domingo, 30 de novembro de 2014

Tudo por Justiça - Out of the Furnace (2013)








Russell Baze (Christian Bale) e Rodney Baze (Casey Affleck) são irmãos bem unidos. Russell trabalha em uma usina, tem um relacionamento com Lena (Zoe Saldana) e é apegado à família. Rodney  está pessimista com relação ao futuro. Após um acidente e permanecer anos na prisão, Russell retorna à casa, tem que enfrentar uma nova tragédia e escolher entre a liberdade e a vingança.


Ambientado no Cinturão da Ferrugem (Rusty Belt), um região da indústria pesada nos Estados Unidos e que dá ao longa uma atmosfera de fim de mundo e terra de ninguém, este drama é uma realização de Scott Cooper, conhecido pelo excelente Coração Louco e por dirigir bons dramas que retratam regiões  interioranas dos USA com mentalidade tradicional, violência local,  decadência econômica e social e personagens que vivenciam dramas de desesperança e perdas. Em Tudo por Justiça, o cineasta recupera bem essas referências temáticas de seu estilo e, com grande elenco, aborda a jornada de um homem que é afetado por tragédias pessoais. Com seu bom gosto musical que é incorporado nas ótimas trilhas sonoras de seus longas,  Cooper também inclui a canção tema, Release (do Pearl Jam), cantada pela sedutora e legendária  voz de Eddie Vedder, que tem uma melodia libertadora, intimista.







Christian Bale: mais um protagonista forte do diretor Scott Cooper


Normalmente os protagonistas de seus filmes criam um vínculo carismático com o público pois são homens do bem afetados por baques da vida. São como lobos solitários que fazem escolhas muito pessoais em uma realidade muito hostil. Christian Bale realiza um excelente trabalho e personifica esse homem do bem que precisa fazer justiça com as próprias mãos. Nem mesmo a ajuda do xerife Wesley Barnes (Forest Whitaker) é suficiente para lidar com o crime organizado da região, na qual as fronteiras da violência são bem demarcadas, o medo é generalizado e não há como confiar em qualquer pessoa. Ao conhecer o traficante ( e insano) Harlan De Groat (Woody Harrelson), o conflito é inevitável e o clima de suspense atiça a curiosidade para o clímax impiedoso. Tanto Harrelson como Whitaker, além das participações de Willem Dafoe, Willem Dafoe e Sam Shepard são boas e legitimam muito mais a qualidade desse elenco. 


Como ponto desfavorável, o longa tem um roteiro que opta por ser simplista no desenvolvimento e desfecho dos conflitos. Começa muito bem com uma impactante e bem estruturada cena da violência local que apresenta este microcosmo da América e a mudança abrupta da vida de Russell Braze, logo mais, perde um pouco o fôlego. De maneira bem geral, é um filme com um clima pesado, pessimista, solitário. Essa é uma de suas virtudes pois expõe essa espiral de desesperança de uma região Americana na qual os indivíduos tem que lidar com o impacto da violência, não tem opção a não ser se acostumar com a realidade ou criar as próprias regras; mas o carisma e maturidade de Christian Bale ajudam a suavizar a experiência com o filme e torná-la catártica como uma boa vingança de um homem comum.






Ficha técnica do filme ImDB Tudo por justiça

sábado, 29 de novembro de 2014

Rapidinhas no MaDame: Sétimo (Séptimo) - 2014

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia







Sobre a história:  Sebastián (Ricardo Darín) é um advogado, tem dois filhos com Délia (Belén Rueda), o Luca (Abel Dolz Doval) e a Luna (Charo Dolz Doval). Um dia, ao levar as crianças para a escola, começam a brincadeira: Elas descem pela escada e ele pelo elevador. Quem chegar primeiro, ganha. Os seus filhos desaparecem. Um sequestro. Um clima de desespero e desconfiança que envolve outros moradores como o delegado Rosales (Osvaldo Santoro), o porteiro Miguel (Luis Ziembrowski). Sebastián assumirá a investigação para encontrar Luca e Luna.


Opinião Geral sobre o filme:  Com direção de Patxi Amezcua e roteiro de Alejo Flah,  Sétimo é um thriller Argentino sobre o sequestro de duas crianças em um plot que não tem bom encandeamento de eventos verossímeis. Há um tom fake no sequestro e um certo amadorismo em como as situações surgem e são tratadas, com clichês, escolhas fáceis. Esse traço só pode ser compreensível (e minimamente tolerável) pois o roteiro se resume a um pai que não envolve a polícia e prefere trabalhar sozinho. É o típico filme do cara que tem um dia ruim e tem que encontrar uma saída. Não haverá investigadores, bandidos em cena, apenas o mistério e a determinação de Sebastián. O interessante é que os elementos do thriller estão ali: um crime, vários suspeitos, um homem determinado a desvendar o mistério, comportamentos desesperados e paranóia, porém ainda falta uma naturalidade relacionada ao contexto de um sequestro e o desenvolvimento de eventos melhor amarrados. Há momentos que o roteiro é tão preguiçoso que, dá a entender que a intenção foi muito mais realizar um suspense com toque de humor negro do que um thriller realista e factível. É claro que o  filme preserva o mistério e a tensão e é um entretenimento válido somente por causa de Ricardo Darín. Só por ele, que fique claro! O ator é muito competente e carismático. Ele é o herói de Sétimo e garante alguma atenção ao longa que, só vale a pena devido à sua versatilidade e flerte com o público. Ele carrega o seu senso de humor atrativo, naturalmente capaz de dar credibilidade a qualquer roteiro e é muito desencanado para expressar o lado pavio curto de personagens Argentinos, não faltarão os costumeiros palavrões. Ele também tem um charme inigualável que faz o público esquecer dos equívocos da história, é como dizer: mesmo que ela seja preguiçosa e tenha situações que não combinariam com o clima dramático do desaparecimento dos filhos, Ricardo Darín vale a ingresso.


