sábado, 31 de outubro de 2015

Mostra SP: Túmulos e ossos (Grafir & Bein, 2014), de Anton Sigurosson

MaDame te mostra a Mostra internacional de Cinema 
Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
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Por Cristiane Costa


Quando um filme de horror é originário da Islândia, país que está em alta na Mostra internacional de Cinema de São Paulo com longas bem recebidos pelo público como "Ovelha Negra", "Pardais" e "Virgin Mountain", não há como não ser despertado por um ímpeto de curiosidade, principalmente quando o gênero horror moderno e de qualidade tem sido uma raridade. Como nem tudo são flores em uma Mostra, cabe falar aqui do que não deu certo. Baseado em uma tragédia familiar, "Túmulos e Ossos" de Anton Sigurosson é forte candidato a um dos piores filmes de horror dos últimos tempos.  A explicação é simples: o diretor teve tudo para gerar um clima de tensão e explorar o drama familiar mas, de tanto ficar preocupado em gerar essa crescente tensão, esqueceu de contar a história, desenvolver os personagens  e de, pasmem, pregar um bom susto.


Na história, Gunnar (Björn Hlynur Haradldsson) está envolvido em um escândalo financeiro e em crise com a mulher Sonja (Nína Dögg Filippusdóttir). Desde o falecimento da filha do casal, o casamento não vai bem. Após uma tragédia familiar, eles visitam a sobrinha Perla (Elva María Birgisdóttir), garota estranha e misteriosa. Acontecimentos sinistros começam a acontecer na casa. 


Como podem ver, é um roteiro mais do mesmo, portanto o que faria a diferença é exatamente a execução e criar um suspense que fosse eficiente na conclusão. O que o diretor faz? Promete o que não entrega. A tensão existe mas nada acontece de  interessante  e as tentativas de dar susto na plateia não têm qualquer vigor e naturalidade. Chega a ser ridículo como ele não conseguiu nem colocar em prática os sustos clichês que ocorrem no Cinema Hollywoodiano. Por incrível que pareça, o resultado ficou aquém dos filmes medianos do gênero e de origem americana.  Também, ao colocar uma atriz mirim que leva jeito para ser uma criança sinistra e potencialmente diabólica, Sigurosson poderia ter desenvolvido melhor o papel dela. Também não acontece isso. Ela apenas encara a câmera como se fazê-lo fosse suficiente.



Mas o principal equívoco dele é não refletir a qualidade dos demais filmes da Islândia que têm sido apresentados na Mostra.  O Cinema Islandês tem uma qualidade: os atores, fotografia e elementos que compõem a cena são mais reais, palpáveis. É como o bom cinema independente de países Nórdicos, a cinematografia tem essa virtude de colocar o público em histórias mais naturalistas, dramáticas. Entretanto, em "Túmulos e Ossos" esse realismo só fica na intenção e nem a movimentação da câmera na intimidade familiar salva o longa. O roteiro deixa muito a desejar e seria mais interessante se o diretor tivesse optado por fazer um drama sem elementos de horror já que esses últimos quase inexistem. Mesmo em determinadas escolhas como criar suspense através do silêncio e de personagens dúbios e estranhos, a execução acaba sendo frágil.





Considerando o efeito piloto automático do longa, é importante que os diretores do gênero não façam o público cinéfilo e leigo perder tempo com um filme que nem o clichê entrega muito menos o que é qualitativamente eficaz e original. Perde-se muito tempo com roteiros e direções que não compreendem a essência do terror, do medo, da paranoia, da tragédia e da psicologia humana em geral. Profissionais que decidem se dedicar a esse gênero têm que dominar esse campo cinematográfico, por isso, "Túmulos e ossos" é uma aula de como não fazer um filme de horror. 




Ficha técnica do filme ImDB Túmulos e ossos

Mostra SP: O quarto proibido (The forbidden room, 2015), de Guy Maddin e Evan Johnson

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Por Cristiane Costa


O quarto proibido (The forbidden room) é um  daqueles filmes que levam o público para uma viagem rumo a um mundo fantástico de narrativa não linear. Da estética ao roteiro, passando por personagens que são como abstrações de um sonho alucinante, Guy Maddin e Evan Johnson realizam uma produção ame ou odeie, pelo menos, foi perceptível notar isso pelo número de pessoas que saíram da sessão. No roteiro, tripulantes de um submarino encalhado no mar começam a ter privação de oxigênio e enfrentam medos. Surgem variados fragmentos que trazem elementos como amor, desejo, morte, entre outros, resultando em um longa estranho que bebe na fonte de referências como o Surrealismo, o Expressionismo alemão, o Cinema mudo e noir, além de se apoiar em uma montagem totalmente fragmentada e alucinógena.











