sábado, 28 de novembro de 2015

Sonho Francês no Brasil: Louis Garrel em São Paulo para pré-estreia de seu primeiro longa, "Dois Amigos"


Louis Garrel
Um ícone do Cinema Francês pela primeira vez no Brasil. Fascinante!



Texto e fotos por Cristiane Costa 


Sabe aqueles momentos com pessoas únicas que passam na vida da gente como um meteoro e nos deixam fascinados com seu charme, educação e carisma? Assim foi a passagem rápida e inesquecível do ator Francês Louis Garrel ontem, 27 de Novembro, no Reserva Cultural em São Paulo para a divulgação e pré-estreia de "Dois amigos" (Les deux amis), seu primeiro longa-metragem como diretor e que entra em cartaz em 03 de Dezembro no Brasil. A história é inspirada na peça "Des Caprices de Marianne" de Alfred de Musset , uma das obras que Garrel conheceu na adolescência, e integrou a seleção da Semana da Crítica do Festival de Cannes 2015. 


Conhecido por dramas polêmicos, sensuais e/ou românticos como "Os sonhadores" de Bernardo Bertolucci, "Ma mère" e "Canções de Amor" de Christophe Honoré, Garrel é muito mais do que um ator famoso e filho do cineasta Philippe Garrel. Ele é um artista completo que nasceu e cresceu no universo do Teatro e do Cinema e tem amplo repertório e paixão pelo que faz, além de ter um atraente estilo para campanhas publicitárias na moda e beleza. Seu desafio como diretor só vem a agregar valor à sua carreira e abrir uma nova fase na qual ele pode colocar sua visão narrativa, desta vez, bem mais pessoal, baseadas em escolhas genuinamente autobiográficas como, por exemplo, sua parceria com Honoré para o roteiro de "Dois amigos" que, segundo Garrel, tem uma escrita "muito sentimental e pudica"que lhe agrada bastante e é um excelente roteirista.




Bem vindo à batuta, Garrel!E o MaDame Lumière contará a vocês, cinéfilos queridos, alguns dos melhores momentos durante entrevista à Imprensa. 
Em breve, crítica do filme no blog. Acompanhe!



Após quase duas horas de coletiva de imprensa, coordenada pela Imovision, uma das distribuidoras mais comprometidas em trazer excelentes filmes premiados, reconhecidos e de diferentes cinematografias ao Brasil, Garrel apresentou-se como uma pessoa  bem humorada, carismática e charmosa.  Muito à vontade com jornalistas e críticos de Cinema, trajando um estilo casual com boné e um cigarro eletrônico, ele comentou sobre sua ideia de realizar um "bromance" à Francesa e como aprecia comédias Italianas. Assim é sua estreia na direção de longas, uma dramédia sobre dois amigos, interpretados por Garrel e Vincent Macaigne, que agem como garotos frágeis. Eles se apaixonam pela mesma mulher, Mona, interpretada pela bela atriz Iraniana Golshifteh Farahani ("Procurando Elly e "Rede de Mentiras") e desconhecem o passado desta misteriosa jovem.






Embora a história seja bem simples, o filme entretém por ser descontraído e abordar a amizade masculina de forma despretensiosa, sensível e com determinados elementos que fazem parte das vivências de Garrel. Naturalmente, há uma ótima sinergia  entre os atores  e  os dois amigos encenam com um apelo mais "clown", de homens  sentimentalmente vulneráveis. Na maioria das cenas, terão dificuldades de se comunicar apesar do afeto, da lealdade e das diferenças. Garrel disse  que "nem sempre tem todas as respostas e então convoca os amigos para conversar", além de lidar com suas angústias, desta forma, a última cena  é bastante significativa e uma das suas preferidas. Sobre a escolha do argumento, ele complementa: "Achei legal o público olhar pelo buraco da fechadura a relação entre dois amigos". 






Parte do bom resultado é dada também pela amizade e respeito profissional que Garrel tem por Farahani . Ela encarna sua sensualidade e beleza naturais e está bem à vontade em cenas mais expressivas, especificamente nas românticas e sedutoras com Garrel. A exilada atriz vive em Paris e tem participado de novos projetos cinematográficos com a liberdade que jamais encontraria na repressão presente em seu país Natal. Em um dos momentos mais bonitos da entrevista, quando lhe foi perguntado sobre Farahani e o fato dela ter sido expulsa do Irã na época que ela apareceu com os ombros desnudos em uma apresentação de "Rede de Mentiras" em Nova York, Garrel disse: "Falei a ela que agora o Cinema é o seu país".