O desprazer:  A inverossimilhança de alguns eventos (como Darín e Rueda começarem a discutir a rachadura do relacionamento no meio do sequestro dos filhos) e o desfecho preguiçoso.


Por que vale a rapidinha?   Ricardo Darín, paixão Argentina no Cinema e salvador de qualquer projeto cinematográfico.







Ficha técnica do filme ImDB Sétimo

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

November Man: um espião nunca morre (November Man) - 2014




Um thriller de espionagem e ação com um confronto entre ex-companheiros da Cia é o projeto de November Man, um filme que traz a experiência de Pierce Brosnan, um dos ex 007, habilidoso em action movies e  que  atua como um dos produtores executivos que encabeçam a viabilidade desse projeto. Devereaux (Pierce Brosnan) é um ex-agente da Cia que volta ao campo para uma missão de alto risco que envolve o  eleito presidente Russo Arkady Federov (Lazar Ritovsky), a  misteriosa Alice (Olga Kurylenko) e as forças especiais da Cia, seus ex - parceiros Mason (Luke Bracey) e Hanley (Bill Stmitrovich).



Esse longa somente foi realizado para colocar Brosnan em evidência como protagonista de ação no auge dos seus 61 anos, considerando que seus últimos trabalhos foram em comédias românticas de apaixonados mais maduros (como Um Plano Brilhante e Amor é tudo o que você precisa) ou A Longa Queda, uma comédia dramática sobre suicidas, escolhas que são necessárias para que ele continue na ativa e empregado mas que também o fragilizam no estigma que o cerca: é um ator maduro para ação e suspense ou ligado mais a comédias românticas com seu charme de homem mais velho e  em forma? Uma questão é certeira: Brosnan continua elegante e impiedoso ao sacar uma arma de fogo. Mesmo que sua continuidade como 007 não deu certo e ele não tem perfil para fazer a virada que fez Matthew McConaughey, a das comedinhas para filmes de alto prestígio, ele é um sobrevivente de Hollywood. Brosnan é um exemplo de que é preciso trabalhar mesmo quando o mercado de trabalho, em geral, não valoriza as pessoas mais velhas.  Uma das opções de sobrevivência para um ator experiente é produzir os próprios filmes e atuar neles.






Pierce Brosnan: o charme viril do homem maduro não lhe falta!



Nesse suspense de ação, a parceria com o diretor Ronald Donaldson é fundamental porque, mesmo com os trabalhos medianos de ambos, suas experiências com ação criam sinergia na produção. Baseado no livro There are no spies de Bill Granter, o longa tem conspiração e adiciona ao roteiro o conflito político e bélico com a Chechênia sem muito desenvolvimento dessa camada histórica. Devereaux é uma personagem que volta à ativa mais por motivações pessoais do que por ofício e ideais de carreira. Para intensificar  o conflito na camada motivacional da personagem, ele reencontra seu ex-pupilo da Cia, o jovem e impetuoso Mason, uma arma letal nas mãos da corporação. Mason coloca o sangue novo de Luke Bracey, bem melhor aqui do que em romances fracos como O melhor de mim. Ele não é um talento excepcional mas tem estilo, beleza e preparo físico para a ação, podendo ser se bem dirigido, um emergente ator para esse gênero.





Luke Bracey: potencial para gênero ação. 



November Man é Pierce Brosnan no que ele faz melhor: suspenses de espiões. Assim como Liam Neeson que está com 62 anos, o ator tem um vigor excelente, aptidão para ação e tanto um como o outro merecem ser prestigiados. O resultado é puramente entretenimento mais enfocado nos protagonistas, em porradas, tiros e clima de desconfiança e perigo do que na história. É evidente que o roteiro tinha potencial para esmiuçar as manobras conspiratórias com mais tensão e inteligência.  Por outro lado, a estrutura mais convencional de thrillers na qual as questões particulares de um espião se misturam com suas funções e propósitos corporativos nunca morre.










Ficha técnica do filme ImDB November Man

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mea Culpa - 2014





Em mais um trabalho de Fred Cavayé, ele reúne uma série de escolhas que acompanham alguns de seus filmes: uma motivação pessoal e implacável dos protagonistas  em defender a família e/ ou amigos, nova colaboração com Gilles Lellouche (de À Queima Roupa) e Vincent Lindon  (Pour Elle) e sua experiência e gosto pessoal para suspense e ação. Em Mea Culpa, os dois atores são amigos policiais de longa data. Simon (Lindon) convive com a culpa após uma tragédia e não tem uma boa relação com a ex mulher Alice (Nadine Labaki) e com o filho Théo (Max Malglaive). Franck (Lellouche) é leal companheiro, tem uma filha pequena e guarda um segredo. Ambos estão unidos para combater um  grupo de traficantes de drogas e mulheres  e defender a família de Simon.

