quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

MaDame Retrospectiva : 20 filmes surpreendentes - 2015

MaDame Retrospectiva 
por Cristiane Costa



Esta seleção de filmes surpreendentes é aquela caixinha de surpresas que quando abrimos, somos impactados por admirável beleza e não esperávamos que ia ser tão incrível. Simplesmente magníficos e gratas surpresas!

A maioria são filmes do circuito mais independente de cinema e engloba várias cinematografias espalhadas pelo mundo; alguns de diretores já consagrados, outros que estão em desenvolvimento de suas filmografias.  

É uma lista muito especial e que salta aos  olhos e bate forte no coração, pois são filmes altamente recomendados pelo MaDame Lumière para ser vistos e revistos. É como uma seleção de luxo! Também, ela foi elaborada como fruto de uma experiência muito positiva com estas histórias e, principalmente, com a direção. São como joias raras refinadas por uma excelente combinação de argumento, roteiro, direção, atuações, montagem e fotografia. 

Espero que curtam, apreciem e explorem continuamente o bom cinema estrangeiro!  2015 foi um ano muito feliz, foi um ano de filmes fascinantes!




20. O desejo da minha alma, de Masakazu Sugita

" Filme comovente através de sutilezas que interagem de uma forma coesa, sensível e realista. Traz elementos que fazem parte da história do Japão e, também, entrega uma história universal, que pode caber na vida de pessoas que vivenciaram ou acompanharam tragédias familiares ou perdas abruptas de entes queridos."



19. Uma segunda chance , de Susanne Bier

"são situações incontroláveis que envolvem as pessoas em um provável caminho sem volta mas, ainda assim, é possível acreditar em alguma redenção ou desfecho menos traumático."



18. Tristeza e alegria, de Nils Malmros

" O drama do transtorno bipolar em um filme doloroso que preza por uma excelente qualidade de direção e atuação. Se diferencia por mostrar, de forma realista, que há familiares que deixam as pessoas que têm transtornos ainda mais doentes e ainda não sabem compreendê-los."



17. Party Girl, de Marie Amachoukeli, Claire Burger , Samuel Theis


"Angélique é uma destas pessoas de carne, osso e coração, uma personagem intensa e exuberante, mas também, carregada de falhas, inseguranças e dúvidas comuns em nossa vulnerável humanidade. É impossível não se identificar com ela, ou pelo menos, compreender seus sentimentos e atitudes."



16. Leviatã, de Andrey Zvyagintsev

"O impacto da corrupção desmedida que pouco a pouco destrói a humanidade em um filme que joga um homem comum e simples em uma espiral bem pessimista e de decadência."



15. Timbuktu, de Abderrahmane Sissako

"Uma realidade cruel e conflituosa em uma região de jihadistas que não medem limites para subjugar os habitantes locais, com destaque para a fluidez narrativa, o lúcido olhar do diretor para explorar emoções e técnica da cinematografia."



14. Numa escola de Havana, de Ernesto Daranas

" A atuação humanista de Alina Rodriguez como a professora Carmela é um legado cinematográfico para a educação. Mesmo após sua morte em 2015, ela é eterna e inesquecível neste belo filme. A história aborda a educação através da vocação, do amor e da esperança, valoriza professores e alunos e a importância desta essencial relação para a cidadania e o desenvolvimento escolar e pessoal."



13. O clã, de Pablo Trapero

"É a gênese da maldade dentro de uma família, na qual fingem que um sequestro é apenas uma coisa natural, necessária e justificável. É exatamente esses comportamentos que mais chocam na história, é essa natureza cruel que é assustadora por excelência e está no seio das tradicionais instituições."



12. O Clube, de Pablo Larraín

"Em constante clima obscuro e instigante, todos estes personagens são estranhos e duvidosos e isso faz parte do grande acerto do longa.  A todo o momento, a narrativa dá a impressão de que algo muito ruim e assustador irá acontecer com todos eles, assim, o clímax é um soco no estômago."



11. Norte - o fim da história, de Lav Diaz

"Belíssima história que une violentos retratos da violência local com a poesia, a descoberta e a redenção de ser humano. Cinema em estado puro!"



10. Terra e sombra, de Cesar Acevedo

" O retorno de um pai de família, uma nova realidade cheia de emoções em um ambiente desolado, de doença e perdas mas, acima de tudo, um filme de grandeza ímpar e com o toque de Midas do cinema Latino Americano contemporâneo."