Apesar da popularização e lançamentos das comédias Francesas no Brasil, "Dois amigos" é um híbrido das comédias Italianas e Francesas, um pouco de romance, obsessão, drama, amizade masculina, tudo junto e misturado. Ainda assim, o jovem diretor incorpora recortes autobiográficos como uma cena da manifestação de 68 em Paris, bem recorrente no cinema Francês e presente em "Os sonhadores", realiza a parceria com Honoré em um texto que tem muito de Honoré, principalmente as hesitações, angústias e sentimentalismos do Amor e a eterna presença de uma França mítica e leve e propositalmente modificada pelo diretor.





Embora tenha muito de Francês no longa, Garrel acredita que "os Franceses não vão ter um boa reputação sobre o seu filme", o que não é surpresa considerando que os Franceses não ultra valorizam o cinema do país e Garrel já está acostumado às cobranças por ser filho de cineasta e sabe bem equilibrar seus papéis como ator, diretor e celebridade do Cinema Francês. Mais adiante, assumiu que não conhece muito sobre o Cinema Brasileiro e que aceitaria uma lista de sugestão de filmes. Por outro lado, conhece "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite", além de ter ouvido bons elogios sobre o trabalho de Wagner Moura.










Despojado e de uma beleza jovial e enigmática, Garrel  também fez comentários graciosos quando perguntaram-lhe sobre ser sex symbol e realizar filmes com temática gay. Por incrível que pareça, ele foi modesto e não se acha tão bonito assim. Brincou: "Se você me visse em uma pista de dança, você mudaria de ideia". Também disse: "Sou 100% hétero e 49% gay". E não poderia ser diferente, ele é um sonho Francês para homens e mulheres e MaDame endossa sua beleza e talento. De perto, ele é realmente apaixonante! Vida longa a ele e ao seu Cinema! Merci!


Mais sobre o filme e Garrel na crítica de "Dois amigos"
 em breve 



domingo, 22 de novembro de 2015

Mistress America (2015), de Noah Baumbach





Por Cristiane Costa 


Mistress America é uma das grandes estreias do ano nos Cinemas Brasileiros e é resultado de uma coprodução Americana e Brasileira realizada entre Noah Baumbach e Greta Gerwig (de "Frances Ha") e a RT Features dirigida por Rodrigo Teixeira. Exibido durante a Mostra internacional de Cinema de São Paulo e lançado em 19 de Novembro em 14 cidades do país, o longa é um projeto cinematográfico bastante Brasileiro. Novamente a RT Features, que trabalhou em Love 3 D de Gaspar Nóe, revigora as parcerias internacionais, o que é bem positivo para a visibilidade dos negócios audiovisuais do país no cenário mundial. Com première em Sundance, Meca do Cinema Indie, a recepção positiva ao longa não poderia ser diferente: da aflorada e verborrágica atuação de Gerwig ao estilo de Noah baumbach de trazer personagens que, em algum ponto de colisão entre seu ego e a realidade contemporânea,  são espelhos de nossa humanidade, Mistress America tem brilho próprio e é imperdível.





Com roteiro de Noah Baumbach e Greta Gerwig, também parceiros na vida afetiva, o longa conta o começo da amizade entre Brooke (Gerwig) e Tracy  (Lola Kirke), duas jovens que estão às vésperas de ser irmãs. O pai de Brooke e a mãe de Tracy estão juntos e pretendem unir as alianças em breve. Com perfis e idades bem diferentes, ambas encontram companhia e confiança uma na outra. Tracy é uma introvertida e solitária garota e não está adaptada a uma cidade cosmopolita como Nova York. Vê na futura irmã uma amiga com mente visionária e  criativa e estilo de vida sedutor, além de uma inspiração feminina para sua escrita. Brooke mora sozinha e, entre inovadoras ideias e um senso de viver intensa e vigorosamente, ela compartilha parte de seus projetos e criatividade com Tracy. Como nem tudo é perfeito nas relações interpessoais,  há momentos de crise que, em uma comédia dramática, tornam-se catárticos e reconfortantes. Ninguém está sozinho nas neuras, equívocos e fracassos e isso é realmente um alívio quando se trata do Cinema de Baumbach.







