quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Êxodo: Deuses e Reis (Exodus: Gods and Kings) - 2014






A adaptação bíblica de Êxodo, segundo livro do Antigo Testamento, dirigida por Ridley Scott em Êxodo: Deuses e Reis é um exemplo claro de que trailers podem enganar o público e diretores acomodados não conseguem contar uma grande história à altura de seus melhores trabalhos prévios. Ridley Scott, que dirigiu os excepcionais Blade Runner e O Gladiador, perde a mão e realiza um Êxodo preguiçoso cujo espetáculo visual e a experiência de Christian Bale no papel do líder Moisés não salvam a história, contada com didatismo como se fosse para produtor executivo ver e orçamento ser justificado. Para piorar a situação, o longa se estende por 2 horas e meia com um roteiro problemático no qual as  ações não são desenvolvidas e encadeadas com boa utilização de função dramatúrgica de personagens como Ramsés (Joel Edgerton), o ancião hebreu Nun (Ben Kingsley) e Josué (Aaron Paul).  Por consequência, a subutilização de personagens coadjuvantes coopera para um filme que usa o efeito visual como muleta. Embora Ridley Scott esteja acostumado a sets com alto número de figurantes, ele não realiza eficientemente um dos pilares da direção: a de atores; evidência clara é o quanto Ramsés é um rei patético, secundário e  dispensável para o rumo da história.





Êxodo coloca em cena Mênfis, cidade do Império Egípcio. Ramsés, filho do faraó Seti (John Turturro) e o guerreiro Moisés, adotado pela família, foram criados juntos, porém têm diferentes perfis. Moisés tem uma liderança nata, é corajoso, leal e grandioso em campo de batalha. Ramsés é um  mimado, invejoso e megalomaníaco. Ao ser enviado para a cidade de Phiton para averiguar os atos de corrupção do vice - Rei Hegep (Ben Mendelsohn), Moisés vê o sofrimento da escravidão imposta ao povo hebreu  e conhece o ancião Nun, que lhe conta a sua real origem hebraica e sua missão de libertar os hebreus do Egito e guiá-los à Terra Santa de Canaã. No retorno de Moisés à Mênfis, após a morte de Seti, Ramsés assume o poder, descobertas, intrigas e conflitos relacionados à origem e missão de Moisés iniciam  o confronto entre eles e o desdobramento das profecias proferidas por Deus ao Egito.





Com experiência em épicos, teoricamente, Ridley Scott seria uma boa opção para esse longa baseado em uma história épica e preexistente. Diferente de Darren Aronofsky, um diretor que não está acostumado a épicos, assumiu a direção de Noé e entregou um longa abaixo do nível de qualidade de sua filmografia, Ridley entende muito bem do gênero e consegue conduzir um número elevado de pessoas em um set com a grandiosidade de efeitos visuais de reminiscências míticas, como os ocorridos em O Gladiador. Nesse ponto, ele sabe fazer show épico e Êxodo tem a virtude de recriar cenas emblemáticas como a invasão de pragas no Egito com toda a realista impecabilidade gráfica. O problema é que a imagem não diz tudo quando a história não tem alma e coração. Aqui, ela não incentiva o público a acreditar no que as personagens estão vendo, falando e sentindo, portanto, esse é o principal problema do longa: a construção da narrativa. Sob a perspectiva da eficácia, o diretor somente teria que "comprar a história" e aceitá-la genuinamente como um exímio contador de histórias independente de suas crenças. Entre tantas, a função do diretor é prover um olhar mais narrativo ao drama, atuar como guia e facilitador dos atores a mimetizar emoções verdadeiras  e trabalhar mais as funções de cada personagem do que só o espetáculo visual. Em vários momentos, o  filme dá a ideia de que o diretor não acreditava no que estava filmando e o tratou apenas como um trabalho, o que desperdiça o potencial narrativo da história e a função do diretor.






Dentre as principais evidências problemáticas de Êxodo relacionadas às escolhas narrativas de personagens, existem três que chamam a atenção : a primeira é colocar Deus como uma criança emburrada e bastante antipática que não se conecta ( nem "espiritualmente")  com o responsável por libertar o povo hebreu do Egito. Se a intenção de Ridley Scott foi mostrar um Deus que manda e desmanda como um tirânico, o tiro saiu pela culatra pois essa criança não convence nem o mais ateu dos públicos. É uma criança fria, sem carisma como ator, sem relevante função narrativa  e  que não se comunica adequadamente com Moisés Se o propósito do diretor foi afrontar a religião Cristã ao colocar uma criança chata como Deus, ele desvalorizou o potencial do Cinema como palco de histórias épicas para se conectar com o público leigo (ou não). A segunda evidência é o desperdício de Christian Bale que, com sua experiência tenta tornar Moisés interessante mas que não tem a base de um bom roteiro e de um lúcido diretor de atores para guiá-lo na construção de uma personagem bíblica, por conseguinte, a liderança de Moises é impactada e não exalta a importância da mimésis de um líder. O terceiro aspecto fica por conta de Ramsés, praticamente um figurante, uma bomba recebida por Joel Edgerton . O ator foi incapaz de realizar um papel de tirano e nem mesmo a megalomania do faraó é explorada na elevação do seu ego em cena. É uma personagem fraca de caráter e fraca na ação. Seus confrontos com Moisés não evocam nenhum tipo de vínculo genuinamente exposto através da atuação, seja para o ódio, amor, inveja etc. Com esses problemas narrativos, no geral, Êxodo: Deuses e Reis é um projeto mal concebido e deve ser levado em consideração somente pelo espetáculo visual. Definitivamente, ele é Ridley Scott ligado no piloto automático. 