9. O Sabor da vida , de Naomi Kawase

"o longa é feito de sutilezas que guardam em si um poderoso desafio: como lidar com os obstáculos da vida? Como manter esta energia positiva de doar-se com amor e dedicação ao outro ou a uma atividade como fazer uma deliciosa comida? Tokue é a heroína da história e da vida. Ela é uma inspiração para qualquer um que deseja desistir, que está cansado de ser rejeitado, que está vulnerável e sofre com a solidão e o desespero."




8. Retorno à Itaca, de Laurent Cantet

"O longa é um precioso achado que entrelaça como as individualidades e a história política e social de Cuba se aproximam e se rechaçam, porém não é um filme político e está longe de levantar bandeiras. Acima de tudo, esse filme é muito pessoal sob a perspectiva de que a desilusão é evidente e os rumos dos amigos foram diferentes. Eles seguiram vivendo com as dores e os amores de estar em Cuba ou estar em um exílio."



7. A lição, de Kristina Grozeva

"A sinergia entre o roteiro , que propõe uma luta contra o relógio na jornada da heroina e uma direção  competente para delinear na construção narrativa os efeitos de tensão do drama são os maiores acertos, além da madura interpretação de Margita Gosheva e de um final "tapa na cara" e bastante irônico."



6. A ilha dos milharais, de George Ovashvili

"Essa metáfora da construção de um lar por um velho e uma jovem nessa região é genial e coopera para refletir sobre a transitoriedade das coisas, dos direitos à terra e finalmente sobre o ciclo da vida."



5. A ovelha negra , de Grímur Hákonarson

"Uma comédia dramática  islandesa  que conta uma história familiar muito engraçada, misturando conflitos mal resolvidos, ambição e perdas e dirigida com simplicidade e frescor. Imperdível!" 



4. Phoenix , de Christian Petzold

"O retorno do grande diretor Petzold com sua estrela cinematográfica maior, a atriz Nina Hoss. Uma magnífica combinação de identidade pós guerra, um drama pessoal , uma história de amor e a reconstrução da Alemanha em um filme refinado e com atmosfera pós noir."



3. Quando meus pais não estão em casa, de Anthony Chen

" Uma genuína, simples e linda história sobre a amizade além da instituição familiar e  em um contexto de decadência  da classe média asiática que, pode ser aplicada universalmente em outras realidades globais. Belíssima direção, digna da Câmera de D'Or de Cannes."




2. De cabeça erguida, de Emmanuelle Bercot

"Um dramático e realista retrato de uma infância e adolescência disfuncionais através de atuações críveis e uma direção vigorosa. Um filme onde a dor de uma juventude problemática se une à esperança de dias melhores."





1. Winter sleep, de Nuri Bilge Ceylan

"Com um fascinante texto e uma duração de mais de 3 horas que passam desapercebidas, o  longa é um primor do começo ao fim com ápices narrativos de dolorosa catarse a qualquer individuo que se entregar ao poderoso efeito dessa obra prima do Cinema Turco."

MaDame Retrospectiva : 10 filmes decepcionantes - 2015

MaDame Retrospectiva 
por Cristiane Costa



Para começar a Retrospectiva do MaDame, framboesas serão distribuídas para começar a alegrar a festa de Ano Novo. Em 2015, conhecemos mais filmes bons do que ruins, ainda assim, vários deles apresentaram uma preguiça infindável na elaboração do roteiro e na direção. 

Filmes decepcionantes têm um detalhe a mais do que ser meramente mal executados e aquém do esperado, eles poderiam ter sido bem melhores, seja pelo elenco, proposta,  franquia,  popularidade, divulgação, entre outros, mas jogaram a oportunidade fora e, portanto, tornam-se muito mais frustrantes. Certamente, existiram filmes piores do que estes, no entanto, esta seleção preza pelo sentimento de decepção que os filmes provocaram.



10. 007 Spectre, de Sam Mendes

"As referências clássicas de 007 estão no filme com a roupagem do cinema blockbuster contemporâneo, mas ele foi executado friamente por Sam Mendes, com um roteiro preguiçoso, um clímax desinteressante, um vilão mal desenvolvido e sem aproveitar a força afetiva  de seu potencial. Poderosa franquia, marketing e o grande diretor não trouxeram diferencial a Spectre"




9. Love , de Gaspar Noel

"Após todo o barulho causado por Love e seu provocativo diretor, esta narrativa é um desperdício que nem mesmo as cenas de sexo e a fotografia o salvam. A intenção é muito boa sob a perspectiva de relacionamentos intensos, vivenciados com paixão, desejo e uma contínua sensação de incompletude e vazio, mas Noé se preocupou apenas em explorar o sexo pelo sexo, de maneira exaustiva, e esqueceu de contar melhor a história."