Mistress America tem uma energia que irradia na telona. É cool, despojado, espontâneo. Estas virtudes fazem a diferença na experiência com uma narrativa bem simples mas que possibilita desdobramentos reflexivos profundos. E de onde vem tanto vigor? Do talento de Gerwig, que se destaca como um excelente atriz com habilidades de comédia screwball. Pensamentos criativos e borbulhantes, fala rápida, ágil e precisa presença física em cena e variados gestos articulados com a ação e as emoções marcam sua personagem. Gerwig é a alma da história e dificilmente outra atriz conseguiria fazer este papel com tanta naturalidade.  






Mas, Gerwig não brilha sozinha. A relação entre Tracy e Brooke é marcada por uma busca de identidade. Lola Kirke complementa com luz própria e coesão narrativa o que vem a ser o ótimo clímax da história e onde tudo faz sentido. É agradável ver como elas se aproximam em um misto de descoberta familiar, companheirismo, confiança e bom humor.  A delícia da história é exatamente essa descoberta contínua onde as fichas vão caindo, onde uma é necessária a outra para que a história transmita a mensagem que importa.  Tracy é jovem, inexperiente e insegura, porém tem um grande potencial como escritora. Brooke é aquela mulher com espírito jovem que está na fase de maturidade dos 30, 35 anos e que, segundo as cobranças sociais, já deveria estar com a vida bem resolvida. Neste aspecto, o mais incrível no roteiro é perceber que, não importa a idade, sempre estamos formando nossa identidade, construindo os nossos projetos e reelaborando novas estratégias. Às vezes enganamos a nós mesmos, outras vezes chegamos a um ponto de revelação de nossa essência e do que efetivamente queremos ou não na vida. Este é o barato de viver!






Muitas mulheres se identificarão com Brooke. É uma personagem incrível e uma mulher totalmente contemporânea.  Também, ela é uma personagem bem universal, assim o público em geral potencialmente  criará um elo emocional com ela. É o tipo de heroína imperfeita, agitada, confusa, com várias ideias e que falhou em várias tentativas, entretanto, não perdeu a ternura, a força de vontade e nem o desejo de que as coisas sejam bem concretizadas. Encarna graciosamente o efeito sabotagem que é intrínseco ao ser humano e que surge de uma hora para outra. Por trás de sua vida cool em Nova York, há aparências, solidão e incompletude.  As grandes cidades costumam ser assim. Abrigam diversas pessoas estilosas, inteligentes e donas de si que, na essência, guardam sentimentos de fracasso e insatisfação. Entretanto, pouco demonstram. Preferem jogar as frustrações para um canto escuro do coração, trancá-las e jogar a chave fora. Vivem crises de negação e são tão versáteis que conseguem sorrir com facilidade.  Brooke é dócil e vivaz mas ela se encaixa perfeitamente bem no caos moderno. Pessoas que não sabem bem o que são e nunca é tarde para descobrir.


Assim, este lançamento é moderníssimo e supera o último filme de Baumbach, "Enquanto somos jovens" cujo roteiro teve altos e baixos. Mistress America é uma comédia refrescante, leve, que embala um sentimento bom quando o sorriso de Gerwig ilumina a tela. Ela é bonita, tem carisma, bom humor e estilo próprio. Eleva o astral do ambiente às alturas.  Isso é um diferencial de alto nível quando há sinergia entre o argumento, a direção e a protagonista. Brooke é aquela heroína moderna em um mundo caótico, principalmente na América, na qual as pessoas já nascem para ser competitivas, bem sucedidas e endinheiradas, mas que, após anos de tentativas frustradas, elas descobrem que precisam desacelerar e olhar para dentro de si, mesmo que sejam imperfeitas demais, existe uma perfeição em ser imperfeito.




Distribuição: Vitrine Filmes


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Mostra SP: Camino a la paz (2015), de Francisco Varone

MaDame te mostra a Mostra internacional de Cinema 
Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
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Por Cristiane Costa


Camino a la paz foi um dos filmes mais agradáveis da 89ª Mostra internacional de Cinema de São Paulo por reunir três atrativos: tem um roteiro de road movie combinado com comédia dramática, tem a beleza e a qualidade audiovisual das histórias transformadoras e bem humoradas do Cinema Argentino e tem Rodrigo de la Serna e Ernesto Suarez como uma dupla que faz uma viagem incrível juntos, uma bela jornada de aceitação, tolerância e paz. O longa foi tão bem recebido que ficou entre os 14 mais bem votados pelo público na categoria de filmes de novos diretores e está concorrendo às premiações do Troféu Bandeira Paulista.


