domingo, 31 de maio de 2015

Promessas de Guerra (The Water Diviner) - 2014 , de Russell Crowe




Russell Crowe  foi "batizado na direção"!
Promessas de Guerra é seu primeiro longa-metragem




Por Cristiane Costa


Os filhos da guerra deixam suas famílias para defender seus países. Muitos não retornam e são enterrados como indigentes ou permanecem desaparecidos sem as devidas honras. Os que sobrevivem convivem com as sequelas das perdas, do trauma e da dor. Essas histórias dramáticas de guerra têm sido abordadas a um longo tempo pelo Cinema e permanecem atuais como feridas emocionais que não são curadas, ou como forma de homenagear os mortos. Como os pais encontram paz quando não sabem do paradeiro de seus filhos? Como ter a esperança do reencontro e honrar suas promessas? Com um drama baseado em fatos reais da Batalha de Galípoli  ocorrida durante a I Guerra Mundial na Turquia, que deixou  muitos soldados australianos mortos, o experiente ator Neozelandês Russell Crowe estreia sua primeira direção de longa-metragem  com Promessas de Guerra (The Water Diviner).






A guerra é o pano de fundo contextual para  uma história focada no drama de um pai à procura dos filhos que estão desaparecidos, no entanto, o filme não tem foco em retratar a guerra. É sobre a bela e corajosa jornada de um homem que quer honrar sua promessa como pai e marido. Connor (Russell Crowe) é um fazendeiro que parte para a Turquia, conhece Ayshe (Olga Kurylenko) e seu gracioso filho Orhan (Dylan Georgiades) em um hotel de Istambul, faz amizade com soldados turcos (Yilmaz Erdogan e Cem Yilmaz), personagens cujas histórias foram impactadas por inestimáveis perdas da guerra. No entanto, esses encontros conduzem a história à uma atmosfera de esperança, de que todos precisam perdoar a si mesmos e reconstruir suas vidas. Quando uma pessoa perde um amigo, pai, marido ou qualquer ente querido, uma parte dela morre também. 







Russell Crowe queria fazer esse filme por uma questão bem pessoal: Ele nasceu na Nova Zelândia, essa é uma história sobre os filhos da Austrália e tantos outros filhos que morreram ou desapareceram na Batalha de Galípoli. Ele poderia ter a opção de escolher um recorte histórico focado no patriotismo dos USA, país no qual sua carreira evoluiu ou no projeto comercial de qualquer outro produtor de Hollywood; porém (e felizmente), ele teve luz própria sem ignorar sua filmografia. Há um atitude nobre e autoconfiante na sua primeira direção, a de que é possível conciliar uma temática que lhe interessa pessoalmente, com os dois lados de uma mesma guerra e com sua experiente base sobre Cinema como ator em dramas e épicos. Conhecer esse terrreno cinematográfico o salvou em várias cenas do filme apesar da falta de experiência como cineasta. E, o melhor, ele investiu tempo em uma história humanizada que abraça todas as famílias que tiveram filhos desaparecidos na guerra. Em suma, uma história universal.


 





Promessas de Guerra cativa muito mais pela sua jornada a terras distantes e tão diferentes da realidade de um fazendeiro Australiano do que somente pela sua carga emotiva. O desejo de encontrar os filhos é a maior força que move Connor, entretanto o filme não se resume a isso. A história reúne duas culturas bem distintas, a Oriental e a Ocidental, em uma excelente fotografia, comum em dramas mais convencionais e históricos, além de trazer elementos  do Islã como as feiras, os templos e campos abertos. Russell Crowe equilibra bem a direção. Conduz sua câmera em cenas intimistas com ressonância nas perdas das personagens e na possibilidade de uma nova vida,  amplia o campo de visão do público para memórias e flashbacks da guerra e sequências de conflitos e aventuras contra os gregos, inimigos que impõem obstáculos e perigos em cenas de ação. Em alguns momentos, pode parecer um híbrido de determinados gêneros, no entanto, o resultado de seu primeiro longa-metragem foi positivo. Destaca Russell Crowe como um potencial diretor para dramas de estrutura mais clássica e de influências épicas e históricas, uma seara claramente mais segura para ele.



 

 

Ficha técnica do filme no ImDB Promessas de Guerra


sábado, 30 de maio de 2015

Rapidinhas no MaDame: Trocando os pés (The Cobbler) - 2014


Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia





Por Cristiane Costa


Sobre a história: Max Simkin (Adam Sandler) trabalha como sapateiro na loja que herdou de seu pai Abraham (Dustin Hoffman), situada no Lower East de Nova York. De poucos amigos, apenas o barbeiro Jimmy (Steve Buscemi), Max tem uma vida entediante e se questiona se deve seguir o negócio da família. Uma descoberta mágica muda sua rotina e o coloca em contato com a vida de seus clientes.