 8. Jogos vorazes - A esperança 2, de Francis Lawrence

" Uma excelente distopia que, no seu filme final, decidiram ligá-la no piloto automático. Mesmo em um contexto de guerra que, em teoria, deveria ser estratégico, ativo e inteligente, o ritmo do longa  e o roteiro preguiçoso transmitem uma sensação de que nada realmente interessante está acontecendo para o gran finale.  Nem Katniss consegue fazer o filme vibrar e fechar com maestria."



7. Olhos da justiça, de Billy Ray

"Reinterpretações de grandes obras são bem vindas contanto que façam a diferença. Não é o que aconteceu com o remake americano da obra prima Argentina "El secreto de sus ojos" (2009) que, com poucas alterações, entrega um suspense frágil com problemas de edição na transição entre flashbacks e sem  estabelecer um bom roteiro para explorar o talento do trio de astros presentes no elenco. Um remake desnecessário e, o pior é que contou com a consultoria de Campanella e Sacheri que, pelo jeito, não conseguiram fazer milagres."




6. Peter Pan, de Joe Wright

" O que esperar de Joe Wright,  um excelente cineasta e que dirigiu uma obra prima como "Desejo e reparação"? Um filmaço! Não é o que acontece aqui. Ainda que Peter Pan seja um clássico adorável e, nesta revisitação, seja interpretado pelo belo ator mirim Levi Miller, o roteiro é muito irregular e não apresenta uma grande e significativa aventura. O vilão, interpretado por Hugh Jackman, não é bem desenvolvido e a execução se preocupou apenas com efeitos especiais modernos. A magia ficou em segundo plano!"



5. Exterminador do futuro - Gênesis,  de Alan Taylor


"Quando pensamos que uma clássica franquia como "Terminator" pode surpreender como um dos seus excelentes antecessores, Terminador 2 de 1991 e fazer bonito como fez "Mad Max : Estrada da Fúria", eis que surge um novo mico cinematográfico. Gênesis quis inovar e trazer fôlego moderno e homenagem à franquia, porém, aspectos básicos foram negligenciados como desenvolver melhor os textos de novos atores como Emilia Clarke (de Game of Thrones) e Jai Courtney (da série Divergente) e seus conflitos na história. Outra decepção do ano que nem  Schwarzenegger conseguiu salvar."




4. Maze Runner: Prova de Fogo

"A espera por este filme foi grande e  há a aceitação de que a franquia "Maze Runner" é um best seller sobre uma distopia pós apocalíptica com forte potencial cinematográfico , entretanto, a execução ressaltou apenas a ação, principalmente a de correr, correr e correr e esqueceu do desenvolvimento da história, principalmente dos personagens e suas interações ambíguas e antagônicas. O resultado é um filme vazio no qual o público passará boa parte do tempo vendo um grupo de jovens correr de um lado para o outro e tentar sobreviver."




3. O que as mulheres querem, de Audrey Dana

"O Cinema Francês atual tem enfocado em várias produções mais comerciais com valorização da comédia e abordagem de temas contemporâneos, "O que as mulheres querem" faz parte desta onda e deixou bastante a desejar. Reuniu um elenco grande de mulheres, dirigido por uma mulher e foi incapaz de elaborar uma boa história para falar espontaneamente e verdadeiramente com as mulheres. São quase 2 horas de projeção e nenhuma história efetivamente transformadora, inspiradora. Mulheres inteligentes merecem mais do que este filme apresenta."



2. Sob o mesmo céu, de Cameron Crowe

"Três belos, talentosos e queridos atores: Bradley Cooper, Emma Stone e Rachel McAdams, um bom diretor e um filme insuportável. Com muita determinação, é possível terminar de assistir "Sob o mesmo céu". Uma história que não evolui bem e não desperta curiosidade, personagens chatos e mal desenvolvidos e um texto ruim resultam em um filme com investimento e tempo desperdiçados."



1. Cinquenta tons de cinza, de Sam Taylor - Johnson


"Este é um filme muito ruim que só reforça sua mistura de conto de fadas moderno (para mulheres ingênuas, é claro!) com masturbação mental pseudo sadomasoquista e um desperdício de dinheiro que poderia ter sido melhor aproveitado em outros filmes ou uma melhor execução. É o tipo de produção que trata a mulher como objeto sexual e como burra, e não traz prazer erótico , muito menos prazer intelectual. Na sua essência, reforça um péssimo tratamento aos sentimentos e valor da mulher. Nem mesmo as escolhas de elenco com dois belos atores, ambiente requintado e asséptico e a sacanagem implícita conseguem salvar o longa. O resultado é uma comédia ridícula e o mico cinematográfico de 2015!"


sábado, 26 de dezembro de 2015

Olhos da Justiça (Secret in Their Eyes - 2015), de Billy Ray







Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 


Após a ocorrência do brutal assassinato de uma adolescente e anos de impunidade para o assassino, os investigadores Ray Kasten (Chiwetel Ejiofor) e Jess Cooper (Julia Roberts) voltam a se encontrar, revivem as dolorosas memórias e o desejo de justiça.