Ambientada em Buenos Aires como ponto de partida, o longa conta a  história de Sebastián (La Serna), um homem de 35 anos, fã da banda Vox Drei e louco pelo seu carro Peugeot 505. Desempregado e recém casado, ele é aquele tipo de pessoa que está na encruzilhada da vida madura. Não tem grandes posses, não tem estabilidade e dinheiro para aumentar a família e nem maiores projetos. Por causa da falta de grana, Sebastián começa a trabalhar como motorista particular. Certo dia, ele conhece o cliente Jalil (Suarez), um senhor muçulmano que tem vários problemas de saúde.  Jalil faz uma proposta ao motorista: levá-lo de Buenos Aires a La Paz na Bolívia. Como o valor monetário é significativo e ajudará nas despesas, Sebastián aceita fazer a viagem.





Parte dos recortes da história é inspirada em fatos reais em uma época na qual a Argentina estava em grave crise financeira e um dos amigos do diretor Francisco Varone começou a trabalhar como motorista pois precisava muito de dinheiro. Varone, que também assina o roteiro, usou esse recorte e reuniu a ele uma experiência pessoal na qual conheceu a cultura e religião muçulmanas, não como praticante, mas como participante de determinada situação de socialização com pessoas que seguem a religião. Essas experiências colaboram para unir o útil ao agradável pois, independente dos rituais religiosos que foram filmados, o roteiro foi escrito como uma jornada de aproximação de duas pessoas de gerações e valores diferentes e, principalmente, de mudança pessoal, assim, o título "Camino a la Paz" tem duplo sentido, o geográfico e o metafórico: La paz na Bolívia, e Paz no sentido de encontrar a si mesmo e estar em paz.





Tecnicamente, o longa é uma joia recém revelada do Cinema Argentino. O jovem diretor coloca em prática seu gosto e estilo e usa cores mais frias na fotografia, com uma palheta terrosa que combina com as paisagens e o sentido físico de uma viagem, o de cair na estrada e percorrer terras  conhecidas e desconhecidas, além do mais Varone seleciona muito bem as locações e capricha na bela fotografia das estradas e paradas, incluindo personagens coadjuvantes variados e até lindos cachorros, o que dá uma sensação de viagem real, genuinamente bem vivenciada, na qual as relações interpessoais importam mais do que o dinheiro.



É um filme bonito e alto astral, em especial porque La Serna é um ótimo ator cômico e o seu texto carrega a ironia e a autenticidade dos porteños. Seu personagem faz caras engraçadas e a língua é afiada, entretanto, o mais cativante é a maneira como Sebastián e Jalil vão cedendo as diferenças e a amizade desenvolve um valor acima do contrato monetário de uma viagem. Com uma viagem inspiracional como essa, qualquer um se sentirá energizado a ter uma experiência pessoal restauradora.  





Ficha técnica do filme ImdB Camino a la paz






terça-feira, 3 de novembro de 2015

Mostra SP: Desde allá ( From far, 2015), de Lorenzo Vigas

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Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
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Por Cristiane Costa


Desde Allá (From far) é o primeiro longa-metragem do diretor  Lorenzo Vigas  em uma bem sucedida coprodução México e Venezuela que envolve produtores e cineastas influentes nas produções cinematográficas deste eixo, entre eles Guillermo Arriaga ("Amores Brutos", "21 gramas"), Rodolfo Cova, Michel Franco ("Depois de Lucía" e "Chronic"). À frente da produção executiva estão Édgar Ramirez ("Carlos") e  Gabriel Ripstein. Esse último realizou seu debut com "600 milles"  que venceu o "Best first Feature awards" no Festival de Berlim 2015 além de ser o representante do México para concorrer a uma das vagas da categoria de melhor filme estrangeiro - Oscar 2016. Para completar a competente equipe, reuniram-se ao projeto um dos diretores de fotografia mais solicitados no Cinema Latino Americano: Sergio Armstrong, que realizou excelentes trabalhos com o diretor chileno Pablo Larraín, entre os quais "No" e o mais recente "El Club", um ator incrível como Alfredo Castro ("El Club") e o jovem revelação Luis Silva.