É uma estética densa e ousada para um filme realizado em 2015 e com uma proposta metalinguística  que lembra muito o Expressionismo alemão, portanto, para assistir ao longa e aproveitar o que ele tem de melhor, tem que vê-lo quando estiver no humor exato, do contrário a experiência será meramente de observação estética e não de envolvimento pleno com a obra. É recomendado assisti-lo quando está disposto(a) a uma jornada exaustiva (130 minutos) que deixa inúmeras possibilidades de interpretações abertas, com muita linguagem não verbal . A estrutura é confusa e nada sequencial, além de se caracterizar por uma extravagante estética, bem surreal  e noir. Assim, será natural, ao ver a bela Clara Furey  como a sensual Margot e a exótica Maria de Medeiros como a mãe cega, associá-las  às misteriosas figuras femininas do Cinema clássico Alemão de Georg Wilhelm Pabst ou, nos personagens como o de Mathieu Amalric que lembram homens deformados pela monstruosidade, rapidamente  pensar nas referências cinematográficas de F. W. Murnau, Robert Wiene e Fritz Lang e obras clássicas de personagens diabólicos como Nosferatu  e Dr. Jekyll and Mr. Hyde.








Entre um de seus aspectos relevantes é a base narrativa do expressionismo alemão do qual Guy Maddin é um admirador e entusiasta. Embora pareça estranho, insano e incômodo dada a sua não linearidade, é um longa que usa vários gêneros entrelaçados em suas mini-histórias, então há comédia, horror, romance e drama. Também é um filme bastante emocional, mesmo que essas emoções não sejam facilmente absorvidas pelo espectador pois, no geral, são emoções atormentadas em muitos fragmentos e com um excesso de cortes na montagem. Em outras palavras, o filme tem a carga emotiva do expressionismo mas não necessariamente ele emociona fácil e acaba sendo mais uma experiência estética do que de catarse de emoções. Com relação ao elenco, todos os personagens carregam uma perturbação psicológica muito comum no Expressionismo alemão. São atores bem teatrais em cena com destaque para Roy Dupuis, Mathieu Amalric e Clara Furey. Além do mais, uma das atrações é o elenco francês que, infelizmente, teve participações meteóricas e poderiam ter sido melhor aproveitadas, entre as quais a de Geraldine Chaplin e de Charlotte Rampling.









De maneira geral, há outras inúmeras referências da vanguarda cinematográfica alemã, principalmente o visual extravagante, o clima de tormento e a questão do enfrentamento dos medos. O diretor também usa cores fortes e quentes, baixa iluminação e efeitos visuais que apresentam uma atmosfera fantasmagórica como o inferno ou um pesadelo e o grotesco. Em um dado momento, até o Döppelganger (o duplo) é claramente colocado em cena e algumas intenções do diretor ficam mais claras.  Desta forma, metaforicamente e em uma das possíveis interpretações, o quarto proibido é como aquele cômodo que a gente não quer entrar por medo mas que é chegada a hora de entrar. Encarar a memória, o sonho, o espelho, o duplo,  a emoção, a morte, o inferno,  a nos mesmos. É expressionismo  em pleno século XXI.






Ficha técnica do filme ImDB O quarto proibido

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Mostra 2015: O torneio ( Le Tournoi, 2015), de Élodie Namer

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Por Cristiane Costa




Depois de Xeque-mate (Jouese) da cineasta Caroline Bottaro trazer o universo do xadrez através da personagem interpretada pela veterana atriz Sandrine Bonnaire, chegou a hora do Cinema Francês lançar a nova diretora Élodie Namer que, em seu primeiro longa metragem, aborda um torneio de xadrez em Budapeste e a crise existencial do campeão francês Cal Fournier (Michelangelo Passanti) ao encontrar um brilhante competidor bem mais jovem que ele. Cal atravessa um período de altos e baixos durante o torneio e questiona se suas estratégias e talento são realmente tão bons para mantê-lo na liderança do esporte.






O longa tem frescor fotográfico, um elenco de jogadores em  contínuo desenvolvimento no esporte e uma abordagem interessante ao enfocar um universo refinado, inteligente e misterioso com personagens jovens. Nota-se que, existe uma obsessão na vitória a qualquer custo mesmo que, para isso, os jogadores tenham que ensaiar e memorizar jogadas, seguir as recomendações do seu "coach"  mesmo em discordância com elas, respirar xadrez 24 horas por dia. Dessa forma, a história apresenta um conflito central da pressão imposta pelo próprio esporte e como Cal, apesar de seu espírito competitivo e talento, chegou a um ponto do torneio no qual se sente desequilibrado ao encontrar um concorrente inesperado. Embora ainda cru na atuação, Passanti tem uma ótima fotogenia, jovem bonito e com vigor para novos trabalhos. Ele realiza um boa inteprretação pois esse é seu primeiro longa metragem. 







