segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O Segredo da Cabana (The Cabin in the Woods - 2012), de Drew Goddard

Semana do Terror e Horror MaDame Lumière
 25 a 31 de Agosto
Um riso nervoso nunca é demais!

MaDame Lumière agradece a todos os que acompanharam a primeira semana de Terror/Horror. Foi um prazer ( e também, assustador) realizar esse especial. Valeu muito a pena explorar algumas novidades do gênero.
No próximo mês tem mais filmes dessa seara horripilante e uma homenagem especial à Wes Craven, um grande Cineasta do Horror, falecido em 30 de agosto em decorrência de um câncer no cérebro e que deixará saudades. R.I.P, Mestre! Minha gratidão eterna a ele por ter contribuído com a Cinefilia desde a minha adolescência. 

Obrigada e Abraços, MaDame






Por Cristiane Costa





De todos os gêneros cinematográficos, o horror é um dos principais que proporciona maior prazer sádico ao ver o outro sofrer ou, no mínimo, ele oferece a chance de olhar bem de perto pelo buraco da fechadura como esse clima de terror é construído na história e quais desafios e temores os personagens têm que enfrentar. Considerando essa base no argumento, o longa-metragem "O segredo da Cabana" (Cabin in the woods, 2012) de Drew Goddard é uma boa opção ao propor uma combinação de comédia com terror e serve-se dos próprios recursos narrativos que são referências e consagraram o horror; em vista disso, o roteiro está estruturado por uma série de cenas clichê que cercam um grupo de jovens em uma viagem à uma isolada cabana na floresta.  Eles desconhecem o perigo e são como cobaias de um sistema muito maior que arquiteta e opera esse terror.






Entre os amigos, estão os atores Chris Hemsworth ("Thor"), Fran Kranz ("Donnie Darko"), Kristen Connolly ("Fim dos Tempos"), Anna Hutchison (da série "Tratamento de choque")  e Jesse Williams ( da série "Grey's Anatomy"), cada um deles representa um personagem arquétipo encontrado no gênero. Do lado dos vilões, destacam-se os atores Richard Jenkins ("O Visitante"),  Bradley Whitford (da série "The West Wing") e uma participação especial de Sigourney Weaver, uma atriz que teve um papel marcante em "Alliens" (1986), um dos melhores filmes de SCI  Fi Horror da História do Cinema.  O plot é desenvolvido em uma escolha convencional do gênero: Isolar os jovens em uma casa sinistra e fazer  de tudo para exterminá-los. A partir daí, a viagem se transforma em um pesadelo com bastante humor negro e o sadismo relacionado ao gênero está justamente em colocá-los em um ambiente controlado, ou seja, eles estão sendo observados como em  um reality show  comandado por uma equipe operacional e com um desconhecido Diretor, que é o cabeça macabro do engenhoso projeto. 






Discorrer sobre O Segredo da Cabana sem apelar para o spoiler é um desafio, portanto para manter justamente o segredo e assegurar a descoberta degustativa do filme por cada espectador, cabe dizer somente algumas questões básicas: A história é simples e hilária porque joga propositalmente com as vidas dos personagens como se eles fossem meros fantoches de um filme de terror e, assim sendo, devem sofrer ao máximo com as recorrentes traquinagens do gênero. Pode parecer uma afirmação óbvia e nada inovadora, no entanto, não é, por conta de como a estrutura narrativa evolui em cada cena e como o roteiro emula o próprio gênero. A melhor sacada é que Drew Goddard está indiretamente representado em cena por Sitterson (Jenkins) e Hadley (Whitford) ao possibilitar que esses personagens tenham um papel de direção de terror apenas ao acionar a parafernália da sala de controle. Ao executar comandos em como reproduzir  perseguições, sofrimentos e mortes etc, Sitterson e Hadley cumprem a função formal de funcionários dessa "Instituição" que está por trás do segredo da Cabana, mas também, se divertem como se fossem o telespectador, como se fosse eu ou você. O bem da verdade é que esse longa tem o vigor contemporâneo de um divertido reality show e o grande barato é rir com eles.







Em concordância com determinadas premissas do gênero, a produção escala um elenco de jovens que dá conta da responsabilidade da atuação exatamente por passarem facilmente como desconhecidos, pessoas comuns. Chris Hemsworth já tinha virado super herói da Marvel, no entanto, aqui, ele realiza uma pequena ponta com seu simpático senso de humor e seu estilo jovem e sedutor e dá um charme ao projeto. Richard Jenkins realiza um papel aquém de seu potencial como ator , entretanto, tanto a presença dele como de Sigourney Weaver são as cerejas do bolo. Vale mencionar que a direção faz bom uso de gore em um clímax sanguinário, caótico e destruidor que tem uma abordagem bastante surreal , de forte apelo do fantástico. Assim, a mescla de humor negro, horror gore, preciso roteiro e reprodução inovadora de clichês  fazem de O Segredo da Cabana uma diversão revigorante.








Ficha técnica do filme ImDB O Segredo da Cabana

domingo, 30 de agosto de 2015

CREEP (2014), de Patrick Brice

Semana do Terror e Horror MaDame Lumière
 25 a 31 de Agosto
Um riso nervoso nunca é demais!