Alfredo Castro, Lorenzo Vigas e Luis Silva : 
parceria que deu certo e um Leão de Ouro



A estreia de Vigas começou em grande estilo. O filme ganhou o  Leão de Ouro no Festival de Veneza com méritos. Trata-se de um projeto cinematográfico que mostra uma história contundente , uma direção segura e dois protagonistas que criam uma forte tensão sexual e dramática. Armando (Castro) é um micro empresário que trabalha com próteses dentárias. Tem cerca de 50 anos, nunca se casou e nem tem filhos, logo, tem grana suficiente para arcar com um desejo específico: abordar garotos da periferia da Venezuela, pertencentes a gangues e bem pobres, e pedir-lhes para ficar nus mediante oferta  de uma boa quantia de dinheiro. De forma muito facilitada, os jovens acabam aceitando o convite por mero interesse financeiro. Armando não os toca. Gosta de observar e se masturbar. Até que um dia ele encontra Elder (Luis Silva), jovem agressivo e difícil de ser influenciado. Ao invés de se distanciar de vez, Armando fica mais obsessivo pelo rapaz. A relação entre eles se desenvolve entre a atração e a repulsa, entre interesses e afeto. Cada um, a seu modo, exerce um intenso poder sobre o outro.






A riqueza do roteiro está no arco dramático dos personagens por conta da transformação do relacionamento. De estranhos passam a um nível de intimidade inesperada, porém, a todo o momento é uma amizade que tem uma tensão explícita e uma potencial abertura para uma desestruturação de suas vidas. Ao mesmo tempo que cedem à uma afeição, podem estar enganando um ao outro. Tudo é possível e as possibilidades de reflexão são variadas! Armando apenas deseja Elder? Elder quer apenas o dinheiro de Armando? Até que ponto Elder é confiável? Armando vai querer se livrar de Elder? Eles se apaixonarão um pelo outro? Elder vê em Armando uma figura paterna já que tem um pai ausente? Armando suportará ter Elder em seu encalço? As perguntas não terminam. Este efeito provocativo e uma história que não entrega o conflito totalmente digerido  faz de "Desde Allá" um filme notável entre as últimas produções da América Latina.


É interessante notar que a direção aproveita habilidades e estilo da equipe que o produziu para ter uma força dramatúrgica e um visual bem marcante. A história é inspirada por Arriaga e Vigas. Neste caso, Arriaga gosta de temas fortes ao lado do produtor Michel Franco, característica que joga o espectador em uma narrativa que não o deixa passivo, inerte ao conflito.  O DOP Sergio Armstrong entrega mais um trabalho excepcional de fotografia, principalmente  na maneira que contribui para dar um tom bem realista na evolução desta intimidade que, pouco a pouco, vai entrando em cena na casa de Armando e, depois ganha espaço no ambiente externo como os bem executados enquadramentos em cenas nas quais estão próximos ao mar e em uma festa.







Mas o destaque maior é a dupla de atores e a fusão da experiência de um com a revelação do outro.  Há uma sinergia boa entre Alfredo Castro e Luis Silva porque seus personagens conseguem atrair-se mas também provocam distanciamento.  Assim, a relação é uma mistura de emoções que muitas vezes são contraditórias. Ambos interpretam pessoas de níveis sociais, idades e educação bem diferentes, como consequência, a história torna-se mais atrativa com a aproximação desses dois mundos e seus choques. Alfredo Castro faz uma atuação crível e, como em "El Club" de Larraín, mais uma vez ele encarna um personagem homossexual notadamente misterioso, dúbio, instigante.  Por outro lado, por trás da violência de Elder, há também sedução, ousadia, ternura e carência. Luis Silva evolui muito bem para nuances interpretativas como o desabrochar da sexualidade, a carência de afeto e o jogo de interesses movido por dinheiro e , desta forma, destaca-se como um dos emergentes talentos para novos filmes. 




Ficha técnica do filme ImdB Desde allá




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Mostra SP: Deephan - o refúgio (Deephan, 2015), de Jacques Audiard

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Lançamento nos cinemas Brasileiros:
29 de outubro em São Paulo e Rio de Janeiro
05 de Novembro em outras praças. Filmaço!