Ficha técnica do filme no ImDB Êxodo: Deuses e Reis

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Cine Família: O Menino e o Mundo (The Boy and the World) - 2013



O campo da Animação é um terreno fértil para o desenvolvimento do setor audiovisual Brasileiro, potencial para viabilizar projetos na Economia criativa e, principalmente, está evoluindo no país e trazendo bons resultados, entre os quais destacam-se este ano Até que a Sbórnia nos separe  dirigido por Otton Guerra e Ennio Torresan e o maravilhoso  O menino e o Mundo, sob a direção de Alê Abreu. Com belíssima trilha sonora de Gustavo Kurlat e Ruben Feffer e a contagiante canção Aos Olhos de uma criança com o rapper Emicida,  a animação teve boa recepção pela crítica e público e no exterior conquistou premiações nos festivais de Annecy, Mill Valley, Shangai etc. No Brasil, foi destaque na 37ª Mostra  Internacional de Cinema de São Paulo e ganhou o prêmio da juventude.









O Menino e o Mundo é uma animação diferente daquelas convencionais e muito comerciais que priorizam o uso intenso de recursos tecnológicos para fazer a diferença na Tela Grande e na bilheteria. Nele, o trabalho é de uma delicadeza ímpar. É como abrir um livro infantil, pegar recortes, giz de cera e lápis de cor e desfrutá-lo com os olhos de uma criança e muita imaginação, participando ativamente daquelas belas ilustrações que se movem e constroem a narrativa com um esplêndido efeito lúdico e uma  estimulante jornada de descoberta. É uma animação que, mesmo que de forma surreal, traz à experiência cinematográfica o desejo de participar da história do garoto que, saudoso do pai, saí da sua vila, entra em contato com um fantástico mundo contemporâneo e se confronta com questões como solidão, tristeza, pobreza, desemprego, industrialização, progresso etc. Através de um roteiro incrível, fruto de uma competência artística para uma cativante ilustração e uma capacidade de se comunicar com a plateia com sutilezas que não precisam de uma língua compreensível e grande aparato tecnológico, O Menino e o Mundo é um dos melhores filmes Nacionais de 2014 e uma evidência clara de que a animação é um universo audiovisual diferenciado a ser explorado no mercado Brasileiro. 






Impregnada de criatividade e sensibilidade, essa animação era originalmente um documentário chamado Canto Latino, o que explica muito de sua energia de explorar o mundo com cores, língua e som exóticos. Em partes da narrativa, fica mais evidente a riqueza da trilha sonora e sua fusão de sons que valorizam a nossa própria latinidade. Igualmente enriquecedor é como o menino se aventura em um universo que está tão próximo de nós: desde subir um morro  e conhecer uma comunidade até ver a beleza colorida da natureza e as músicas de uma festa de rua, passando pelo abandono de um idoso doente que não pode mais trabalhar e um jovem que olha uma vitrine e não tem dinheiro, a animação proporciona a visão de muitas coisas cotidianas e coopera para educar o olhar do público.  Alê Abreu também consegue absorver ao máximo a modernidade do mundo industrial comandada por empreendedores e empresários e, de uma maneira muito versátil e articulada, entrega  uma animação que contempla variadas facetas do progresso e do desemparo social sem deixar de lado imagens marcantes da natureza bucólica e em família, da magia da descoberta do mundo e do amadurecimento, da inevitável melancolia e tristeza.





Entre tantas virtudes, há uma especial na história desse menino  desenhado com traços simples e poderosamente carismático:  a narrativa é construída com técnicas de desenho com giz de cera, lápis de cor, pinturas e colagens. É um trabalho de papel, de lápis na mão com alma e coração. É tão extraordinário na sua simplicidade artesanal que consegue ser inovador para o Cinema Nacional. A cada plano, Alê Abreu faz lembrar do livro exercícios de crianças de Manoel de Barros, uma fascinante obra literária infanto-juvenil também ilustrada artesanalmente: ali está um mundo de despropósitos aos olhos de uma criança, afinal o menino sai para procurar o pai e encontra outras realidades. Esse longa é um mundo mágico que também mostra a realidade do mundo adulto e seus propósitos sociais e econômicos. Com maestria, o diretor demonstra total carinho no processo criativo e uma linda entrega de sua arte cinematográfica em cada detalhe colorido que encanta como a palheta de cores de uma mandala , em cada emoção do menino como se fosse a criança que ainda somos. E, de repente, a emoção que tanto surpreende chega à Tela com gestos que une diferentes gerações e ali está o menino a conhecer um idoso e um jovem pobre como companhias, depois a olhar para o vagão de um trem e pensar que uma daquelas figuras tão parecidas era o seu pai e assim, com sensibilidade, arte e sabedoria, O Menino e o Mundo nos conquista com um mundo fantástico de que une o familiar e o explorar o (des)conhecido, a alegria e a tristeza, o sonho e a realidade.