Para uma estreia, a direção de Namer é esforçada, embora seja repetitiva em algumas escolhas da decupagem porque o roteiro em si não previu grandes tomadas. O ambiente é claustrofóbico e, apenas em determinada sequência, o longa se liberta das quatro paredes em um dos melhores momentos. No geral, tudo está relacionado ao xadrez, então as cenas enfocam a introspecção de Cal, sua interação com a namorada e jogadora Lou (Lou de Laâge) e seus demais amigos, sua insegurança em possíveis derrotas e falhas, o enclausuramento do hotel. A diretora se esforça em realizar enquadramentos que valorizam os aspectos de concentração, estratégia e competitividade do xadrez como planos detalhe e close ups, mas também abusa do plongée para o público ver o tabuleiro e as jogadas, logo os elementos em cena são explorados dentro do possível. Essa recorrência de determinados enquadramentos acabam preenchendo os vazios deixados por falta de melhores diálogos. 






O longa dividiu opiniões da crítica especializada Francesa. Publicações como Le Parisien o elogiaram, outros como Le Monde e Liberación não apreciaram a obra. Mesmo que não seja um filme apaixonante e que conquista de imediato, é bem intencionado na proposta porque traz à reflexão como o ser humano é programado para ganhar e, nem sempre, sabe por que quer ganhar. Não busca autoconhecimento. Para  tornar a situação pior, a pressão imposta nos jovens e para o sucesso é intensa.  São pessoas que acabam incorporando estratégicas, táticas e ações sem olhar para dentro de si mesmas. 





Ficha técnica do filme ImdB O torneio





quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Mostra 2015: É o Amor (C'est l'amour, 2015), de Paul Vecchiali



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Por Cristiane Costa



Poucos cineastas contemporâneos conseguem conciliar comédia e drama com originalidade, sensibilidade, estilo e menor orçamento. Paul Vecchiali, diretor francês de Noites Brancas no Pier lançado em 2014 e parte da seleção da 38º Mostra internacional de Cinema de São Paulo é um desses talentosos profissionais independentes que sabem escrever e dirigir filmes que falam sobre o amor de uma maneira criativa e autêntica. Seu mais recente filme "É o amor" (C'est l'amour) traz, além de uma história passional e aparentemente non sense, uma construção narrativa marcada pelo bom humor, irreverência e um estilo cheio de graça na composição dos elementos de cena, com destaque para a encantadora direção de arte.







Não espere uma comédia dramática francesa convencional e com as mesmas fórmulas para falar de relacionamentos. O roteiro original de Vecchiali exige uma mente aberta e desencanada para observar as ações excêntricas dos personagens e se envolver com os monólogos que fazem muito a diferença para entrar no clima do longa.  Tudo começa quando Odile (Astrid Adverbe) suspeita que seu marido Jean (Julien Lucq) a está traindo. Ele chega tarde em casa , se esquiva das perguntas ou não quer discutir a relação. Neste momento já podemos observar diferentes pontos de vistas do casal e como análise da relação depende da subjetividade de cada parceiro. Para isso, a direção  original de Vecchiali  usa o mesmo diálogo e posiciona a câmera para filmar individualmente cada ator, dessa forma, temos o ponto de vista de Odile e de Jean e como eles reagem na conversa. Embora na estrutura do texto esse recurso pareça redundante, a intenção da narrativa é mimetizar o que ocorre na prática e as reações emocionais, principalmente as não verbais através das expressões nos rostos, corpos e movimentos.





Odile está disposta a se vingar do marido e procurar uma aventura extraconjugal . Aparece radiante em um vestido vermelho, tomada por um comportamento sensual e libertário e dançando com uma envolvente trilha sonora, um dos personagens do longa. Nessa ocasião, ela conhece o amante Daniel (Pascal Cervo), um ator de cinema que parece constantemente embriagado. Ao vê-lo, ela torna-se uma devoradora sexual e se apaixona por ele. Em menos de 2 horas de projeção,  Vecchiali discute a relação a dois, envolvendo um casamento em crise, uma traição vingativa e repentina e outros relacionamentos paralelos como o de Daniel com Albert (Fred Karakozian), um ex-militar com quem vive junto.






Convém mencionar também que o cineasta gosta de monólogos e os atores tiveram forte demanda para incorporar uma atuação  teatral, sozinhos no quadro em plano médio mais fechado ou em close up, assim, a audiência pode ficar mais atenta e compreender suas emoções. Com destaque,  os personagens coadjuvantes como a mãe de Odile e Albert preenchem bem os espaços da narrativa para também falar sobre seus sentimentos, o que equilibra diferentes experiências e pontos de vista e movimenta a mise en scene. Por ser um roteiro pouco convencional,  Vecchiali acerta em não fechar apenas os conflitos no triângulo amoroso, mas também, colocar cenas mais cômicas que envolvem relacionamentos e uma forte dose de desabafos sobre o Amor. Normalmente os atores parecem que estão bêbados e têm atitudes excêntricas ou intempestivas. É como se o amor fosse uma bebida viciante que deixa os personagens grogues. E o que é o amor se não fosse uma boa dose etílica e um transbordar de paixões?