Opinião Geral sobre o filme:  Ao olhar o pôster Brasileiro de "Trocando os pés", o filme deve ser levado a sério? Provavelmente não. Faz parecer um besteirol daqueles que ficam em segundo plano na escolha de um bom filme. Entretanto, esta história está bem longe de ser uma bobagem. É uma comédia dramática com características de conto mágico. Com direção de Thomas McCarthy (do excelente  "O Visitante"), ela se mantém fiel  às preferências do diretor por abordar dramédias. A história tem originalidade no plot, é uma completa "viagem" fantasiosa em um cotidiano urbano e com um protagonista loser; porém parte de absurdos e manobras narrativas rápidas e pouco estruturadas nos desdobramentos da história para justificar a mais "interessante e aventureira"  nova vida de Max . McCarthy, que assina o roteiro com Paul Sado, se apega  a situações engraçadas na rotina de Max e em reviravoltas criadas por  suas confusões. A ideia é divertida mas não é bem desenvolvida no roteiro e nos personagens. O maior problema ocorre quando uma comédia dramática não desenvolve sua faceta dramática, recorre a colocar um personagem fracassado que é pouco desafiado a pensar e vivenciar seu conflito pessoal e se empenha em forçar situações engraçadas. Tudo isso ocorre aqui! E qual é a surpresa? É um roteiro de McCarthy, que leva jeito para comédias dramáticas e escreveu o de "O Visitante", ele tem talento para elaborar melhor os conflitos. Adam Sandler tem uma atuação bem minimalista, introspectiva, moderada. Ele não é desafiado a nada além de trocar os sapatos e fazer valer os rumos do desfecho. Evidentemente,  ele e grandes atores como Dustin Hoffman e Steve Buscemi poderiam ter sido melhor utilizados.

O desprazer:  Apesar das boas intenções dos roteiristas e de garantir momentos non sense de diversão ( e dá para rir ), faltou desenvolver as subtramas que surgem  e os conflitos do protagonista sob uma perspectiva mais próxima da qualidade das boas comédias dramáticas.


Por que vale a rapidinha?  Adam Sandler tem carisma e comicidade, mesmo quando o fazem ficar com cara de paisagem.







Ficha técnica do filme ImDB Trocando os pés

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Cinema, Moda e Biografia : Saint Laurent ( 2014 ) , de Bertrand Bonello


Saint Laurent, de Bonello: uma cinebiografia apoiada pela estética 




Por Cristiane Costa



Cinebiografias são um terreno instável na indústria audiovisual. Elas personificam icônicas personalidades, ora com filmes de qualidade insuperável e aderência  à biografia, ora com filmes medianos e aquém de uma mínima e boa homenagem. Neste tipo de produção,  é possível encontrar opiniões polarizantes e divergentes, por isso, quando um(a) cineasta decide dirigir uma cinebiografia, ele(a) precisa conhecer muito bem quem é a personagem na essência, ou ter uma equipe competente de pesquisa para a devida investigação histórica e pessoal da figura pública em evidência, assim como definir qual é a sua intenção ao contar essa história, qual recorte ou foco narrativo levará em conta para decupagem, como emulará o DNA da personalidade no longa e a verossimilhança da obra audiovisual, tanto no plano ficcional (história)  como no plano estético e de linguagem (figuro, direção de arte,  fotografia, som etc).




Yves Saint Laurent: Por trás da aparente fragilidade, um gênio da moda



Em seu longa - metragem Saint Laurent (2014), Bertrand Bonello deixou uma tênue impressão digital de Yves Saint Laurent (YSL), magnífico fashion designer  Francês que revolucionou a moda feminina, e com sua inventividade e talento para criar o prêt-à-porter, contribuiu com um novo padrão de moda em detrimento à Alta Costura (Haute Couture) das grandes maisons Francesas. O estilista ditou um estilo audacioso e libertário de se vestir, alterando o rumo dos comportamentos femininos no cenário fashion. Elas começaram a trajar mais ternos de fino corte e cores em tecidos esvoaçantes, influências de YSL baseadas em suas experiências com o universo masculino, a liberdade de se sentir à vontade na própria roupa e pele e suas viagens à Marrakesch no Marrocos, lugar no qual tinha uma casa e se refugiava para  desenhar suas criações. Se por um lado, sua mente genial, criativa e seu espírito visionário foram favoráveis à História da moda e ao seu sucesso empresarial, por outro lado, YSL enfrentava as dificuldades pessoais como a timidez, a fragilidade física, a depressão e o vício em drogas.  A atuação de Gaspard Ulliel como YSL é uma deslumbrante personificação do estilista.  O ator é a alma do filme e transita naturalmente entre a elegância, a perversão, a sedução, a criatividade e a fragilidade do icônico fashion designer, entregando uma performance hipnotizante.