Ficha técnica do filme ImDB O menino e o mundo

sábado, 27 de dezembro de 2014

Viver é fácil com os olhos fechados (Vivir es fácil con los ojos cerrados) - 2013





Viver com os olhos cerrados é o premiado longa de David Trueba, vencedor de variadas premiações na Espanha, com destaque para melhor filme, diretor, roteiro original, ator principal (Javier Camara), atriz revelação (Natalia de Molina) no Goya Awards, o Oscar Espanhol. Baseado em roteiro escrito pelo próprio diretor, é um road movie contextualizado em 1966 e conta a história de um professor de inglês, Antonio (Javier Cámara) que realiza uma viagem até Alméria (Espanha), onde John Lennon está participando de um filme. O sonho do simpático professor é encontrar o ídolo, conversar com ele, falar sobre seus alunos e como ele usa a música para ensinar inglês. No percurso, ele oferece carona para dois jovens em momentos de fuga: um é Belén (Natalia de Molina) e Juanjo (Francesco Colomer). Ambos, ainda no desabrochar do amadurecimento, caem na estrada junto com  António. Ali começa uma viagem na qual falam de suas vidas e sonhos  e estabelecem uma boa parceria nessa jornada.






Esse filme tem um plot interessante a começar pelo seu título que tem tudo a ver com o enredo. Viver com os olhos cerrados é uma parte da música Strawberry fields forever que John Lennon compôs em Alméria, enquanto participava do filme How I won a War, de Richard Lester. O cantor levou 6 semanas na composição e a canção faz referência aos tempos nostálgicos dos Beatles em Liverpool, sendo considerada uma das mais intimistas de Lennon. Dessa forma,  a narrativa usa  elementos biográficos do cantor com o Cinema e a Música como uma referência metalinguística para compor esse roteiro. Acrescenta  a admiração de um simples professor por Lennon e por tudo o que a música dos Beatles representa no seu ofício de ensinar, em sua história. É importante considerar que, como argumento sólido, através do estilo das personagens, o filme mostra uma intensa relação nostálgica com Lennon e seu  sentimento de estranhamento nesse mundo. Todos os viajantes têm um jeito esquisito de ser, de não ser compreendidos seja pela família, seja pelo amor etc e a viagem ganha um significado mais inspirador, revigorante e transformador, ainda que sutil nas situações expostas.





O entusiasmo de Antonio por essa história de Alméria, pela música, pela sua devoção à Lennon é  bem envolvente durante toda  a projeção, logo cabe mais à Javier Camara, com sua  sólida experiência no Cinema Espanhol, levar a história até fim e tornar mais interessante os diálogos, em especial, a combinação dramédia considerando que os demais jovens coadjuvantes são talentosos mas ainda juniores na atuação. O evidente destaque é a revelação Natalia de Molina que, além de uma beleza mediterrânea  refrescante, expressiva e delicada, atua com segurança, fato que poderá torná-la uma grande atriz no futuro. Com relação à Javier Camara, ele é fantástico e aderente ao papel. Antonio é uma personagem que encanta em sua aparente introspecção e em sua solidão que não perde o carisma e a audácia de transformar o dia a dia com pequenos gestos. Desde de como fala carinhosamente sobre seus  modestos alunos até como é generosa e experiente companhia aos jovens caroneiros, passando pela coragem de pegar a estrada e ir atrás de um sonho, Antonio é uma daquelas especiais personagens de comédias dramáticas que mostram  genuinamente nossa humanidade, por mais melancólica e solitária que possa ser, há uma graça nisso. 





Vale observar que David Trueba realiza um bom trabalho de direção de atores sem interferir muito na naturalidade de atuação do elenco. Em algumas situações, é perceptível que os atores  não têm muito o que fazer e como agir em relação ao que o roteiro oferece, porém é essencial notar que a intenção aqui é mais leve, descontraída. O roteiro não tem a intenção de criar variadas ações. Ele é mais linear  e existe uma liberdade narrativa como em toda a viagem de estrada. Estamos acompanhando o sonho de Antonio e o seu entusiasmo, sua determinação, por isso o longa tem que ser acompanhado como uma viagem com um destino final de encontrar John Lennon, sem criticá-lo porque não desenvolve incríveis ações. No mais, a direção realiza uma edição fluída que tende a embalar o público com uma diversão despretensiosa, a ouvir o que Antonio tem a dizer e cortando também para momentos da parada e personagens periféricos. Tal direção é positiva para um road movie cuja premissa é deixar as coisas acontecerem mas sem perder o controle da narrativa.  Como vantagem adicional, a fotografia é um deslumbre à parte. Não é uma cinematografia que encanta por virtudes excepcionais mas ela carrega algo solar, otimista. Com boa luz, energia e estilizada pelo visual anos 60 do figurino, a fotografia diz muito sobre o filme e essa liberdade de viajar, de voltar no tempo e vivenciar no Cinema um road movie que carrega um sonho pessoal que poderia ser o sonho de um de nós.







Ficha técnica do filme ImDB Vivir es facil con los ojos cerrados

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Gloria - 2013




Nos últimos anos, filmes que abordam a melhor idade e suas peculiaridades dramáticas e cômicas têm sido comuns em variados gêneros e origens. Longas como  E se vivêssemos todos juntos? ( França/Alemanha, 2011),  O Exótico Hotel Marigold ( UK/USA/ Emirados Árabes, 2011), Amor ( França/Alemanha/Áustria, 2012),  A Grande Beleza (Itália/ França, 2013) estão entre ótimas produções que têm atores experientes em excelentes performances e que retratam, com leveza ou com maior peso dramático, o envelhecimento e a natural reflexão e/ou desapontamento com a ação do tempo e como a sociedade reage  com idosos. Na maioria dos filmes, mais inseridos em uma combinação narrativa de comédia com drama,  as histórias usam o humor como uma  (suave) válvula de escape para pincelar questões mais sérias como a solidão, a debilidade na saúde e doenças, o abandono pelos filhos e pela sociedade, a necessidade de afeto e companhia etc. Por outro lado, alguns filmes trazem certo otimismo sem tantos maniqueísmos, como quem diz: Nem tudo está perdido. Simplesmente estamos vivos e vamos continuar vivendo até sermos recolhidos para o descanso eterno.






