domingo, 28 de fevereiro de 2016

O Lobo do Deserto (Theeb, 2014), de Naji Abu Nowar



         Indicado a melhor filme estrangeiro no Oscar 2016



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Nominado da Jordânia no Oscar, "Theeb" é o primeiro longa-metragem de Naji Abu Nowar e recupera os primórdios das tribos beduínas do país e a  representação da força moral, coragem e lealdade do protagonista Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat), um garoto que, em uma época histórica de transições na península Arábica, ressalta esta identidade do povo islâmico. Ambientado às vésperas da Primeira Guerra Mundial, em uma região desértica do Oriente médio com raros trausentes,  a história nos apresenta seu rito de passagem e a firme atitude de ser fiel às suas origens, à sua família. Orfão de pai , o garoto tem como referência seu irmão Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen) que assume uma figura paterna, assim como um guia, ensinando o irmão a usar uma arma ou partir em uma missão perigosa.








Ambos partem a uma jornada pelo deserto para acompanhar um oficial britânico (Jack Fox). Com pouquíssimos recursos e correndo sério risco de vida, os irmãos não sabem exatamente qual é a missão do oficial, ainda assim, fica claro que poços de água são um bem precioso e emboscadas podem acontecer próximo a eles. Entretanto, o mais importante da jornada não é a visão do militar estrangeiro pois, no contexto histórico, mais tarde o território da Jordânia seria objeto de acordo entre França e Inglaterra, o que é relevante neste roteiro é a função dramatúrgica do personagem Theeb.







Theeb significa Lobo. O lobo é um animal que tem fortes valores alicerçados na sua matilha, em defendê-la, em ser leal a ela, mas também sabe viver na solidão  e é bastante observador. É feroz para defender o seu território e sua família. Desta forma, o jovem garoto representa este lobo do deserto como uma geração que teria o desafio de defender a identidade do seu povo. Na verdade, este filme é um bonito conto. Ainda que tenha lhe faltado uma melhor estruturação do roteiro que coloca totalmente a responsabilidade do ponto de vista sobre Theeb, a partir do último ato, o longa mostra sua função. Sendo um garoto muito jovem em situação de fragilidade e solidão, o roteiro não oferece um forte engajamento das cenas com o argumento. Faltou desenvolver melhor o texto. Tudo em cena é mais contemplativo  e o diretor não consegue explorar a aventura e o suspense. Por outro lado, a atuação do jovem Jacir, a fotografia e o aspecto cru e decadente deste povo no deserto, sendo afetado por um calor intenso,muitos insetos, roupas sujas , sem asseio,  água e comida suficientes trazem mais realismo e desafios à desgastante jornada.







Por outro lado, a mensagem  do filme tem a sua força quando enfocamos o rito de passagem e os valores islâmicos do garoto. Embora eles não são tão expressivos em cena, estão lá em sutis atitudes. O contexto da história do Oriente Médio e suas fortes tensões por territórios também cooperam para enfocar o ambiente violento desta jornada e uma abordagem narrativa com características western na qual não se pode confiar em qualquer um e que, a qualquer momento, alguém poderá tirar-lhe a vida e levar seus poucos pertences. Em uma importante passagem, também é possível observar que muitos peregrinos perderam sua lealdade e que, em uma época de guerras e as fragilidades morais, físicas, financeiras e emocionais que ela traz, as pessoas vendem suas almas por algumas moedas. Mesmo assim, "Theeb" nos mostra que , não importa quanto poder há naqueles que comandam um governo, uma guerra, um acordo , ainda é possível mantermos nossa força moral e poder como povo. 






Oscar 2016 : Minha torcida x quem deve levar a estatueta





Hoje é dia de Oscar. A partir das 20:30 pela TNT.
Aqui vão a torcida  e as apostas do MaDame.
Ótima celebração a vocês!