Remake americano da obra prima cinematográfica Argentina "O segredo de seus olhos", "Olhos da justiça" é um filme que não deu muito certo e não trouxe qualquer vigor e renovação à história. Na tentativa de não criar uma cópia mal feita do original, o roteiro do diretor Billy Ray alterou levemente a história. Incluiu uma relação de amizade entre dois investigadores, a localidade em Los Angeles e com agentes do FBI, comum em filmes policiais americanos, e uma conexão familiar e emocional entre a  jovem assassinada e um dos investigadores. Ele também manteve os dois recortes cronológicos, o da época do assassinato da jovem e, após 13 anos, o retorno de Ray, seu reencontro com sua amiga Jess e os sentimentos que ele ainda tem por Claire (Nicole Kidman).





Apesar destes esforços, a todo o momento, o longa continua parecendo uma cópia mal feita que, claramente, não quer imitar a obra original, mas que não assume um protagonismo como um crível remake Hollywoodiano. Faltou um pouco mais de personalidade ao filme. Um exemplo claro de uma execução superficial é ter colocado 3 talentosos atores no centro da trama e não aproveitar seus potenciais. Roberts, Kidman e Ejiofor  não conseguem atuar de uma forma mais espontânea porque o texto também não lhes dá tanta liberdade; como pode-se verificar na relação romântica entre Ray e Claire , que não têm muita química e aquela tensão sentimental que havia entre Ricardo Darín e Solledad Villamil, onde os olhares intensos e afetuosos denunciavam um amor inesquecível e inabalável ao tempo. Além disso, outros elementos da linguagem cinematográfica como construção dos planos, uso de trilha sonora, som, fotografia etc não tiveram uma intensa força narrativa para melhorar a qualidade do resultado final ou equipará-lo a magnitude do seu antecessor. É um filme quase ligado no piloto automático e que se sustenta através de seus astros.







"Olhos da justiça" também apresenta um problema de roteiro, no qual a relação entre os personagens não é bem construída e coesa, o que acaba deixando a desejar até que ponto estes personagens têm um verdadeiro e forte passado que os une. Na execução, esse gap fica mais evidente à medida que o clímax se aproxima e a relação entre o presente e os flashbacks é confusa. Também, a direção de Billy Ray se esforça em realizar algumas cenas de thriller mais elaboradas, como a entrada de Julia Roberts no elevador onde está o assassino e o desfecho na casa de campo, ou a  clássica cena da perseguição no estádio de futebol, entretanto, a narrativa é bem irregular e pouco convincente. Faltou-lhe um toque maior de emoção para despertar mais empatia no público. Nem as caras e bocas de Julia Roberts não foram suficientes para demonstrar sentimentos naturalmente dolorosos.







Ainda que o filme contou com a consultoria do diretor José Juan Campanella e do roteirista Eduardo Sacheri, a dupla do imbatível original Argentino, "Olhos da justiça" pecou mesmo em não ter tido personalidade própria. Careceu de maior substância narrativa para estabelecer o thriller, além disso a edição não foi bem executada e apresentou lacunas na transição dos flashbacks, o que impactou a fluidez e coesão da narrativa. No geral, só vale a pena ser visto por causa dos experientes atores e para perceber como algumas obras são únicas e não precisam de remakes.






Ficha técnica do filme ImDB Olhos da justiça
Distribuição: Diamond filmes
Editora: Cristiane Costa aka MaDame Lumière
Lançamento no Brasil: 10 de Dezembro de 2015
Fotos: Uma cortesia filme "Olhos da justiça"

Rapidinhas no MaDame: De volta ao jogo (John Wick - 2014), de Chad Stahelski

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia




Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 





Sobre a história:  John Wick (Keanu Reeves) é um matador profissional  que enterra seu passado como letal arma humana após conhecer Helen (Bridget Moynahan), sua esposa e grande amor de sua vida. Com a doença e consequente morte de Helen, ele se apega à sua lembrança e último presente. Neste vulnerável momento, John é incomodado e se enfurece após um acontecimento dramático que envolve Iosef, o mimado filho do mafioso Viggo Tarasov (Michael Nyqvist).  Agora ninguém pode parar John, ele está determinado a se vingar. 