Mea Culpa é um filme interessante sobre culpa, lealdade e amizade que se perde em seu próprio potencial e se torna irregular em diferentes momentos. O roteiro acerta ao incluir uma camada dramática que preserva a relação entre os amigos apesar da tragédia e riscos de vida que surgem na história, mistura ao drama personagens policiais e um componente de perseguição e defesa da segurança da família e une um ótimo e querido elenco no Cinema Francês.  Só que suas boas intenções não são preservadas em todo o roteiro que tem altos e baixos que nem mesmo o elenco tem espaço para equilibrar. O filme começa muito bem, tanto na direção como na história, com uma atmosfera de suspense e mistério que cerca a culpa de Simon e como essa tragédia o separou da família. Esse clima é obscuro, dramático e tem uma pegada violenta. A primeira sensação nos planos iniciais é: Esse será um grande e contundente filme, talvez até um novo cult Francês





Vincent Lindon: um grande ator Francês , desperdiçado no filme.


Mais adiante, para o roteiro cumprir a finalidade de "acordar" a personagem de Simon, que estava desmotivado consigo mesmo e carregado de culpa, a narrativa desenvolve  uma motivação pessoal e familiar no protagonista e ele entra em ação com Franck. Todo o dinamismo  da ação policial não tem inteligência tática nem para o suspense e nem na construção dos vilões, além do mais nem o núcleo familiar e a relação de amizade entre os protagonistas são desenvolvidos em profundidade, portanto, o roteiro é raso.  Esse gap significa especialmente que a Culpa, que é um sentimento complexo por excelência, poderia gerar um material  emocional nevrálgico sem afastar o filme de seu carater criminal. Também, a construção das cenas de ação é preguiçosa, ou seja, não são complexas em caracterização e locação assim como em preparação e intensidade físicas o suficiente para se destacar entre as melhores perseguições no Cinema.  Consequentemente, o talento do elenco é desperdiçado e resta ao público ver o estilo durão e maduro de Vincent Lindon e o carisma de Gilles Lellouche, sempre bem-vindos.


A vantagem de Mea Culpa é seus extremos. É um filme que começa e encerra com a Culpa, um tema que lhe faltou no durante.  Culpa dos roteiristas.






Louco Amor (Auftauchen) - 2006



O Cinema Europeu é um laboratório de dramas bem realistas que fazem parte da jornada do ser humano, também em busca da paixão, do amor e do prazer . Em parte desses filmes, o sexo é mostrado com intensidade como uma entrega visceral dos amantes à uma relação de descoberta do outro e de novas experiências  sexuais,  mergulhados nesta libido enlouquecedora que lhes tira a racionalidade a cada gozo e lhes afasta do cotidiano medíocre. Um desses fimes é Auftauchen, drama alemão de Felicitas Korn,  uma tentativa muito imatura da estreante diretora em narrar sobre o louco amor entre uma mulher mais velha e um rapaz de 20 anos.


Nadja (Henriette Heinze) é uma estudante de fotografia. Independente e mais solitária, ela trabalha em uma revista como freelancer. Curte as noitadas em baladas tecno e está aberta a aventuras casuais. Conhece o jovem Darius (Golo Euler), aparentemente um homem mais tímido, com atitudes  românticas. Não resistem ao tesão e começam o relacionamento com uma entrega total de quem transa loucamente e está aberto a se apaixonar. Clichê? Bastante. O problema é que o assunto poderia render um bom  filme sobre relacionamentos fugazes e preocupa-se somente em usar o sexo como chamariz, além de mostrar planos recorrentes que nada agregam valor ao filme, como por exemplo, Nadja suada na balada dança como se estivesse sob efeito de ecstasy . No mínimo, é uma escolha desprovida de melhor criatividade sobre como funciona uma mulher de verdade.


Usar o poder erótico voyeurista do audiovisual para mostrar o despertar do relacionamento entre Nadja e Darius é um dos pilares  do drama. O público observa como se dá a química entre eles e como se aproximam de muitas histórias que, provavelmente, alguém já vivenciou ou conhece uma pessoa que se entregou a uma paixão assim. Ela, uma mulher ainda jovem que se diverte na discoteca e está muito aberta ao prazer. Ele, um rapaz bem mais jovem e em maturidade, que tem o vigor físico e a atração por uma mulher mais velha. Alicerçado por um roteiro que prioriza mais as cenas de sexo do que diálogos, Auftauchen é um filme de alcova: sexo do início ao fim em várias situações, posições e tipos diferentes. É interessante notar que essa construção pode ser perigosa quando a diretora é inexperiente e narra a relação de forma a priorizar o sexo como uma "muleta narrativa". Torna-se um filme adolescente e, de fato, ela não soube reunir as peças dessa relação com um propósito bem definido na composição. É claro que o sexo em excesso pode indicar que essa relação está fadada ao fracasso mas como fazer isso de uma forma mais inteligente e menos masturbatória?