Ficha técnica do filme ImDB É o Amor

Distribuição: Supo Mungam Films


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Mostra 2015: Para o outro lado (Kishibe no Tabi / Journey to the Shore, 2015), de Kiyoshi Kurosawa

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Previsão de estreia nos cinemas Brasileiros: 27/11/2015



Por Cristiane Costa



Quando uma pessoa que amamos muito falece, lidar com a perda não é apenas algo transitório. Continuamente surgem lembranças, apego e muitas saudades. Também há um sentimento de escapismo, como se quiséssemos encontrar a pessoa novamente não importa como.  Alguns enfrentam melhor a partida de entes queridos, outros nunca superam.  O novo filme de Kiyoshi Kurosawa é uma ficção romântica que transita entre as fronteiras da vida e da morte, da realidade e da imaginação, do terreno e do espiritual . Através de uma jovem e bela viúva, Mizuki (Eri Fukatsu), que perde seu marido Yusuke (Tadanobu Asano), vítima de um afogamento há três anos, somos convidados à uma jornada cinematográfica sobre o amor e a solidão de quem fica aqui no plano terreno e não consegue esquecer quem morreu.



                                           



Como o bom e sensível Cinema Japonês, Kurosawa fala sobre essa relação sutil e afetuosa que une duas pessoas. Assim, nesse pequeno núcleo familiar, o roteiro é despretensioso e tem um apelo mais romântico do que dramático. Mizuki vive sozinha e, quando surge o marido, ela age com naturalidade. É como uma fuga da realidade. Ela o quer ali presente por mais irreal que isso pareça. Recuperando a tradição dos fantasmas do Cinema Asiático, Yusuke é como um deles. A diferença é que a narrativa não se fundamenta em um visual fantasmagórico, salvo um ou outro plano que resgata uma atmosfera enfumaçada em meio à natureza em uma região com mata e cachoeira, e que faz associação metalinguística a tantas outras cenas que já aconteceram em filmes japoneses no qual há encontro entre vivos e mortos. Yusuke é um homem comum, de poucas palavras. Mizuki tem a fragilidade de uma mulher que não quer deixar alguém ir embora. Nesse aspecto, o longa é introspectivo, letárgico e triste.



                             







Para o outro lado não tem um argumento novo pois fronteiras entre vida e morte são comuns no Cinema. Ao se apoiar em um romance, ele não se desvencilha de um ligeiro toque  água com açúcar que não evolui para um drama melhor roteirizado. Dessa forma, inicialmente a história é confusa e surgem perguntas como "quem morreu? Ele ou ela?", "o que é realidade e o que é sonho?". Esses gaps técnicos não chegam a prejudicar o conjunto da obra por conta das qualidades visuais da direção de Kurosawa, que apresenta belíssimos enquadramentos com os dois personagens e cenas com planos mais abertos e travelings que despertam uma sensibilidade maior na contemplação da fotografia. 





A grande virtude do Cinema Japonês é a sua capacidade de ser delicado e generoso com nossas emoções, além de seu potencial de desenvolver na audiência um sentimento de empatia. Empatia é a palavra aqui. Ao se colocar na posição de Mizuki e lembrar das pessoas amadas que morreram, está aí uma possibilidade de reviver as perdas e perceber como é difícil guardar tantas memórias saudosistas na mente e no coração, como é desafiador deixar as pessoas que amamos partirem.  Em um dos momentos mais belos do longa, o que permanece é aquele fluxo de pensamento que não pode ser impedido, mesmo após anos de ausências: Quando encontraremos as pessoas que faleceram e que tanto amamos?






Ficha técnica do filme ImDB Para o outro lado 

Distribuição: Califórnia filmes

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Mostra 2015: Estive em Lisboa e lembrei de você ( 2015), de José Barahona

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Por Cristiane Costa



Estive em Lisboa e lembre de você é uma adaptação do livro homônimo de Luiz Ruffato que aborda uma história sobre a imigração de um brasileiro em Portugal e a realista frustração ao se confrontar com as dificuldades de adaptação e permanência no país. Ser estrangeiro em terra estranha nunca foi fácil. Com esse drama, isso fica mais claro, principalmente em Portugal que tem tido uma grave crise econômica nos últimos anos. Através de uma narrativa que mantém a simplicidade do linguajar mineiro de Serginho, personagem principal interpretado por Paulo Azevedo, o roteiro mostra uma sequência de infortúnios em sua vida: um cotidiano modesto na cidade de Cataguases (MG), um casamento com uma mulher com sérios problemas psiquiátricos, a vontade imediatista de ir à Europa e tentar uma vida melhor e os desafios e dificuldades financeiras, afetivas e diárias em geral.