Por Cristiane Costa



Nesta  semana de filmes mais recentes e estilizados no terror / horror que estão sendo abordados aqui, cabe dar espaço a bem intencionados projetos que usam baixo orçamento e resgatam referências clássicas do gênero como, por exemplo, o "Found Footage Horror film", subgênero do horror consagrado em filmes como Bruxa de Blair (1999), Atividade Paranormal (2007) e [REC] (2007) nos quais há uma narrativa documental filmada com câmera na mão com um desconfortável efeito de tremor e descontrole, dá uma sensação aterrorizante de realismo com iminente insegurança e perigo. As filmagens são caseiras com elenco reduzido e, em alguns casos, amador ou em início de carreira. É caso de CREEP (2014), dirigido por Patrick Brice ("The Overnight"), que atua na história ao lado de Mark Duplass e apresenta um filme psicologicamente bizarro, que combina comédia, suspense e um leve toque de horror. 




Mark Duplass:  "Creepy guy"


Aaron (Patrick Brice) é um sujeito com dificuldades financeiras que responde a um anúncio para prestação de serviços de filmagem. O dinheiro e a necessidade dele compensam o sacrifício de subir a serra e se meter em uma casa isolada nas montanhas com um desconhecido. Ele encontra seu cliente, Josef (Mark Duplass), um homem totalmente estranho, com comportamento duvidoso, nitidamente com sérios distúrbios mentais. A princípio, Aaron se sensibiliza com a história dele. Josef está com uma doença terrível e quer gravar um vídeo pessoal para deixar ao filho, porém  à medida que a convivência e as filmagens acontecem, Aaron percebe que Josef é insano.


CREEP é bem distinto dos grandes clássicos "Found Footage" por ser pouco estilizado no horror tradicional. A sua execução abre uma lacuna que faz jus ao título: Ele é "creepy", bem esquisito e, assim, ele não precisa ser levado tão a sério. Não menos, atiça a curiosidade pelo suspense.  É como uma filmagem que, certo dia, um diretor sem grana decidiu realizar com um amigo. É o tipo de projeto  ame-o ou odeie-o, pois ele consegue ter ao mesmo tempo uma história tola e, também, trazer um frescor para o subgênero com uma história tragicômica que mescla sociopatia, solidão e aceitação.


Mas o que o filme tem de bom? Duas virtudes valem ser mencionadas.




Patrick Brice: Com câmera na mão e em cena



A primeira é a sua capacidade  de mostrar o quão bizarro um vilão pode ser e o quão condescendente uma vítima também, com destaque para a atuação cômica de Mark Duplass. A relação entre Aaron e Josef têm uma natureza estranha e um aceita o outro, por mais bizarra que seja a intenção do longa. Pouco a pouco, essa interação contribui com o suspense e dá vontade de saber como todas as bobagens vão acabar. Embora haja uma tolerância de Aaron ao seu sociopata cliente, mais pautada na necessidade da grana e na impotência e/ou insegurança de lidar com uma pessoa assustadora, Josef é um risco à qualquer pessoa por ter um perfil psicológico com severo desiquilíbrio, de difícil convivência social. É um ser isolado, solitário, que pode contar verdades ou mentiras, sumir do mapa ou ser obsessivo e stalker,  dizer que ama ou odeia. Esse uso de máscaras na interação dos dois é interessante pois existe um lado oculto nesse contexto. Não é possível visualizar claramente o que cada um é e sente. A constante sensação de estranhamento é permanente.





Seu segundo aspecto positivo  é  o empreendedorismo do diretor e a sinérgica colaboração entre ele e Mark ao realizar um "Found Footage" apenas com 2 personagens, com pouquíssimos recursos financeiros e uma boa dose de instinto. É uma filmagem muito caseira e minimalista que ainda consegue ter um frescor em um subgênero que já não tem sido muito utilizado e tem aparecido eventualmente em cortes pontuais no processo de decupagem. Não são todos os diretores e nem atores que conseguem criar essa atmosfera "creepy", sendo assim, a dupla funcionou bem e tem potencial para melhores trabalhos. Patrick Brice já tinha experiência em documentários e filmes independentes, o que vem a somar ao projeto. 






O que interessa aqui, sob a perspectiva da direção, é que ele realiza um PVC film (ponto de vista da câmera) com muita liberdade e variedade, usa e abusa de diversos posicionamentos de câmera com diferentes pontos de vista:  filma a si mesmo, filma apenas Mark, coloca a câmera para filmar um espaço vazio ou para filmar ele e Mark juntos etc. Com isso, a todo o momento o espectador é chamado para participar ativamente da história como uma real testemunha dessa relação. O longa começa com um bom ritmo e com momentos hilariantes, depois fica mais sinistro, melancólico, tenso.  O diretor reverencia o gênero em algumas cenas com planos que trazem elementos como a figura do lobisomem, do psicopata em uma floresta,  do machado, da máscara etc. No geral, o filme não perde o seu background cômico até o clímax, por isso, é mais fácil rir com tanta bizarrice do que ficar com medo.