Opinião Geral sobre o filme:   Keanu Reeves sempre foi um ótimo ator de ação, habilidoso em coreografar lutas físicas sem perder o charme e estiloso. Em "De volta ao jogo", ele realmente voltou ao jogo e está em excelente forma , tanto na atuação como no vigor em cena. John Wick é um personagem solitário e em momento de crise, no qual perde a esposa e, como todo o momento de perda, está sensível. Basta apenas um acontecimento , aparentemente tolo, mas de grande impacto emocional, para ele se transformar em uma máquina de guerra, disposto a derrubar qualquer um que se coloca em sua frente. Assim é John Wick, um Keanu Reeves que renasce das cinzas como uma Fênix vingativa e que presenteia o público com excelentes momentos de ação. 
A história não se ocupa em criar um complexa trama de suspense e ação, pelo contrário, é bem modesta na proposta, entretanto , o que torna "John Wick" um espetáculo de entretenimento é exatamente como a direção explora a performance de Keanu Reeves. Stahelski trabalha bem as cenas de ação, potencializando a fúria e a intensidade de um justiceiro que volta a matar, agora, motivado por uma questão bem pessoal.


O desprazer:  os vilões não são bem desenvolvidos. No geral, são patéticos, principalmente Alfie Allen como Iosef. Também a participação de  Willem Dafoe como Marcus é bem pequena e poderia ter sido melhor explorada.


Por que vale a rapidinha?  Keanu Reeves. Estilo e competência na ação não lhe falta.





Ficha técnica do filme ImDB John Wick

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Rapidinhas no MaDame: Victor Frankstein (2015), de Paul McGuigan

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia




Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Sobre a história:  Nesta mais nova filmagem envolvendo o clássico de Mary Shelley, Victor Frankstein (James McVoy) é um cientista radical dominado pela ideia de imortalidade e investe pesadamente seu tempo e esforços em pesquisas para transformar o que é morto em vivo. Ao encontrar um jovem e brilhante médico, Igor Strausman (Daniel Radcliffe), e tomá-lo como protegido, Victor Frankstein está determinado a dedicar-se à sua obsessão, nem que para isso, corra o perigo de criar um monstro poderoso e seja perseguido pelo religioso inspetor Turpin (Andrew Scott).



Opinião Geral sobre o filme:   Ainda que conte com a experiência de McVoy, intenso na interpretação e experiente em filmes de época e de ficção científica, e ofereça a Radcliffe a possibilidade de oxigenar a sua carreira, Victor Frankstein é um filme sem muita personalidade com relação às referências clássicas da atemporal obra de Mary Shelley. Não existe um clima de horror continuamente iminente a ser produzido na tela e criar impactos dramáticos nas sequências. O roteirista Max Landis, ainda jovem e moderninho, não demonstrou muita base literária para adaptar a magnitude da obra. Na tentativa de reinventar a história de uma forma contemporânea, o roteiro não desenvolve bem os personagens e investe mais em efeitos visuais e na desesperada atitude do cientista que, de tão insano, basta-lhe somente dar vida ao monstro. Por mais que McVoy seja um ótimo ator,  o roteiro não possibilita que ele aprofunde Victor Frankstein, logo as suas atitudes do personagem são bastante superficiais, pouco racionais e sábias e existe um tom de overreacting.


O desprazer:   História rasa que não potencializa o efeito dramático e narrativo da grande obra que lhe serviu de inspiração. Como o diretor Paul McGuigan funciona apenas para filmes sob encomenda, ele não acrescentou nada de diferencial à direção.


Por que vale a rapidinha?  Se gosta dos atores, veja apenas por causa deles, principalmente por Radcliffe, que tem se esforçado nos projetos.





Ficha técnica do filme ImDB Victor Frankstein

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Clã (El Clan / The Clan - 2015), de Pablo Trapero




"O contexto diz muito sobre o que está acontecendo na intimidade desta família"
(Pablo Trapero)


Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 




Este ano, o Cinema Latino Americano se destacou por apresentar três dramas contundentes nos quais prevaleceu a maestria de uma essencial combinação:  a produção e a direção que, em uma parceria marcada por projetos realistas e provocativos e um estilo singular de fazer Cinema, trabalharam para entregar filmes de evidentes diferencial e qualidade, entre eles: "O Clube", do chileno Pablo Larraín e com produção de Juan de Díos Larraín ("No"), "Desde Allá", do Venezuelano Lorenzo Vigas e com produtores como Guillermo Arriaga ("Amores brutos", "21 gramas") e Michel Franco ("Depois de Lucia") e, finalmente, o mais recente lançamento, "O clã", do argentino Pablo Trapero, com produção de Pedro e Agustín Almodóvar. Neste excelente contexto para a América Latina, convém também parabenizar a Colômbia por colocar "O abraço da serpente" entre os 9 finalistas da short list para a categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar 2016.