Para dar um crédito ao filme, o público tem que enxergá-lo além do que ele se dispõe a apresentar na tela  e fazer as próprias conexões com a vida real.  O sexo está ali com sua função libidinosa e intensificadora que  leva os amantes ao sentimento de que estão apaixonados, cria fantasias amorosas na mente de Darius (as quais ele ainda não é homem suficiente para assumir)  e afasta Nadja de suas responsabilidades. Ela vive em outro planeta desde que Darius entrou em sua vida e tal comportamento lhe trará consequências. É exatamente esta dimensão mais dramática das relações que não torna o filme 100% vazio e só focado em cenas sexuais. Pensar nessa pequena carga dramática é o que importa, independente da falta de tato da diretora. A proposta é boa, faltou desenvolvê-la melhor, agora cabe à audiência. É evidente que o roteiro poderia ter explorado melhor a dimensão  das perdas e danos desse relacionamento, por exemplo, mas também não explorá-la  demonstra que depois do prazer carnal, a decepção com o outro é uma possibilidade se não há mais nada sentimental em jogo.  Sob a perspectiva dos relacionamentos, o filme encarna esse louco  amor que, fugazmente, tudo cede ao corpo e à vida do outro mas que não se desenvolve com a velha e boa base de uma relação completa. Nessas horas, nem o sexo salva a relação assim como também não salvou esse longa.






Ficha técnica do filme ImDB Auftauchen 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Rapidinhas no MaDame: Dose Dupla (2 Guns) - 2013

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia






Sobre a história: Bobby (Denzel Washington) é um agente de combate a narcóticos (DEA). Stig (Mark Wahlberg) é um oficial da Inteligência da Marinha. Ambos estão infiltrados para derrubar o chefão de um cartel de drogas mas não se conhecem. Após o roubo a um banco e uma ação mal sucedida, descobrem que estão em uma trama de corrupção e traição. Começam a trabalhar juntos.


Opinião Geral sobre o filme:  Dose Dupla é um híbrido de ação e comédia e é bem apoiado por dois atores que fazem a diferença: Denzel Washington e Mark Wahlberg. O filme somente é um bom entretenimento por causa da química entre os astros e, principalmente, pelos diálogos cômicos que se desenvolvem quando ambos se conhecem, se rechaçam e voltam a trabalhar juntos. É como parceiros contra o crime que aprendem a apreciar um ao outro e estão no mesmo barco após uma conspiração que envolve membros de suas instituições e traficantes. Denzel atua com a costumeira maturidade e tem uma faceta mais sedutora, obscura, contracenando com seu affair Deb (Paula Patton). Mark é o mais "porra louca" e é mais absorvido pelo seu lado cômico já explorado em filmes como Ted e Os outros caras. Se por um lado, o bom time Denzel e Mark é atrativo e há boas e explosivas cenas orquestradas por Baltasar Kormákur (acostumado a filmes sobre crimes), por outro lado o roteiro deixa passar a oportunidade de incrementar as reviravoltas e, em especial, o melhor desenvolvimento dos vilões. 


O desprazer:  Roteiro no que se refere à falta de melhor desenvolvimento dos conflitos na conspiração.


Por que vale a rapidinha?  A explosiva dose dupla Denzel e Mark.









Ficha técnica do filme ImDB Dose Dupla 

Sem Escalas (Non Stop) - 2014






Bill Marks (Liam Neeson) é um agente federal aéreo mais solitário e introspectivo. Para lidar com a morte da filha, costuma beber. Sua vida é dedicar-se à profissão. Em um dos vôos em que está, ele recebe uma mensagem de texto para que transfira uma milionária quantia ao sequestrador, caso contrário, a cada 20 minutos um passageiro morrerá. Sem Escalas poderia ser mais um filme mediano sobre sequestro de avião mas não é, ele tem Liam Neeson em ação, determinado a descobrir quem está por trás dessa jogada terrorista.


Esse é o segundo filme que o diretor Jaume Collet-Serra (de A Orfã) escala Liam Neeson. O primeiro foi o Desconhecido no qual o ator é envolvido em uma trama de mistério após acordar do coma e ter sua identidade roubada. O cineasta tem experiência com suspense e conduz bem seus trabalhos ao incluir uma atmosfera misteriosa em torno das personagens que despertam a desconfiança do público, ou seja, elas podem ser os vilões ou não e essa estratégia bem usada é muito eficaz para prolongar a tensão em seus thrillers. Aqui, lidar com esse efeito dúbio atiça a curiosidade pois a audiência pode confiar ou não em Bill Marks, assim como em Jen Summers (Juliane Moore), uma passageira. O roteiro tem a intenção de confundir o público. Qualquer outro passageiro pode ser o cabeça da ação terrorista ou até mesmo uma tripulante como Lupita Nyong'o   no papel de comissária de bordo. O cineasta consegue condensar bem esse clima de insegurança. 





A influência da tecnologia mobile no plano audiovisual



Uma escolha pertinente do roteirista para fortalecer esse clima de desconfiança é evidenciar que o terrorismo pode vir de qualquer pessoa e o controle de um sequestro também pode ser coordenado de qualquer lugar. Basta lembrar que, atualmente, muitos chefes do crime organizado controlam o narcotráfico e sequestros estando em suas celas nos presídios. Fazendo um paralelo com Sem Escalas, o roteiro continua atual exatamente por esse motivo. O terror psicológico pode vir não necessariamente de quem está no voo. Essa é a dúvida que acompanha a audiência até o final. O fato do sequestrador se comunicar por celular é um ponto favorável da história por dois motivos principais:  a influência da tecnologia atual nas comunicações e como ela deixa as pessoas mais vulneráveis pois o perigo, o medo e a paranoia convivem juntos ; a outra é o elemento contemporâneo  da comunicação mobile incluída na construção do plano audiovisual. Assim como tem ocorrido em outros filmes, o público vê a mensagem de texto projetada na tela e vê mais claramente a interação digital.