Bonello capturou bem aspectos importantes do legado fashionista de Yves Saint Laurent, de sua personalidade e mazelas pessoais: seu vício em remédios, a relação afetiva e de negócios com seu companheiro Pierre Bergé (Jérémie Renier), o crescimento da marca YSL no mercado de luxo, os altos e baixos de sua saúde e o relacionamento com seu amante Jacques de Bascher (Louis Garrel). Fez um recorte temporal entre 1967 e 1976 que tem como uma das forças mais dramáticas e comoventes o grande desfile de YSL inspirado  nas cores e tecidos orientais. Porém, ainda que há um rico material de pesquisa, excepcional fotografia, senso de perfeição em elegantes e contemplativos enquadramentos, uma bela adequação do figurino, da maquiagem e da direção de Arte ao período e a competência do elenco, este longa-metragem não emociona como o de seu contemporâneo, Yves Saint Laurent  (2014), dirigido por Jalil  Lespert. São filmes totalmente diferentes. Lespert realiza um filme "comercial" com uma narrativa didática, de conflitos abertos em cena e com uma dramaturgia intensificada no relacionamento entre o estilista e Pierre Bergé, que recebem maior foco. Lespert realiza uma grande novela da vida de YSL, portanto, seu filme é mais fácil de assistir.  Bonello realiza um exercício cinematográfico de estética do mundo do estilista, capta a atmosfera do  universo YSL e entrega um filme artístico,  autoral, contemplativo.






Jacques de Bascher (Louis Garrel), amante de Saint Laurent



Nesse sentido, Bonello se engajou em deixar uma marca muito pessoal de sua direção em Saint Laurent. É uma cinebiografia que evoca um dos períodos mais criativos do estilista e tem um roteiro que mais sugere quem foi YSL do que se preocupar em explicar os conflitos e elaborar grandes cenas dialogadas,  o que pode ser positivo para alguns fãs e curiosos que apreciam um "Cinema Arte". No mais, Ulliel e Garrel estão em um entrosamento sedutor, embalados pelo charme, beleza e tragédia de seus personagens, a relação homossexual surge com todo o seu desejo.  No geral, Bonello investe mais tempo nos planos de socialização do estilista e explora suas festas, viagens, amigos, equipe de trabalho,  amantes e estilo de vida. Nota-se que o diretor domina os códigos do universo LGBT na sua direção, integra-os na estética e nos comportamentos das personagens e explora levemente a relação de perversão e romance entre Jacques de Bascher e YSL e  a liberdade sexual da época, resultando em um interessante approach para demonstrar o quanto Bascher não era só um charmoso conquistador, ele e YSL foram apaixonados e intensamente devotados a desfrutar as loucuras do amor e do sexo.
  


 




Ficha técnica do filme no ImDB  Saint Laurent

quinta-feira, 28 de maio de 2015

MaDame Blockbuster : Terremoto: A Falha de San Andreas (San Andreas) - 2015

MaDame Blockbuster:
Cinema Pipoca e no stress





Estreia de 28 de Maio


O filme catástrofe que fará a sua poltrona tremer!






Por Cristiane Costa


A criatividade da Arte Cinematográfica e as suas possibilidades de construir um mundo audiovisual improvável com efeitos visuais destrutivos é uma das forças de filmes - catástrofe. Neles, é possível elaborar uma série de cenas de forte impacto destrutivo e brincar com os absurdos sem, necessariamente, se preocupar com a construção dos personagens e o desenvolvimento científico sobre o tema. É o que ocorre em Terremoto: A Falha de San Andreas, estreia desta quinta-feira, 28 de maio, nos Cinemas Brasileiros. Traz mais uma parceria entre os atores Dwayne Johnson e Carla Gugino , que trabalharam juntos em "A Montanha Enfeitiçada" e "Rápida Vingança". Na história, eles são o casal Ray e Emma. Em recente processo de divórcio, eles se aproximam e tentam salvar a filha Blake (Alexandra Daddario) após um terremoto de magnitude 9 na Califórnia. O diretor Brad Peyton e sua equipe de produção teve à disposição um arsenal de ideias, ferramentas e pessoas, plenamente apoiados pelas vantagens tecnológicas de efeitos visuais e fotografia, para destruir o percurso de Los Angeles a São Francisco após o abalo sísmico provocado pela temida Falha de San Andreas.




Carla Gugino e Dwayne Johnson



Considerado um thriller de ação, espere mais ação do que suspense, mais uma história familiar, de determinação, amor e de esperança do que um thriller investigativo sobre a Falha San Andreas, mais um filme catástrofe com caprichados efeitos visuais do que um roteiro com memoráveis personagens. O longa é um esforçado e despretensioso blockbuster para sua diversão desde o início  e não há nenhum mal nisso a depender de sua expectativa. É como brincar de um game no qual você pode colocar uma cidade em ruínas, ter controle sob a terra, a água, o vento e toda a arquitetura  e não oferecer (quase) nenhuma opção de saída aos sobreviventes. Você poderá chorar quando o heroi sobrevive, mas, também, rir de como o Cinema catástrofe realizado sem ambições explicativas  baseadas em fatos reais é uma hilária fantasia. Aqui, se trata de um blockbuster com um detonador do lado, com a simples menção: "elenco principal, vamos ver se vocês conseguem se salvar e superar esse drama!" E,  a gente torce pelo final otimista após se divertir sem qualquer preocupação,  de preferência, com um saco de pipoca ou chocolate.