Ficha técnica do filme CREEP

sábado, 29 de agosto de 2015

Babadook (The Babadook - 2014), de Jennifer Kent

Semana do Terror e Horror MaDame Lumière
 25 a 31 de Agosto
Um riso nervoso nunca é demais!


"Está chegando a hora de dormir 
e o Babadook chegou para o seu terror! 
Mas como lidar com a dor e sem amor?"  
(MaDame Lumière)


Por Cristiane Costa



As últimas produções cinematográficos de terror/ horror têm reservado boas surpresas para oxigenar o gênero, com a chegada de uma nova safra de cineastas estreantes em longas - metragem, alguns procedentes fora do eixo Hollywoodiano, com refrescantes cinematografias  ou um olhar diferenciado no roteiro e direção, entre os quais, destacam-se os filmes "Goodnight mommy" (Ich seh ich seh, 2014, Áustria) de Severin Fiala e Veronika Franz,  "Housebound"(2014, Nova Zelândia) de Gerard  Johnstone, "O Segredo da Cabana" (The Cabin in the woods, 2012, USA) de Drew Goddard, "Afflicted" (2014, USA / Canadá) de Derek Lee e Clif Prowse, "Musarañas"(2014, Espanha) de Juanfer Andrés e Esteban Roel  e The Babadook (2014, Austrália/Canadá) de Jennifer Kent.





Babadook é um daqueles filmes contemporâneos que misturam drama,  horror e suspense, com forte abordagem para o drama psicológico e intimista no qual a metáfora ocupa um espaço significativo para compreender a construção da narrativa e o tormento dos personagens. Amelie (Essie Davis) é uma mãe solteira que, após uma perda familiar, se afunda em uma depressão e perde claramente o vigor e o entusiasmo pela vida entrando em uma espiral autodestrutiva de melancolia, apatia e sofrimento. Mesmo com a responsabilidade de criar e educar o filho  Samuel (Noah Wiseman), um garoto  perturbado e com evidentes transtornos psiquiátricos, Amelie está nas sombras e não tem estrutura emocional para analisar nem suas atitudes desequilibradas nem as do filho. Começa a ler um livro sobre um monstro "Babadook" para Samuel. O garoto fica obcecado que o fantasma está escondido em casa e, aos poucos, Amelie se dá conta que  um mal muito pior que o Babadook os persegue.







O longa é bizarro do começo ao fim, como consequência, ele gera um incômodo que está além  de ficar tenso com as cenas. O incômodo principal é com o sofrimento e a impotência de uma mãe, em especial, uma mulher que desistiu de si mesma e para a qual a vida é um quadro em preto e branco. Sob a perspectiva da estrutura narrativa e de como ela prepara o público para o grande clímax, a história apresenta Amelie como uma mulher apática, o que já indica que ela tem um problema emocional que, embora não seja compreendido plenamente no início, mostra o quanto ela não está mais interessada em realizar uma rotina básica de mãe e, principalmente, que não está atenta ao seu filho. 



Samuel entra em um processo obsessivo de que tem que matar o monstro como se fosse um super heroi ou o pai da família,  o que representa uma abordagem inteligente do roteiro, afinal, se a mãe está definhando e abandonando os cuidados do lar e a atenção ao filho, simbolicamente, a criança pode ter reações fantasiosas e desesperadas. Sendo assim, será mesmo o personagem ficcional de uma história sobre monstros o grande perigo da casa, ou são outras energias do mal e o quanto o ser humano abre as portas para uma série de sofrimentos a si próprio, ora por não se dar conta desse mal, ora por não saber como lidar com as provações dolorosas que a vida lhe reserva. 



                               


Babadook se resume a um bom filme que realiza uma fusão metafórica da dor e da perda com o gênero horror. Ainda que no último ato,  a história acelera muito e de forma confusa em comparação ao lento ritmo dos primeiros atos, e o personagem do garoto é desenvolvido superficialmente de forma a torná-lo chato e insuportável, a direção é eficiente ao enfocar o ambiente familiar obscuro, abandonado, deprimente e realizar uma boa direção de atores na interação com Essie Davis. A atriz tem total responsabilidade de encarnar a mulher depressiva que não consegue lidar com a perda, não está com o emocional firme para deixar o passado ir embora e seguir adiante mais fortalecida para criar seu filho. Sua personagem é bastante entendiante, entretanto ela performa bem o papel e merecia um roteiro com cenas menos  bizarras e no qual pudesse trabalhar com outros atores.



                                   




Ao adicionar a figura do monstro que, ou os enlouquecerá ou os matará, o roteiro utiliza uma simbologia forte que faz a ponte com a criança através de uma história para dormir e  aproxima Samuel do próprio mal que ele tem que enfrentar, afinal, qual é a mãe que, em plena e boa condição psicológica, contaria a história de um Babadook assustador para o filho pequeno? Apenas as atormentadas. Com essa evidência e tantas outras  que o roteiro espalha pelas cenas, Amelie está envolvida por uma força maligna que é muito mais dela do que do ambiente externo. Finalmente, Babadook dá um medo básico mesmo parecendo um personagem com humor negro,  mas o  longa é muito mais do que o  aspecto físico macabro e a postura persecutória do monstro,  sua grande força narrativa está no sofrimento que emerge da dolorosa experiência de perder uma pessoa amada. Cabe a cada um enfrentar o seu próprio monstro.