Juliane Moore: um toque de mistério


Com a épica presença de Liam Neeson em filmes que equilibram o suspense e a ação como Busca Implacável e Desconhecido, Sem Escalas resulta em excelente parceria e entretenimento. Neesom é fantástico nesse tipo de filme com sua imagem de credibilidade que mistura o carisma, maturidade e o estilo durão e, por seu talento e experiência, vale a pena prestigiar seu trabalho. Mesmo que o roteiro perde em intensidade à medida que chega ao desfecho, o filme entrega um bom resultado, principalmente porque existe um desafio maior: é uma história mais "claustrofóbica" que ocorre em grande parte em um avião sequestrado, com pouca ação de outros coadjuvantes e raríssimo uso de locações externas. A experiência do diretor no gênero e a participação de Juliane Moore vem a agregar a bem executada colaboração.







Ficha técnica do filme ImDB Sem Escalas

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Rapidinhas no MaDame: Pompéia (Pompeii) - 2014

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia







Sobre a história: Milo (Kit Harington) é um gladiador, escravo e preso em Pompéia, cidade lendária próxima à erupção do Monte Vesúvio. Apaixona-se por Cassia (Emily Bronning) pela qual o Imperador Romano Corvus (Kiefer Shuterland) é obcecado. Com a cidade em chamas, Milo tem que salvar a amada  e enfrentar seu inimigo Corvus.


Opinião Geral sobre o filme:  Pompéia é uma clara evidência de filme épico que tinha tudo para dar certo mas jogou a oportunidade fora e não respeitou o tempo dedicado de entretenimento do público. Para quem tinha uma história mítica e potencialmente envolvente através do caso de amor entre uma nobre e um escravo, o roteiro muito raso não aproveita nem 10% da lenda de Pompéia, da força do amor e do confronto entre Milo e Corvus. É um roteiro extremamente preguiçoso e direção idem, o que lhe dá o título de um dos piores filmes do ano no quesito preguiça de contar uma história e falta de tato comercial e artístico para lançar um bom blockbuster épico. Nem mesmo a beleza e o sucesso de Kit Harington (O Jon Snow de Guerra dos Tronos) e a delicadeza de Emily Bronning conferem à história o componente de química sexual e amorosa entre os protagonistas. Não há nenhum amor e tesão realmente verossímeis e há momentos que são tão decepcionantes que, nem sequer, existe um beijo verdadeiro entre eles. Em uma época lendária em que heróis viris e corajosos e belas mulheres entregues ao amor e ao prazer podem render uma história sedutora e apaixonante, aqui isso não ocorre e o roteirista não soube tomar as referências atraentes do gênero. Kiefer Shuterland se esforça um pouco mais para expressar a arrogância do imperador mas é insuficiente para salvar o longa. Somente o  último ato vale a pena pelo clímax e  efeitos especiais e,  adeus Pompéia. 


O desprazer:  Atores mal aproveitados, atuações pobres e um roteiro sem desenvolvimento de personagens e de conflitos. 


Por que vale a rapidinha?  Se gosta de épicos para passar o tempo, assista-o para ver a atmosfera épica e os efeitos especiais da erupção.







Ficha técnica do filme ImDB Pompéia

O Ciúme (La Jalousie / Jealousy) - 2013











Philippe Garrel é um diretor que fala sobre as relações, um tema complicado e frágil mas poderoso terreno fértil para o Cinema. Em seu mais novo longa, O Ciúme (La Jalousie), estrelado por seu filho Louis Garrel e Anna Mouglalis, filmado todo em preto e branco e com a bela fotografia de Willy Kurant, somos convidados a observar a diferença do amor entre homem e mulher, o ciúme e os inícios e fins de relacionamento. Tudo em menos de 80 minutos de projeção e com uma estética baseada em recortes do cotidiano, com a influência do experimentalismo Godardiano, da tradição dramática e amorosa do Cinema de Truffaut e da abordagem autobiográfica do diretor. 


Louis (Louis Garrel) é um ator de teatro, sem grana e que vive em um apartamento minúsculo com Claudia (Anna Mouglalis). Ela foi uma atriz em evidência e está com dificuldades para arranjar um emprego. Ele é divorciado de Clothilde (Rebecca Convenant) e tem uma filha, Charlotte (Olga Milshtein). Outras pessoas aparecem na história como um ex-affair do pai de Louis, um conselheiro senhor idoso, os flertes extraconjugais como elementos que refletem a releitura autobiográfica do cineasta e uma retomada de fundo psicológico de aspectos de sua vida. 



De imediato, podemos observar que esse é um retrato do que acontece nas relações.  Um casamento é desfeito. Outro relacionamento começa. Os filhos de pais separados lidam com os atuais parceiros dos pais. Algumas traições no caminho (ou o desejo de conhecer outras pessoas). Os amantes terminam o relacionamento, alguns de forma mais prática, outros não aceitam o fim do romance e sofrem passionalmente. Assim é o longa de Garrel, a diferença é que ele deixa fluir os encontros e desencontros como um drama mais naturalista, um roteiro mais teatral baseado nos gestos do que nas palavras e em silêncios  e diálogos que nos deixam na memória realizar o paralelo entre o filme e a vida prática.