 Detalhe do teaser : a importância dos efeitos visuais  para filmes catástrofe





Em uma das cenas iniciais, Ray (Johnson), um piloto de helicóptero de busca e  resgate é testado em sua coragem e especialidade técnica. A construção da sequência estrondosa antecipa a base audiovisual da maioria do filme: uma situação de perigo, o medo da vítima, o imprevisível e voraz efeito destrutivo da natureza, o uso de som vibrante  e seu forte impacto durante a projeção, ou seja, toda a  destruição é enfocada a partir de cenas da queda das cidades e, principalmente, cenas absurdas que provavelmente não sairia ninguém vivo. Em suma, a natureza toma vida e quer destruir o que tiver em pé. Nesse sentido, o viés de engajamento do longa para o público é não fazê-lo se atentar à ciência por trás da Falha San Andreas, tanto que Lawrence, o especialista em falhas, protagonizado pelo ótimo ator Paul Giamatti fica em segundo plano e perde a importância diante do intenso poder audiovisual catastrófico em cena. Suas aparições dramáticas são divertidas porque ele não faz absolutamente nada e seu papel foi neutralizado e definido apenas como complementar. Como Giamatti tem uma veia cômica, em uma das cenas de maior drama para seu personagem, se alguém se lembrar do que ele disse sobre a Falha de San Andreas, provavelmente não levará a explicação à sério. 








 Dwayne Johnson: Um pouco mais de drama nesse papel. 



Também, cabe mencionar que, uma vez escalados bons atores de ação como Dwayne Johnson e Jason Statham, já sabemos que o filme não priorizará desenvolvimento dramatúrgico de personagens, será puramente thriller de ação, comédia de ação ou crime - ação.  Tal escolha é tão clara para o público de Cinema e não tem relação com subestimar o talento de atores como estes, é mais uma questão de alinhamento entre elenco x personagens para um filme comercial com este roteiro. No caso de Dwayne Johnson, ele é eficiente e claro com suas limitações. Ele transmite uma figura protetora e amorosa, um homem boa pinta e sarado em um personagem simples e corajoso, o que é suficiente para agradar fãs de blockbusters de ação. Quando tenta realizar uma cena mais dramática, vê-se claramente que não é sua praia enfatizar a carga emocional da personagem. Nota-se que , por mais que ele e Carla Gugino tentam salvar a filha, em nenhum momento, eles parecem que estão em um terremoto de verdade. Parece até que foram buscar a filha no colégio, logo, como dito anteriormente, esse é um blockbuster com alguns absurdos para entretenimento, absurdos que são divertidos.  Ainda sobre o elenco, a escalação de  Alexandra Daddario ( "Percy Jackson e o Mar de monstros") é boa para o papel de filha e em filmes de ação e aventura. Sua beleza, misto de delicadeza com sensualidade, seus belos e hipnotizantes olhos e em boa forma são atrativos complementares ao seu talento para um filme que normalmente atrai bastante a ala masculina.




Alexandra Daddario


O grande barato é perceber que Brad Peyton dirigiu cenas de avassaladora destruição para que a força da natureza fosse a protagonista e não tivéssemos  muitos olhos para mais nada e ninguém. Sua decisão é muito clara e, como uma faca de dois gumes, pode ser interpretado positiva ou negativamente a depender do tipo de espectador. Considerando que filmes sobre catástrofes são um ótimo tema para testar, com realismo, o quanto o mundo está preparado para situações de risco, certamente discorrer sobre a Falha de San Andreas e roteirizar um thriller de ação mais cerebral teria sido uma escolha convidativa e mais inteligente para uma parte do público.


Terremoto : A Falha de San Andreas não é só colocar no chão os prédios mais caros e construídos com tecnologia de ponta em cidades,  manipular as forças da natureza em cena e apresentar o carismático Dwayne Johnson como um pai corajoso e em processo de redenção. O seu subtexto é relevante como aprendizado para nossa humanidade: o valor da vida e da família e a possibilidade de reconstruir o lar. O roteiro se apoia nessa função simbólica do terremoto e que pode facilmente ser aplicada a outros trágicos ciclos e acontecimentos da vida quando perdemos o chão. Mesmo com um assunto que provoca medo, paralisia e desespero, a nossa vulnerabilidade frente aos desastres naturais, a perda de quem amamos e a falta de total controle para a sobrevivência em situações imprevisíveis, o longa combina diversão explosiva com família e se destaca com um ótimo blockbuster para formatos  Imax 3D e 4 D, garantindo uma experiência mais realista na qual até o som do filme fará sua poltrona tremer.




Ficha técnica do filme ImDB  Terremoto: A Falha de San Andreas


Fotos: Cortesia Warner Bros Pictures. 
Fotos de Carla Gugino,  Dwayne Johnson e Alexandra Daddario.  Crédito imagem: Jasin Boland  Copyright: Warner Bros. Pictures




domingo, 24 de maio de 2015

MaDame listas de Cinema 2015 : Top 10 Diretores modernos para dramas poderosos

 MaDame listas de Cinema
por Cristiane Costa
 


MaDame listas de Cinema é uma seleção especial, perceptiva e degustativa com 10 favoritos (filmes, atores, cineastas etc) sobre determinado tema ou com algum recorte específico na escolha. Não tem a intenção de ser uma verdade fixa e absoluta pois é baseado em minhas observações, análises e afinidades sobre Cinema e poderá ser alterada em novas e atualizadas listas. O propósito é oferecer-lhes uma pílula "look closer", ou em outras palavras, uma lista para despertar sua atenção e/ou interesse e dividir com vocês meus gostos pessoais de Cinefilia e como tenho visto a indústria cinematográfica.