Ficha técnica do filme ImDB The Babadook

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Entidade (Sinister - 2012), de Scott Derrickson

Semana do Terror e Horror MaDame Lumière
 25 a 31 de Agosto
Um riso nervoso nunca é demais!





Por Cristiane Costa


Poucos filmes de terror têm a habilidade de criar uma atmosfera tensa, macabra e assustadora a ponto de incorporar no ambiente a constante sensação de que o mal atravessará a Tela do Cinema, possuirá os corpos dos espectadores e os levará às profundezas de um perverso mundo sobrenatural.  Isso acontece em "A Entidade" (Sinister, 2012) de Scott Derrickson, diretor especializado em filmes do gênero como "O Exorcismo de Emily Rose"e "Livrai-nos do mal" e que no vindouro "A Entidade 2"  passa a batuta da direção para Ciarán Foy e atua como um dos produtores e roteiristas. 






No enredo, Ellison Oswalt (Ethan Hawke) é um escritor de livros sobre crimes, casado com Tracy (Juliet Rylance) e pais de 2 filhos, Ashley (Clare Foley) e Trevor (Michael Hall D'Addario). Depois do seu último best-seller, ele nunca mais conseguiu um sucesso editorial. Precisa de dinheiro e de um novo projeto de pesquisa criminal que possa inspirá-lo a escrever um livro. Interessa-se pelo assassinato de uma família que foi enforcada em uma árvore, tem a insana (e corajosa) decisão de se mudar para a casa  dessa família e, após encontrar uma caixa com vídeos Super 8 filmados em "Found footage", passa a investigar quem é o serial killer por trás de mortes que acontecem desde a década de 60. Dividido entre a necessidade de permanecer na casa e escrever o livro, a curiosidade em descobrir quem está por trás dos assassinatos e a crescente sensação de medo e insegurança que começa lhe perseguir, ele está na mira da assombração.






Scott Derrickson e C. Robert Cargill elaboram um roteiro que reúne uma história de terror clássica com três peças básicas:  uma figura aterrorizante do mal, uma família e uma casa mal assombrada. Embora seja elementar, essa estrutura narrativa sofre o acréscimo de dois excelentes recursos de suspense para dinamizar a história: uma investigação criminal amadora sobre um suposto serial killer que assassina famílias e desaparece com crianças desses núcleos familiares e uma lenda pagã que fundamenta os diabólicos acontecimentos.  A combinação eficiente de suspense, horror e mistério e uma direção experiente e crível, que articula muito bem os elementos em cena e as imagens  de gênero terror "Found Footage" , e se dedica a elevar o medo e provocar uma tensão fazem do longa um teste para os nervos. Se não quiser ficar com tanto medo e paranoia de que a Entidade está lhes espionando em algum cômodo da casa, assista-o somente se estiver acompanhado ou durante o dia. É essa a sensação terrível que o longa dá! Como a casa é um dos principais personagens da história e, por tradição do gênero,  herda maldições, aqui ela não é fisicamente horripilante mas é o centro do mal.









A direção e equipe técnica fazem a diferença em trabalhar com excelente movimentação de câmera em diferentes ângulos e com precisos efeitos visuais que expressam a paranoia de Ellison e jogam o espectador em um casa que ninguém gostaria de ficar nem por um segundo. Eles também harmonizam o jogo de luz entre claro e escuro, com sombras bem intercaladas que criam uma atmosfera de um mal iminente a surgir a qualquer instante, em qualquer lugar e que não pode ser visualizado e nem combatido. A edição que equilibra as cenas com o elenco e as cenas dos assassinatos filmados em Super 8 é bem realizada à medida que traz o horror dos crimes e a perversidade extrema do serial killer e seu sadismo ao ter filmado as famílias, ora em clima de alegria e, depois, sendo exterminadas cruelmente. Sem as cenas de "Found Footage" , o filme não teria o fator determinante da repulsa, que provoca a sensação de horror, e muito menos a sua natureza de suspense.







A atuação de Ethan Hawke é consistente e ele se envolve no papel com muito profissionalismo.  Tem que lidar com responsabilidade de ser o provedor da família, não encerrar a carreira de escritor como um fracassado ou um escritor de um sucesso editorial só  e, ainda, manter a sanidade mesmo quando está constantemente sendo assombrado e perseguido  pelas forças do mal.  Embora seu personagem leve o filme nas costas e assuma o trabalho de investigação e pesquisa praticamente sozinho, sua interação com os demais personagens como sua esposa,  o professor Jonas (Vincent D'Onofrio), o xerife (Fred Dalton Thompson) e o policial (James Ransone) é positiva para audiência porque é o único momento que há uma pausa na tensão psicológica e é possível respirar antes que o coração saia pela boca. Além do mais,  Ethan Hawke está bem dentro da personagem como um "voyeur" dos macabros vídeos Super 8 . Por mais que seja um escritor, ele é a representação do público de terror pois fica obcecado em ver e rever os vídeos por mais aterrador e doentio que isso possa parecer. Ele está determinado a encontrar uma pista sobre quem é o assassino e vai entrando em uma espiral de aumento de consumo de álcool e muita paranoia. É muito inteligente essa maneira do roteiro criar um espectador de terror dentro da própria história de terror. Além dessa grande sacada,  o desfecho é imperdível. Fatal e cruel.