(apenas categorias de longas)

MINHA TORCIDA:
Melhor filme - Mad Max : Estrada da fúria
Melhor diretor - George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria)
Melhor ator: Leonardo di Caprio (O Regresso) 
Melhor atriz: Charlotte Rampling (45 anos)
Melhor ator coadjuvante: Sylvester Stallone (Creed)
Melhor atriz coadjuvante: Kate Winslet ( Steve Jobs)
Melhor canção original: Simple song #3 (Youth)
Melhor filme estrangeiro: O filho de Saul
Melhor roteiro adaptado: A grande aposta
Melhor roteiro original: Spotlight
Melhor documentário: Winter on fire: Ukraine's fight for freedom
Melhor animação: Divertida mente 
Melhor fotografia: Emmanuel Lubezki (O Regresso) 
Melhor design de produção: Mad Max: Estrada da fúria
Melhor montagem: Spotlight
Trilha sonora original: Ennio Morricone (Os 8 odiados)
Melhor figurino: Mad Max: Estrada da Fúria
Melhor cabelo e maquiagem: Mad Max: Estrada da Fúria
Melhores efeitos visuais: Mad Max: Estrada da Fúria
Melhor edição de som: Mad Max: Estrada da Fúria
Melhor mixagem de som: Mad Max: Estrada da Fúria





QUEM DEVE LEVAR A ESTATUETA

Melhor filme - O Regresso
Melhor diretor - Alejandro Iñarritu (O Regresso)
Melhor ator: Leonardo di Caprio (O Regresso) 
Melhor atriz: Brie Larson (O quarto de Jack)
Melhor ator coadjuvante: Sylvester Stallone (Creed)
Melhor atriz coadjuvante: Kate Winslet ( Steve Jobs)
Melhor canção original: Writing's on the wall (007 contra Spectre)
Melhor filme estrangeiro: O filho de Saul
Melhor roteiro adaptado: A grande aposta
Melhor roteiro original: Spotlight
Melhor documentário: Amy
Melhor animação: Divertida mente 
Melhor fotografia: Emmanuel Lubezki (O Regresso) 
Melhor design de produção: Mad Max : Estrada da Fúria
Melhor montagem: Mad Max: Estrada da Fúria
Trilha sonora original: Ennio Morricone (Os 8 odiados)
Melhor figurino: Mad Max: Estrada Fúria
Melhor cabelo e maquiagem: Mad Max: Estrada da Fúria
Melhores efeitos visuais: Mad Max: Estrada da Fúria
Melhor edição de som: Mad Max: Estrada da Fúria
Melhor mixagem de som: Mad Max: Estrada da Fúria

PS: A categoria de som pode ganhar "O Regresso" também.



sábado, 27 de fevereiro de 2016

GUERRA - A WAR (Krigen, 2015), de Tobias Lindholm






Indicado a melhor filme estrangeiro no Oscar 2016



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




A dinâmica inicial de "A War" (Krigen), o representante da Dinamarca na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar 2016, não apresenta nenhuma surpresa em comparação a outros dramas de guerra que têm soldados estrangeiros em territórios islâmicos. Entrecortado por planos com militares em campo aberto sobrecarregado por minas, movimentação de câmera na mão e em estilo documental e tomadas internas que introduzem ao público quem lidera a operação, seu perfil de comando e equipe, o longa-metragem de Tobias Lindholm antecipa duas características básicas desta história: o peso e as consequências de decisões arbitrárias no campo de batalha e o julgamento de crimes de guerra . 





Pilou Asbæk : de "Borgen" para as telonas dos Oscarizáveis 
e depois para Game of Thrones. 



Ambientado no Afeganistão, a história enfoca o chefe de uma companhia militar Dinamarquesa, Claus Michael Pedersen (Pilou Asbæk, de "Borgen") que está em campo há meses. Pai de 3 filhos e casado com Maria (Tuva Novotny), sua ausência é claramente sentida no contexto doméstico à medida que a esposa tem que se virar sozinha para cuidar dos filhos pequenos, além das lacunas emocionais que separam filhos e pais militares. Além do mais, considerando as nuances comportamentais em jogo, o roteiro explora a desumanização do soldado já que, desde o início, Pedersen é racionalmente empenhado no seu papel de líder e dá pouco espaço a vulnerabilidades emocionais, tanto as suas como a de seus subordinados. 