Nesse cenário, através do Chile e do diretor Sebastián Lelio, o Cinema Latino America  trouxe um pouco mais desse universo temático para os lados de cá. Além de ser uma boa iniciativa, é uma forma de oxigenar o Cinema com assuntos relevantes que fazem parte da nossa condição humana e possibilitam fortalecer um público alvo mais velho que se identifique emocionalmente com o filme. Gloria (Paulina García) enfoca a personagem-título, uma mulher de quase 60 anos que tem os filhos crescidos, vive sozinha e está sem um companheiro. Sua solidão é evidente mas também sua vontade de viver e de aproveitar o que a vida lhe apresenta. Ela vai aos bailes com a audácia da mulher que sai sozinha sem se importar com o que os outros irão falar. Ela tem um humor simpático que se mistura com a sua solidão e  seriedade frente a um cotidiano enfadonho. Gloria é daquelas mulheres que se dão a chance para amar e se divertir e, sob essa perspectiva, o longa é um acerto ao abordar uma mulher solitária que não abandona a si mesma.






A história não está alicerçada em um roteiro excepcional, sendo essa uma das suas debilidades. As situações são frágeis como material narrativo e os coadjuvantes são precariamente utilizados, o que acaba por tornar Gloria um filme de uma personagem só. Uma evidência dessa fragilidade é o relacionamento entre ela e Rodolfo (Sérgio Hernández), um oficial aposentado, apegado às filhas e sem personalidade. Além de Rodolfo ser um péssimo exemplo de homem para sua idade e que não envelheceu bem com o tempo, Glória tem que lidar com situações que nenhuma mulher aguentaria na idade dela. O roteirista trabalhou muito pouco na qualidade dos diálogos e não conseguiu fundamentar reflexão sobre o drama da solidão e das dificuldades de relacionamento. Somada essa debilidade do roteiro à longa projeção (110 minutos), Gloria é um filme mediano, bastante moroso na evolução da narrativa e que poderia facilmente ter tido vários cortes na edição; lamentavelmente, seu maior problema é a lentidão de sua duração sem apresentar outros elementos contundentes na história ou, minimamente, efeitos tragicômicos como ocorrem em outros filmes dessa categoria. Logo, ele coloca uma grande responsabilidade em Paulina García por manter o público atento e interessado. O realismo de situações cotidianas retratado por Lelio coopera para o público acompanhar Glória com um misto de melancolia e esperança por um dia  melhor que o outro.







Premiada com o Urso de Prata de melhor atriz do Festival de Berlim 2013, Paulina García é o filme por completo. Por causa de sua maturidade como atriz e uma aparente tranquilidade na atuação, ela mergulha na personagem sem torná-la caricata e aborrecedora. Sua alma feminina com genuínos altos e baixos, ainda que não eficientemente explorados, é admirável. No geral, Glória é uma mulher prática. Deseja ser amada, entregar-se à sua sexualidade, ter prazer na vida.  Para isso, o diretor conduz a execução das cenas de sexo o mais reais possíveis, assim como as do baile e de uma noitada. Questões como essas são naturais à qualquer mulher, não importa se a pele não tem mais o mesmo viço, o corpo o mesmo vigor e nem a beleza as mesmas formas.  Nesse aspecto, o longa tem suas virtudes através de Paulina García que faz o possível para o filme não ser tão triste. A atriz é como aquela mulher comum que poderia ser a vizinha de alguém: sem glamour, frescuras e narcisismo, ela representa muito das mulheres maduras que, dia após dia, querem apenas que as coisas dêem certo, querem continuar vivendo plenamente o tempo que  lhes falta.







Ficha técnica do filme no ImDB Gloria 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

X-Men Dias de um futuro esquecido (X-Men: Days of Future Past) - 2014




Bryan Singer, diretor do incrível X-men Dias de um futuro esquecido definitivamente voltou ao seu primeiro amor mutante cinematográfico. O começo de uma das franquias Sci-Fi baseadas em quadrinhos e mais expressivas do Cinema começou com ele em 2000 com X-Men, o filme, seguido por X-Men 2 (2003). Depois a série passou por mudanças de direção e não entregou filmes  intermediários mais redondos, o que evidencia que Singer é importante para essa franquia, conhece e sabe extrair o melhor do universo mutante. Em 2011, com o lançamento do fantástico X-Men : Primeira Classe  de Matthew Vaugh, X-Men voltou à excelente forma física com roteiro e direção seguros. Singer atuou como produtor e oxigenou a franquia com sofisticação. Nesse novo filme,  agora sob a batuta da direção, Singer consegue manter o nível elevado do seu antecessor e entrega um longa imperdível.