O Clã, sucesso de bilheteria na Argentina e foi o candidato da Argentina 
na corrida por uma das vagas como melhor filme estrangeiro - Oscar 2016


Baseado na biografia da Família Puccio que, nos tempos da Ditadura, no decorrer dos anos 80, começou a sequestrar, torturar e matar pessoas na Argentina, a narrativa enfoca o líder da família e principal protagonista, Arquímedes Puccio (Guillermo Francella) que, a pulso firme, era o mentor de todos os crimes e demonstrava um comportamento extremamente frio, calculista e sádico. Sem qualquer sinal de arrependimento e piedade, ele conduzia o filho Alejandro (Peter Lanzani) como cúmplice dos sequestros e outros capangas. O jovem Puccio, dividido entre o sonho de prosperar no esporte e ter dinheiro para realizar seus projetos, perde a autonomia sob a própria vida e passa a participar dos crimes. Assim, por trás de uma família tradicional Argentina, o roteiro demonstra uma trama de autoritarismo na instituição do lar que mescla interesses políticos e uma chocante corrupção e violência dos envolvidos, com destaque para a excelente performance de Francella, um dos melhores atores do Cinema Argentino, que entrega a impactante figura de um fascista atemporal que está disfarçado de homem comum.




O magnífico ator Guillermo Francella como Arquímedes Puccio: 
um pai cruel que não aprendeu e não quis ser diferente


Além do fenomenal  Francella e um drama violento de primeira linha, O clã é um primor na direção de Trapero. É ela que dá muito prazer cinéfilo ao observar a linguagem cinematográfica e  faz bastante diferença no resultado final. Isso explica porque ele ganhou o Leão de Prata no Festival de Veneza de 2015 como melhor diretor.  Seguramente, a orquestração plano a plano do cineasta está no topo das virtudes do longa, muito bem apoiada pela fotografia de Julián Apezteguia. É uma direção bem articulada entre a intenção do diretor sob a perspectiva dramática, emocional, mas também, ele explora a mise en scène com movimentação de câmera e enquadramentos diferenciados e que fogem do lugar comum; desde uma das cenas com automóvel, quando ocorre uma situação crítica e inesperada durante um sequestro, Trapero combina uma variedade de elementos em cena que causam um impacto visual e dão um toque de profissionalismo ímpar.  Nesse ponto, é perceptível como uma direção engenhosa consegue dar um toque de frescor e estilo aguçado a qualquer cena e/ou sequência. 



Os fascistas também oram. 
Qualquer semelhança com alguns políticos do Brasil não será uma mera coincidência.


Tão igualmente interessante é perceber que uma direção sem desenvolvimento das personagens não é uma direção completa. Felizmente, Trapero entrega uma bem executada em toda a totalidade. O cineasta não se preocupa apenas com  a engenhosidade audiovisual, meramente técnica, realista e objetiva. Pelo contrário, o filme é um festival de emoções, em especial na relação entre Arquímedes e Alejandro, ambos com uma sinergia impressionante como pai e filho e, em como a família Puccio é envolta em uma casca de negação como se não estivesse cometendo nenhum crime. É a gênese da maldade dentro de uma família, na qual fingem que um sequestro é apenas uma coisa natural, necessária e justificável. É exatamente esses comportamentos que mais chocam na história, é essa natureza cruel que é assustadora por excelência e está no seio das tradicionais instituições.




O talentoso Peter Lanzani: um jovem com sonhos, 
entre a ambição, a violência e o autoritarismo de um pai doenio



Embora ninguém pode obrigar o outro a sequestrar, torturar e matar, para analisar melhor os aspectos biográficos e individuais do desenvolvimento dramatúrgico do roteiro, é essencial observar o personagem  Alejandro. Nota-se que a situação de um filho mais velho é relevante nesta história. Ele quer ser admirado pelos  irmãos e irmãs, amigos, namorada e fãs, ser empreendedor, dono do próprio dinheiro e apoiar a família, mas tem como desafio incontrolável ser o filho de um fascista e lidar com um modelo masculino de conduta que o leva para o "lado negro da força". Alejandro  convive em um clima de aprisionamento individual, dividido entre o ético e a violência no lar. Em muitos momentos será uma pessoa sem personalidade, medrosa, acomodada e ficará pequeno  diante de Arquímedes. Nem mesmo sua vida social de aparências nas festinhas e jogos e o desabrochar de um romance parecem tirá-lo das rédeas do autoritário pai. É uma situação bastante conflituosa e, portanto, rica para o desenvolvimento da história. Todos os filhos, por mais ruim que um pai ou uma mãe seja, querem ser amados por seus pais. Essa passividade de Alejandro é bem dolorosa e realista.