A partir de uma situação letal que envolve inimigos do Talibã em uma ofensiva contra a companhia, Pedersen toma uma decisão sob pressão para proteger os seus homens. Como consequência, será dispensado do comando e retorna à casa. O que seria uma grande alegria familiar, transforma-se em um angustiante problema que poderá separá-lo de sua esposa e filhos. Ele é acusado de  um crime de guerra e passará por um julgamento. Neste ponto, a história torna-se mais complexa e atrativa por motivos bem realistas quando analisamos o peso de ser soldado: O que é um crime de guerra quando um comandante deve proteger os seus soldados e é treinado para matar e não demonstrar muitas emoções? O que é uma decisão equivocada em campo de batalha quando a linha entre a vida e a morte está no fogo cruzado?  E  qual é a responsabilidade do Estado quando envia seus cidadãos esta linha de fogo sabendo que estes podem matar inocentes?







Além destas contudentes questões, o retorno de Pedersen à casa possibilita humanizá-lo e vê-lo na ativa como pai, amado pela esposa e pelos filhos, estimado por alguns leais soldados e amigos. A dimensão do drama doméstico coopera para humanizar a história e também justificar porque Pedersen não é um homem tão frio assim e porque é importante que ele esteja em casa exercendo o seu papel de líder da família. Desta forma, o roteiro tenta construir uma narrativa que apresenta não apenas o soldado, mas o pai e o cidadão e são exatamente estas dimensões que transformam a história em um bom objeto de reflexão, muito mais sensível e humanizado.


Como o cinema Dinamarquês desenvolve histórias que impactam em questões morais com frescor e objetividade, "A War" tem um bom resultado ainda que tenha qualidade inferior em comparação à maioria de seus concorrentes no Oscar. A direção não tem uma marca e estilos precisos, entretanto, não compromete o trabalho dos atores que acabam sendo fundamentais para expor as cenas mais importantes. O roteiro é frágil na parte do drama de tribunal porque as evidências do crime são simples e claras, consequentemente os argumentos de promotoria e advogado poderiam ter sido melhor explorados se o caso fosse um pouco mais estruturado e complexo. 






Se ele não é um filme tão excepcional, porque está concorrendo em uma categoria de pesos pesados no Oscar? Seu valor é ser um drama universal de guerra. A academia também gosta deste tipo de produção! Todos os soldados, em maior ou menor grau, já passaram por uma situação como esta, seja como filho, pai, esposo, amigo, ou no mínimo já viram colegas nesta situação ou se imaginaram como réus. Decisões entre a vida e a morte em um campo de batalha no qual, a qualquer momento, seu corpo pode ser destruído por uma bomba ou um tiro certeiro de fuzil colocam uma pressão psicológica muito intensa em qualquer ser humano à serviço de uma nação. Assim, o filme não dará todas as respostas que o público espera e não será milimetricamente bem desenvolvido, mas nos faz pensar sobre o peso das escolhas e da responsabilidade de um soldado que tem que desempenhar o seu papel como cidadão, aliás um papel ingrato, pois a guerra é uma questão política, de interesses financeiros e endossada pelo poder de poucos, portanto, o soldado é um executor e, como consequência, um homem condenado a fortes traumas de guerra. Existe pior condenação do que esta?





Ficha técnica no Imdb - Guerra  (A War / Krigen)



O Abraço da Serpente (El Abrazo de la serpiente, 2015) , de Ciro Guerra






Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial



Baseado em diários de viagens na Amazônia Colombiana escritos por dois cientistas, Theodor Koch - Grünberg e Richard Evans Schultes, que exploravam a região em busca de uma rara e sagrada planta, "O Abraço da Serpente" (El abrazo de la serpiente) é o terceiro filme de Ciro Guerra  e o primeiro dele que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano. Além da incrível fotografia em preto e branco de David Gallego, um deleite aos olhos, o cineasta nos leva a uma viagem tão  misteriosa e hipnótica como os rituais de um tradicional xamã. 