Esse filme constrói uma narrativa baseada na necessidade de sobrevivência dos mutantes e mescla, com conflitos pessoais  e muita tensão, uma viagem no tempo para evitar a sua exterminação no futuro pelos Sentinelas, gigantes robôs criados pelo vilão Dr. Bolívar Trask (Peter Dinklage, de A Guerra dos Tronos, excelente ator e ganho para a franquia. O futuro é apresentado como um mundo aniquilado pelo mal da guerra, obscuro, desolado, sem esperança, é necessário que uma ação seja tomada para impedir que os Sentinelas existam. Nesse cenário futurista, o professor Xavier (Patrick Stewart)  envia Wolverine (Hugh Jackman) para o passado, com a ajuda de Kitty Pryde (Ellen Page). Wolverine encontra o Xavier jovem (James MCVoy), Magneto (Michael Fassbender), entre outros e tem o desafio de localizar Raven / Mística (Jennifer Lawrence) e convencê-la a não cometer uma ação impulsiva  que impactará negativamente os mutantes. Na história, o vilão é o Dr. Bolívar Trask (Peter Dinklage, de A Guerra dos Tronos), excelente ator e ganho para a franquia.





O roteiro é bem elaborado na sua natureza temporal e corrida contra o tempo para salvar a especie. As ações são apresentadas em diferentes cenários como uma jornada fenomenal no tempo, apoiada por um capricho na direção de Arte e efeitos visuais. Logo na introdução, o espírito de sobrevivência dos mutantes é evidenciado com um confronto cheio de tensão. O espectador é preparado para acompanhar o que vem depois: conflitos e a crescente luta dos mutantes para viver na Terra e ser aceitos pela sociedade, inclusive os conflitos que há entre eles e suas diferentes opiniões, especialmente as de Mística, Magneto e Professor Xavier. Embora grande parte da ação ocorra no passado, a narrativa é dinâmica e de moderna cinematografia. Conduz o público a entrar mais no imaginário X-Men através de seus personagens, igualmente bem desenvolvidos, a extrair reflexões que estão relacionados a escolhas pessoais e que demonstram a humanidade que independe de especies. Conhecemos um pouco mais da história do Professor Xavier, suas diferenças e desentendimentos com Magneto e o antagonismo de sentimentos existentes em Mística, ora mais sensível, ora vingativa e mortal, com ótima atuação da atual queridinha da América, Jennifer Lawrence.




O longa é um espetáculo de direção, o toque de Midas Sci-Fi de Bryan Singer e  de sua equipe.  A começar pela escolha do elenco e direção de atores que eleva o blockbuster a um filme que conecta o seu público fiel aos mutantes.  Os atores têm carisma na pele de seus personagens e fazem um trabalho mais aprofundado na atuação, vestindo fortemente as características comportamentais deles. Até o mutante mais difícil de lidar como o Magneto e o vilão Trask são levados a sério e conquista a simpatia dos  fãs. Quem admira a franquia, se diverte, se emociona, torce para que tudo dê certo com os mutantes. Essa é a energia cinéfila, a devoção ao esse emblemático comics! Ao ver materializado um trabalho excelente de Singer e uma viagem que nos leva a China, USA, França, resta-nos vibrar com cada escolha do diretor, como nos levar a Paris e fazer entrar em uma festa com Mística ao som de Stop au nom de l'amour na voz de Claude François .





Ainda na direção, Singer capricha em como estrutura os planos, aproxima sua câmera e realiza os enquadramentos e , principalmente na transição entre planos de combate. Especificamente, há duas sequências muito especiais que são um deleite Blockbusteriano de como um bom diretor, suportado por um bom roteiro, pode tornar cenas mais emblemáticas e de puro bom gosto: a da invasão no Pentágono com o mutante Peter/Quicksilver (Evan Peters) resultando em uma fantástica construção visual unida ao humor e trilha sonora e o  tenso embate entre Mística e Magneto em Paris, com uso de recurso documental e excelente edição.






X-Men Dias de um futuro Esquecido é um blockbuster bem concebido e realizado e a prova de que franquias com essa qualidade excepcional , tanto do ponto de vista de produção como do ponto de vista de conexão afetiva com o público serão sempre bem - vindas e são fundamentais para o  Cinema entretenimento. Que venha X-Men: Apocalypse!









Ficha técnica do filme no ImDB X-Men Dias de um futuro esquecido

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Capitão América 2 : O soldado invernal ( Captain America: The Winter Soldier) - 2014






Continuações de grandes franquias, especificamente de super heróis da Marvel, exigem um alto investimento do estúdio pois são filmes com custos exorbitantes. Por outro lado, dá a certeza de que o retorno é rentável e cobre as despesas considerando que a fidelização do público para herois como Capitão América, O Homem de Ferro, os Guardiões da Galáxia é mais espontânea como produto de entretenimento blockbuster. Essas poderosas franquias de ponta produzidas pela Marvel Studios são cultuadas por vários cinéfilos e, mesmo para quem não é cinéfilo, o universo de super heróis alcança mais fortemente o público jovem que curte cultura pop ou qualquer Cinema Pipoca. Na corrida de lançamentos, a continuação de Capitão América é um claro exemplo de uma franquia que evolui no segundo filme. Com roteiro inteligente e excelentes cenas de ação, esse blockbuster é um primor cinematográfico, chegando ao nível de qualidade  de franquias fortes como a de X-MEN e seus dois últimos filmes, X-Men primeira classe e X-Men dias de um futuro esquecido.