Com direção do cineasta português José Barahona, o longa ganha em contar uma história simples de um homem que tentou dar certo na vida apesar de toda a sua ingenuidade. Interpretado com um misto de generosidade e humildade, Serginho é um personagem que parece inocente demais em sua ida a Portugal. Como boa parte dos brasileiros que se aventuram no exterior, ele faz parte daquelas pessoas que, em um ímpeto emocional, sonhador e ingênuo, tomam a decisão de arriscar uma nova vida sem ter necessariamente as condições estáveis ou o mínimo de conhecimento para tal desafio.  O que acontece é que Serginho é ingênuo demais e existe essa fragilidade do personagem no desenrolar da narrativa, logo nada muito diferenciado acontece em termos de conflito. Embora ele seja boa pessoa, bonito, dócil e engraçado, ele faz papel de bobo em determinadas situações, o que afeta diretamente a força dramatúrgica do personagem.  Como todo o sonhador, há momentos de tristeza  e um ar melancólico, depressivo. Assim, no transcorrer da história, também há momentos de quem romantiza ideais e, principalmente, relacionamentos amorosos. Mas Serginho tem dedo podre no amor. Sua entrega ligeira às mulheres nem sempre é sinônimo de felicidade.









Barahona realiza um bom trabalho de escolha de determinadas locações portuguesas e o destaque são a fotografia e a atuação de Paulo Azevedo.  Diante da jornada aventureira de Serginho, importa mais observar como ele age nas variadas situações como encontrar um emprego, relacionar-se sexualmente com uma prostituta, lidar com a falta de dinheiro e a solidão. Todas essas situações, ainda que cotidianas, tem a vantagem de oferecer ao público uma oportunidade de analisar como  Serginho mantém uma natureza sonhadora e ingênua. Como sonhos são frustrados e nem sempre sair do  Brasil é a solução. 


Considerando a obra literária, o roteiro se ocupa  em  marcar bem o jeito de falar interiorano de Serginho, transferindo para a tela a variação linguística do personagem e o colocando como um contador de histórias. Ele também se dirige à audiência, sozinho no plano, como se estivesse tendo um dedo de prosa sobre seu drama, logo, existe uma boa abertura na comunicação para ouvir o que ele tem a nos dizer. Por outro lado, por mais que tenha tido um esforço do roteirista em  manter a originalidade da Literatura, as marcas linguísticas serão melhores observadas e curtidas em uma leitura do livro, pelo menos, é o que evidencia a narrativa de Ruffato e a diferencia no cenário editorial Brasileiro. Felizmente, o ator Paulo Azevedo incorpora bem a tranquilidade mineira, com fala mansa e franca. Também, ele mostra como Serginho poderia ter dado mais certo na vida. Os últimos planos mostram bem como nem tudo são flores. Ainda assim, escolhas são escolhas e cada um tem a liberdade de ir e de permanecer, onde quer que queira.

Ficha técnica do filme ImDB Estive em Lisboa e lembrei de você 

Distribuição : Tucumán Filmes

domingo, 25 de outubro de 2015

Mostra 2015: Armadilha (Trap / Taklub, 2015), de Brillante Mendoza

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Por Cristiane Costa



Brillante Mendoza é um dos principais realizadores do Cinema das Filipinas ao lado de cineastas como Lav Diaz, John Torres,  Raya Martin e Khavn de la Cruz. Vencedor como melhor direção no Festival de Cannes em 2009 por Kinatay e conhecido por filmes como Serbis e Lola, Mendoza desponta no cenário cinematográfico mundial com realizações independentes que abordam questões individualistas, sociais, econômicas e políticas de personagens Filipinos ou do próprio país.  Em Armadilha (Taklub), seu mais recente longa, ele dirige uma história baseada em fatos reais relacionada a um desastre natural, o supertufão Haiyan, o constante clima de insegurança após a catástrofe e as terríveis consequências para as famílias da cidade de Tacloban nas Filipinas. O longa foi um dos destaques no Festival de Cannes 2015 e recebeu a menção especial - Prêmio do Júri Ecumênico.





Viver em uma região ameaçada por tufões é definitivamente uma armadilha.   A qualquer momento, pessoas podem ser devoradas pela fúria dos ciclones e não há muita escapatória. Mortes acontecem. A fé é necessária . Assim, uma cidade como esta torna-se uma armadilha bem maior quando a população luta para viver a duras condições econômicas, não pode sair da região e tem que conviver com mortes, perdas e traumas. É  o que acontece nesta história: estamos diante de uma situação real e dilacerante para as comunidades locais. Mendoza conduz sua habilidosa câmera em uma ficção dramática, dolorosamente sensível, com um registro documental bastante realista que enfoca 3 personagens, Bebeth, Larry e Erwin e como tentam sobreviver nesta cidade hostilizada pela ira da natureza. 