A lista "Top 10 Diretores modernos para dramas poderosos" teve como objetivo capturar diretores que se destacam em dramas contemporâneos mais realistas, não estereotipados ou com uma estrutura linear padrão e previsível. Seus estilos de direção também foram considerados assim como a filmografia mais recente.

Bem-vindo(a)! Você está convidado para dividir a sua lista. Viva ao Cinema!






1. Michael Haneke, Alemanha

A topo da direção de dramas poderosos só poderia ser ocupado por Haneke. O experiente cineasta aprecia dramas complexos e difíceis, aqueles que a sociedade prefere não encarar de frente e agir com hipocrisia, aqueles que mostram a natureza humana obscura e são como "um tapa na cara" ou "um dedo na ferida". O Cinema de Haneke tem a preciosidade de abordar as várias formas e manifestações de violência do ser humano. Seus personagens ocupam papeis nos quais, ou sofrem ou fazem alguém sofrer ou demonstram  a natureza da violência, do mal. Filmaços como A professora de piano, A fita branca e Amour transitam da violência física à psicológica e destacam a habilidade de Haneke trabalhar com variados tipos de histórias sem se afastar do seu singular estilo de direção e do seu contundente universo temático.


Dica de filme imperdível : Amour (2012) 




 


2. Steve McQueen, UK


Steve McQueen é um daqueles diretores que tem uma direção única,  sofisticada e impactante, com forte intenção de nos conectar com cada personagem e observar seus dramas. Dos modernos,  ele é um dos mais fiéis ao seu estilo de direção, tanto que é possível identificar um "Steve McQueen"  após familiarizar-se com seus filmes. Desde os longos takes à aproximação da câmera nos diálogos de maior efeito dramático e a bela  orquestração do som e da trilha sonora com a imagem, Steve McQueen coloca sua impressão digital cinematográfica nos movimentos de câmera e enquadramentos e garante  imagens inesquecíveis como as de Shame e 12 anos de Escravidão. Ele também realiza um ótimo trabalho em parceria com o ator Michael Fassbender, resultando em excelentes atuações, confiança e energia no set. É um diretor com forte potencial para desenvolver novos e interessantes dramas se seguir a linha mais contundente e dolorosa de Shame, um dos seus melhores filmes.


Dica de filme imperdível : Shame (2011) 
Review: Shame







3. Asghar Farhadi, Irã


O premiado diretor Asghar Farhadi é um dos responsáveis contemporâneos por levar o Cinema Iraniano ao resto do mundo com um talento formidável de abordar questões complexas na relação humana dentro da dinâmica familiar. Filmes como A Separação e O Passado se destacam por criar um ambiente narrativo fechado e intimista no qual há conflitos e discussões acaloradas e, em algum momento, personagens se encontram com outros personagens e desdobramentos dramáticos marcantes ocorrem em cena, dilemas complexos são abertos para uma decisão. A força humanista, expressiva e universal do seu Cinema, que é originado em um pais com cultura bem tradicional, possibilita que ele abra espaço para o diálogo e a reflexão sobre as complexidades do agir.


Dica de filme imperdível : A separação (2011) 






4. Denis Villeneuve (Canadá)


Um dos mais interessantes diretores do momento e o selecionado para a direção do remake de Blade Runner, Denis Villeneuve tem  realizado filmes com uma cinematografia impecável, um estilo de direção sofisticado que dialoga com outros diretores como David Fincher, roteiros que fogem do lugar, histórias obscuras com componentes violentos e uma versatilidade de combinar drama, suspense, crime e mistério, podendo orientar-se mais a um gênero ou outro. Seu grande filme é Incêndios, uma dramática e violenta jornada familiar no Oriente Médio, seguido pelo criativo, kafkiano e psicanalítico Homem Duplicado (Enemy) que traz Jake Gyllenhaal representando dois egos, o homem livre e aberto aos prazeres e o homem casado e preso às suas funções sociais. Seu próximo longa, Sicario, promete ser um brutal drama-thriller-action movie  na fronteira do México e USA e trará dilemas de uma agente do FBI durante uma operação clandestina.


Dica de filme imperdível : Incêndios (2010)  





 
5. Nuri Bilge Ceylan (Turquia)


Ceylan tem uma parceria especial no seu Cinema em estado de Arte: seus principais filmes tem a participação de Ebru Ceylan, sua esposa roteirista, e uma estrutura narrativa minimalista, peculiar, fria, porém envolvente à medida que somos desafiados a observar como o ser humano age em contextos mais obscuros com componentes do crime e/ou da violência (inclusive violência dos sentimentos mal resolvidos, das fissuras sociais etc). Com texto forte , denso e humanista e um interessante entendimento da complexa psicologia humana, suas histórias abordam questões mais universais nas relações sociais, políticas etc. Seu último filme, Sono de inverno (Winter Sleep), os personagens são concentrados nas paisagens isoladas e frias da Anatolia, mostram suas ambiguidades e entram em confronto com o calor das discussões e acontecimentos, diante da vida, da morte, do ódio.