Ficha técnica do filme ImDB A Entidade

Homem Irracional (Irrational Man - 2015), de Woody Allen



Em cartaz nos Cinemas - Lançamento de 27 de Agosto




Por Cristiane Costa



Amante da Filosofia e do humor ácido, Woody Allen está de volta à arena dos grandes lançamentos aplaudidos no último Festival de Cannes com "Homem Irracional" (Irrational Man, 2015), uma salada mista de drama, suspense, mistério, romance e comédia no qual a crise existencial de um professor de Filosofia é o pano de fundo para observar e analisar o quão irracionais, deprimidos e loucos podemos ser. Com Joaquin Phoenix como o protagonista, um ator magnífico que equilibra a maturidade da  interpretação  e a experiência em papéis estranhos, disfuncionais, introspectivos e densos com um estilo  singular de ser, esse filme é muito mais interessante por causa dele.








A história apresenta Abe (Phoenix), o professor de Filosofia que vive uma fase atormentada e não tem mais prazer na vida. Em evidente estado de depressão, alcoolismo e desinteresse em fazer coisas que lhe davam prazer como lecionar e escrever, Abe vive no piloto automático e nem mesmo a chegada a um novo emprego em uma universidade em Newport (Rhode Island) lhe é animadora. Ao conhecer a jovem estudante Jill (Emma Stone), surge a possibilidade de um regozijo no dia a dia e a chance de um romance. Começam a conversar em um clima amistoso e com uma química irresistível e sedutora que concilia a atração física e os diálogos inteligentes sobre suas afinidades intelectuais. 


Em paralelo, como Abe continua depressivo e sem foco, envolve-se sexualmente com a professora Rita (Parker Posey). Liberal, instável e em processo de divórcio, Rita se apega à Abe e deseja fugir com ele. Certo dia, após presenciar uma conversa em um restaurante entre estranhos, Abe tem uma ideia maluca que o motiva a sair da depressão. Um crime perfeito motivado por senso de justiça, por insanidade, por desespero ou por ilusões de uma emergencial pseudo-felicidade? Tudo é possível! Ele leva adiante seu plano criminal, envolvendo as amantes em uma misteriosa e cômica trama.









Com uma direção menos apegada à comédia mordaz, porém, ainda eficiente e com cara de Woody Allen e suas corriqueiras escolhas narrativas metalinguísticas e com bom repertório cinematográfico, literário e filosófico, Homem Irracional é uma experiência agradável, mas também, deixa buracos no roteiro com relação à uma abordagem mais profunda sobre a Filosofia e as relações dela com a crise existencial do protagonista.  Com sua experiente capacidade de articular  o drama e o humor e abordar assuntos sérios com leveza, Allen funciona bem aqui se o espectador não esperar um genial script. O cinesta não leva Abe tão a sério mesmo quando está abordando um assunto sério: o ser humano, seus demônios pessoais, seu descontentamento e ações impulsivas e irracionais. Essa é a magia do filme! Não levá-lo tão a sério também! 



Allen usa Abe como um personagem cujo brilhante conhecimento filosófico não foi suficiente para equilibrar sua vida, o que não deixa de ser engraçadíssimo. Abe é um homem bacana, atraente, inteligente, mas também perdido, complexo, decadente, pessimista. É como aqueles homens aparentemente atraentes que têm muito conhecimento e não sabem como canalizá-los bem nas relações interpessoais. Assim, não é surpreendente o encantamento que Jill e Rita sentem por ele e sua fragilidade. Ele não sabe o que quer em um relacionamento mas elas o desejam e estão apaixonadas. As atuações sólidas de Emma Stone e Parker Posey tornam esse triângulo bem divertido e, resta-nos observar como Abe se comporta, se o crime perfeito é tão efetivo, se sua vida mudará ao executar um ação moralmente inaceitável, se as relações afetivas que têm com Jill e Rita serão permanentes ou frágeis e fadadas ao fracasso.








Ao utilizar uma manobra metalinguística com a obra Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski em seu roteiro, expressar  sua admiração por diretores como Alfred Hitchcock e Ingrid Bergman, respectivamente, referências em suspense e dramas existencialistas e filosóficos, flertar e brincar com questões como automotivação para o crime, depressão, ansiedade, mentiras, castigo e culpa, Allen inclui elementos mais emocionais que racionais e, por consequência, demonstra como Abe leva uma boa dose de loucura na cabeça, o que explica o título da obra. Essa abordagem  que se aproveita da dualidade do ser humano é muito convidativa para assistir ao filme porque ela é tratada com a suavidade atmosférica dos longas "Allenianos", principalmente, sua recorrente agradável cinematografia em mais uma parceria com o DOP Darius Khonji ("Meia noite em Paris", "Para Roma, com amor", "Magia ao luar") , a consistente direção de atores e a trilha sonora.