Por Cristiane Costa


Para quem aprecia o Cinema de Jacques Audiard, Deephan - o refúgio é imperdível e um dos grandes lançamentos do ano. Dedicado a tratar temas complexos que envolvem estrangeiros na França, Audiard ganhou a Palma de Ouro  com a melhor direção no Festival de Cannes 2015 e trata de um tema bastante contemporâneo - a imigração de refugiados de guerra. Na busca por uma autenticidade na abordagem desse nevrálgico argumento, o cineasta trabalha com um elenco central formado por estrangeiros com nenhuma ou pouquíssima experiência como atores.


Antonythasan Jesuthasan (Dheepan), Kalieaswari Srinivasan (Yalini), Claudine Vinasithamby (Illayaal) interpretam refugiados do Sri Lanka que vão morar na França como ilegais. Ex-soldado, Deephan perdeu amigos e aqueles que amava, forma um falso casamento com Yalini e adota como filha a órfã Illayall. Todo essa engenhosa dissimulação para conseguir sair do país em guerra tem uma urgente necessidade: sobrevivência. Estão dispostos a encenar uma família de mentira, escolha que também é feita por diversos estrangeiros, mesmo os que não estavam em países em guerra, para conseguir viver em outro país.







Com mais uma parceria com o seu fiel roteirista Thomas Bidegain, que colaborou com O Profeta e Ferrugem e Osso, e com Noé Debré, Audiard estrutura uma narrativa bem interessante quando forma um casamento de conveniência entre pessoas que não se conhecem direito e não se amam, e principalmente, coloca o casal em um outro tipo de zona de guerra: a da vizinhança tomada pelas gangues, o tráfico de drogas e toda a violência de uma terra estrangeira em contínuo ou iminente estado de caos. O casal mora em um conjunto habitacional na periferia em um clima de insegurança e perigo. Deephan vai trabalhar como zelador e Yalini como empregada doméstica. Illayall tem dificuldades de se relacionar na escola e sofre o desprezo das colegas.  


Como a maioria dos longas sobre o tema, eles têm dificuldades de adaptação, de dominar o idioma e se firmar no país. Também começam os conflitos entre Deephan e Yalini, assim como entre Yalini e Illayall. A tensão é constante e, uma das escolhas inteligentes do roteiro e direção foi priorizar os conflitos dentro dessa vizinhança e não pulverizar as cenas em muitas outras localidades, desta forma, o público pode analisar como são as relações nesse novo contexto de guerra.







O roteiro é bom, porém não é o ponto forte. É a direção experiente e segura e as atuações convincentes dos personagens refugiados que tornam o longa uma experiência sensível, bem dramática. Jesuthasan é o que apresenta mais virtudes como ator, também porque é escritor, o que o ajuda a trabalhar com textos densos, mas  Srinivasan e Vinasithamby  apresentam as faces da mulher e da criança em uma cruel realidade. Elas são a representação da força, sensibilidade e tolerância da mulher em uma vizinhança tomada por homens violentos. Percebe-se isso na forma como Yalini trabalha na casa de Brahim (Vincent Rottiers, de "Renoir"),  um líder de gangue em condicional, e cuida do tio dele. Ela não tem muita saída e precisa do dinheiro, mas também ela age com generosidade e educação.



No geral e, de forma muito positiva, a inexperiência ou pouco background desses atores  facilita o seu processo de deslocamento social como refugiados. A todo instante é possível observar que seus personagens são frágeis e inseguros ou agem com picos de irritabilidade, impulsividade e fuga, comportamento que é bem natural considerando o choque social e cultural e as dificuldades para mudar de vida.








Na verdade, não há como não ter uma empatia com relação à essa família de aparências, por isso a ideia de formar um núcleo familiar que precisa ser tolerante uns com os outros enriquece o drama e foi essencial na construção da história. Imagine eles terem que conviver com estranhos em um país estranho para se firmar na vida em um país que sempre os considerará estrangeiros. Ser estrangeiro não está apenas na vivência em um país no qual são ilegais, mas eles também são estranhos dentro da própria casa. No contraponto do clima pesado, há cenas mais sensíveis e luminosas que tentam resgatar a identidade e a convivência em família como em uma tentativa de sobrevivência de suas essências pessoais. São nessas tomadas que Audiard deixa a história mais suave, esperançosa, afetiva; entretanto, desvencilhar-se do passado e olhar para o futuro tem inevitáveis  estranhamento e dor. 