"o cronograma de filmagens era muito apertado e ficou claro que nós nunca conseguiríamos terminar esse filme. Tínhamos sido muito ambiciosos e os deuses da floresta estavam nos punindo por isso. Com isso em mente, como um capitão que é o primeiro a descobrir que seu navio está afundando, sentei-me, confortavelmente e me preparei para enfrentar o naufrágio inevitável. 
Mas acabei por testemunhar um milagre" (Ciro Guerra, o diretor) 




À medida que a câmera explora a rara população local e os deslumbrantes planos de rios, matas e animais selvagens, mais somos enfeitiçados por uma jornada que mistura elementos de sonho e realidade, podendo ser considerada uma narrativa que emula um recorte antropológico com uma viagem ritualista, xamânica e uma lição redentora. Assim, a experiência com o filme deixa um rastro de encantamento e curiosidade que, combinados, demonstram que esta parte da Amazônia continuará sendo um mistério. 








Diferente do uso do ponto de vista do colonizador, como usado em vários filmes e livros sobre a relação de estrangeiros exploradores e povos indígenas, aqui, Ciro optou por dar voz ao índio através do protagonista Karamakate que aparece em dois recortes temporais diferentes: como jovem (Nilbio Torres) e como um senhor (Antonio Bolívar), sempre em torno de suas memórias e experiências do passado e as ações do presente, assim também, Karamakate convive com dois cientistas diferentes cujas pesquisas estão entrelaçadas com a história do índio e de uma planta sagrada. Os dois atores realizam uma crível performance com nuances entre o drama e o humor, com destaque para uma atuação mais naturalista que, felizmente, não apela para uma figura caricata do índio. Aqui, tanto Torres como Bolívar sabem mimetizar o mítico, o selvagem e o dócil de um índio.





Nilbo Torres e Antonio Bolivar  como Karamakate



É interessante notar que este roteiro acertou ao colocar o xamã em dois recortes cronológicos e a ideia de continuidade histórica, pois discorrer sobre a relação entre o homem branco e o índio é trazer à tona as memórias guardadas pelos povos. Ainda que a história dos indígenas ainda seja bastante desconhecida e na sua maioria contada através do ponto de vista do explorador, o roteiro não cala o índio. Mesmo no silêncio da floresta, a Amazônia guarda seus mistérios e a sua História  revela a voz de Karamakate. Ele é muito mais do que um mero protagonista, ele é aquele que traz o elemento da memória e a humanidade do índio evidenciada em comportamentos como a tolerância, a sabedoria, o aprendizado e a redenção. É ele que devemos ouvir com atenção. 







Jan Bijvoet e Brionne Davis como os cientistas: 

a ciência em contato com o mítico




A Amazônia é apresentada como uma terra desconhecida e vasta, de povos colonizados que já não existem mais, assim, o jovem Karamakate é um xamã que vive isolado e único sobrevivente de sua tribo. Ele optou por manter-se solitário e fiel à sua cultura. Isso é observável em suas vestes, em seu conhecimento sobre plantas, remédios caseiros e caminhos pouco explorados, em sua identidade e autoconfiança, entretanto, nos dois recortes temporais, ele nunca deixou de conviver com a figura do cientista e auxiliá-lo, seja em uma necessidade de cura de doença, seja em um conflito com outros homens da região como falsos profetas e exploradores da borracha. Assim, sob a perspectiva da sabedoria de um xamã, sua autoridade e proteção à região e sua cultura, Karamakate é a estrela do filme e nosso guia. É ele que terá a visão e os aprendizados do passado e pode influenciar e mudar o presente ao interagir novamente com o homem branco.  