Com a natural performance de Joaquin Phoenix, que consegue ser denso e leve, misterioso e transparente, trágico e divertido, o ator une as duas pontas das ambiguidades humanas. Abe é um atormentado que tem virtudes para ganhar a simpatia da audiência com considerável facilidade. Essa empatia ajuda a levar o filme de Allen como uma grande brincadeira com um toque de Hitchcock e um desfecho provocativo que seduz por ser um misto de humor negro , drama e tragédia : "O que somos realmente capazes de fazer com nossas ideias e atos irracionais?" "E quais serão as consequências"?






Há  também uma outra  interpretação mais intimista e compreensiva para entender os desdobramentos tragicômicos dessa história e, bem mais filosófica porque se relaciona com escolhas, culpa e uma série de pensamentos e sentimentos contraditórios que martelam na mente e no coração. O filme é realista ao expor que a felicidade é um estado de espírito que exige uma certa insanidade, que o homem tem seus momentos de fuga da realidade, de levar adiante planos eufóricos que possam tirá-lo do fundo do poço. Diversas vezes, observar o comportamento de Abe é perceber que ele precisava de um elemento de mudança e de impacto em sua vida, mesmo que isso seja acompanhado por uma atitude irracional, afinal, a escolha é pessoal mas as duras consequências são individuais e coletivas. É o que acontece aqui! Ele toma um caminho e o persegue com  motivação e habilidade, ainda que esse caminho seja mais ainda autodestrutivo e ele ainda pode contar com a falta de sorte e o acaso.






Homem irracional chega como um bom filme para uma das possíveis reflexões: Nem sempre a vida faz sentido. Temos que seguir adiante sem nos enganar muito. A vida também é vilã e nos prega surpresas. É sabido que ser moralmente correto e lidar com a realidade  pode ser cansativo e muito deprimente a depender da situação. Existem momentos que ela é árdua e sem sentido. Há pessoas que estão depressivas e impotentes porque não se encaixam nesse mundo caótico e cruel, não o compreendem, não tem autoconhecimento ou não desenvolveram sua consciência, e de repente, elas tomam atitudes insanas, de libertação de suas pulsões, ideias e desejos desenfreados sem pensar nos impactos na realidade e muito menos em questões morais e éticas. Assim ocorre com Abe, assim pode acontecer com qualquer um. Faz parte da natureza humana não aguentar o peso de uma ordinária existência. Faz parte da natureza humana buscar sentido na vida também por caminhos desconhecidos e obscuros.






Ficha técnica do filme ImDB Homem irracional
Distribuição Imagem Filmes


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Shrew's Nest (Musarañas - 2014), de Juanfer Andrés e Esteban Roel

Semana do Terror e Horror MaDame Lumière
 25 a 31 de Agosto
Um riso nervoso nunca é demais!





Por Cristiane Costa



É natural dar certo parcerias entre profissionais do Cinema que já trabalharam juntos ou demonstram propostas e visões artísticas similares na concepção de um filme, têm boa química  na produção, execução e distribuição de determinados tipos de gêneros e conseguem manter certa identidade do Cinema local e sair do lugar comum. Neste aspecto, os produtores Carolina Bang e Álex de la Iglesia não são parceiros apenas no casamento, eles dividem a produção do horror espanhol "Shrew's Nest" (Musarañas, 2014), primeiro longa-metragem de Juanfer Andrés e Esteban Roel. Na escalação do elenco, os produtores repetem a parceria com Macarena Gómez e Hugo Silva ("As bruxas de Zugarramurdi"), trabalham com Nadia de Santiago, indicada à melhor atriz revelação por "Las 13 Rosas" no Goya Awards 2008, e contam com a presença do excelente Luis Tosar, um dos atores que se destaca como vencedor de vários Goyas, entre os quais melhor ator em "Celda 211" e "Te doy mis ojos".








Com essa equipe de confiança, Álex de la Iglesia passa o bastão da direção para diretores jovens e talentosos e assume a produção executiva em um projeto que tem a sua cara. Uma atitude positiva para circular sangue novo na veia do Cinema Espanhol. Caso quase similar aconteceu com o roteirista Oriol Paulo que trabalhou com Guillem Morales em "Os olhos de Julia" e, posteriormente, assumiu a direção e o roteiro de seu primeiro longa-metragem, "El Cuerpo", um eletrizante suspense de tirar o fôlego. Com parcerias evolutivas como essas, a Espanha é um dos países que melhor produzem filmes independentes com uma marca e estilo muito próprios para esses gêneros e com baixo orçamento.  Assim como Guillermo del Toro, Álex de Iglesia é referência no país para filmes que exploram o suspense, o horror, a fantasia, o drama e o humor negro. Em "Musarañas"semelhante qualidade se repete. 