Fotografia de Wally Kurant  : fundamental para O Ciúme


No início, é necessário se acostumar ao estilo do diretor e a escolha por fragmentos do dia a dia.  A narrativa não tem grandes ações. Boa parte das cenas não aproveitam  os conflitos somente os lança para o público. Não há linearidade. As situações são colocadas e algumas chegam a ser muito entendiantes porém, pouco a pouco, o longa consegue inserir alguns planos que evidenciam cenas de ciúme, a falta de dinheiro do casal, o mal estar de desejar outra coisa diferente do parceiro etc e o público é incentivado a observar as relações. São questões muito comuns no relacionamento moderno e as poucas dramáticas chacoalham a narrativa e arrastam o interesse. 



A atuação de Anna Mouglalis, em especial, em um momento chave demonstra que os amantes simplesmente tomam decisões e não precisam verbalizar todos os motivos. Ela é responsável por segurar mais a dramatização, inclusive é a única personagem mais atrativa e, felizmente, tem algumas atitudes que fazem a história evoluir. Por outro lado, Louis Garrel tem uma atuação medíocre que transita entre o conformismo da sua personagem e a sua falta de vigor na narrativa. Por ser dirigido pelo próprio pai e ter contracenado com sua irmã Esther Garrel, ele está mais ligado no piloto automático e tudo acaba em família. Normalmente ele performa melhor em filmes de outros diretores. Além do mais, sua personagem é o mais fragilizado por esse amor que também o angustia, o que reforça a imagem mais depressiva do seu papel.


No geral, o clima do filme é realista  e lembra os filmes em Preto e Branco da Nouvelle Vague, porém não "tipo câmera na mãe" e  tão experimental. Ele é muito mais estilizado pela impecável cinematografia que faz a diferença e o salva de maiores fracassos. Também, é relevante comentar que esse não é um filme que agrada qualquer pessoa. Alguns apreciadores do trabalho de Philip Garrel tem mais chances de morrer de amores. Por outro lado, embora não seja um filme excepcional na seara das relações afetivas, a experiência cinematográfica é válida. É como espiar e analisar os personagens em conversas rotineiras, ações inesperadas e sentimentos diversos e perceber que essa releitura é uma contemporânea manifestação da fragilidade dos relacionamentos.








Ficha técnica do filme ImDB O Ciúme

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Rapidinhas no MaDame: Linha de Frente (Homefront) - 2013

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia






Sobre a história: Phil Broker (Jason Statham) é ex-agente federal de combate às drogas que se muda para uma cidade do interior após uma operação de risco. Viúvo e pai de Maddy (Isabela Vidovic), ele terá que proteger sua família após ter problemas com o traficante local "Gator" Bodine (James Franco). 


Opinião Geral sobre o filme: É uma opção agradável para um Cinema Pipoca e mistura drama e ação em uma história de um ex-agende federal que recomeça a sua vida no anonimato e as coisas não saem como esperado. Ele oculta o seu passado na DEA para proteger sua privacidade e, consequentemente, sua família. Como todo agente que pode ser perseguido e estar na mira dos traficantes, Phil Broker mantém a discrição mas é importunado, principalmente em uma cidadezinha tradicional comandada por sujeitos  como "Gator". Aí começam os melhores lances de ação e os conflitos ficam mais evidentes em como a bandigagem articula a opressão, o controle e as armadilhas. Como esperado, o melhor do longa é  Jason Statham com seu estilo durão e paterno de defender os outros. Até usando um jeans, ele tem uma habilidade física muito refinada para lutar e é prático nos embates; porém o que o torna  mais interessante ainda é a necessidade de defender a filha e isso é sedutor, viril e muito mais heroico.  Considerando seus trabalhos famosos como Carga Explosiva e Mercenários, o ator carrega o estigma de que só serve para a ação, porém não deve ser subestimado. Em Linha de Frente, ele encontra espaço para atuar um pouco mais na camada dramática de personagens que tem boa índole mas são durões, fechados em si e que levam uma vibe mais obscura, principalmente pelo passado de traumas em operações militares e perdas.


O desprazer: O que James Franco está fazendo nesse filme? Atuação medíocre para um vilão e uma evidência de que ele necessita prestar atenção nos papeis que efetivamente quer realizar. 


Por que vale a rapidinha?  Jason Statham em ação, sempre. Seu Phil Broker também está na mira de uma vingança e, portanto, estar na linha de frente é questão de sobrevivência. 









Ficha técnica do filme ImDB Linha de Frente

Rapidinhas no MaDame: O homem mais procurado (The Most Wanted Man) - 2014

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia






Sobre a história: Com antecedentes como prisioneiro na Rússia e Turquia, Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin) é um imigrante checheno de religião muçulmana que busca reconstruir sua vida na Alemanha e a herança milionária de seu pai.  Annabel Richter (Rachel McAdams) assume o caso e o leva ao banqueiro Tommy Brue (Willem Dafoe).  O líder de uma local agência de espionagem e de ação anti-Terrorismo, Herr Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman), investiga o caso e tem que lidar politicamente com Martha, agente da Cia (Robin Wright).


