante conciliatória, de continuidade da família e superação após o luto. Também, com pequenas sutilezas em cena, o filme mostra que perdas e magoas permanecem, mas é possível superá-los ou não se importar muito com eles e que, enfim, os relacionamentos precisam ser cultivados.






Em sua execução, ele tem um ritmo mais lento, evidência que não chega a impactar muito negativamente a qualidade, entretanto, sua principal lacuna está em termos de roteirização. Poderia ser mais assertiva, menos prolongada, mais direcionada ao conflito. Com as diversas tomadas que cobrem diferentes situações com cada irmã, Koreeda estende a narrativa sem necessariamente colocar um relevante arco dramático ou acontecimentos nela que mudem os rumos das irmãs ou criem cenas de forte impacto  de conflitos interpessoais. Por isso, ele é realmente um filme contemplativo, genuinamente focado nesta relação das irmãs que não vão ter grandes desafetos. Na contramão de Pais e Filhos, aqui, Koreeda não se arrisca a criar nenhum tipo de desconforto entre os personagens ante um conflito. 


Mesmo com uma boa harmonia cênica entre as quatro irmãs, são as atrizes Haruka Ayase e Suzu Asano que representam características e pequenos conflitos mais relevantes e, também, são as melhores desenvolvidas em cena e com boas atuações. A primeira por ser a irmã mais velha, que atua como uma mãe para as irmãs e que abriu mão de outros projetos para conviver com a  família. A outra, por ser a caçula e a concebida em uma relação de adultério. Existe um interesssante aspecto nelas e que faz a diferença: a culpa manifestada por suas experiências de vida. Uma irmã mais velha, que age como uma mãe, se sentirá culpada se deixar as irmãs e partir para cuidar da própria vida? Uma meia-irmã, filha de uma amante, deve sentir-se culpada por ser fruto de uma relação de traição?  Nesse cenário, é natural colocar-se no lugar delas e sentir suas dúvidas, tristezas, hesitações. É também muito especial a forma como as quatro irmãs também despertam um sentimento de irmandade e como é um privilégio ter a chance de ter bons e amigos irmãos. É exatamente este tipo de proximidade das personagens com emoções que são sentidas no convívio com a família que fazem de "Nossa irmã mais nova" mais uma joia de Koreeda.







Ficha técnica do filme Imdb Nossa irmã mais nova
Distribuição no Brasil: Imovision