Em um dos poucos momentos de afeto, Arquímedes é um pai cruel para o qual a família é prioridade,  porém, apenas se as coisas forem feitas do seu jeito



Arquímedes é a força do mal em pessoa. Lembrar dele é lembrar de filmes que intensificam a gênese do mal como "A onda", "A fita branca" ou qualquer outro com personagens fascistas. A excelente atuação de Francella coopera para que o público veja a crueldade humana.  Sem muitas manifestações de afeto, salvo pelos filhos e à sua maneira, ele dedica-se a elaborar os sequestros e mantê-los sob controle. Para ele, isso chega a ser um prazer, um ofício sério que requer disciplina, um ritual que preza pela perfeição , por mais louco que pareça. No entanto, na maior parte da projeção, o filme deixa para o público julgar ou não este pai, por que, por mais cruel que a história seja, ele é um pai tradicional, um homem que poderia ter tido o livre arbítrio de escolher outro caminho, um general do lar que valoriza a família dentro dos moldes de pensamento que ele cultiva. Ele é um pai que cresceu com a ditadura Argentina, ou seja, ele teve maus exemplos na História do país assim como também há péssimos exemplos na trajetória do Brasil. Ele não tem nada de bom a ensinar aos filhos e é o produto ruim de sua geração. Analisar este pai em um contexto de ditadura e de troca de favores entre pessoas influentes, de silêncio de vizinhos, jornalistas e políticos é entender parte considerável do drama. É compreender que ele não é o único réu da história.


Especificamente em "O clã", Trapero faz uma homenagem para as famílias das vítimas, assim a narrativa está além do drama no seio familiar e ganha uma dimensão universal. Com essa forma excepcional de recriar boas histórias, o Cinema Argentino demonstra mais uma vez o fôlego para produzir filmes que resgatam a essência de muitos aspectos históricos do país e, com isso, fomentam o fundamental: um cinema contemporâneo alinhado ao melhor da cinematografia mundial e com dramas coletivos e individuais de intensa força dramática. 





Ficha técnica do filme ImdB O Clã
Lançamento nacional: 10/12/2015
Editora: Cristiane Costa aka MaDame Lumière
Fotos: uma cortesia El Clan, el filme



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

As Sufragistas ( Suffragette) - 2015, de Sarah Gravon


“Todos temos de nos unir uns pelos outros” (Meryl Streep)




Por Cristiane Costa, Owner, Editora e Crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação Empresarial 



12 de Dezembro de 2015 é uma data de conquista para eleitoras e candidatas às eleições em um dos países mais tradicionais do mundo: A Arábia Saudita. Pela primeira vez na história do país, as mulheres conquistaram o direito ao voto e aos cargos elegidos por ele. Uma tímida conquista em comparação às realizações de anos de luta das mulheres pelo protagonismo em diversas áreas do conhecimento e da sociedade em geral, entretanto, um grande passo para ter direitos essenciais ao exercício da cidadania e uma evolução na igualdade do gênero em uma pátria que pouco lhes dá voz.






Se a Arábia Saudita apenas cedeu o direito ao voto às mulheres em pleno século XXI, na Inglaterra, entre o final do século XIX e início do XX, “As Sufragistas”, um grupo de mulheres se colocou diante da autoridade presunçosa e machista da época e lutou pelo direito ao voto. Resistindo à opressão e a humilhação, principalmente, as vindas de homens poderosos como políticos e juízes, da polícia, de empregadores e, até mesmo, de seus maridos, As Sufragistas se rebelavam de forma passiva contra um amplo sistema misógino que tinha como objetivo calar a voz da liberdade feminina.



Inspirado por esse movimento, a roteirista Abi Morgan (de “A Dama de Ferro”) e a diretora Sarah Gavron (ganhadora do BAFTA) encabeçam a liderança do drama “As Sufragistas” (Suffragette), estrelado por um elenco grandiosamente feminino e formado por atrizes fantásticas como Carey Mulligan, Helena Bonham Carter e Anne-Marie Duff, além de uma participação especial de Meryl Streep e de experientes atores como Brendan Gleeson e Ben Whishaw. Na história, Maud Watts (Mulligan) trabalha em uma lavanderia em péssimas condições de trabalho desde a infância. Após testemunhar uma jovem colega como vítima de assédio pelo chefe e reconhecer uma colega como manifestante das Sufragistas, Maud decide unir-se à causa e tem uma reviravolta em sua vida, afetando diretamente seu casamento com Sonny Watts (Whishaw) e a convivência com o seu filho pequeno. Muito além da causa coletiva, o longa-metragem toca em questões como a liberdade de escolha e as renúncias que mulheres têm feito em suas trajetórias pessoais para ter dignidade e novas conquistas.