Mas encontrar uma luz no final do túnel é preciso, assim, apesar de ser um filme denso, violento, Audiard foi otimista. No desenvolvimento final, ele impulsiona a narrativa com uma virada surpreendente e incendiária como um ato de coragem, heroísmo e apropriação de um novo caminho. A mensagem que fica é que a guerra não acabou. Lutar é necessário! Vencer é uma possibilidade. O melhor refúgio ainda está em cada um de nós. 






Ficha técnica do filme ImDB Deephan - o refúgio

Distribuição : Califórnia filmes

Mostra SP: Chronic (2015), de Michel Franco

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Por Cristiane Costa


Vencedor de melhor roteiro no Festival de Cannes 2015, Chronic de Michel Franco é um necessário soco no estômago e trata o fim da vida com naturalidade. Aproxima o espectador de pacientes com doenças crônicas e próximos à morte mas, ao mesmo tempo, trata os enfermos com respeito e dignidade através dos cuidados do atencioso enfermeiro David, interpretado com maestria por Tim Roth. É o ator que sustenta a qualidade do longa do começo ao fim e dá o tom dramático certo à sua profissão, sem apelar para sentimentalismos baratos.




Michel Franco e Tim Roth: excelente parceria em Chronic. 
Foto: Vignette Magazine


David trabalha para uma agência de Nursing home care e presta serviços a pessoas que estão com doenças graves como AIDS, câncer etc. Tendo perdido o filho e ainda transtornado por esse drama pessoal, David  catalisou sua perda de uma maneira positiva: é um enfermeiro extremamente dedicado aos seus pacientes. Muito mesmo. Sua lealdade chega ao ponto de romper as rígidas barreiras profissionais e ajudar o paciente na minimização da dor, fato que traz complicações ao seu trabalho em determinadas cenas. Devido à excelente atuação de Tim Roth, bem concentrado, calmo e consciente da importância de profissionais que lidam com a saúde e home care residencial, David é um personagem bem concebido e executado. 







Ele também se torna melhor protagonista quando nota-se o descaso, deslocamento ou falta de maturidade da família para lidar com seus próprios doentes, afinal, esta é uma realidade recorrente. Quando alguém fica muito enfermo em nossas famílias ou entre amigos e conhecidos, é difícil saber ou aprender a reagir diante desses sofrimentos. São situações que só vivenciamos quando acontece de forma muito próxima a nós e depende muito de cada pessoa. Alguns encaram mais naturalmente, outros sofrem demasiado. E, ainda assim, conviver com pessoas com doenças graves e com grande risco de óbito exige uma boa dose de autoconhecimento e sensibilidade para se relacionar com a própria dor e a dor dos outros.







Michel Franco é um cineasta que gosta de trabalhar com filmes de temáticas densas e fortes e com bons protagonistas, então a experiência costuma ser realista e intensa.   Diretor de "Depois de Lucía", um dos seus filmes mais conhecidos, e produtor de "Desde allá" de Lorenzo Vigas, ele tem uma boa qualidade como roteirista e diretor: seus filmes fazem a audiência sair do cinema, ou deprimidos e/ou reflexivos sobre a história. São filmes que não saem da mente facilmente e que devem ser assistidos quando o espectador estiver ciente de que o longa trará um desgaste emocional. Naturalmente, Chronic consome energia, mas também, ele é honesto e claro. A morte e a doença estão aí e podem surgir a qualquer momento. Familiares, amigos e pacientes em geral terão que encará-las. 






Exemplo de belíssimo enquadramento com câmera estática. 
Marca registrada da direção de Michel Franco.




Franco não faz grandes acrobacias com enquadramentos e movimentação de câmera, normalmente usa câmera estática e um certo distanciamento para que o público possa observar bem cada situação. Em Chronic, por exemplo, ele deixa a câmera estática em várias tomadas ou a posiciona atrás ou na frente do protagonista. Em uma das mais belas cenas  com relação à linguagem cinematográfica, quando  David vai ao encontro da filha, é perceptível ver como ele decupa bons planos. Em outro, quando está alimentando uma paciente muito fragilizada pela AIDS, a câmera é colocada do lado externo à casa e tem um maravilhoso efeito na tela (foto acima). Franco é um diretor bem contemporâneo, um misto de cinema Europeu com Latino Americano considerando que é Mexicano e seus longas costumam ter colaborações com a França. 