Dica de filme imperdível: Era uma vez em Anatólia (2011)





 6. Lars von Trier (Dinamarca)


Lars von Trier tem fama de ter um Cinema polêmico, perturbador,  pessimista e transcendente, no entanto, um dos seus grandes diferenciais não é exatamente ter essa imagem pública controversa, é a sua capacidade de ser um cineasta contemporâneo que exerce sua liberdade criativa e filosófica, experimenta e se desafia na estética e linguagem cinematográficas de seus filmes, muitas vezes não facilmente compreensíveis, porém ainda capazes de enfocar temas profundos da condição humana como a depressão, a melancolia, a morte, o sexo, a culpa, a  etc. Atualmente é um dos diretores mais intrigantes, amado ou odiado, que provoca o público à uma  reflexão existencialista, além de valorizar boas personagens femininas e ter dirigido excelentes atuações como as de Björk (Dançando no escuro), Charlotte Gainsbourg (Anticristo,Melancolia, Ninfomaníaca I e II), Kirsten Dunst (Melancolia), Emily Watson (Ondas do destino) e Nicole Kidman ( Dogville).


Dica de filme imperdível: Dançando no Escuro (2000)




 

 7. Hirokazu Koreeda (Japão)


Hirokazu Koreeda une uma realista cinematografia de um Japão contemporâneo,  melodramas familiares com sensível orquestração da dinâmica do cotidiano doméstico e de suas relações e uma excepcional habilidade na direção de crianças. Sua câmera explora situações disfuncionais com diferentes perspectivas e possibilita o ponto de vista da criança, dando voz a outras formas de observar personagens, sentimentos e impactos das ações de adultos.  É um diretor excelente para dramas familiares pois equilibra temas fortes com histórias significativas que têm leveza e delicadeza. Seu novo filme, Umimachi Diary, presente no Festival Cannes 2015, aborda a relação entre irmãs e a chegada de outra meia-irmã.


Dica de filme imperdível: Pais e filhos (2013)









8. Thomas Vinterberg (Dinamarca)


Thomas Vinterberg é um diretor  experiente que, quando decide fazer um ótimo drama, ele faz. Como um dos fundadores e influenciadores do movimento Dogma95, sua direção tem o que há de melhor no excelente Cinema Dinamarquês e suas influências cinematográficas: dramas realistas e contundentes, câmera na mão, personagens com fortes conflitos que são lançados em espirais crueis e destrutivas e uma liberdade narrativa de reminiscências do Dogma95. Seus melhores filmes, como Submarino e A Caça, adentram no núcleo familiar, exploram a psicologia  humana, colocam indivíduos em situações dramáticas complexas que resultam em impactantes momentos de exclusão e julgamento sociais, mas também, na possibilidade de esperança e redenção. A Caça é definitivamente um dos melhores dramas dos últimos anos.


Dica de filme imperdível: A Caça  (2012)







9. Jacques Audiard (França)


Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2015 por "Deephan", Jacques Audiard é um cineasta Francês que vai contramão do Cinema leve, cômico, refrescante e fenômeno de bilheteria  que vemos em sucessos como "Intocáveis" de Olivier Nakache e Éric Toledano e "Eu, mamãe e os meninos" de Guillaume Gallienne. Audiard enfoca o Cinema mais brutal, com histórias pesadas e realistas que fundem o crime, a  violência, a diversidade étnica e social, o xenofobismo, o subemprego etc. O cineasta tem uma  primorosa direção para abordar a truculência de dramas individuais em uma sociedade europeia em decadência. Ele também se destaca como diretor de atores. Trabalhou com elenco de fortes atuações com Tahar Rahim (O Profeta),  Matthias Schoenaerts e Marion Cotillard (Ferrugem e Osso). O aguardado "Deephan" enfoca um imigrante e sua família do Sri Lanka que, após uma guerra civil, tenta uma nova vida na França e é confrontado pela violência e todos os obstáculos da realidade do país.


Dica de filme imperdível: O profeta (2009)





10. Derek Cianfrance (USA)


Derek Cianfrance é um dos cineastas do Cinema independente Americano que bom potencial de crescimento. Com uma filmografia pequena, porém bem interessante, ele consegue reunir 3 pontos de harmonia entre o Cinema comercial e o independente: Dramas sensíveis que se comunicam com um público mais amplo; um estilo de direção realista e bem particular de fazer cinema com personagens bem desenvolvidos, dramas com conflitos e rachaduras emocionais e uma narrativa com diálogos e situações bem honestas e humanizadas, todos suportados por uma excelente cinematografia e trilha sonora que possibilitam reconhecer o DNA cinematográfico de Cianfrance e projetos com bons atores que são bem recebidos por um público variado (Ryan Gosling, Bradley Cooper,  Michelle Williams). Seu último filme, O lugar onde tudo termina, reforça seu estilo de direção apropriado para bons dramas e acrescenta sua versatilidade com novas nuances de gênero como o suspense e o policial. 