Opinião Geral sobre o filme:  Adaptação da obra de John Le Carré ( de O espião que sabia demais e O Jardineiro Fiel) e com direção de Anton Corbijn, o Homem mais procurado é um atrativo thriller de espionagem feito sob medida para essa parceria, principalmente com seu ponto alto, o saudoso Philip Seymour Hoffman que domina a tela com seu talento e tem uma atuação muito confortável nos elementos mais estratégico e angustiante da sua personagem. Le Carré tem a interessante característica de contar histórias com uma teia de conspiração e mistério envolvendo ambientes com forças que atuam em um sistema internacional como a CIA, terroristas, agências de segurança, líderes de organizações mundiais etc. Apresenta um aspecto positivo ao adicionar camadas mais emocionais como o amor, a solidariedade, a angústia e a frustração. Nesse longa, o apelo spy é mais sofisticado, bem acertado para a direção de Corbijn e seduz pela investigação gradual até atingir o clímax. A narrativa se desenvolve de uma forma lenta porém bem calculada para criar uma tensão real. Também possibilita observar como a ética e as relações de influência funcionam. É um filme diferenciado na seara dos filmes Anti-Terror. Sai das locações USA ou Oriente Médio e ocorre em Hamburgo. Não haverá ação eletrizante, agentes em perseguição, homens bomba. Tudo é mais sutil para perceber como as agências e grupos articulam negociações e sua política e que a guerra antiterrorismo é bem mais profunda e organizacional.


O desprazer: Filmes adaptados de John Le Carré tem uma narrativa mais lenta para o suspense, dirigida como um jogo de peças e duram por volta de 2 horas. Para assisti-lo, tem que entrar nesse clima. Infelizmente, Daniel Brühl é subutilizado em seu talento e faz um papel menor.


Por que vale a rapidinha?  A marcante presença de Philip Seymour Hoffman que é o carro-chefe  do começo ao fim. Vale observar a bela Rachel McAdams que dá mais leveza e frescor ao longa e integra o elemento afetuoso, mais humanizado.








Ficha técnica do filme ImDB O homem mais procurado

domingo, 23 de novembro de 2014

MaDame Gângster: Os intocáveis (The Untouchables) - 1987


MaDame Gângster:
A Máfia no Cinema



Este MaDame Gângster menciona alguns spoilers e mostra imagens de planos, indicando algumas características recorrentes da linguagem cinematográfica usada por Brian de Palma.




Tema recorrente em filmes e séries que abordam a Máfia, a Lei Seca nos USA proibiu o negócio de bebidas alcoólicas do início dos anos 20 até 1933 e abriu espaço para a sua produção, transporte e comercialização clandestina e a um período de crimes envolvendo gângster . Nesse contexto, surgiu a figura de Al Capone, um líder mafioso temido e uma das figuras mais míticas nas obras audiovisuais do tema.  Os intocáveis é um dos clássicos mais exitosos de Brian de Palmaum diretor que se deu bem melhor em longas inseridos nesse contexto como os também sensacionais Scarface (1983) e O Pagamento Final (Carlito's Way, 1993). 


Estrelado por um elenco de primeira, o longa coloca 4 homens do bem na linha de frente para encarar o império corrupto de Al Capone (Robert de Niro) e levá-lo à cadeia: Agente federal Eliot Ness (Kevin Costner) que lidera a equipe. Jim Malone (Sean Connery), um veterano e estratégico policial que não foi corrompido pelo sistema. Agente George Stone (Andy Garcia), jovem policial, tecnicamente eficaz e com impetuosa ação do início da carreira e agente Oscar Wallace (Charles Martin Smith), oficial responsável pela Contabilidade e que se une ao grupo para apoiar a investigação e sair a campo. Eles formam Os Intocáveis que significa que são os que não se vendem por propinas em uma Chicago dominada por um sistema corrupto em várias esferas: do político ao policial, a decadência de caráter  e o domínio de Al Capone são o modus operandi. Não se pode confiar em quase ninguém.




Plano com plongèe : uma escolha de linguagem 
para apresentar o submundo dominado por Al Capone.



Brian de Palma usa o que tem de melhor em sua direção: seu caso de amor com a câmera que conduz o público ao clima de tensão absoluta.  Ele é um diretor que nasceu para suspenses e mantém a sua devoção às influências de Hitchcock. Adiciona o DNA do thriller através da construção de sequências de planos primorosamente bem estilizados para segurar ao máximo o suspense. Acima de tudo, o cineasta é fiel e assertivo ao seu estilo. Essa combinação de ação e suspense em Os intocáveis é realizada com bom planejamento dos planos e da edição que levam a audiência a não tirar os olhos da tela. O expectador é incentivado a observar os recursos que ele usa (e sua intenção na narrativa) como manobrar ângulos verticais de belo impacto visual como o plogèe (filmado por cima) logo no plano inicial com o poderoso Al Capone. Mais adiante nas melhores cenas de ação, cortes rápidos que revelam diferentes aspectos da cena e/ou perspectivas. Esses recursos ressaltam que Brian de Palma é um diretor muito visual e vale mais a pena observar as imagens não verbais do que os diálogos em seus grandes clássicos. 



Plano com recurso voyeurista: tipicamente um toque a la De Palma





Plano com o carrinho de bebê: Misto de suspense e horror.
 Momento de tensão em sequência de ação!