"O abraço da serpente" é um verdadeiro estudo antropológico e  leva-nos à reflexão por que não procuramos os próprios relatos dos índios, por que não investigamos melhor esta história. Como bem dito por Ciro Guerra " Quando começamos a estudar essa região e a desenvolver as pesquisas é inevitável nos depararmos com o olhar estrangeiro, de membros de expedições e viajantes, quase sempre Norte Americanos ou Europeus que nos dão informações sobre o nosso próprio mundo, nosso próprio país. Então eu tive a ideia de contar uma história através do prisma desse encontro, mas a partir de uma perspectiva em que o personagem principal não é um homem branco, como de costume, mas um indígena, um aborígene.”



 Afinal, quais são os segredos da floresta? Qual foi o papel do índio em meio à sua aculturação? Como ele se colocou perante o homem branco? Como ele defendeu sua terra? Como ele lutou para preservar sua identidade e cultura? Poderia ele ter tido um comportamento menos passivo? O que sentia com relação ao homem da ciência? Estas são  perguntas comuns que surgem durante a projeção deste belíssimo filme.  De certa forma, as atitudes de Karamakate mimetizam as de qualquer outro ser humano: experientes, sábias, passionais, passivas, rebeldes, redentoras, entre outras.  O bem da verdade é que a História sempre guardará seus segredos, resta a nós explorá-la e investigar as perspectivas de todos os lados. Neste filme, o Cinema cumpre este sábio papel e dá voz à América Latina.




Ficha técnica do filme ImdB O abraço da serpente
Distribuição: Esfera filmes
Lançamento no Brasil:  25 de Fevereiro de 2016
Citações entrevistas Ciro Guerra: Uma cortesia Esfera filmes


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As cinco graças (Mustang, 2015) , de Deniz Gamze Ergüven





Indicado a melhor filme estrangeiro no Oscar 2016



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Candidato da França na categoria de melhor filme estrangeiro este ano, "Cinco Graças" (Mustang) é a estreia da diretora turca Deniz Gamze Ergüven em longa-metragem. Em colaboração com a francesa Alice Winocour, ambas responsáveis pelo roteiro, Deniz apresenta uma história libertária de uma juventude feminina Turca que não aceita as amarras impostas por casamentos arranjados e proibições familiares que minam a liberdade no amor, no sexo e nos relacionamentos. Apresentando um elenco de jovens garotas, belas e em fase de desabrochar da identidade e da sexualidade, Deniz dirige um inspirador filme a qualquer mulher.




Deniz Gamze Ergüven e as cinco atrizes que 
representam as irmãs, as "Cinco graças".




Com  variadas premiações internacionais, entre elas a de "Label Europa Cinemas" em Cannes e prêmios de público nos festivais  American Film Institute , Chicago, Sevilla e Valladolid, esta primeira direção de Deniz Gamze Ergüven teve uma boa estratégia para diretores que se lançam no mercado cinematográfico global e têm ganhos de projeção nas mostras. Neste caso, o produtor é o excelente Charles Gilbert que costuma liderar projetos bem sucedidos e/ou de qualidade acima da média. É ele que produziu "Cópia Fiel" de Abbas Kiarostami  e "Acima das Nuvens" de Olivier Assayas, apenas para dar alguns exemplos de como Deniz se associou a um produtor que lhe possibilitou uma boa estreia.







"Cinco Graças" enquadra-se em uma rara categoria de filmes que enfocam a naturalidade do comportamento de jovens mulheres que têm um misto de introspecção, rebeldia e curiosidade e que são barradas pela rigidez familiar e, também, cultural e social. Neste tipo de narrativa, o que torna a história mais intimista é o ambiente criado no seio da família tradicional e com protagonistas irmãs, cada uma com sua personalidade em desenvolvimento e que formam uma irmandade que eleva a força dramatúrgica da voz do Feminino. Desta forma, aqui temos o mesmo caso de "As virgens suicidas" de Sofia Copola, porém com uma abordagem menos depressiva e mais engajada considerando que o contexto é de uma cultura Turca extremamente rígida e machista. A forma com a diretora orquestra os elementos em cena, especialmente a direção das inexperientes atrizes, tem um frescor que bebe na fonte do Cinema independente e é muito bem apoiada pela dupla de diretores de fotografia, David Chizallet ("Alyah") e Ersin Gok, pela montadora Mathilde Van de Moortel ( "Depois de Maio", "Frango com ameixas" e "As mulheres do sexto andar") e pela música de Warren Ellis (banda Nick Cave and the bad seeds). Em alguns momentos, esta combinação de elementos chega a ser bem sensorial e inspirar esta liberdade acima das convenções.