A narrativa é contada após o Tufão Haiyan, considerado um dos mais violentos ciclones e que ocorreu na região em 2013. O propósito do argumento não foi criar um filme que registra o momento exato da destruição. O objetivo é maior, mais humano e baseado em fé, superação e sobrevivência. O longa registra o cotidiano através de sutilezas. O que se vê é a memória que permanece, o temor que persegue, a resistência que dá esperança, a longanimidade que sustenta a vida. Com essa abordagem mais humanizada, cabe ao elenco atuar com simplicidade e um comovente trabalho de veracidade. As emoções são delicadas, discretas, contidas, porém a dor é grande.



É o tipo de filme que , a todo o momento, traz à mente e diante dos olhos como existem pessoas pobres no mundo e como elas vivem em condições precárias, muitas vezes agravadas pelas características naturais dos locais onde moram. Mendoza faz uma boa exploração da cidade, enfocando apenas o que é modesto e bastante decadente. Desde a simplicidade das casas e da alimentação, passando pelas ajudas coletivas para recuperação da cidade até as constantes chuvas e ventanias. O clima é de incertezas e pobreza. Uma pobreza que o tufão intensificou.










No ótimo elenco que tem Julio Diaz  e Aaron Rivera, destaque para  Bebeth (Nora Aunor), uma  incrível atriz Filipina que entrega uma atuação madura, verdadeira. Seu personagem é de uma mãe solteira que perdeu dois filhos na tragédia e precisa continuar firme e forte para criar a outra filha. A direção de atores favorece bastante a participação da atriz que eleva a qualidade dramatúrgica e preenche os gaps de roteiro em pontos da narrativa que poderiam ter explorado melhor o drama dos personagens e a relação entre eles. Através de Aunor, o longa consegue convencer porque existe força e generosidade em seu comportamento. Por ser arrimo de uma família e uma mãe que não se deixou vencer pela morte dos filhos, ela é essencial para demonstrar a resiliência.



O desenvolvimento dos papéis masculinos deixou a desejar porque são personagens mais vulneráveis à manutenção da sanidade e autocontrole e poderiam ter tido um melhor texto. O roteiro peca exatamente em não explorar estes relacionamentos, deixa a narrativa mais solta e dependente das atuações individuais de cada um. No caso de Diaz, ele é um homem trabalhador e dedicado à fé, porém com pouco vigor, calejado. Acaba ficando à margem. Rivera representa o jovem esforçado, que valoriza a família e sem boas opções na vida, mas vulnerável à irritabilidade e impulsos violentos, assim, sua participação é pequena e dá um tom triste e precário à juventude da região.  Diferente dos demais, Nora Aunor é o alicerce humano da história e, por causa dela, existe uma força moral para a reconstrução da cidade.




Ficha técnica do filme ImdB Armadilha




sábado, 24 de outubro de 2015

Mostra 2015: Sob nuvens elétricas (Pod elektricheskimi oblakami / Under Electric Clouds - 2015), de Aleksey German JR

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Por Cristiane Costa



Após a Guerra Fria e o declínio da ex-URSS, o Cinema Russo tem em seu presente um espaço narrativo para realizar novos filmes existencialistas e entrelaçar as feridas do passado e as incertezas do futuro. Sob nuvens elétricas (Under Electric Clouds), de Aleksey German Jr, uma coprodução Rússia, Ucrânia e Polônia e vencedor do Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim (Contribuição Artística Extraordinária)aborda uma visão existencialista, impressionista e emocional do diretor, mais enfocada na junção da Fotografia e expressões artísticas na mise  en  scène do que na apropriação de um roteiro que tem uma história linear a ser contada. É um longa que dá impressões de como as pessoas se sentem em um país que tem uma história de fragmentação geográfica, social, econômica e política, principalmente nos paradoxos que são alimentado por estas memórias brutais. A narrativa em si não é graficamente violenta, mas existe uma angústia natural e um clima depressivo, psicologicamente violento.





Ambientada em 2017, cem anos após a Revolução Russa, a paisagem é desolada, fria e deprimente. Nem mesmo os objetos de arte, o excelente senso estético e fotográfico causam ânimos durante a projeção e possibilita um envolvimento mais passional com o longa. A ideia do argumento é mais reflexiva e impregnada de paradoxos comuns a um país que falhou e foi destruído.  Os componentes da narrativa são fragmentados, como por exemplo, um homem estrangeiro que, próximo ao mar congelado, tem um ímpeto de violência. Posteriormente, se vê sozinho em uma cidade cujo idioma não domina e mal consegue pronunciar palavras básicas. Em outro momento, uma garota é sequestrada por mafiosos em uma periferia tomada pela violência. A história também menciona outros personagens que vivem em um anonimato entediante. Da elite ao marginal, todos tentam manter o pouco de identidade e dignidade que sobrou, entre os quais, um intelectual que trabalha em um museu, realiza tours turísticos e não tem paixão e nem vê mais sentido no que faz. 