Dica de filme imperdível: Namorados para sempre (Blue Valentine, 2010)

sábado, 23 de maio de 2015

Cake - Uma Razão para Viver (2015)





Por Cristiane Costa 


Um filme sobre depressão exige uma entrega profunda do ator/atriz principal com os cuidados para equilibrar o isolamento social, a melancolia, a tristeza e a paralisia na ação com o que realmente ocorre com pessoas depressivas na vida real. Jennifer Aniston, indicada ao Globo de Ouro e SAG 2015 pela sua atuação em Cake - uma razão para viver recebeu o peso dessa responsabilidade. Ela é Claire Simmons,  uma mulher que carrega o trauma de ter perdido o filho. Viciada em remédios,  com recorrentes atitudes agressivas e em estado depressivo, Claire é o tipo de personagem de um filme solo. Coube a Jennifer Aniston realizar uma atuação dilacerante, equilibrada entre as brechas e vulnerabilidades emocionais da perda do filho, a espiral autodestrutiva da doença e o pequeno desejo de superação. Apesar dos esforços da atriz, que realiza bem o seu papel, Cake tem um roteiro que é mais paralisante do que uma depressão.






O diretor Daniel Barnz realizou um filme com plot ambicioso em sua proposta dramática sobre um doença silenciosa. Até aqui não há nenhum problema em sua ambição, a depressão é paralisante, complexa, limitadora. É uma condição abismal que puxa o individuo para a indiferença, a raiva e muitos sentimentos que deixam a vida em preto e branco. Ela se desdobra em efeitos previsíveis já identificados por um diagnóstico clínico e pela literatura da Psiquiatria e Psicologia, em ações que podem ser amplamente colocadas em cena para uma conexão com o público, assim como efeitos imprevisíveis que pioram o estado do doente a depender do grau de severidade do transtorno. Ter a ideia de abordar essa realidade para o Cinema faz parte da miserável condição humana em uma sociedade cada vez mais doente.  







Porém, o  risco de Daniel Barnz e do roteirista Patrick Tobin foi ter produzido um filme que não insere o depressivo em um cotidiano de interação verdadeira com as pessoas e não faz um bom desencadeamento das situações. Esse roteiro é preguiçoso. Ele não guia sua protagonista a um enredo bem estruturado e corajoso o suficiente para contar uma boa história sobre depressão. O longa se perde exatamente na narrativa e no desenvolvimento das personagens e deixa Jennifer Aniston sozinha para salvar o filme.  O próprio longa não a ajudou a competir na categoria de melhor atriz do Oscar 2015. Por mais que a atuação dela foi positiva, muito provavelmente a Academia olhou torto para Cake.






O roteiro transita entre apresentar comportamentos de risco de Claire que costumam ocorrer em alguns transtornos mentais como o vício em remédios, as alucinações,  o sexo casual, a impulsividade, a agressividade, entre outros, e revelar o quanto a situação dela, mesmo sendo uma mulher endinheirada, é uma miséria humana. Recorrer a essas estratégias de repetir comportamentos de risco e criar um elo para o público ter piedade de Claire não são mais suficientes para contar uma história sobre depressão. Também há escolhas que são uma completa "viagem" do roteirista e que pouco agregam ainda que estejam em um contexto de perdas e encontros afetivos, como por exemplo, colocar Nina Collins (Anna Kendrick), uma ex- colega suicida de Claire em seus pesadelos e, depois, Claire conhece o ex-marido de Nina, Roy (Sam Worthington). O elenco coadjuvante é desperdiçado e não tem uma função dramatúrgica relevante.  Uma evidência clara desse descaso com o desenvolvimento dos personagens é   Sam Worthington, que  poderia entrar quieto e sair calado e não faria qualquer diferença para a história.



Cake enfrenta como inimigo sua própria ambição narrativa. A história reforça a inexperiência do roteirista e a falta de direção do cineasta. Para quem conhece um pouco mais da depressão, saberá identificar que quem escreveu a história não quis se arriscar a criar situações mais palpáveis para uma mãe que perde o filho e é desafiada a continuar sua vida.  Não basta incluir os efeitos da depressão, caprichar na fotografia com ares melancólicos,  colocar Jennifer Aniston para ter dores crônicas e o rosto cheio de cicatrizes . Cake é um filme que não compreende o depressivo, que prefere tratar o drama na superfície do que encarar e se aprofundar na doença, que prefere isolar o depressivo do que colocá-lo em situações reais no qual sua humanidade pode ser sentida. Se não fosse por Jennifer Aniston,  não haveria razão para Cake viver.



 


Ficha técnica do filme ImDB Cake  - uma razão para viver



sexta-feira, 22 de maio de 2015

Tomboy (2011) : um sensível drama sobre a infância e o transgênero




Por Cristiane Costa



Uma das belezas do Cinema é quando um(a) cineasta tem um encontro sensível e verdadeiro com um universo temático no qual o seu talento, competência e interesse genuíno fazem a diferença e resultam em bons filmes. Uma delas é Céline Sciamma, roteirista e  diretora Francesa que aborda questões sobre a infância, a puberdade e os ritos de passagem da adolescência. Com uma habilidade excepcional em trabalhar com crianças e adolescentes, Sciamma toca em temas delicados e/ou nevrálgicos no processo de amadurecimento da criança e do jovem como a identidade e gênero, a violência, o amor, o desejo, a sexualidade, a amizade. Dentro desse amplo enfoque, ela sabe abordar diferentes problemáticas e assegurar uma diversidade de  realidades, crianças e jovens em seus 3 longas: Lírios D'agua (2007), Tomboy (2011) e Garotas (2014).