De maneira geral, a execução de "Cinco Graças" é bastante equilibrada. Ele não leva o status de obra prima e restringe-se, muito sabiamente, a entregar uma história envolvente com atrizes não profissionais e talentosas o suficiente para demonstrar espontaneidade nas atitudes e ações. Nisto está sua eficiência, sua voz universal. Desta forma, a principal virtude deste belo filme é ser simples, sensível e despertar a empatia pelas garotas. Em diversos momentos, as jovens são proibidas de fazer as coisas de que gostam e quanto mais são oprimidas e forçadas a ficar enclausuradas, mais o público poderá ficar sensibilizado e achar tudo aquilo um absurdo (porém, por incrível que pareça, existe e é uma dura realidade). Imagine uma jovem ser proibida de sair de casa e, qualquer tentativa de socialização com garotos, por exemplo, ser encarado como uma afronta a familiares e vizinhos? O alto nível de opressão é demonstrado através de sutilezas e não sutilezas e isso é bem favorável para fazer valer esta proposta narrativa.







A boa execução é bem facilitada por um excelente roteiro que não despreza a importância do papel de cada irmã. Cada uma delas tem sua própria história e seu jeito de ser e é exatamente este outro aspecto que também valoriza a história e seu efeito emocional. Com isso, é possível observar qual é a luta de cada jovem, ainda que todas elas sejam colocadas em situações constrangedoras que impõem casamentos arranjados, atividades domésticas, clausura e proibições a lazer e educação, entre outras, cada irmã traz uma característica pessoal, seja a que está apaixonada por um vizinho, seja a que não aceitará um casamento arranjado e está disposta ao autosacrifício. Daí surge a beleza da irmandade em uma cultura rígida como esta, a de que, cada irmã tem a sua identidade e, mesmo assim, estão todas no mesmo barco diante da opressão contra a mulher. Suas dramáticas e individuais histórias contribuem para um propósito libertário muito maior pois cada uma é e tem uma graça, cada uma encanta em sua própria dor. Assim, há sempre uma esperança neste universo feminino inspirador e ela tem destaque em Lale (Günes Sensoy), a caçula, afinal, são as gerações cada vez mais jovens que podem mudar algo no mundo. Aqui não seria diferente.





Estreia no Brasil: 18 de Fevereiro de 2016
Distribuição: Pandora filmes

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O quarto de Jack (Room, 2015), de Lenny Abrahamson





Indicado a melhor filme no Oscar 2016



Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



Por mais doloroso que seja um impactante drama no Cinema, ele é mais fácil de ser compreendido quando enxergamos o mundo pelos olhos de uma criança. Ela consegue desenvolver uma empatia naturalmente em qualquer história, principalmente quando ela é inteligente, espontânea, sensível e inocente. É possível colocar-se em seu lugar e imaginar o que ela poderia pensar e sentir em um mundo real, mergulhada em seus pensamentos lúdicos e ingênuos, mas também atentos e surpreendentes. Isso é o que ocorre em “O quarto de Jack” (Room), um dos indicados a melhor filme no Oscar 2016 e com direção de Lenny Abrahamson, que tem como protagonista o talento nato Jacob Tremblay (Jack). Ao lado da vencedora do Globo de Ouro e do BAFTA 2016, Brie Larson, Tremblay realiza uma impressionante e madura atuação para sua idade.