Ambientada na Madrid dos anos 50, a história combina horror e drama com uma proposta que enfoca uma protagonista monstruosa. Ela é Montse (Macarena Gómez), uma mulher psicologicamente perturbada que sofre de agorafobia e é viciada em morfina. Mesmo trabalhando como costureira, ela tem raro convívio com as pessoas. Trancada em sua casa e incapaz de vencer a barreira imposta pela doença, ela é controladora e instável e não deixa a jovem irmã La Niña (Nadia de Santiago) ter uma vida comum e desabrochar para novos relacionamentos. Solitária, Montse tem que conviver com um drama pesado do passado. Com um assustador comportamento psicótico, ela está obcecada pelo vizinho Carlos (Hugo Silva) e todas as circunstâncias de confinamento que acontecem preenchem a tela com um clima de horror e desespero.






Para um primeiro-longa metragem,   os diretores se deram bem por duas razões: a primeira é a surpreendente Macarena Gómez, que transita com bastante experiência entre a insanidade, o dramático trauma de um passado doloroso e a obsessão por um homem. A segunda é a direção que oferece picos de terror gore, com uma explosão de violência  gráfica  e sanguinária digna de fazer a audiência ficar horrorizada e dar risos altos e nervosos.  Somado a isso, Macarena é o tipo raro de atriz que é cômica quando está sendo trágica. O personagem dela é digno de piedade, mas é extremamente cruel e louco. Ela tem uma atuação incrível no clímax quando encarna o verdadeiro terror. No seu encalço, está Luis Tosar, no papel de seu pai morto. Embora com poucas aparições e de raras palavras, ele tem forte presença em cena, o que coopera para intensificar o clima de  loucura  e traz elementos narrativos comuns no gênero como fantasmas, assombrações, lembranças.








Se por um lado o elenco dá conta da qualidade, por outro, o roteiro tem altos e baixos, principalmente em comparação a outros tipos de mulheres insanas  do Cinema que têm surtos de violência, decidem fazer reféns e tem mais espaço para desenvolver densidade psicológica na atuação. Se os roteiristas tivessem optado por desenvolver mais a proximidade entre Montse e Carlos e uma exploração dos requintes de crueldade através de diálogos e com menos impulsividade, o filme poderia ser mais interessante e tenso. A presença de La  Niña em cena tira essa privacidade e um possível romance entre ela e Carlos surge como uma peça desnecessária ou solta na história. O ator Hugo Silva é mal utilizado e teria condições de contribuir com um melhor desempenho se tivesse tido o mesmo espaço que teve em "El Cuerpo". Para complementar, o  roteiro tem um ponto de virada surpreendente e um tanto bizarro e repugnante que é entregue de forma abrupta.





É complicado emitir um julgamento sobre Montse pois ela é mentalmente doente, caótica, desequilibrada, entretanto, a atuação de Macarena Gómez e seus olhos assustados a torna uma personagem extremamente trágica, dessa forma, a combinação horror e drama projetada pelos diretores funciona bem. Com o ótimo trabalho de José Quetglás ("Labirinto de Fauno"), a preparação física da atriz  com bom uso de makeup e cabelo traz ao público o estilo e visual da época com toques  de uma mulher religiosa agarrada à penitência, solidão e loucura, características que também permeiam essa casa silenciosa, vazia e claustrofóbica. Assim, o filme é bastante sinistro. Incomoda por enfocar a monstruosidade de uma mulher que é, ao mesmo tempo, vítima e vilã. Seu controle sobre a irmã é doentio a tal ponto que La Ninã se esconde como um ratinho. É essa relação entre as irmãs que é metaforizada na palavra "Musarañas" (Musaranhos), pequenos roedores que ficam escondidos e são ferozes se provocados.





Ficha técnica do filme ImDB Musarañas

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Expresso do Amanhã (Snowpiercer - 2013), de Joon-ho Bong


Estreia nos cinemas: 27 de Agosto



Por Cristiane Costa



Uma das melhores virtudes de filmes de ficção científica e distopias é a possibilidade de narrar boas histórias que nos façam refletir sobre a divisão de classes sociais e facções, formas totalitárias de poder e conflitos pela justiça, liberdade e sobrevivência. No premiado longa-metragem Coreano de Joon-ho Bong (de "Mother - A Busca da Verdade" e "O hospedeiro") e que tem como um dos produtores o consagrado  Chan-Wook Park ( de "Old Boy", "Lady Vingança") a sobrevivência é uma necessidade vital . Ela é a base motivacional tanto para o poder dominante do ambicioso vilão elitista como para o senso de justiça e redenção do líder libertário e miserável.  Dessa forma, o longa é um das ficções científicas de ação mais sedutoras que surgiram nos últimos anos na qual vale mais  a viagem pela sobrevivência, a jornada do herói, a coragem e a batalha da humanidade reacionária do que que propriamente o destino final.