O roteiro  combina qualidades fundamentais para o sucesso do longa levando em conta que a narrativa desafia o super herói a correr contra o tempo para salvar o mundo e o coloca como inimigo da própria organização que ele trabalha. Para um herói símbolo patriótico dos Estados Unidos, ser traído é desconcertante. A narrativa insere Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans) em uma SHIELD que não é mais confiável e que arma uma emboscada contra Nick Fury (Samuel L . Jackson). Há um histórico aterrorizante relacionado ao misterioso Soldado Invernal (Sebastian Stan), um assassino soviético que tem uma conexão afetiva com o passado de Roger. Tal relação entre  o super herói e um dos vilões é um componente dramático e gerador de tensão bem pensado. A conspiração está por todos os lados como os interesses corruptíveis do diretor Alexander Pierce (Robert Redford) em contaminar a corporação e trair Nick Fury e o board.  Ao acordar em um presente muito distinto dos tempos de Guerra Fria, Steve Rogers tem que enfrentar uma nova conjuntura na SHIELD e é  caçado até o combate com o Soldado Invernal.



Esses elementos do plot, que é o diferencial do filme, transformam - o em um impecável híbrido de sci fi, ação, suspense e aventura, tudo junto e bem misturado em uma história que desafia o espectador a acompanhar  o histórico da ação terrorista, os desdobramentos da conspiração para a SHIELD e o drama do herói, que é ajudado pela Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Falcon (Anthony Mackie).  Esse blockbuster não subestima a inteligência do público e valoriza produtos audiovisuais dessa categoria. Se o nível dos roteiros  e direção dos blockbusters subirem na escala de filmaços, o público ganha filmes comerciais menos rasos e com ótima capacidade de entreter.








Os diretores Anthony Russo e Joe Russo atuaram de uma forma muito precisa na direção das principais cenas de ação. Extremamente bem coreografadas e planejadas com eficiência, criatividade e sofisticação. As sequências de ação são impressionantes em comparação a outros filmes do gênero e evidenciam que houve um empenho da direção em coordenar a ação a um grau bem maior de exigência no resultado. Enquadramentos e movimentação de câmera fantásticos para um blockbuster e um senso de elevação do audiovisual para esse tipo de filme, bem sofisticado na decupagem da ação e com edição articulada para equilibrar os efeitos de thriller e da ação na história. Como exemplos que devem ser observados estão as cenas com o carro de Nick Furi e a do elevador que dão uma aula de Cinema de como fazer um incrível blockbuster







domingo, 21 de dezembro de 2014

Eu, mamãe e os meninos (Les Garçons et Guillaume, à table) - 2013




Esta review contém menções que podem ser consideradas spoilers




O Cinema Francês tem uma habilidade singular de realizar comédias dramáticas com frescor que energizam a alma, arrancam a gargalhada mais espontânea, o sorriso que ilumina o coração e a lágrima que resulta de uma sincera conexão emocional com a história. Como relíquias audiovisuais revigorantes da Comédia Francesa nos últimos anos  e que conciliam fenômenos de bilheteria com excelente qualidade cinematográfica estão filmes como O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain, Os Intocáveis e o mais recente Eu, mamãe e os meninos, produzida, escrita e realizada por Guillaume Galliene e vencedor de 5 premiações Cesar: melhor filme, filme de estreia, roteiro adaptado, ator e edição, fortes virtudes técnicas do longa que, de tão bem coordenadas com  a história, garantem uma diversão descontraída, envolvente e imperdível.








O ator e diretor Guillaume Galliene inclui sua autobiografia na construção da narrativa: sua relação com a mãe (interpretada por ele mesmo),  a influência de sua experiência com o teatro (advinda da renomada La Comédie Française), suas viagens e estudos na Inglaterra e  referências à sua esposa Amandine etc. No entanto, a base cine biográfica  é expor um conflito pessoal: contar ao público como seu jeito mais feminino foi considerado pela família e outras pessoas de convívio como uma evidência de orientação homossexual. Essa é uma questão muito comum quando alguns homens são julgados e sofrem bullying, principalmente no meio artístico . Guillaume reúne diálogos  bem leves e engraçados, excelente trilha sonora e brinca com os clichês de uma forma original, amparado por um trabalho fantástico de mise en scène com cortes precisos e uma montagem criativa que dá uma fluída continuidade ao desenrolar dos fatos. A edição é tão bem construída que realiza uma transição especial entre planos e joga bem a relação  tempo,  espaço e  personagem.







O começo do filme é belíssimo com a entrada triunfal da composição criada por Marie - Jeanne Serero e  Guillaume Galliene em momento de concentração no teatro, logo mais, um corte cênico à grande abertura metalinguística da história: Guillaume está no palco e contará sua vida ao espectador;  posteriormente,  a história leva um tempo maior para explorar os clichês e Guillaume sentir-se mais à vontade no papel, considerando que o tema é mais delicado e ele acaba incorporando exatamente o clichê afeminado no qual muitos apostam. A história evolui gradativamente com acertado uso de situações engraçadíssimas que fazem parte do amadurecimento de Guillaume: idas a terapeutas, passagem por colégio interno e exército, tentativas de experimentação do sexo etc. Todas hilárias! Porém, o bel prazer está nos momentos catárticos, mais bonitos, orquestrados com uma trilha sonora bem selecionada e em consonância com a emoção da personagem.