“As Sufragistas” é uma produção que chegou em uma boa hora. Não apenas pelo momento de eleições na Arábia Saudita, um país que tem calado muitas mulheres com uma política extremista que não separa o Estado da Religião , mas também porque é um filme inspirador para a igualdade de gênero e o empoderamento feminino dos últimos anos. Concebido por uma dupla de mulheres vencedores no audiovisual, a narrativa concilia três perspectivas necessárias: a luta pelo voto, o direito à escolha e ao ativismo, a opressão e a resistência do sistema, respectivamente, as naturezas coletiva, individual e social do drama, desta forma, embora o longa não tenha um roteiro e direção excepcionais,  a natureza da proposta pode ser comparada ao que Ava DuVernay fez em “Selma”. Ambas as diretoras recortaram um momento e um movimento histórico e trabalharam com os elementos contextuais em cena, mesclando os dramas individuais da protagonista (Maud) e demais colegas com o grande antagonista em jogo, o próprio sistema impregnado de preconceitos e  de resistência que mina os direitos dos indivíduos e reforça a desigualdade social.






O grande peso da atuação é de Carey Mulligan  e sua Maud que, abre mão de sua vida ordinária e submissa, para lutar pela transformação social. É uma grande atriz, de incrível sutileza para encarnar personagens corajosas e que, em alguma fase da vida, decidem mudar, como foi o caso de sua personagem em “Uma educação”, de Lone Scherfig. Neste tocante drama feminino, ela faz o papel de mãe, esposa, trabalhadora e ativista. Em cada uma das cenas que mais exigiram uma intensa carga dramatúrgica, principalmente as com o filho e com o marido, ela demonstrou mais uma vez ser uma das melhores atrizes de sua geração.






"As sufragistas têm aquela habilidade de abstrair as suas próprias necessidades e dedicar sua vida às necessidades das gerações posteriores” (Carey Mulligan)



Por outro lado, a rápida aparição de Meryl Streep, emocionante e inspiradora, além da participação de Helena Bonham Carter poderiam ter sido mais exploradas pelo roteiro, que ainda se mostrou conservador. Existe uma forte preocupação da diretora em trabalhar as emoções individuais de Maud e, no plano coletivo, mostrar o embate físico das mulheres quando confrontadas pela Polícia. Nestes planos, a diretora realiza um bom trabalho que lembra as decisões tomadas por Ava DuVernay em "Selma" para mostrar os bastidores de uma reinvindicação com agressão policial. No entanto, com relação ao desenvolvimento da história, o filme tinha potencial para explorar  melhor as estratégias das Sufragistas  e os seus bastidores. Em alguns momentos, fica claro que o movimento era passional e  amador e não havia uma organização estratégica para a ação, o que acabou por empobrecer a manifestação de uma melhor inteligência ativista. Se a líder, no papel de Meryl Streep, tivesse aparecido mais em cena, o longa ganharia na valorização da causa. Provavelmente, ou faltou material histórico ou foi uma opção da dupla Gavron – Morgan. Ainda assim, o drama tem cenas de intenso valor emocional e, certamente, muitas mulheres terão empatia não apenas com a causa, mas sentirão na pele como é desafiador ser uma mulher e, ao mesmo tempo, como é libertário e maravilhoso.







As Sufragistas vem a acrescentar uma pérola aos lançamentos cinematográficos do final de ano e está previsto para estreia no Brasil em 24 de Dezembro. É como um presente inspiracional e motivacional para as mulheres, inclusive as jovens, que podem assistir a como a luta das mulheres atravessa séculos e geografias e permanece em contínua expansão e desafios. O longa também é um ótimo material de reflexão para os homens e, de como as instituições, em grande parte, masculinas, também são responsáveis por dificultar o acesso das mulheres a melhores direitos e benefícios e, portanto, os homens têm grande responsabilidade em facilitar o processo de empoderamiento feminino. A luta continua, então, avante, mulheres e homens! Sejamos cada vez mais irmãos pela luta da igualdade de gênero!


Ficha técnica do filme ImDB As Sufragistas 



Distribuição: Universal Pictures
Lançamento nacional: 24/12/2015
Editora: Cristiane Costa aka MaDame Lumière
Fotos: uma cortesia Universal Pictures