Baseada no Best seller “Room” da escritora e roteirista Emma Donoghue, o longa conta a história de Jack, um menino de 5 anos que vive em um quarto de 10 m2 com a mãe (Larson). Desde que nasceu ele nunca viu o mundo lá fora. Vivem como prisioneiros, com poucos recursos financeiros e em um espaço sem janelas. Com este confinamento, o garoto aprendeu a ser bastante imaginativo e a criar seu próprio mundo. Como toda criança, ele chega a um ciclo de mudanças e fica cada vez mais curioso. Paralelamente, sua mãe toma uma decisão: elaborar um plano de fuga.







Falar muito sobre “O quarto de Jack” é retirar-lhe a magia e os grandes momentos de Jacob Tremblay e Brie Larson. O diferencial da história são as atuações e o que está por trás de cada palavra, silêncio, expressão. São eles que dão uma força dramatúrgica comovente a este drama simples e incomum. A relação é bonita e sincera entre eles e há uma química raramente vista nos filmes do gênero, muito em virtude de que ambos tiveram esta combinação única em cena.  Tremblay é muito natural nas expressões físicas e, até mesmo nas cenas mais desafiadoras, ele não é caricato. Tem carisma e simplicidade,  um jeito acessível, uma  inocência no olhar e na ação. Por outro lado, Brie Larson entrega um desempenho excepcional e é o contraponto de Jack não apenas por ser uma personagem adulta, mas também mais crua, sofrida, traumatizada, visualmente transtornada e abatida psicologicamente. Apesar disso, entre picos de rebeldia, vulnerabilidade e afetos  de ambos, Jack e sua mãe é uma equipe. Só têm um ao outro naquele decadente e claustrofóbico quarto. Esta relação ganha uma dimensão bastante afetuosa na tela, o que enriquece a proposta narrativa.





A história é muito interessante e atraente para um roteiro de Cinema. Embora não seja uma história rara, existe um toque original no roteiro, especialmente quando explora a narração em off de Jack e possibilita ao público compreendê-lo e imaginar como seria uma situação destas com uma pessoa que conhecemos. Além do mais, a mais degustativa experiência com o filme é como as pessoas reagem diante do desconhecido, de outros problemas que surgem quando outros se resolvem.  O drama da mãe e do filho é tratado sem alvoroço e com muita naturalidade, o que representa um excelente acerto. Também, a narrativa caracteriza-se como Cinema independente, da concepção do roteiro até o trabalho de movimentação de câmera, logo, não criará diversas situações tradicionais de dramas familiares. As que foram selecionadas, são críveis e tem um significado para o sofrimento e traumas desta família. Em uma das mais belas cenas, a mãe de Jack mostra ao filho uma foto na época que ela era adolescente. A intenção daquela cena é extremamente dolorosa quando pensamos em amigos, por onde eles andam e se lembram realmente de nós.





Abrahamson faz um bom trabalho de direção de atores, assim o drama está concorrendo nas categorias Melhor filme, melhor direção, melhor atriz e melhor roteiro adaptado no Oscar 2016. Certamente, Brie Larson vai ganhar este prêmio. Ela realiza um trabalho que toda a atriz deveria fazer: ela é muito real na personagem. Muito! Falha, perturbada, estranha, traumatizada como boa parte das pessoas que, em algum momento da vida, sofreram males que não podem ser esquecidos e com os quais têm que conviver. Por outro lado, há bastante humanidade nesta mãe.  Ela não é perfeita e ela fez de tudo pelo filho. Abriu mão de pensamentos destrutivos para proteger Jack quando, na verdade, sua história é muito triste.


Com fortes concorrentes no Oscar como “Perdido em Marte” e “A grande Aposta”, este roteiro não é sua fortaleza porque em certo ponto, a reviravolta foi tratada de forma fácil, simplista, o que soa como fictício demais para o realismo das atuações, entretanto isso não chega a afetar a competência do filme como drama. É um filme belíssimo e uma história que permanece na mente por dias, exatamente por causa das atuações incríveis de Tremblay e Larson.