A depressão está na existência e na economia decadente. Neste contexto,  2017 chegou mas com ele chegaram problemas maiores. É interessante notar que são existências pela metade, destruídas. Pessoas que mal se compreendem, que perderam parte de sua identidade. Há poucos personagens, todos projetados aleatoriamente e expressam questões como a guerra, a morte, as perdas, a identidade, o dinheiro e a política. Tudo bastante metafórico, tênue e verbalmente pouco dito, portanto, uma viagem existencialista que propicia uma jornada de compreensão intimista para cada espectador. Nisto está uma das principais contribuições do longa: seus personagens e direção. Aleksey German Jr mostra um Cinema como um campo narrativo de histórias que não precisam ser integralmente ditas através da palavra falada. Aqui, a imagem é o canal de comunicação e de expressão dos vazios existenciais deixados pela História. Por outro lado, com relação ao roteiro, ele é confuso à medida que trabalha com muitos paradoxos e metáforas, reforçadas por tomadas e edição fragmentadas. O cineasta poderia ter sido um pouco mais simples, objetivo a partir da metade da narrativa.


                                   

Artista: trabalho de Antonina Fathullina para o filme



Existem cenas non sense e bem ficcionais que exigem que o público contextualize as emoções em um escopo bem maior: o fim da guerra fria e a questão de identidade em uma Rússia abandonada. É muito mais um Cinema Arte, um exercício cinematográfico que depende muito da Fotografia e do entendimento da história do país, logo não agrada facilmente e exige releituras e novas descobertas a cada sessão.  No geral, Sob nuvens elétricas é melancólico e transita entre duas estações do ano, o inverno e o verão que funcionam como gradações de um tempo narrativo, assim como propiciam uma experiência inicialmente mais fria, densa e introvertida para, depois, abrir uma janela para a esperança e a continuidade de uma vida que deve seguir em busca de um novo caminho, mais harmônico, construtivo e sereno.  




Ficha técnica do filme ImDB Sob nuvens elétricas 



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Mostra 2015: Um homem decente (Nichts passiert/ A Decent Man, 2015), de Micha Lewinsky



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Por Cristiane Costa


Por uma questão de caráter, fuga, reputação, aparências ou simplesmente escolha, há pessoas que se esforçam ao máximo para viver com mentiras, omissões ou meias verdades e não mostrar para os outros quem elas realmente são ou como abertamente deveriam agir diante de problemas. Assim é Thomas Engel (Devid Striesow), casado, pai de uma filha adolescente e com um histórico de alcoolismo  e acidente de carro. Por trás de sua cara de bom e ordinário homem, está uma pessoa que faz de tudo para manter a normalidade do cotidiano e o controle das suas próprias ações, nem que para isso tenha que agir de uma forma inesperada, insana e moralmente perturbadora. 






A história enfoca esta família que passa um final de semana nos Alpes Suiços. Para essa viagem, Thomas leva Sarah (Annina Walt), a filha de seu chefe, o que lhe coloca em uma situação de zelar pela segurança da garota. Ao chegar na cidade, Sarah quer sair e se divertir. Algo desagradável ocorre. Thomas vivencia um forte dilema que o leva a um comportamento inseguro, tenso e omisso.






Com Um homem decente, o diretor e roteirista alemão Micha Lewinsky realiza um filme com uma interessante mensagem por trás de sua modesta história. O roteiro é simples e, aparentemente, sem grandes ambições narrativas, entretanto, o "crème de la crème" do longa é  a forma como ele transforma um final de semana entendiante nos Alpes Suiços em uma situação constrangedora e louca e adiciona um elemento criminal com um toque de humor. Assim, a melhor forma de compreender a proposta do longa é através do seu título em alemão "Nichts passiert", que quer dizer, nada aconteceu. E o que seria isso? É a forma como Thomas encara o mundo. Para ele, diante de um acontecimento doloroso, nada aconteceu e ele faz a famosa cara de paisagem. Mesmo sob tensão e sensibilizado, suas escolhas o levam a situações embaraçosas e transformam questões delicadas em uma gigante bola de neve. 


Todos carregam seus segredinhos, o que é natural. Faz parte da natureza humana ter segredos, ocultar evidências, empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Porém, nesta história, o agravante é encobrir um suposto crime e levar consigo um segredo que poderá torturá-lo pelo resto da vida. Neste aspecto, o filme tem o estilo do cinema de origem germânica ao lidar com dramas sérios e incluir uma lógica levemente absurda e cômica, decisão que é muito mais eficiente para criticar a hipocrisia da sociedade.  No mais, Lewinsky é um cineasta que gosta de trabalhar com os aspectos da mentira humana conduzindo o público a um cenário cotidiano e de pessoas comuns que, por trás de suas máscaras sociais, têm muito mais a nos dizer.