Adaptada do HQ Francesa "Le Transpercenige"(1982) de Jacques Lob e Jean-Marc Rochette, a história é um sci-fi ambientada em um mundo pós-apocalíptico e dominado pelo gelo após uma catástrofe ambiental. Os poucos sobreviventes vivem confinados em um trem, o Snowpiecer, que circula de forma ininterrupta e do qual eles não podem escapar de maneira alguma, sob o risco de morrer. O trem é dividido em diferentes classes sociais e é dominado pelo seu idealizador, o ditador Wilford (Ed Harris), um homem que vive na dianteira do trem, longe e isolado.  Mason (Tilda Swinton) é um tipo de supervisora e cão de guarda do trem que, a mando de Wilford, circula nos vagões e dá ordens para manter a ala dos pobres sob controle e disciplina.  Do outro lado está Curtis (Chris Evan),  um líder nato e confiável que vive junto aos miseráveis no último vagão do trem a longos anos. Além do desejo de liberdade, ele tem uma dívida pessoal que pesa na sua consciência desde um fato ocorrido no passado. Apoiado por companheiros como Gilliam (John Hurt), Edgar (Jamie Bell),  Tanya (Octavia Spencer) e  pelo especialista Namgoong Minsu (Kang -ho Song) e sua filha Yona (Ah-sung Ko), Curtis executa um plano revolucionário para tomar o trem. 




Expresso do Amanhã é imperdível e tem o DNA do excelente Cinema Coreano que tem um alto nível de qualidade em narrar conflitos com violências física e psicológica. O crescente clima de suspense , a massacrante repressão e condição de prisioneiros, a dolorosa realidade de fome, pobreza e injustiça são elementos que mobilizam cada vez mais o envolvimento do público com o drama, assim como a bela cinematografia e ritmo imposto pela movimentação da câmera, enquadramentos e cortes que compõem uma inspiradora combinação de épico com ficção científica.  O roteiro nos prepara vários elementos surpreendentes  à medida que a revolução é marcada por violência, perdas e descobertas, ao mesmo tempo, nos coloca muito próximos à uma realidade dramática de desigualdade social e manobras políticas ditatoriais para manter o trem em funcionamento e a humanidade sob controle.






O toque de Midas do diretor Joon-ho Bong foi exatamente sua capacidade criativa de decupar planos plasticamente impecáveis que dão conta desse microcosmo social, caótico e futurista. Para isso, ele trabalha muito bem como o regente de uma grande orquestra, harmoniza os diferentes tons da violência bruta e desesperadora com as cenas dialogadas, introspectivas e silenciosas, combina um estilo preciso para direção de cenas de ação rápidas com movimentação de câmera  em slow motion em um espaço bem fechado e claustrofóbico. A direção de arte de Ondrej Nekvasil e fotografia  de Kyung-pyo Hong acompanham a mudança de ambientes no trem e, com um trabalho consistente de composição dessa ambientação, fica perceptível para o espectador as diferenças sociais entre pobres e ricos. O filme ainda conta com o talento de Marco Beltrami, experiente compositor em scores de sci-fi e distopias como Wolverine Imortal, O Doador de memórias, Eu, robô e Exterminador 3.






Nessa jornada exaustiva e caótica, Chris Evans e os demais personagens têm boas evoluções no desenvolvimento da história.  Cada um tem seu espaço no trem, em outras palavras, há brilho para todos e é um elenco que trabalha de forma bem harmoniosa e oferece diferentes possibilidades de atingir as emoções da audiência tanto no drama como no humor. Como destaques principais:  Tilda Swinton, Chris Evans, Namgoong Minsu e Ah-sung Ko garantem bons momentos. Tilda Swinton é costumeiramente uma atriz competente e brilhante em seus papéis. Ela encarna um híbrido personagem que combina vilã com características cômicas. Sua transformação física a deixa com uma aparência tola o que é bem favorável para ridicularizar a função de quem tem usa o poder dos outros para repreender, machucar e matar as pessoas. Já Chris Evans está totalmente imerso no papel , transita bem entre a virilidade de um herói, a força da liderança e sua vulnerável condição de ter que vencer os demônios pessoais, acreditar em si mesmo e chegar até Wilford para reivindicar liberdade, igualdade e justiça.  Namgoong Minsu e Ah-sung Ko, respectivamente como pai e filha, vêm a somar um toque Asiático no elenco e são personagens essenciais para algumas cenas que viram o jogo e são determinantes para o fluir da história.





Sob a perspectiva de estrutura e conteúdos da  história e o que ganhamos com isso, o longa tem uma beleza ímpar e bastante contemporânea ao evidenciar que o mundo não é perfeito nem agora e muito menos em um futuro pós apocalíptico. Embora haja esperança  na narrativa, a sabedoria dos roteiristas foi adaptá-la com a inclusão de elementos ficcionais que também são realistas ao denunciar como a sociedade é e funciona. Acima de tudo, Expresso do Amanhã é sobre viver e sobreviver. A humanidade sempre teve que lidar com diferenças sociais, com injustiças, guerras, mortes e poder que estabelecem estratégias de manutenção de uma ordem social, econômica e política que visa acentuar, ampliar e perpetuar os níveis de desigualdade social. Esse é o sistema que temos que lidar todos os dias, portanto, Snowpiercer é uma metáfora desse sistema. É um filme fantástico que articula variadas nuances desses conflitos e consegue alinhar entretenimento leve de blockbuster com inteligência, crítica e reflexão.





Ficha técnica no ImDB Expresso do Amanhã
Distribuição: Playarte Pictures