Muito mais do que um thriller, Os intocáveis é um filme de ação.  Brian de Palma tem uma qualidade positiva para alguns de seus filmes: o dom de construir boas e violentas sequências de ação. Assim como realizou boas e decisivas cenas em O Pagamento Final,  neste aqui ele realiza extensa sequência do enfrentamento entre o herói e os mafiosos em uma estação de trem.  Há o mesmo clima de tensão apoiado também por trilha sonora. É deslumbrante o cuidado técnico ao dirigir Kevin Costner e Andy Garcia em grande estilo até para segurar o carrinho de um bebê. De Palma leva em si um senso de justiça, não perdoa a máfia e arquiteta uma imperdível ação para matar os bandidos e tirar o fôlego da audiência.  Essa característica do diretor tem muito a ver com seu estilo voyeurista. As sequências longas prolongam o efeito do suspense e convida o público a observar o ambiente e o encadeamento de situações que culminam em um golpe final. O expectador se sentirá parte integrante da cena, principalmente ao mirar os primeiros planos dos rostos como o de Kevin Costner em uma briga no  alto de um prédio ou observar com um binóculo a movimentação de uma negociação entre mafiosos.  Os olhos são muito enquadrados pela câmera em variadas cenas. Com esse voyeurismo, é natural de Palma projetar as cenas com uma forte intenção de fazer o expectador  analisar melhor o que está acontecendo. Ao ser voyeur à la De Palma, há um prazer cinematográfico até mesmo ao ver a mais cruel cena. 







Influência de gênero Western além das fronteiras de Chicago



De maneira brilhante, a dimensão espacial não se limita à cidade de Chicago. Brian de Palma busca referências no western em uma sequência na qual surgem os 4 intocáveis no campo montados em seus cavalos e, em parceria com policiais locais, estão preparados para armar uma emboscada e atacar uma negociação dos mafiosos. Um trabalho exemplar de direção de Brian de Palma que teve a participação de Morricone, especialista em trilhas para faroestes e ganhador do Grammy por este score. Outra referência metalinguística a outros gêneros foi adicionar a violência com uma dramatização aterrorizante e sangue para todo o lado (como ele já fez em seus filmes de terror como Carrie, a Estranha). Essa evidência influenciada pelo horror é vista com Sean Connery que rasteja pela casa. Connery ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante por esse papel . Sua participação é emblemática pela integridade, pelo conhecimento daquele ambiente corrupto, pela mentoria e pelo senso de justiça. Sua aproximação ao personagem Kevin Costner é pautada muito mais do que uma parceria mas em uma figura paterna e inspiracional. 





Plano em tomada interna, profundidade de campo e sangue: 
Referência no Terror



No que se refere ao desenvolvimento dos personagens, a escolha dos atores foi muito crível e, em especial, a caracterização e o figurino. Além da presença magnífica de Sean Connery, Kevin Costner tem uma atuação consistente e cresce no papel à medida que fica mais seguro e esperto. Seu ar de bom moço, homem de família e humildade para pedir ajuda é simbólico e contrasta com a inescrupulosa figura de Al Capone que não mostra vulnerabilidades e a quem todos temem. Charles Smith é um ótimo coadjuvante e tem estilo excêntrico, cômico. Ele saí  da função burocrática de um contador e concilia o entendimento de questões da Receita Federal com a ação em campo, uma escolha improvável por ele não ter uma aparência temerosa. Andy Garcia complementa os intocáveis como o latino que representa o imigrante com seus ideais para ter um ofício institucionalizado nos EUA e fazer a diferença como policial. Essa diversidade dos personagens  enriquece o desenvolvimento da narrativa e a sinergia entre eles.  Para completar esse elenco excepcional, Robert de Niro é transformado em Al Capone com um bom uso de maquiagem e vestuário.O interessante de sua participação  é a sua fantástica capacidade de aparecer em poucos momentos e, ainda assim, ser inesquecível ao transitar entre o grotesco vilão e o senso de humor negro. Imediatamente é possível ir com a cara de Al Capone por mais bandido que ele seja.




Plano contra-plongèe( filmado a partir de baixo), posteriormente com zoom, 
chegando a níveis de primeiro plano e plano detalhe dos olhos:
Momento emblemático de Kevin Costner com intenção de expressiva superioridade


Convém salientar que o filme tem um excelente roteiro escrito por David Mamet, fato que chamou a atenção de Brian de Palma e o fez se interessar pelo projeto. Mamet é um roteirista conciso e objetivo e entende que o Cinema é mais imagem e como os planos são justapostos com uma fluída edição, desta forma, o olhar e a orquestração do diretor são fundamentais e facilitados quando bem amparados por um excelente roteiro. Prova disso é o seu livro Sobre direção de Cinema, uma série de fragmentos de palestras e indicam como Mamet está sensível à importância de uma boa construção dos planos. A parceria entre ele e De Palma caiu como uma luva porque Mamet pôde se colocar no lugar do diretor ao  escrever um roteiro  não problemático e que contribui para a decupagem. Para fechar esse clássico com chave de ouro, Os Intocáveis é um filme obrigatório para análise de direção. Saindo  do estigma de copiar Hitchcock, argumento de tantos que criticam De Palma como um imitador de diretores, aqui ele deixa sua marca como um excelente linguista cinematográfico e prova que tem talento próprio.










Ficha técnica do filme ImDB Os intocáveis