Eu, mamãe e os meninos é  a materialização da competência de Guillaume Galliene como um artista completo.  Não somente como produtor  e ator mas pela sua versatilidade em compor e dirigir o roteiro da própria vida com graça, lirismo e situações cotidianas, comuns. Expor esse conflito através do riso e  com delicadeza é uma estratégia eficaz para contar um história em torno da identidade sexual sem depreciar o tema e, com isso, ele alcança uma das suas paixões: as mulheres e, em especial, seu amor pela mãe. O filme é um primor para o universo feminino e toda mulher precisa assisti-lo.  Há sequências incríveis e comoventes em como Guillaume é capaz de ter sensibilidade e percepção mais crível  para admirar cada mulher e  expressar como ela é: seu olhar, sua respiração, seu jeito de sorrir, de tocar, de falar. Dessa forma, igualmente, todo homem tem que assistir ao longa para valorizar essa aura irresistível e única que as mulheres têm. Ao testemunhar a maneira como Guillaume as revela, ele descobre muito de si e esse é um valor incalculável para o público "sentir o filme". Há uma beleza primorosa em ver um homem descobrir essas nuances femininas e também assumir que, em algum momento de sua vida, ele também se sentiu atraído por um amigo de colégio. A maturidade traz essas descobertas. Finalmente, como contador de histórias que durante boa parte da projeção age como uma garota confusa, frágil e em amadurecimento, Guillaume faz uma declaração de amor às mulheres de sua vida: tias, avó, mãe, esposa e traz à sala escura que quem afirma identidade e orientação sexual somos nós, não os outros.








Ficha técnica do filme ImDb Eu, mamãe e os meninos 

sábado, 20 de dezembro de 2014

MaDame Trilogias: O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos ( The Hobbit - The Battle of the Five Armies) - 2014

MaDame Trilogias:
3 Filmes e 1 balde de pipoca








A primeira mirada em  O Hobbit - A batalha dos cinco exércitos,  último filme da trilogia é um  misto de surpresa, estranhamento e fascinação pelo formato do produto audiovisual utilizado pelo diretor Peter Jackson. Com sua excelente capacidade técnica e narrativa de criar uma saga blockbusteriana sobre um mundo ficcional inesquecível como o da Terra Média, em Hobbit 3 ele potencializa o foco imagético épico da Batalha Final e utiliza o formato HFR 3 D (High frame rate), uma inovação para o Cinema Digital que, devido à sua alta velocidade na composição da imagem, cria um efeito semelhante a um game, tão vivaz e capaz de proporcionar uma experiência única ao colocar o público mais dentro das cenas. Na prática convencional, o padrão usado em filmes é 24 frames por segundo (fps). Com o HFR 3 D, a taxa é 48 fps. Caso o espectador não deseje assistir ao filme com essa inovação tecnológica, outros formatos como 2D, Imax 3 D etc estão disponíveis.







Com um início fantástico no qual o dragão Smaug (Benedict Cumberbatch) ataca a Cidade do Lago e enfrenta Bard (Luke Evans), cuja descendência não conseguiu derrotar o dragão, o longa começa com a fúria total do dragão e uma vila em chamas. Essa abertura dá o tom da tensão, da expectativa da batalha na Montanha e, principalmente, de como Peter Jackson coordena todas as partes envolvidas como peças de um tabuleiro e com muita paciência. Ele estica cada aspecto heroico da ação a partir das primeiras sequências. Desde como Bard lança a sua flecha contra o dragão até como, mais adiante, Thorin (Richard Armitage) lutará contra Azog (Manu  Bennett). Essa estratégica na construção da narrativa disfarça o fraco roteiro porque trabalha bem mais o aspecto visual da batalha em si, a expectativa criada após 2 longas e o emocional do público com o encerramento da trilogia. Também há uma intensa abordagem épica em cada plano, em como os close ups são feitos em cada herói e vilão, em como a luta tem que ser estressada até o limite da vitória (e da derrota).  As escolhas de Peter Jackson, somadas à incrível imagem, direção de Arte e ao espírito nostálgico que as emblemáticas obras de J.R.R Tolkien provocam no espectador tornam o fim da trilogia um momento único. Definitivamente um tesão para os  mais NERDS!







É importante ressaltar que o longa em HFR 3 D  apresenta uma impecabilidade de imagem que projeta muito mais a realidade da ação. É como se estivéssemos lá, assistindo cada detalhe no camarote de Peter Jackson! Por outro lado, a experiência com a imagem é cercada por um estranhamento natural pois não é comum ver esse tipo de formato de filme; por mais que a qualidade da imagem é sedutora, perfeita, existe o contraponto que é: isso é mesmo um filme ou um jogo? Ao mesmo tempo que podemos dizer: Que impacto visual fascinante! Também podemos dizer: Que estranho, diferente, prefiro outro formato!  Essa dicotomia com relação ao audiovisual de O Hobbit 3 é um processo natural no amadurecimento do público com a tecnologia e o mais interessante é que está fazendo parte da história contemporânea do Cinema e de sua evolução. Provavelmente muitos têm ( e terão) essa percepção sobre a sensação que o HFR traz. 





James Cameron, em seu próximo Avatar, promete usar a mesma tecnologia, o que é positivo para capacitar os profissionais em como trabalhar criatividade e inovação  com aderência entre a narrativa e o formato.  Esse formato não serve para qualquer filme, a princípio, e seria mais coerente com filmes comerciais de grandes franquias baseadas em histórias ficcionais com super heróis (como os da Marvel) ou filmes épicos. Como produto comercial e também artístico, a escolha pelo HRF 3 D é muito eficiente e Peter Jackson fez um bom trabalho, pois a obra de J.R.R Tolkien é uma fantasia admirada por pessoas de várias idades e, inclusive pelos Nerds.  Normalmente Nerds não gostam só de Cinema e Comics, mas gostam de games e tantas outras coisas relacionadas. É um estilo de vida, uma admiração máxima pelo universo deslumbrante das nerdices. Dessa forma,  entramos no filme  mais como fãs e temos mais contato com as dimensões de tempo e espaço de cada cena, com muito mais realismo.