Tomboy é o seu filme mais sensível e com o tema mais desafiador:  a infância e o transgênero. Laure (Zoé Héran) nasceu menina, porém tem a aparência física, se veste e  se identifica como um menino. Após a família mudar para uma nova vizinhança, Laure se apresenta como Mickäel na sua socialização com outras crianças e tem um verão antes das aulas para brincar e fazer novos amigos. Mesmo sendo muito jovem, Mickäel quer ser aceito como é, porém está ciente de sua condição, e a todo o momento, faz uso de manobras para ninguém descobrir que tem corpo de menina. Com uma direção realista de Cinema independente e com um fantástico mix de tato e sensibilidade, Sciamma coloca Laure/Mickäel em várias situações como jogar futebol, descobrir o amor, sofrer humilhação etc em um filme que tem muito mais a dizer aos adultos sobre o tema.




Da infância à puberdade: despertar do amor 



A estrutura do roteiro e a escolha dos personagens já antecipam que o foco é o universo de Laure/Mickäel e sua relação com as outras crianças, principalmente com sua irmã Jeanne (Malonn Lévana) e com sua amiga Lisa (Jeanne Disson). Os pais estão lá, presentes e afetuosos mas estão alheios àquela realidade do transgênero. São como peças cegas no tabuleiro. São como pais que só quebrarão o silêncio em último caso. Essa decisão de Sciamma é fantástica porque a ideia do filme não é criar uma polêmica em cena e gerar uma atmosfera negativa. A própria cinematografia que acompanha Laure/Mickäel em suas brincadeiras em um verão bucólico e em seus belos momentos de interação com sua encantadora irmãzinha não combinariam com discussões pesadas de adultos.




Zoé Héran: a real boy em cena!


O desafio da criança transgênero, sua aceitação e interação na sociedade existem em cena, a diferença é Sciamma faz um recorte do que realmente quer apresentar. O foco é claro e os limites também, logo espere um drama sutil e terno. Tomboy chega a um nível de conciliação de momentos dramáticos e cômicos muito bem alicerçados por um elenco infanto-juvenil incrível, juntos a nos colocar em uma sublime energia de experiência cinematográfica. Aqui, o propósito é mais profundo  no universo da criança à medida que neutraliza o que os pais acham e suas ações, não para exími-los de responsabilidades mas para colocar Laure/Mickäel em contato conosco e nos fazer refletir sobre gênero e identidade, entrar um pouco mais em sua condição de transgênero. Ainda que seja um assunto que poucos conhecem, carregado de preconceitos  e que precisa ser cada vez mais explorado abertamente no Cinema, Tomboy nos incentiva a pensar em uma criança como ela e os desafios diários que ela tem ( e terá que lidar) em sociedade. Como alguns dramas que tratam o universo infanto-juvenil e a crueldade que também há na interação entre crianças, Tomboy não explora tantos conflitos entre Laure/Mickäel e seus novos amigos, porém coloca alguns suficientes para dar uma dimensão de que a puberdade é uma fase angustiante, de descobertas, dúvidas e inquietudes.





Malonn Lávana e Zóe Héran:  afeto e aceitação na família




A grande força do longa é Zoé Héran , em completo estado de graça no visual e na atuação. Ela consegue incorporar  o menino que ela é em cena com um grau de perfeição inacreditável. Por diversas vezes, olhar para Mickäel e reconhecer que Laure é um autêntico menino faz mais sentido. Ela é como uma estranha em si mesma, não somente fisicamente mas comportamental mente .   Ainda que a caracterização física da atriz foi realizada para ela ser um belo menino e tem uma forte presença na tela, é a magnífica dramatização de Zoé Héran que faz a diferença no conflito pessoal. Ela está muito convincente no papel. Sciamma conseguiu guiá-la em enquadramentos que possibilitam a expressividade angustiante de Laure/Mickäel. Com olhares e gestos sutis que unem a inocência, a timidez, o amor, o medo , entre outros, Zoé Héran aproxima seu personagem do público, dando muito a entender que Laure/Mickäel está realmente sofrendo e não sabe como se comunicar, para onde escapar. É uma realidade que a deixa presa em dois mundos bem diferentes, tanto que, no núcleo familiar, ela é  apenas realmente compreendida por Jeanne, sua irmã divertida e dócil, que está livre de julgamentos e preconceitos. Malonn Lévana rouba a cena e garante cenas cheias de amor, ternura e bom humor.


E o filme tem esses  belos momentos de amor entre as crianças. Amor de irmã. Amor de amiga. Eles falam muito da aceitação do outro e trazem uma ideia muito nobre para esse sensível drama sobre a infância e o transgênero, a de que é preciso amar o outro desde criança. Muito mais do que um excelente filme para adultos, Tomboy é obrigatório para as crianças e jovens. Onde há amor, haverá o respeito ao outro e às suas diferenças.







Ficha técnica do filme no ImDB Tomboy