Para quem já teve entes queridos que sofreram muito com uma doença terminal, Chronic é comovente e não chantageia emoções. Elas surgem naturalmente a medida que presenciamos o sofrimento alheio. Franco conduz a câmera para dentro das intimidades familiares e o resultado  é muito bom. Coloca-nos com os pés firmes no chão. Não há como controlar o poder da vida de nos levar por caminhos dolorosos.





Ficha técnica do filme ImDB Chronic

domingo, 1 de novembro de 2015

Mostra SP: O Apóstata (El apóstata, 2015), de Federico Veiroj

MaDame te mostra a Mostra internacional de Cinema 
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Por Cristiane Costa


Se há um país que tem razões para usar o cinema como crítica à Igreja Católica, este é a Espanha. Tem 2/3 da população que acredita no Catolicismo, mas não integralmente o pratica, e que tem dolorosas marcas históricas ao ter sido governado pelo ditador Francisco Franco, cujo regime conhecido como "Franquismo" tinha a igreja Católica como um dos principais aliados para a manutenção da ordem e opressão. Considerando este contexto, a comédia dramática "El Apóstata" de Federico Veiroj, ganhadora do Festival internacional de San Sebastian (2015) -  prêmios FIPRESCI e  menção especial do Júri - é uma crítica discreta e verídica às dificuldades impostas pela igreja Católica aos membros que optam pela Apostasia, ou seja, escolhem abandonar a fé e prática da religião.






Gonzalo Amayo (Álvaro Ogalla) deseja apostatar da igreja. Solteiro, bonito e questionador, Amayo é filho de uma família espanhola tipicamente tradicional e foi batizado na fé católica quando criança. Sua mãe (Vicky Peña) é daquelas que preferem manter as aparências para todos ao redor, sua prima Pilar (Marta Larralde) lhe desperta o amor e o desejo desde a infância e, entre ele e sua vizinha Maite (Bárbara Lennie), há uma tensão sexual e uma possível chance de romance. Muito mais do que desejos carnais constantes, Amayo não acredita na fé católica. Ele faz parte da ala dos que somente estão inseridos na religião mas não a praticam e questionam seus mandamentos, práticas e valores. O cerne da escolha é que ele não consegue entender a intransigência histórica da igreja católica na Espanha e acredita na liberdade individual.







O Apóstata é uma dramédia leve. Muito leve. Ainda que o assunto seja sério e inspirado em fatos reais, a intenção dos roteiristas e de Federico Veiroj foi torná-la mais despretensiosa e, ainda assim, brandamente ácida. O roteiro é recortado pela jornada do protagonista em tentar a Apostasia pelos meios burocráticos e legais, no entanto, tais procedimentos não são claros e surgem dificuldades e indeferimentos impostos pela igreja que não são explicados. Embora a história não se aprofunde no tema e enfoque mais as cenas com narração em off nas quais Amayo questiona a postura da igreja assim como seus flertes sedutores com Pilar e Maite, dá para ter uma ideia de como a igreja Católica tem o histórico de agir como se fosse um governo na Espanha. Lá, ela ainda é um poder capaz de impor restrições e invadir a liberdade. Por consequência, após ver O Apóstata através de um recorte objetivo e resumido, o longa desperta a curiosidade de investigar mais sobre Apostasia na Espanha.






Além do tema interessante, o principal chamariz  é o ator Álvaro Ogalla que encarna um homem com jeito acessível, simples, autêntico e carismático. Dificilmente ele vai agir com agressividade como alguns com sangue espanhol, pelo contrário, existe uma certa tranquilidade nele, aquela paciência para tentar sua Apostasia, para ter o autocontrole necessário à uma decisão. Ele dá aulas para o filho de Maite, tem raríssima vida social e tem um comportamento mais tímido, romântico, respeitador. Com isso, Ogalla, que não tem formação como ator mas teve aulas de Clown para trabalhar melhor o corpo em cena, interpreta o personagem com leveza. Na verdade, existe um discreto estilo clown em Amayo, o que torna a crítica bem mais aguçada e inteligente.






Ficha técnica no ImdB O Apóstata