O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos  é o melhor filme da série, não pelo roteiro, que é quase inexistente com relação à força dramática dos diálogos e variedade das ações e é o que deixa a desejar em comparação aos três filmes, mas pela conexão emocional com o público durante a Batalha e pelo vínculo entre o seu efeito narrativo épico e o uso da tecnologia HFR. Cada detalhe visual é uma despedida (ou um até logo), com amor, para Peter Jackson e equipe e antecipa as saudades de uma Terra Média que nunca poderá sair das nossas memórias cinéfilas.







Ficha técnica do filme ImDB O Hobbit 3

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

MaDame Trilogias: O Hobbit - A desolação de Smaug ( The Hobbit - The desolation of Smaug) - 2013


MaDame Trilogias:
3 Filmes e 1 balde de pipoca







O segundo filme da obra O Hobbit é uma aventura movida a muita ação e, como longa intermediário, o roteiro busca desenvolver personagens coadjuvantes e mostrar o mosaico de interesses e relações entre eles antes da grande batalha dos cinco exércitos. Dessa forma, embora ainda com roteiro extenso, prolixo em cenas desnecessárias e com a responsabilidade de prolongar a aventura ao máximo, o filme é fundamental para sermos (melhor) apresentados a figuras como Smaug (Benedict Cumberbatch) e Bard (Luke Evans), entender como começou o amor platônico entre a elfa Tauriel (Evangeline Lilly) e o anão Kili (Aidan Turner),  conhecer a Cidade do Lago e gananciosos como Alfrid (Ryan Cage), observar o histórico da destruição provocada por Smaug no Valle e  sua relação com a linhagem de Bard, além de observar o lado mais sombrio dos protagonistas, principalmente o de Bilbo Bolseiro que, de posse do anel "My precious", começa a sofrer os efeitos maléficos dele.




Diferente do primeiro longa,  esse aqui não tem o humor como um dos alicerces da narrativa.  O Hobbit, uma jornada inesperada era bem mais divertido e leve. Era o início de uma brincadeira aventureira na Terra Média, inspirada pelo ideal de retorno ao lar. Como toda a jornada de sacríficio, com altos e baixos de humores, a  desolação de Smaug é obscuro e pesado no que se refere a como os personagens reagem à medida que se aproximam da Montanha Solitária, onde está Smaug, o dragão que representa o mal e o temor. Essa nuance de mood está muito alinhada ao proposto por J.R.R Tolkien em O Senhor dos Anéis e explorado por Peter Jackson, que é como as personagens são testadas em sua bondade, lealdade, coragem e heroísmo mas também em suas facetas sombrias como a ganância, o medo e a traição.  Assim como ocorreu com Frodo, Aragorn e outros,  Thorin, Gandalf, Bilbo Bolseiro estão entre os que enfrentam diretamente o mal. Thorin e Bilbo, frente a frente com Smaug e Gandalf  em Dol Guldur, o monte da Feitiçaria.







Como prólogo, o longa entrega uma boa aventura como entretenimento e eleva o nível da ansiedade para a grande batalha. Peter Jackson é mestre em coordenar direção, efeitos visuais e sonoros para levar o público a esse mundo de fantasias inesquecíveis.  É claro que o longa sofre de alguns males como menor eficiência de roteiro e cenas exaustivamente trabalhadas para engordar a franquia de um livro transformado em 3 longas. De maneira geral, salvo algumas sequências bastante estendidas como a das aranhas e a conversa entre Bilbo Bolseiro e Smaug que, se fossem para ser mais práticas e focadas em um roteiro enxuto, não demoraria tanto tempo, o filme é imperdível no quesito ação com diversão. Se dá um maior protagonismo dos elfos na aventura, essenciais para dar dinamismo à ação  com destaque para Legolas (Orlando Bloom)  e Tauriel que participam ativamente, com bastante estilo e habilidades físicas como arqueiros. Sem eles, o longa não teria o mesmo efeito heroico, ágil. Os elfos também se apaixonam como a velha história de João ama Maria mas Maria ama Pedro. Aqui, Legolas gosta de Tauriel mas Tauriel gosta de Kili. Evangeline Lilly ganha mais espaço na história com o despertar do amor, sendo dela as cenas com intenção romântica, amorosa. O único problema é que o romance deles não conquista como o de Arwen e Aragorn em O Senhor dos Anéis, por isso teria sido melhor ela ficar com o Legolas.  Infelizmente, o romance em O Hobbit não é desenvolvido de forma a cativar facilmente o público, bem subutilizado.








Não há como não mencionar o talento narrativo de Benedict Cumberbatch, um dos atores emergentes no cenário atual e indicado ao Globo de Ouro por O Jogo da Imitação. Ele empresta voz à Smaug e Necromancer. Sua voz é tão marcante que se torna mais interessante e amedrontadora do que o visual do dragão em si.  Com um desfecho mais enfocado em Smaug em uma excelente sequência de confronto, sua voz lenta e demoníaca só vem a criar mais tensão para a batalha final de modo a nos fazer pensar: "Que venha a Batalha dos Cinco Exércitos, com nossos olhos na tela e o coração na mão!"








Ficha técnica do filme ImDB Hobbit 2