Apesar de bem intencionado, a estrutura narrativa do longa deixa um pouco a desejar no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens coadjuvantes e da trama. Apesar disso, fica claro que a responsabilidade de levar o drama com qualidade cabe muito mais ao competente Devid Striesow (de "Yella" e "Os falsários"), experiente ator alemão que tem uma virtude: sua atuação mimetiza bem sujeitos que podem ser bons ou maus e coloca o benefício da dúvida com relação à moral. Thomas é um mocinho ou um vilão? Ou apenas um pobre infeliz que precisa continuar a terapia e lidar melhor consigo mesmo ? Além disso, Striesow leva jeito para dar uma nuance de humor negro aos personagens. Isso explica porque Thomas se enrola tanto em situações que envolvem crimes e, mesmo assim, ele é suportável, atrapalhado e desperta um sentimento de compaixão. É o típico homem decente que pode ser letal aos outros e a si mesmo a qualquer momento e talvez não tenha consciência do mal que provoca.  Afinal, de perto, os normais podem ser mais loucos do que imaginamos.




Ficha técnica do filme ImDB Nichts Passiert

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Mostra 2015: Body (Cialo,2015), de Malgorzata Szumowska


MaDame te mostra a Mostra internacional de Cinema 
Uma seleção especial de filmes na semana mais cinéfila de São Paulo
Acompanhe!





Por Cristiane Costa


Dizem que o corpo sofre o que a alma sente. Esta é uma das maiores verdades dos tempos modernos e líquidos. É comum o ser humano lidar mal com suas próprias perdas, dores e frustrações. Como consequência, há uma série de transtornos psiquiátricos que vão além da mente e que agravam a saúde do corpo físico, principalmente em casos de distúrbios alimentares como a obesidade ou a anorexia, transformando o processo em um círculo vicioso e autodestrutivo. 





Sob a direção da Polonesa Malgorzata Szumowska, Body (Cialo) aborda uma contemporânea temática, a anorexia, e entrelaça a relação de 3 pessoas com o corpo e a alma em meio ao conflito de Olga (Justynan Suwala), uma jovem que, após perder a mãe, começa a ter comportamentos disfuncionais com relação à sua alimentação. Evita alimentar-se bem e, quando decide fazê-lo, oscila entre vômitos intencionais e comilanças às escondidas. Seu pai, interpretado por Janusz Gajos, trabalha como perito criminal, identificando e analisando mortos, portanto sua relação com o corpo é racional, profissional,  distanciada, além de ter uma péssima relação com a filha que nutre ódio e mágoas  por ele. Fora do núcleo familiar está a médium e terapeuta Anna (Maja Ostaszewska) que trabalha com psiquiatria no tratamento de jovens anoréxicas.  Anna tem uma relação mais espiritualizada e de autoconhecimento do corpo.





Vencedor do Urso de Prata de melhor diretora no Festival de Berlim, Body tem uma direção precisa na proposta realista e documental de expor o drama da anorexia e a disfunção das relações interpessoais que dificultam o entendimento da doença e a aceitação do tratamento. É um bom longa que se diferencia por possibilitar uma interpretação aberta pois, ao mesmo tempo que, permite uma reflexão bem particular e a nossa relação com as fronteiras do psíquico, físico e espiritual, ele é um drama universal de que, como depende apenas de cada um, permitir-se ultrapassar a barreira psicológica que adoece o corpo e a alma.



Embora a abordagem espírita não é aprofundada e nem este é o propósito da narrativa, é interessante notar como o roteiro articula uma conciliação de posturas entre a terapeuta, o pai e a filha para enfrentar a doença e, mais ao final, dá um toque cômico com um desfecho "weird surprise" para as audiências. Diferente da postura racional do pai, normalmente reproduzida várias vezes na sociedade cruel da modernidade, o longa transita com seriedade pelo tema, porém, mais adiante desconstrói a racionalidade com uma janela para o oculto e para o bom humor. Assim, é preciso encarar a anorexia de Olga, mas também, é preciso encarar a morte, a perda e a solidão de forma mais descontraída pois, cada um à sua maneira, é um ser solitário nesta história e reage com diferentes nuances comportamentais. Esta convergência de personagens e atitudes em uma dualidade temática morte-vida e a cinematografia vigorosa de Szumowska com fotografia assinada por Michal Englert fazem de Body uma ótima reflexão sobre a perda e seus efeitos no corpo e na alma.





Ficha técnica do filme ImDB Body (Cialo)
Distribuição: Supo Mungam Films